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A Educação Física escolar e as questões de gênero: um relato de experiência

The Physical Education school and gender issues: a report of experience

La Educación Física escolar y las cuestiones de género: un relato de experiencia

 

Lucas Baptista Mousinho Lins

lucaslins31@hotmail.com

 

Graduado em Educação Física pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Pós-graduando (Lato Sensu) em Educação Física escolar

na Universidade Federal Fluminense (UFF)

(Brasil)

 

Recepção: 25/01/2018 - Aceitação: 14/08/2018

1ª Revisão: 13/04/2018 - 2ª Revisão: 10/08/2018

 

Resumo

    O presente relato tem por objetivo apresentar experiências vividas durante a graduação em licenciatura em Educação Física pela Universidade Federal Fluminense, a qual está localizada no estado do Rio de Janeiro, e debater situações que acabam por tornar as aulas de Educação Física divididas por gênero, mostrando que os aspectos sociais são de relevância para abordar esse tema. Nesse sentido, fica entendida a importância do debate sobre esse assunto, uma vez que este está cada vez mais presente na área da atividade física, principalmente nos conteúdos sobre esportes, em especial, futebol. Além disso, essa situação reflete a sociedade em que vivemos, levando conceitos e valores para dentro dos muros das escolas. Esse artigo foi criado através de observações de aulas de Educação Física baseados em referências teóricos, apresentando diversas maneiras de propor esse tema. Evidencia-se na conclusão que trabalhar o tema gênero na escola é uma tarefa difícil, mas, se reforçada de forma dedicada e consistente, apresenta bons resultados, tanto nas ações quanto nos pensamentos dos alunos.

    Unitermos: Gênero. Educação Física escolar. Futebol. Sociedade.

 

Abstract

    The objective of the following report is presenting experiences during the graduation degree in Physical Education by the Federal University Fluminense, which is located in the state of Rio de Janeiro, and discuss situations that end up making Physical Education classes divided by gender, showing that social aspects are relevant this theme. From this sense, it's understood the importance of discussing this subject, once it is gradually increasing its presence in the area of ​​physical activity, mainly in the content about sports, especially, soccer. Besides, this situation reflects the society, which we live, bringing conceptions and values to schools. This article was created through observing Physical Education classes and it is based in theoretical references, presenting different ways of proposing this subject. The conclusion is that working the gender issue at school is a difficult task, but if reinforced in a dedicated and consistent way, it shows good results, both in the actions and in the thoughts of the students.

    Keywords: Gender. Physical Education. Soccer. Society.

 

Resumen

    El presente relato tiene por objetivo presentar experiencias vividas durante la graduación en licenciatura en Educación Física por la Universidad Federal Fluminense, la cual está ubicada en el estado de Río de Janeiro, y discutir situaciones que terminan con las clases de Educación Física divididas por género, mostrando que los aspectos sociales son de relevancia para abordar este tema. En este sentido, se entiende la importancia del debate sobre este tema, ya que éste está cada vez más presente en el área de la actividad física, principalmente en los contenidos sobre deportes, en especial, fútbol. Además, esa situación refleja la sociedad en que vivimos, llevando conceptos y valores hacia el interior de las escuelas. Este artículo fue creado a través de observaciones de clases de Educación Física basadas en referencias teóricas, presentando diversas maneras de proponer ese tema. Se evidencia en la conclusión que trabajar el tema género en la escuela es una tarea difícil, pero, si se refuerza de forma dedicada y consistente, presenta buenos resultados, tanto en las acciones como en los pensamientos de los estudiantes.

    Palabras clave: Género. Educación Física escolar. Fútbol. Sociedad.

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 243, Ago. (2018)


 

Introdução

 

    A palavra "experiência", que vem do latim experiri, que significa provar, experimentar. A experiência é a relação com algo que se experimenta, que se prova. Através da definição dada, nesse relato, venho apresentar experiências vividas nos anos da minha graduação em licenciatura em Educação Física na Universidade Federal Fluminense - UFF, localizada em Niterói/RJ, mostrando situações presentes no cotidiano escolar e o porquê do tema gênero chamar tanto à atenção, bem como minha relação com essa temática.

