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O outro lado do esporte: Um homem entre gigantes e o papel da Educação Física

The other side of the sport: Concussion and the role of Physical Education

La otra cara del deporte: La verdad oculta y el rol de la Educación Física

 

Alan Camargo Silva*

alan10@zipmail.com.br

Gustavo da Motta Silva**

gustavomotta1990@hotmail.com

 

*Licenciado e Mestre em Educação Física (UFRJ)

Especialista em Exercício Físico Aplicado à Reabilitação Cardíaca e a Grupos Especiais (UGF) 

Doutor em Saúde Coletiva (UFRJ). Realizou Estágio de Pós-Doutorado em Educação Física (UFRJ) 

Professor das redes Municipal e Estadual de Educação do Rio de Janeiro

Atua também como professor contratado do curso de Pós-graduação Lato sensu em Desporto

de Campo e de Quadra e professor externo do curso de Pós-graduação Stricto sensu (UFRJ). 

**Licenciado em Educação Física (UFRJ). Mestre em Educação (UFRJ)

Doutor em Ciências Humanas-Educação (PUC-Rio). Atua como professor

da rede Municipal do Rio de Janeiro e de Duque de Caxias

(Brasil)

 

Recepção: 10/05/2018 - Aceitação: 25/11/2018

1ª Revisão: 22/10/2018 - 2ª Revisão: 21/11/2018

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

 

Resumo

    Esta resenha crítica se refere à obra cinematográfica Um homem entre gigantes. Objetiva-se com este trabalho fazer pensar como este filme retrata diversos temas que atravessam as relações entre a área de Educação Física e o esporte. Foi possível elencar três grandes discussões a partir deste filme: a) O impacto do treinamento e a sobrecarga laboral dos profissionais do esporte (atletas); b) As relações de poder das instituições/ligas esportivas face à sociedade; c) As interações entre os saberes científicos, médicos e jurídicos no campo do esporte. O presente texto aponta algumas contribuições deste filme para os professores/profissionais de Educação Física que a todo o momento vivenciam, orientam e trabalham com o esporte em seus contextos acadêmico-profissionais.

    Unitermos: Educação física. Treinamento. Esportes. Concussão encefálica. Traumatismos em atletas.

 

Abstract

    This review is related to the film Concussion. The objective was to think how the film presents the variety of themes associated with the Physical Education area and the sport. It was possible to select three debates of this movie: a) the impact of the training and the labour load in the professional athletes; b) The relations of power of some sports, its institutions/leagues and the society; c) The interactions between the scientific, biomedical and juridical knowledge in the sport area. This work presents some contributions from the film to the Physical Education teachers practice, because they are commonly in contact with this reality in their contexts.

    Keywords: Physical education. Training. Sports. Brain concussion. Athletic injuries.

 

Resumen

    La reseña se refiere a la película La verdad oculta. El trabajo tuvo como objetivo pensar como la película presenta una variedad de temas que pertenecen al campo de la Educación Física y del deporte. Se detectaron tres discusiones centrales a partir de la película: a) El impacto del entrenamiento y de la sobrecarga laboral de los profesionales del deporte (atletas); b) Las relaciones de poder entre las instituciones/ligas deportivas y la sociedad. c) Las interacciones entre los saberes científicos, médicos y jurídicos del campo del deporte. El trabajo presenta algunas contribuciones de la película para los profesores/profesionales de la Educación Física que están siempre conviviendo con estos contextos en la práctica.

    Palabras clave: Educación física. Entrenamiento físico. Deportes. Conmoción encefálica. Traumatismos en deportistas.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 247, Dic. (2018)


 

Introdução

 

    Um homem entre gigantes foi lançado em 2015 e é resultado de uma parceria realizada entre produtores do Reino Unido, da Austrália e dos Estados Unidos. A sua repercussão foi extremamente polêmica, não apenas pelo fato de criticar a National Football League (NFL), liga profissional de Futebol Americano dos Estados Unidos, uma das mais influentes instituições/ligas esportivas do mundo, mas também por trazer ao debate as dificuldades enfrentadas por um imigrante africano nos Estados Unidos.

