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Identidade: revisão teórica sobre um conceito polissêmico

Identity: theoretical review on a polysemic concept

Identidad: revisión teórica sobre un concepto polisémico

 

Kleber Silva Rocha

klebersrocha@msn.com

 

Professor Assistente da Universidade Estadual

do Sudoeste da Bahia (UESB) Campus de Jequié, Bahia

Licenciado pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Brasil

Mestre em Educação e Diversidade Cultural pela Universidade do Porto, Portugal

Estudante do doutorado em Ciências da Educação com especialidade em Organização do Ensino, 

Aprendizagem e Formação de Professores pela Universidade de Coimbra. Portugal

(Brasil)

 

Recepção: 01/03/2018 - Aceitação: 17/01/2019

1ª Revisão: 25/09/2018 - 2ª Revisão: 13/01/2019

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons 

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

 

Resumo

    O estudo sobre a identidade se torna cada vez mais comum e necessário para compreensão e reflexão de um indivíduo que outrora fora religioso e filosófico, que fora substituído pelo cidadão e depois pelo trabalhador. As diversas áreas da ciência que estudam a identidade revelam o quão complexa é essa temática, pois ela se caracteriza por ser um processo com múltiplas facetas, ou seja, é delineada por relações e vivências que o sujeito vai estabelecendo ao longo de sua existência, não há essências eternas porque as mudanças acontecem numa dinâmica social fruto das várias relações culturais e históricas. Ela é um processo inacabado que sofre múltiplas transformações e, ao mesmo tempo, apresenta determinada permanência em seu núcleo. Neste sentido o nosso objetivo é compreender os conceitos da identidade.

    Unitermos: Identidade. Subjetividade. Conceito polissêmico.

 

Abstract

    The study on identity has become increasingly common and necessary for the understanding and reflection of an individual who had once been religious and philosophical, then had been replaced by the citizen and later by the worker. The various areas of science which study identity reveal how complex this topic is, since it is portrayed as being a multi-faceted process, i.e., it is delineated by relationships and experiences that the individual has established throughout his or her existence. There are no eternal essences because the changes happen in a social dynamic due to the various cultural and historical relations. It is an unfinished process that undergoes multiple transformations and, at the same time, presents a certain permanence at its core. In this sense our goal is to understand the concepts of identity.

    Keywords: Identity. Subjectivity. Polysemic concept.

 

Resumen

    El estudio sobre la identidad se vuelve cada vez más común y necesario para la comprensión y la reflexión de un individuo que en otro tiempo fuera religioso y filosófico, que fue sustituido por el ciudadano y luego por el trabajador. Las diversas áreas de la ciencia que estudian la identidad revelan cuán compleja es esta temática, pues se caracteriza por ser un proceso con múltiples facetas, o sea, es delineada por relaciones y vivencias que el sujeto va estableciendo a lo largo de su existencia. No hay esencias eternas porque los cambios ocurren en una dinámica social fruto de las diversas relaciones culturales e históricas. Es un proceso inacabado que sufre múltiples transformaciones y, al mismo tiempo, presenta cierta permanencia en su núcleo. En este sentido nuestro objetivo es comprender los conceptos de la identidad.

    Palabras clave: Identidad. Subjetividad. Concepto polisémico.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 249, Feb. (2019)


 

Introdução

 

    Em se tratando do debate sobre as questões que envolvem a identidade muitos autores referem-se a uma questão chave quando discorrem sobre a temática: “Quem sou eu?” (Dubar, 1997; Kaufmann, 2004; Touraine, 1994). Responder a essa questão não é algo simples, como pode parecer aos olhos do senso comum, remete para as questões da constituição da identidade, logo está atrelada a uma teia social constituída por aspectos políticos, históricos, culturais e econômicos.

 

    As diversas áreas da ciência que estudam sobre a identidade revelam o quão é complexa essa temática, por ser um processo com múltiplas facetas, ou seja, é delineada por relações e vivências que o sujeito vai estabelecendo ao longo de sua existência, visto que não há essências eternas porque as mudanças acontecem numa dinâmica social fruto das várias relações culturais e históricas. Ela é um processo inacabado que sofre múltiplas transformações e, ao mesmo tempo, apresenta determinada permanência em seu núcleo. Assim, o estudo sobre os conceitos de identidade se fez necessário para compreensão e reflexão de um indivíduo que outrora fora religioso e filosófico, posteriormente substituído pelo cidadão e depois pelo trabalhador. Em vista disto, o objetivo deste trabalho é compreender os conceitos da identidade.