 

    Dessa forma, a definição dada por Heidegger (1987) explicita de forma clara qual é a pretensão em escrever um relato de experiência relacionado às questões de gênero, onde ele diz que

[...] fazer uma experiência com algo significa que algo nos acontece, nos alcança; que se apodera de nós, que nos tomba e nos transforma. Quando falamos em fazeruma experiência, isso não significa precisamente que nós a façamos acontecer, fazersignifica aqui: sofrer, padecer, tomar o que nos alcança receptivamente, aceitar, à medida que nos submetemos a algo. Fazer uma experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. Podemos ser assim transformados por tais experiências, de um dia para o outro ou no transcurso do tempo. (Heidegger, 1987, p. 143)

    Durante quase toda a graduação, atuei no Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência PIBID, que tem por objetivo promover a iniciação do licenciando no ambiente escolar ainda na primeira metade do curso, visando estimular, desde o início da jornada do docente, a observação e a reflexão sobre a prática profissional no cotidiano das escolas públicas de educação básica. Os selecionados são acompanhados por um professor da escola e por um docente de uma das instituições de educação superior participantes do programa. Além disso, atuei em escolas vinculadas a UFF relacionadas às disciplinas obrigatórias de estágio, chamadas de Pesquisa e Prática de Ensino - PPE, que foram quatro, onde todos os segmentos da educação básica estavam presentes.

 

    Atuei em instituições estaduais e municipais de educação, localizadas nos bairros de Santa Rosa, Icaraí e Centro, na cidade de Niterói/RJ. O tempo de atuação nesses colégios, ao todo, foi de aproximadamente quatro anos, onde pude perceber todo o cotidiano escolar e dos alunos que lá estavam.

 

    Nesse programa e nas disciplinas obrigatórias de estágio, trabalhei com turmas de educação infantil, primeiro e segundo segmentos do ensino fundamental e ensino médio. À medida que as aulas iam passando, os alunos reproduziam alguns valores que a sociedade transmite, onde era nítida a separação entre meninos e meninas, desde os mais novos até os mais velhos, principalmente relacionada aos esportes nas aulas de Educação Física, especialmente, o futebol.

 

    Assim, a proposta do trabalho tem por objetivo descrever essa experiência vivida, relacionando com esse tema transversal. Além disso, o relato visa colocar em debate aspectos e situações que têm feito das aulas de Educação Física um espaço amplo para reflexões, tanto do cotidiano escolar quanto da sociedade em que vivemos.

 

    Vale ressaltar que a escola, além de ser um espaço educacional e cultural, também é um dos espaços em que há a afirmação das identidades de gênero, sexualidades, de raças, de etnia, de modos de ser, estar e de se comportar perante a sociedade através dos currículos, normas, procedimentos escolares e pedagógicos, linguagens, teorias, nos materiais didáticos e nos processos de avaliação. (Louro, 2001; 2008)

 

A importância da inclusão do tema na escola

 

    Tratar de questões de gênero nos dias atuais acaba sendo uma tarefa árdua, pois é um assunto que vem sendo discutido e debatido em diversos meios de comunicação, e para falar sobre esse tema, tem que estar bem informado e conectado com o que está a sua volta, uma vez que as relações de gênero e sexualidade foram social e culturalmente construídas há muitos anos, fazendo com que muitos ideais da sociedade se tornem, de certa forma, imutáveis.

 

    Segundo Fairclough (2003, p. 65), gêneros são o aspecto especificamente discursivo de formas de agir e interagir no curso dos eventos sociais, isto é, é o modo que as pessoas se comportam perante a sociedade em que vivem. Já o autor van Leeuwen (2005) diz que gênero é uma recontextualização de uma prática social, saindo do contexto original para um outro contexto, com o objetivo de representar as pessoas que vivem nesse contexto, atendendo seus ideais e propósitos.

 

    Santana e Benevento (2013, p.1) dizem que o termo gênero se refere às relações sociais desiguais de poder entre homens e mulheres que são o resultado de uma construção social do papel do homem e da mulher a partir das diferenças sexuais.