 

    A produção cinematográfica ganhou quatro prêmios dos quinze para os quais foi indicada e gerou outra polêmica, motivada em grande parte por movimentos sociais afro-americanos, quando Will Smith, o seu principal ator, sequer fora indicado para o Academy Awards (premiação do Oscar) na categoria de melhor ator. É importante destacar que com o filme, Will Smith ganhou em 2015 o prêmio de melhor ator pela Associação de Críticos de Filmes Afro-americanos, de ator do ano pela Premiação de Filmes de Hollywood e em 2016 o prêmio de melhor atuação criativa e impactante pelo Festival de Filmes Internacional de Palm Springs. O filme foi um sucesso de público em diversos países e rendeu aproximadamente trinta e cinco milhões de dólares.

 

Trailer: Un homem entre gigantes

 

    Classificado como um drama biográfico, o filme dirigido por Peter Landesman conta a história do Dr. Omalu (interpretado por Will Smith), um médico legista e neuropatologista nigeriano que reside em Pittsburgh. Em 2002, ao realizar a autópsia de um ex-atleta de futebol americano, o médico começa uma busca para comprovar a associação entre o esporte e os danos cerebrais causados em diversos ex-atletas. Embora não seja um amante e conhecedor de futebol americano, Dr. Omalu tenta comprovar a sua teoria que até hoje é omitida pela NFL.

 

    Seguindo a mesma abordagem de um documentário intitulado de Head Games (“Jogos de Cabeças”)1, Um homem entre gigantes, com vigor e profundidade, se destaca por se caracterizar por uma das poucas obras cinematográficas que imprimem questionamentos e reflexões acerca do esporte. Diferente de impressões sobre o esporte ainda hegemônicas no senso comum tais como: “esporte é saúde”, “esporte é lazer” e “esporte é vida”, o filme retrata criticamente o chamado esporte-espetáculo de alto rendimento, isto é, quando o esporte se insere no mundo do trabalho e se transforma em mercadoria a ser transmitida pelos meios de comunicação de massa (Bracht, 2005). De modo pioneiro, Magnane (1969) já alertava sobre a abordagem polissêmica referente ao esporte.

 

    Nesse sentido, argumenta-se a relevância de tal filme para a Educação Física, mais precisamente, para os professores/profissionais da área que são um dos principais agentes ou atores que podem mediar o fenômeno esportivo na sociedade. Seja qual for o local de trabalho (escola, clube, centro de treinamento, etc.), o filme pode inspirar ou reiterar o processo crítico-reflexivo daqueles que atuam com as práticas corporais, pois, de certo modo, consegue desmistificar valores e crenças que comumente são atribuídos ao esporte, em especial, de alto rendimento. Bracht (2005) lembra que “[...] a crítica do esporte é também crítica da sociedade, ou seja, crítica à sociedade em um seu exemplo.” (p. 11).

 

O filme e suas contribuições para a área de Educação Física

 

    Sendo assim, a partir de uma análise do filme, destacam-se algumas reflexões acadêmico-profissionais possíveis para a área de Educação Física: a) O impacto do treinamento e a sobrecarga laboral dos profissionais do esporte (atletas); b) As relações de poder das instituições/ligas esportivas face à sociedade; c) As interações entre os saberes científicos, médicos e jurídicos no campo do esporte.

 

    Em primeiro lugar, é possível problematizar que o filme deixa claro que não há nada de lúdico para aqueles que jogam profissionalmente o futebol americano. As repetidas e intensas táticas de ataque e defesa, sejam nos espaços de treinamento ou dos jogos oficiais, apontam os impactos anatomofisiológicos sofridos pelos atletas desde o momento de iniciação ao esporte, em especial, as concussões ou pancadas na região da cabeça ao longo dos anos. Vale lembrar que a definição de concussão na região da cabeça possui uma série de sentidos e significados em diferentes campos e áreas do saber (Johnston et al., 2001).