 

    De acordo com Kaufmann (2004) Sigmund Freud é o responsável por introduzir o conceito de identidade no campo das ciências humanas, assim como abriu o caminho à multiplicação da identidade individual à identidade coletiva em seus estudos sobre o mecanismo psíquico: “Este conceito Freudiano é menos conhecido que outros, que gozam hoje duma celebridade verdadeiramente universal” (Kaufmann, 2004, p. 23). Contudo, faltaram nos seus trabalhos instrumentos sociológicos adequados para creditá-lo como o pai da “descoberta”. Erikson conduziu a uma definição de identidade com singular sensibilidade, retomou o conceito da ideia de Freud que estava no campo psíquico e o ampliou para o âmbito social. Em sua obra Identidade Juventude e Crise (1987), Erikson enfatiza que Freud serviu como referência na construção teórica sobre identidade e que esta “declaração não foi de obra teórica, mas de comunicação especial.” (p. 19).

 

O que traz notoriedade ao trabalho de Erikson é a abordagem, por afirmar que a identidade não está apenas localizada no âmago do indivíduo (psíquico) e há uma interação do psicológico com o social, conforme a assertiva abaixo:

    [...] em termos psicológicos, a formação da identidade emprega um processo de reflexão e observação simultâneas, um processo que ocorre em todos os níveis do funcionamento mental, pelo qual o indivíduo se julga a si próprio à luz daquilo que percebe ser a maneira como os outros o julgam, em comparação com eles próprios e com uma tipologia que é significativa para eles; enquanto que ele julga a maneira como eles o julgam, à luz do modo como se percebe a si próprio em comparação com os demais e com os tipos que tornaram importantes para ele. Este processo é, felizmente (e necessariamente), em sua maior parte, inconsciente – exceto quando as condições internas e as circunstâncias externas se combinam para agravar uma dolorosa ou eufórica ‘consciência da identidade. (Ibid., p. 21, grifo nosso).

    Para este autor a identidade nunca é estabelecida como realização na forma de uma armadura da personalidade ou de qualquer coisa estática ou imutável, como também o método psicanalítico tradicional não é capaz de apreender a identidade porque não elaborou termos para conceptualizar o meio ambiente. A identidade é um processo em constante evolução e mudança em que o eu e o outro se distinguem gradativamente na medida em que o indivíduo vai ganhando consciência do ambiente e do círculo de pessoas que estão em seu entorno.

 

    Observam-se diversos trabalhos que discutem sobre a identidade do professor, entre estes estão às identidades do professor de Educação Física. Com isso, o propósito deste estudo foi fazer um levantamento de produções acadêmicas que trazem o conceito de identidade, para compreender como as publicações que tratam da identidade profissional do professor são apontadas nos estudos.

 

Métodos

 

    Este estudo constitui-se de uma revisão da literatura especializada, realizada entre março a julho de 2016, por meio da consulta a livros, periódicos e teses selecionados através de busca no banco de dados UC Digitalis da Universidade de Coimbra.

 

    Para a busca no banco de dados utilizou-se os descritores identidade e subjetividade. Os critérios para a inclusão dos estudos era o conceito de identidade. Logo em seguida, buscou-se analisar se os periódicos e teses traziam os conceitos de identidade conforme a literatura analisada. Na análise utilizaram-se procedimentos de análise de conteúdo, tendo as categorias sido estabelecidas “a priori”: a) formação dos pesquisadores; b) conceitos de identidades; e c) áreas de conhecimento. Posteriormente, nos resultados e discussões utilizou-se a síntese da narrativa para uma melhor compreensão dos conceitos de identidade empregados pela literatura.