 

    As questões de gênero e sexualidade já vêm sendo discutidas e incluídas nos currículos escolares há anos. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN (Brasil, 1997), a temática sexualidade vem sendo incluídas nas aulas desde a década de 70, oriundo de comportamentos dos alunos na década de 60, com o começo de movimentos feministas, por exemplo. Mas há registros que desde a década de 20 do século XX já havia discussões e debates com ênfase nesse assunto. Dessa forma, é nítido que as relações de gênero são um assunto de bastante relevância dentro do âmbito escolar desde sempre, apesar de não ser dada a devida importância.

 

    Ao longo dos anos, conceitos e concepções vêm tendo diversas modificações e cada vez mais se tornam importante debates e estudos para se pensar as relações de gênero e construir meios e modos de incluir reflexões e práticas dentro das aulas de Educação Física a fim de incentivar um olhar crítico dos alunos em relação a esse tema.

    O gênero, ao enfatizar o caráter fundamentalmente social das divisões baseadas no sexo, possibilita perceber as representações e apresentações das diferenças sexuais. Destaca, ainda, que imbricadas às diferenças biológicas existentes entre homens e mulheres estão outras social e culturalmente construídas. (Sousa; Altmann, 1999, p.3)

    Lidar com essas diferenças e colocá-las em debate acabam por se tornar uma tarefa complicada. Portanto, não é fácil introduzir esse assunto dentro do âmbito escolar, uma vez que esse tema é bastante decorrente na sociedade em que vivemos. As aulas de Educação Física são um espaço propício para esse debate, pois é o momento que a dicotomia entre gêneros fica mais evidente.

 

Essa dicotomia pode ser expressa em situações como na fala de Oliviera e Voltre (2006), onde

    O sentir-se rejeitada nas aulas de educação física é facilmente explicável, pois a disciplina, até bem pouco tempo (e ainda hoje), se pautava por um modelo reducionista em que o corpo, a aptidão física e o desempenho eram os objetivos mais importantes. Nesse quadro, não havia espaço para as meninas baixinhas e frágeis, sobretudo quando a essas características somava-se a falta de habilidade; elas não tinham vez, não jogavam e nem praticavam esportes com suas colegas meninas e muito menos com os meninos. A prática esportiva privilegiava aquelas que tinham um bom desempenho e que eram aptas a praticar aquelas modalidades esportivas associadas à velocidade, força, impacto e resistência. (Oliviera; Voltre, 2006, p. 182)

    Algumas alunas relatavam que não queriam jogar futebol, pois consideravam os meninos muito brutos e violentos. Isso reflete a sociedade em que vivemos nos dias atuais, onde o que prevalece é a gana em vencer e ter os melhores ao seu lado, sem ao menos dar oportunidades a todos que estão a sua volta.

 

    Muitas vezes também a exclusão das meninas das práticas esportivas se deve ao fato de que as mesmas são taxadas de sem habilidade. Muitos meninos relatavam que o futebol era apenas para meninos, pois meninas não sabem jogar bola. Além disso, mostra-se que ser excluído das práticas esportivas também tem relação direta com a questão de estereótipo, onde só é escolhido para jogar os alunos considerados aptos para tal. Isso é enfatizado na fala de Sousa e Altmann (1999)

    Não se pode concluir que as meninas são excluídas de jogos apenas por questões de gênero, pois o critério de exclusão não é exatamente o fato de elas serem mulheres, mas por serem consideradas mais fracas e menos habilidosas que seus colegas ou mesmo que outras colegas. Ademais, meninas não são as únicas excluídas, pois os meninos mais novos e os considerados fracos ou maus jogadores frequentam bancos de reserva durante aulas e recreios, e em quadra recebem a bola com menor frequência até mesmo do que algumas meninas. (Sousa; Altmann, 1999, p. 56)

    Percebi que deveria agir perante essa situação, pois tornou-se evidente que as meninas queriam participar efetivamente das atividades, porém algumas situações salientadas neste relato faziam com as mesmas se desestimulassem e não quisessem participar das aulas. Intervi para que todos pudessem praticar as atividades propostas e que as meninas não se sentissem excluídas, como foi falado na citação acima.