 

    O filme se destaca pelo fato de apontar que os jogadores ao mesmo tempo em que são atletas ou ídolos também exercem um ofício laboral. Os ex-atletas, aposentados, sofrem de uma espécie de “perturbação mental” ou de um “estágio depressivo” que os leva a condutas agressivas, aos usos exacerbados de estratégias e medicamentos para atenuar os “delírios” ou ao próprio falecimento. A fala de um dos ex-atletas, “Estou morrendo por dentro!”, demonstra o quão a carreira ou a vida profissional de um atleta pode gerar um futuro incerto de agravos à saúde. O atleta que entrega o seu próprio corpo ao esporte de alto rendimento ao longo da vida, muitas vezes, angariando fama e dinheiro, compromete-se em termos de saúde-doença.

 

    Outro aspecto que o filme consegue retratar de forma significativa são as relações de poder da NFL perante a sociedade em geral. A chamada do filme com a frase “Nada vai impedi-lo de expor a verdade” se refere ao Dr. Omalu que arrisca a sua própria integridade moral e sua legitimidade profissional investindo tempo e dinheiro para provar um determinado diagnóstico que deveria ser considerado pelos organizadores dos campeonatos profissionais de futebol americano.

 

Entrevista da CTV News com o Dr. Bennet Omalu

 

    Em diversas passagens, é possível observar como a vida pessoal e profissional do Dr. Bennet Omalu é ameaçada. Em síntese, questionar ou desmistificar o esporte-espetáculo de alto rendimento promovido pelas instituições/ligas significa comprometer não somente a credibilidade mercadológica e comercial, mas também toda a lógica e ordem cultural que rege a vida social daqueles que praticam o esporte de modo profissional ou até mesmo amador. O filme ainda explora como o cenário midiático reage às investigações referentes às concussões cerebrais, demonstrando, ainda que superficialmente, outras relações de poder que afetam o âmbito do esporte de alto rendimento.

 

    Por fim, mas não menos importante, o filme articula de modo intencional ou não modos como os saberes científicos, médicos e jurídicos podem se cruzar no campo do esporte. Tal obra cinematográfica demonstra o valor dado à biomedicina, em especial, à Neurociência na medida em que é possível apenas provar os impactos negativos na saúde mental dos atletas com pesquisa científica de caráter biológico. O filme também aponta como a intervenção da área da medicina pode ficar refém ou impotente diante dos lucros financeiros angariados pelas instituições/ligas esportivas uma vez que a preocupação com a saúde-doença dos atletas fica obscurecida pelas demandas do capital. Ademais, diversas cenas registram como os pressupostos jurídicos ainda se baseiam em estudos de casos de cunho biomédico, ou melhor, em “evidências científicas” para julgar o que é mais ou menos legítimo para os corpos dos jogadores.

 

Reflexões finais em tela

 

    O filme consegue passar uma mensagem atual e de extrema importância para o campo do esporte. Um homem entre gigantes ao mesmo tempo em que gira em torno do personagem principal também consegue explorar um assunto delicado o qual a NFL conhecia há anos, mas que não aceitava ou divulgava publicamente: os tais agravos à saúde mental dos atletas veteranos ou praticantes jovens amadores de futebol americano como um problema de saúde pública. Tal problemática já foi relatada por inúmeros estudos que se dedicaram a investigar as relações entre as concussões cerebrais e determinados esportes (Buzzini; Guskiewicz, 2006; Meehan; Bachur, 2009; Halstead; Walter; The Councilon Sports Medicine and Fitness, 2010; Daneshvar et al., 2011; Ianof et al., 2014).