 

Resultados

 

    A partir da década de 70 do século passado o mundo começa a sofrer mudanças abruptas que alteram a organização social e se inicia um “novo mundo”, moldado por um paradigma globalizante caracterizado pela revolução tecnológica da informação bem como a reestruturação do capitalismo, introduzindo esta forma um modelo. Por um lado a globalização impõe padrões comuns, pois difunde uma mesma matriz produtiva baseada na nova tecnologia que apaga distâncias, mas, por outro lado, propicia reações locais que nascem marcadas pela ampliação da comunicação e pelas novas práticas sociais. Entretanto, quando se coloca neste contexto a questão da identidade surgem problemáticas a exemplo da “crise de identidade” (Dubar, 2009) que gera a desestabilização do indivíduo e das culturas coletivas sob o impacto das inovações e acelerações tecnológicas e, por isso, as identidades individuais e coletivas estariam sofrendo mudanças diversas. Poderíamos dizer que os indivíduos, grupos, comunidades, organizações e instituições buscavam novas referências para ancorar seu barco.

 

    A introdução do conceito científico de identidade emerge sob o prisma da psicologia social, em que se destacava a subjetividade, ou seja, a identidade resultaria em domínio da representação e articular-se-ia em torno do sentimento de si mesmo (Kaufmann, 2004). E, ainda que questionada sua concepção de formação identitária, a psicologia social assume um papel importante no que diz respeito à construção científica do conceito de identidade. Por conseguinte, outras ciências buscaram aprofundar a discussão sobre identidade, com justificativas de que a formação identitária não se pode basear apenas na ideia do sentimento do ser. Temos, então, a sociologia que entende uma identidade para além do subjetivismo, inserindo-a num quadro social e, com este viés conceitual, o processo identitário vai se desenhando com outras interpretações, por exemplo: entre si íntimo e si estatutário (Singly, 2006); entre identidade pessoal e identidade social (Goffman, 1988); entre mesmidade e ipseidade (Ricoeur, 2014) e identidades para si e identidades para os outros (Dubar, 1997).

 

    Com isso florescem nas ciências humanas disciplinas que se preocupam com a temática o que contribuiu para um conceito polissêmico e plural da identidade, nomeadamente por lidar tanto com indivíduos, sociedade, culturas, grupos, etnias, religiões, etc., tornando-a objeto de investigação em várias áreas de conhecimento. Dessa forma, tem-se, por exemplo: i) a psicologia que aborda as questões subjetivas na qual a nossa consciência sobre identidade se configura dentro do mundo que nos cerca, em processo complexo entre o eu e outro; ii) a sociologia e a antropologia pensam em como essa identidade se articula entre o indivíduo e o grupo, baseando-se no entendimento de que a identidade é social e a cultura é um dos seus componentes. Salienta-se que esses movimentos deram oportunidade de ampliar as questões referentes à identidade no que tange aos aspectos político e econômico.

 

Discussão

 

    Nessa atmosfera, passaremos a apresentar o conceito de identidade na perspectiva de alguns autores. Para Dubar (1997) o primeiro ponto é romper com uma definição dual da identidade, porque para seu entendimento a identidade para si e identidade para o outro são inseparáveis, ou seja, são “inseparáveis porque a identidade para si é correlativa do Outro e do seu reconhecimento: eu só sei quem eu sou através do olhar do Outro” (p. 104), o que significa que a identidade é construída e reconstruída numa incerteza maior ou menor e mais ou menos durável e jamais dada.Para este autor a articulação entre a transação objetiva (identidades atribuídas/propostas; identidades assumidas/incorporadas) e a transação subjetiva (identidades herdadas; identidades visadas) é a chave para a construção das identidades sociais. Essas estão situadas dentro de uma categoria de análise da identidade elaborada por Dubar que se constitui em dois processos: relacional e biográfico. A primeira refere-se a um caráter objetivo em que a identidade se constitui a partir do outro, já o biográfico, cujas transações são subjetivas, diz respeito a uma identidade para si as quais são herdadas e visadas.

 

    A perspectiva de identidade para Bauman (2005) se baseia em uma nova concepção de sociedade subsidiada não mais pela modernidade, mas uma “modernidade liquida”, configurada por uma “liquefação” das estruturas e instituições sociais e passam por uma fase de fluidez e “são assim chamados porque não conseguem manter a forma por muito tempo” (p. 57). Em seu livro intitulado Identidade o sociólogo afirma que o assunto é intangível e ambivalente no mundo “líquido” onde tudo é precário e provisório. A ansiedade prevalece nos comportamentos humanos em virtude da dissolução de valores e referências que jogou homens e mulheres na permanente inconstância, sem possibilidade de estabelecer conexões entre si mesmos e o mundo na velocidade estonteante das mudanças engendradas pelo processo de globalização.