 

    A Lei de Diretrizes e Bases - Lei 9394/96 (Brasil, 1996), em seu art. 3º, afirma que o ensino deverá ser ministrado com princípios que devem ser baseados no respeito à liberdade e apreço à tolerância, mostrando que o ensino às diferenças deve ser lecionado na escola a fim de conscientizar e formar o aluno, evitando discriminações e exclusões.

 

    Já as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (Brasil, 2012), no seu art. 16º, relata que o projeto político-pedagógico das escolas que ofertam o Ensino Médio deve considerar, em um dos seus tópicos, valorizar e promover os direitos humanos mediante temas relativos a gênero, identidade de gênero, raça e etnia, religião, orientação sexual, pessoas com deficiência, entre outros, bem como práticas que contribuam para a igualdade e para o enfrentamento de todas as formas de preconceito, discriminação e violência, sob todas as formas.

 

    Os PCN também defendem a inclusão da temática dentro das escolas no projeto político pedagógico, onde os educadores têm a habilitação de interagir com os alunos de uma forma comunicativa para tratar desse assunto que é tão importante para a construção de sua identidade. A proposta dos PCN legitima o papel dos educadores nessa área.

 

    As leis, diretrizes e parâmetros mostram o quanto é fundamental levar discussões e debates sobre gênero para as salas de aula, pois é um assunto que vai para além dos muros da escola, é um assunto de interesse social, onde os alunos levam conceitos para sua formação como cidadão.

 

    Nesse sentido, percebi que a dicotomia entre gêneros era uma questão muito importante que deveria ser trabalhada de forma mais profunda e atenta. Sendo assim, comecei a planejar as aulas, junto com outros bolsistas PIBID e também com professores, aulas que visassem trabalhar com a teoria da co-educação.

 

A fala de Jesus e Devide (2006) relata bem a importância de se trabalhar com essa teoria, onde

    Durante as aulas separadas, o docente tende a não dar a atenção necessária aos dois grupos simultaneamente, prejudicando o andamento e a qualidade da aula. Em escolas que não possuem ambiente físico adequado, alunos e alunas ficam aguardando para alternarem o uso do espaço, enquanto se a EFe fosse organizada de forma Mista ou Co-educativa, ambos poderiam participar ativamente durante todo o período da aula. (Jesus; Devide, 2006, p. 126-127)

    Deve se levar em conta que é importante considerar e contextualizar as atividades à realidade vivida pelos alunos (Coletivo de autores, 1992), propondo debates e fazendo com que os alunos possam refletir, opinar e questionar situações vivenciadas nas aulas, com o intuito de repensar e transformar suas atitudes, e assim, desenvolver seu senso crítico.

 

A relação gênero/futebol no âmbito escolar

 

    Todo o início de trabalho era complicado, pois muitos alunos não estavam preparados para aceitar a idéia de aulas mistas e ratificavam que os meninos deveriam fazer uma atividade e as meninas outro tipo de atividade.

 

    Dentre os conteúdos desenvolvidos, o futebol foi o mais difícil de lecionar, visto que é um esporte titulado masculino pela sociedade e que meninas não deveriam jogar e as que jogavam eram chamadas de menininho. Entretanto, esse conteúdo foi escolhido por ter grande influência em nosso país e porque através desta prática desportiva, pode ser uma maneira de estimular a reflexão acerca de questões sociais que permeiam o mundo futebolístico. Segundo Freire (2003), o futebol ensinado na escola regular ou na escola específica, deve contribuir para que a pessoa que o aprenda usufrua dele na sua vida cotidiana. No ambiente escolar, a pedagogia do esporte se volta não para a formação de atletas de performance, mas para que o futebol seja vivenciado e trabalhado de forma que todos possam ter acesso às habilidades e gestos motores de acordo com o seu desenvolvimento biológico, psicológico e social dentre outros conhecimentos, por exemplo, os conteúdos atitudinais e conceituais.