 

    Embora o filme se empenhe em aprofundar as relações entre o futebol americano e as concussões cerebrais, vale questionar em que medida tal fenômeno pode ser discutido no âmbito do esporte em geral assim como no próprio contexto daqueles que atuam com tais práticas corporais: os professores/profissionais de Educação Física. Tais reflexões podem ser realizadas tanto nos espaços de Educação Física formal quanto nos locais não-formais/informais2 da área, pois, o compromisso ético-moral do ponto de vista da formação ou do ofício dos professores/profissionais fica acima de qualquer crença ou valor que comprometa a vida ou o corpo humano. Trata-se, portanto, aqui de questionar o mundo esportivo que geralmente “[...] deve ir até o extremo, a imagem esportiva para provocar excitação deve beirar o ‘excesso’. É preciso preparar o corpo do campeão até o risco físico, beirar a violência, a ruptura.” (Vigarello, 2008, p. 478).

 

    Portanto, mais do que julgar ou criticar o esporte que durante décadas foi condenado pela Educação Física brasileira, sobretudo no campo escolar (Vaz, 2001; Bracht, 2005), ressalta-se a relevância de pensá-lo e/ou abordá-lo de forma crítico-reflexiva no que diz respeito às potencialidades e limites da sua prática na vida social. Nesse sentido, a presente resenha propõe esses tipos de debates ou discussões a partir de filmes desse gênero para os professores/profissionais de Educação Física que a todo o momento vivenciam, orientam e trabalham com o esporte em seus contextos acadêmico-profissionais.

 

Notas

  1. O documentário, dirigido por Steve James, aborda a vida e os atos do jogador de futebol americano e lutador Christopher John Nowinski para encobrir as consequências esportivas relacionadas aos traumas na cabeça.

  2. Na literatura, alguns autores entendem que há três tipos de processos educacionais, o formal, compreendendo o sistema educacional institucionalizado, o não-formal, realizado fora do marco do sistema oficial, e o informal, caracterizado por um processo que dura a vida inteira por meio de experiências diárias e a relação com o meio (Trilla, 2008).

Referências

 

    Bracht, V. (2005). Sociologia crítica do esporte: uma introdução. Ijuí: Ed. Unijuí.

 

    Buzzini, S. R. R., Guskiewicz, K. M. (2006). Sport-related concussion in the young athlete. Current Opinion in Pediatrics, 18 (4), 376-382.

 

    Daneshvar, D. H., Nowinski, C. J., McKee, A. & Cantu, R. C. (2011). The epidemiology of sport-related concussion. Clinical Journal of Sport Medicine, 30 (1), 1-17.

 

    Halstead, M. E., Walter, K. D. & The Council on Sports Medicine and Fitness. (2010). Sport-related concussion in children and adolescents. Pediatrics, 126 (3), 597-611.

 

    Ianof, J. N., Freire, F. R., Calado, V. T. G., Lacerda, J. R., Coelho, F., Veitzman, S. et al. (2014). Sport-related Concussions. Dementia & Neuropsychologia, 8 (1), 14-19.

 

    Johnston, K. M., McCrory, P., Mohtadi, N. G. & Meeuwisse, W. (2001). Evidence-based review of sport-related concussion: clinical science. Clinical Journal of Sport Medicine, 11 (3), 150-159.

 

    Magnane, G. (1969). Sociologia do Esporte. São Paulo: Editora Perspectiva.

 

    Meehan, W. P., Bachur, R. G. (2009). Sport-Related Concussion. Pediatrics, 123 (1), 114-123.

 

    Trilla, J. (2008). A educação não-formal. En J. Trilla, V. A. Arantes, E. Ghanem (coord.) Educação formal e não-formal: pontos e contrapontos (pp. 15-58). São Paulo: Summus.

 

    Vaz, A. F. (2001). Técnica, esporte, rendimento. Movimento, 7 (14), 87-99.

 

    Vigarello, G. (2008). Estádios: o espetáculo esportivo das arquibancadas às telas. En A. Corbin, J. J. Courtine, G. Vigarello (coord.), História do corpo 3. As mutações do olhar: o século XX (pp. 445-480). Petrópolis: Vozes.


Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 247, Dic. (2018)

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