 

    Bauman tenta definir um sentido para a construção de identidades através do reconhecimento da existência de comunidades do destino e de vida. Para o autor é a partir das comunidades de segundo tipo que se torna mais consciente o fato de que as noções de pertencimento e de identidade são negociáveis e revogáveis e que as escolhas e as decisões de um indivíduo são fundamentais tanto para definir identidade como pertencimento.

 

    Para Castells (1999) as transformações tecnológicas sofridas, em especial nas últimas décadas, são responsáveis pelo impacto da informatização sobre as culturas em todo o mundo. E,dentro de uma dinâmica sociocultural, ele coloca a questão da identidade ou identidades como um núcleo resistente à homogeneização, contudo enfatiza que todas estão marcadas pelas histórias de cada grupo, assim como pelas instituições existentes e pelos aparatos de poder. O autor entende por identidade “o processo de construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual (ais) prevalece(m) sobre outras fontes de significado” (p. 22). Enfatizando que essa pluralidade é fonte de tensão e contradição tanto na auto-representação quanto na ação social, isto porque é preciso estabelecer a distinção entre identidade e papéis, os sociólogos caracterizam os papéis como ser trabalhador, pai, vizinho, mãe, etc. (Castells, 1999).

 

    Para o autor, a importância desses papéis será influenciada pelos comportamentos das pessoas frente aos acordos entre os indivíduos e organizações, haja vista que enquanto as identidades organizam significados, os papéis organizam funções. Sob esse prisma a construção social da identidade se estabelece sobre uma relação de poder.

 

    Hall (2003) desenvolve seu conceito a partir de um interesse nas “identidades culturais” e, neste sentido, a identidade não se faz como tal se não houver outra(s) identidade(s) da(s) qual (is) ela pode e precisa diferenciar-se, ou seja, há identidade porque há outro a constituí-la. O autor afirma que as identidades são construídas pela diferença e não fora dela, o que implica o reconhecimento perturbador de que é apenas por meio da relação com o outro, da relação com aquilo que não “é”, com aquilo que falta, com esse “exterior constitutivo”, que o significado “positivo” de qualquer termo e, logo, sua identidade podem ser construídos. Para o autor as identidades podem funcionar ao longo de toda a sua história como pontos de identificação e apego apenas em razão de sua capacidade para excluir, para deixar de fora e para transformar o diferente em “exterior”. Enquanto identidade cultural os aspectos de pertencimento às culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas e, sobretudo, nacionais, vêm sofrendo um processo de fragmentação. Portanto, o sujeito estável sofre um descentramento, causando um deslocamento tanto no mundo social e cultural, como também em si mesmo, resultando em crise de identidade.

 

    Para este autor as identidades nacionais estão em declínio, porque a sociedade não é vista mais como determinada, isso ocorre devido a uma configuração social que está em constante movimento e mutação, resultando um continuo processo de fragmentação no indivíduo, pois “(...) somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente” (Hall, 2003, p.13).

 

    Em uma perspectiva de análise da psicologia social, Ciampa em seu livro intitulado A estória do Severino e a História da Severina (2005) apresenta reflexões e um conceito de identidade baseada na ideia de metamorfose onde tudo está em transformação. Mas, essa identidade como metamorfose se configura desde o momento em que somos identificados por um nome próprio, ou seja, a identidade representada. Neste sentido o autor entende que esse primeiro momento leva a uma identidade com traços estáticos que define o ser e o “indivíduo aparece isolado, sua identidade como algo imediato, imutável” (p.135). Contudo isso não é identidade, mas uma representação dela, salienta Ciampa.

 

    Portanto, a identidade que, inicialmente, assume uma forma de nome próprio vai adotando outras formas de predicações, como papéis. O que leva a identidade a assumir personagens, que nada mais são do que uma vivência de um papel previamente determinado pela cultura, sendo fundamental na construção identitária. Para o autor identidade é metamorfose. Metamorfose, no sentido do constante vir-a-ser e da possibilidade do humano da constante transformação. Apesar de ser metamorfose, há um núcleo de permanência na identidade do indivíduo promovido pela igualdade de si, que é a reposição do indivíduo de seu ser, é o que permanece e é estável ao longo da vida.