 

    A questão da dominação masculina em relação aos esportes, principalmente, o futebol, fica claro na fala de Altmann (2015), onde diz que

    ...o esporte é um meio dos meninos exercerem um domínio de espaço na escola. Percebe-se ainda que as meninas resistiam à dominação masculina por meio de outras atividades que não são esportivas... Assim, elas conquistavam o espaço na quadra ou no pátio recorrendo a outras atividades, sem jogar o futebol, o que se explica pelo fato de que o esporte e mais especificadamente o futebol ser um espaço masculino na escola. (Altmann, 2015, p.76)

    Segundo Pereira e Devide (2008), é fundamental trabalhar essas situações de forma crítica, refletindo e questionando alguns valores como o respeito e igualdade de gênero, desconstruindo preconceitos e exclusão dos alunos nas aulas. Assim, o esporte torna-se um elemento primordial para enfatizar os debates sobre questões de gênero.

 

    No decorrer das aulas, várias atividades foram propostas com o intuito de transformar o futebol tradicional em lúdico, valorizando a participação de todos os alunos e deixando de lado a competição. Com adaptações de regras, como por exemplo, apenas as meninas podem fazer gols ou para fazer gols tem que passar por todos os alunos, influenciando a todos a participar, e materiais alternativos, como a utilização de bolão de Pilates ou bolas mais leves a fim de facilitar a iniciação do jogo, os alunos começaram a perceber que é possível o jogar futebol, com a participação de meninos e meninas, sem a valorização do mais habilidoso.

 

    A utilização de atividades lúdicas nas aulas de Educação Física para tratar essa temática é um ótimo caminho para que todos os alunos possam vivenciar as atividades e participar de forma completa, sem exclusão, principalmente em relação ao futebol. Essa importância fica evidenciada na fala de Luckesi (2000), onde o mesmo diz que

    [...] o que a ludicidade traz de novo é o fato de que o ser humano, quando age ludicamente, vivencia uma experiência plena. [...] Enquanto estamos participando verdadeiramente de uma atividade lúdica, não há lugar, na nossa experiência, para qualquer outra coisa além desta atividade. Não há divisão. Estamos inteiros, plenos, flexíveis, alegres, saudáveis. [...] Brincar, jogar, agir ludicamente exige uma entrega total do ser humano, corpo e mente ao mesmo tempo. (Luckesi, 2000, p. 21)

    Os jogos cooperativos também podem ser um meio de estimular a união dos alunos nas aulas e promover a participação com um todo, pois possuem uma estrutura alternativa onde os alunos jogam com o outro e não contra o outro. Por isso, esses jogos são importantes, principalmente, nas aulas de Educação Física, porque eles têm como objetivos, diminuir a questão da competição acirrada e de comportamentos destrutivos, promover a interação de todos os participantes e também, aflorar a espontaneidade, o prazer e alegria no jogar. Um exemplo de atividade cooperativa é o futebol em duplas, onde são formadas duplas, de mãos dadas sem poder soltá-las, de um menino e uma menina. São divididos em dois times e para fazer um passe, tem que passar pelos pés da dupla para poder chegar à outra dupla e assim, tentar buscar o objetivo que é fazer o gol. Dessa forma, os jogos cooperativos colaboram para que haja um envolvimento total dos alunos, eliminando o medo de fracassar e ainda, contribuem para que o aluno busque confiança em si mesmo e nos outros.

    Os Jogos Cooperativos vêm com a intenção de compartilhar, unir pessoas, despertar a coragem para correr riscos com pouca preocupação com o fracasso e sucesso em si mesmo. Eles reforçam a confiança em si mesmo e nos outros, e todos podem participar autenticamente, onde ganhar e perder são apenas referências para o contínuo aperfeiçoamento pessoal e coletivo. (Brotto, 1997, p.16)

    Outro modo de atender as demandas dos alunos e os incentivarem a participarem juntos independentemente do gênero de cada um é proporcionar vivências e experiências através de jogos e esportes modificados e transformados, onde o objetivo é fazer com que os alunos pensem meios e maneiras diferentes de praticar um esporte, por exemplo, o futebol, modificando regras, materiais a serem utilizados, números de participantes, enfim, para que todos possam participar de forma ativa. Assim, acaba facilitando o aprendizado das regras, além de garantir uma construção coletiva prazerosa. (Darido; Rangel, 2014)

 

    Como foram apresentados, há várias de formas de mostrar aos alunos meios e maneiras de praticarem atividades esportivas e corporais de modo que aproximem meninos e meninas a participarem juntos, diminuindo as diferenças e a exclusão.

 

    Porém, mesmo com a percepção de que era possível haver aulas mistas, muitos alunos reclamavam que não queriam misturar meninos e meninas, pelo lado dos meninos o futebol era um esporte apenas masculino e pelo lado das meninas, os meninos eram muito agressivos e não davam espaço e oportunidades para jogar, como já foi mencionado.

 

    Essa dificuldade se deve ao fato de que a concepção tradicional da Educação Física escolar ainda está presente em muitas aulas, tanto nas falas quanto nas ações dos próprios professores, valorizando a competição, a separação entre gêneros e a exclusão por meio de habilidades motoras, onde o importante é a prática pela prática. Isto é, o modelo predominante na Educação Física tem uma ótica instrumentalista, fomentadora da saúde, aptidão física e hábitos higiênicos, onde essa visão é a mesma da Educação Física militarista, tecnicista e higienista. Segundo Daolio (1995), essa concepção mostra como os professores vêem seus alunos, de forma homogênea, sem levar em consideração os gêneros, por exemplo.

 

    Nessa perspectiva apresentada, a teoria da co-educação não existe, pois nela os seus principais objetivos são compreender os princípios de solidariedade, respeito e tolerância ao próximo e auxiliar na formação crítica dos alunos.

 

    Nas aulas de Educação Física, a dicotomia entre gênero fica nítida em alguns momentos, como relata os PCN (Brasil, 1997) que

    Na Educação Física também pode acontecer de persistirem antigos estereótipos ligados ao gênero, como a separação rígida entre práticas esportivas e de lazer dirigidas a meninos e a meninas. O professor pode intervir para garantir as mesmas oportunidades de participação a ambos os sexos, ao mesmo tempo que respeita os interesses existentes entre seus alunos e alunas. (Brasil, 1997, p. 324)

    A partir dessa problemática, o papel do professor, nesse caso, de Educação Física, torna-se essencial para abordar as situações observadas na aula, por meio de discussões e debates, por mais que seja uma situação conflituosa, mas é o inicio de um entendimento por parte dos alunos para refletir e questionar os estereótipos associados ao gênero. A postura dos professores deve ser de maneira plural, valorizando as peculiaridades, diferenças e participação dos alunos.

 

    É importante salientar que a sociedade em que vivemos é extremamente machista, excludente, classificatória e monocultural, isto é, não leva em consideração a diversidade existente. Assim, os alunos acabam refletindo em suas ações, pensamentos e atitudes presentes na sociedade vigente. Dessa forma, acredito que os formatos das aulas devam ser contra-hegemônicos, que rompam com o tradicionalismo e que não reproduzam o que a sociedade impõe.

 

    Com o passar das aulas, mesmo com todas as dificuldades presentes relacionadas a esse tema, a resistência dos alunos, por exemplo, pude perceber que no decorrer das atividades, as atitudes que antes eram de exclusão e discriminação, deram lugar a uma nova perspectiva, de coletividade e solidariedade, chegando próximo ao conceito da co-educação.

 

Metodologia

 

    Este trabalho surgiu a partir de observações feitas no cotidiano escolar, que começou como participante durante o estágio supervisionado por meio do PIBID e das disciplinas de PPE, com o apoio de pesquisas bibliográficas. Nos estágios, foram observadas situações em que as atividades eram feitas de forma separada entre os gêneros, principalmente no jogo de futebol, que é visto como esporte masculino. No espaço que ficava disponível, as meninas o ocupavam fazendo outra atividade.

 

    Durante o trabalho, pode-se observar os diversos métodos utilizados para implementar o tema gênero dentro das aulas de Educação Física, dialogando com idéias contra-hegemônicas a fim de estimular e desenvolver o senso crítico dos alunos, seja por meio da ludicidade, dos jogos cooperativos e também pela autonomia dada aos alunos, para que os mesmos pudessem propor modos diferentes de praticar uma atividade, por exemplo, o futebol, e assim pudessem participar de forma ativa durante o jogo e perceber que todos podem estar juntos nas aulas, independente do gênero.