 

    Em defesa de um conceito que ultrapasse a ideia de uma abordagem puramente objetiva ou puramente subjetiva, Couche (1999) adota a abordagem relacional, com o argumento de que só a partir deste contexto pode-se entender porque em determinado momento a identidade é afirmada ou, ao contrário, reprimida. O autor cita Barth como pioneiro na concepção de identidade como uma manifestação relacional, a partir da qual se deve “entender o fenômeno da identidade através da ordem das relações entre os grupos sociais” (p. 182).

    Se a identidade é uma construção social e não um dado, se ela é do âmbito da representação, isto não significa que ela seja uma ilusão que dependeria da subjetividade dos agentes sociais. A construção da identidade se faz no interior de contextos sociais que determinam a posição dos agentes e por isso mesmo orientam suas representações e suas escolhas. Além disso, a construção da identidade não é uma ilusão, pois é dotada de eficácia social, produzindo efeitos sociais reais. (Couche, 1999, p. 182).

    Salienta que identidade e alteridade estão ligadas em uma relação dialética, porque a identidade sempre existe em relação à outra, descontruindo a ideia de uma identidade em si ou mesmo unicamente para si, ou seja, a sua identificação vem acompanhada da diferença. Para Wieviorka (2002) existe um triângulo que é composto por identidade, indivíduo e sujeito e essa tríade forma três componentes: a identidade coletiva, o indivíduo moderno e o sujeito. A justaposição entre identificação e diferenciação acontece “na medida em que a identidade é sempre um processo de identificação no interior de uma situação relacional, na medida também em que ela é relativa, pois pode evoluir se a situação relacional mudar (...)” (Couche, 1999, p. 183)

 

    A identidade, neste sentido, torna-se algo concessivo para que aconteça uma negociação entre o que Barth chama de “auto-identidade”, definido por si mesmo, e uma “hetero-identidade” ou uma “exo-identidade” definida pelos outros.

 

Conclusão

 

    A apresentação da contribuição dos autores supramencionados não significa que estamos esgotando e engessando o conceito de identidade, pelo contrário, buscou-se evidenciar a vasta bruma teórica acerca dessa conceituação relacionado, por um lado, a uma dimensão plural e polissêmica de lidar com os indivíduos quanto com as sociedades, culturas, comunidades, entre outros.

 

    Neste vasto campo das ciências temos diferentes pesquisadores das mais variadas áreas, sociologia, antropologia, literatura, psicanálise, política, história, etc., discutindo, debatendo, provocando, questionando, refletindo, (des)construindo a compreensão da identidade e um ponto que provoca tudo isso é o puzzle constituído de uma identidade individual e identidade coletiva.

 

    Para Wieviorka (2002) a identidade coletiva é “o conjunto das referências culturais em que se funda o sentimento de pertença a um grupo ou a uma comunidade” (p. 168). A referência sobre uma identidade coletiva se notabilizou na medida em que grupos começam a reivindicar uma identidade de pertença.

 

    Retoma-se o conceito de Castells (1999) sobre as identidades coletivas, classificadas como identidade legitimadora, identidade de resistência e identidade de projeto e estas tem um significado para aqueles que com ela se identificam ou dela se excluem, uma vez que a construção da identidade é marcada por relação de poder. Para o autor a identidade legitimadora se constitui a partir de uma sociedade civil e, portanto, é “(...) um conjunto de organizações e instituições, bem como uma série de atores sociais e organizados, que, embora às vezes de modo conflitante, reproduzem a identidade que racionaliza as fontes de dominação estrutural” (p. 24). Na identidade de resistência originam-se formas de combater a opressão social, justamente por existir identidades excluídas/excludentes no núcleo das relações sociais gerando “uma identidade defensiva nos termos das instituições/ideológicas dominantes, revertendo o julgamento de valorese, ao mesmo tempo, reforçando os limites de resistência” (p. 25). Por fim, no terceiro processo de construção da identidade coletiva, há a identidade de projeto que, por sua vez, produz o sujeito. Fazendo referência ao sujeito Castells remete ao conceito de Touraine:

    “Chamo de sujeito o desejo de ser um indivíduo, de criar uma história pessoal, de atribuir significado a todo o conjunto de experiências da vida individual... A transformação de indivíduos em sujeitos resulta da combinação necessária de duas afirmações: a dos indivíduos contra as comunidades, e a dos indivíduos contra o mercado” (Touraine, 1995 citado por Castells, 1999, p. 26).