 

Resultados

 

    Apesar de muitas opiniões contrárias a esse tipo de metodologia, principalmente dos alunos considerados os melhores, os mais habilidosos, a resposta dos mesmos como um todo foi muito positiva. A maioria dos alunos apoiou trabalhar dessa maneira e, progressivamente, a relação entre eles e a participação integral de todos melhorou significativamente. Muitas meninas relataram que através dessa forma de aula, elas efetivamente puderam participar das atividades propostas e tiveram mais oportunidades, o que me fez refletir e definitivamente incluir as questões de gênero através de aulas co-educativas que, a longo prazo, contribuíram para uma pequena mudança nas atitudes dos alunos.

 

    Uma das formas de avaliação final, que mostrava como resultado de todo o trabalho desenvolvido, foi o chamado júri simulado, que é uma estratégia pedagógica adotada quando se trata de um assunto polêmico, como a temática gênero, que, muitas vezes, divide opiniões. Essa dinâmica permite que sejam discutidos vários pontos de um mesmo tema, auxiliando no processo de construção de conceitos e desconstrução de preconceitos. Além disso, ajuda a desenvolver o senso crítico, a participação e a reflexão de todos os alunos.

 

    A estratégia de usar essa dinâmica foi fundamental para perceber o quanto os alunos tinham mudado alguns pontos de vistas e pensamentos que haviam apresentado no início das atividades desenvolvidas. Por mais que alguns conceitos não tivessem mudado, pude perceber nas falas dos alunos, uma mudança de percepção em relação à divisão de meninas e meninos nas aulas, e viram que essas questões vão além da sala de aula, que na nossa sociedade também acontecem esse tipo de situação.

 

Conclusão

 

    No final de cada ano letivo, nesses quatro anos, aproximadamente, havia uma avaliação com os alunos a respeito das aulas e metodologias abordadas e, consequentemente, o tema gênero era uns dos mais discutidos. Nessas avaliações, muitos alunos relatavam que tratar essas questões nas aulas e de forma prática contribuiu bastante para ter esse entendimento. Nos debates ocorridos, ainda havia muitas falas que questionavam que abordar esse assunto nas aulas atrapalhava o andamento das mesmas e geravam muita polêmica entre meninos e meninas. Até porque, utilizar uma metodologia contra-hegemônica, em uma sociedade que não aceita as diferenças e que privilegia mais uns do que outros, tornou-se bastante complicado e nem todos compreendiam de forma imediata o principal objetivo.

 

    Porém, no decorrer das aulas, algumas mudanças de atitudes e pensamentos dos alunos, tanto nas suas ações nas atividades quanto nas suas falas nos debates propostos, me mostraram que é importante os professores utilizarem esse tema transversal nas suas aulas, uma vez que este é um assunto que vai para além dos muros da escola, pois é um tema relacionado à nossa sociedade, revelando que essas questões são de interesse público, refletindo no nosso dia a dia.

 

    Nesse sentido, os estudos de gênero na Educação Física escolar foi um tema que chamou muito a atenção, com minhas observações e vivências, como aluno e professor de Educação Física, fazendo com que eu procurasse entender o porquê de certos fatos que acontecem nas aulas.

 

    O uso do futebol como conteúdo na Educação Física escolar foi de extrema importância, pois é um esporte que, tradicionalmente está presente na nossa sociedade e que é essencial ser trabalhado dentro da escola, mostrando que este pode ser uma ferramenta de inclusão de pessoas, neste caso, de gênero. Assim, creio que os esportes em geral, depois de ter feito uma análise, contribuem para que as atitudes dos alunos, que antes apenas reproduziam os valores presentes na sociedade, podem tornar-se atitudes de cunho coletivo, enfatizando a diversidade, a cooperação e a participação de todos.

 

    Concluo acreditando que as aulas de Educação Física podem colaborar para uma inicial mudança de pensamentos e atitudes, onde as questões como a valorização das diferenças e da diversidade, o respeito ao próximo e um diálogo mais aberto, bem como a importância do coletivo em detrimento ao individual, enfatizando o pensamento crítico, podem ser um caminho que propiciará transformações nas relações sociais.

 

Referências

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 243, Ago. (2018)

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