    Essa identidade é fruto de um projeto de vida diferente, para dar sentido a uma transformação da sociedade ou, até mesmo, para buscar uma reconciliação entre os humanos no campo da religião.

 

    As identidades coletivas não são estáveis e se constituem de uma dinâmica de grupo, sendo que a identificação desse coletivo vive-se com o alargamento de si mesmo (Kaufmann, 2004). Partimos do princípio que este si carrega diferentes ingredientes afetivos e cognitivos representados por um processo interno através dos quais o psiquismo organiza todas as informações externas (percepções, sensações, informações diversas...) e interna (sentimentos e emoções vividas, pensamentos e reflexões...) constituindo o saber universal do sujeito, remetendo-se ao indivíduo. Tornando um saber sobre si mesmo e fazendo com que haja uma fonte de sentimento de identidade individual.

 

    Claro que esse sentimento não se organiza de maneira estática e pacífica, tudo acontece em meio a conflitos e tensões numa dinâmica social, portanto o conceito de si próprio vem nos definir em função da idade e das experiências vividas. É inegável que há uma complexidade na constituição da identidade individual, até porque esta constituição do Eu (self) se dá em relação ao outro.

 

    E o “eu” se consiste de um ato consciente, subjetivo pelo qual o indivíduo se sente diferente dos outros (Kaufmann, 2004), mas o processo de construção da identidade desse “eu”, não deixa de estar em constante processo de mudança na medida em que esse indivíduo vai adquirindo consciência do ambiente ao seu redor. E neste ambiente tem como pano fundo a aceleração da informação, flexibilização, informalização, globalização dos sistemas de produção, distribuição e consumo (Castells, 1999).

 

    Dessa forma, fica demonstrado que o complexo de identidades coletivas e identidade individual flutuam em um movimento dinâmico, mas ao mesmo tempo são sustentados por pilares de equilíbrio, engrenados num mecanismo endógeno e exógeno, de forma que o “comportamento individual não pode ser, portanto, entendido sem que seja levado em conta o comportamento coletivo. A consciência de nossa própria identidade é um dado essencial e primeiro que anima nossa relação com a existência e o mundo” (Duarte e Medeiros, 2009, p. 114).

 

Referências

 

    Bauman, Z. (2005). Identidade (C. A. Medeiros, Trad.). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

 

    Castells, M. (1999). A sociedade em Rede: A era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura: O poder da Identidade. (5ª ed.) (K. B. Gerhardt, Trad.). São Paulo: Editora Paz e Terra.

 

    Ciampa, A. C. (2005). A estória do Severino e a história da Severina: Um ensaio de psicologia social. São Paulo: Brasiliense.

 

    Couche, D. (1999). A noção de cultura nas ciências sociais. (V. Ribeiro, Trad.). Bauru: EDUSC.

 

    Duarte, M. B. B. & Medeiros, J. L. (orgs.) (2009). Mosaico de identidades: Interpretações contemporâneas das ciências humanas e a temática da identidade. Curitiba: Juruá.

 

    Dubar, C. (1997). A Socialização – construção das identidades sociais e profissionais. (1a ed.) (A. P. R. Botelho e E. P. R. Lamas, Trad.). Portugal: Porto Editora.

 

    Dubar, C. (2009). A crise das identidades: A interpretação de uma mutação. (1ª ed., M. A. L. Barros, Trad.). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. (Obra original publicada em 2009).

 

    Erikson, E. H. (1987) Identidade, Juventude e Crise (2a ed.) (A. Cabral, Trad.). Rio de Janeiro: Editora Guanabara.

 

    Goffman, E. (1988). Estigma: Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. (4ª ed.) (M. B. M. L. Nunes, Trad.). Rio de Janeiro: LTC Editora.

 

    Hall, S. (2003). A identidade cultural na pós-modernidade. (T. T. Silva, Trad.), Guaracira Lopes Loura. (8ª ed.). Rio de Janeiro: DP&A.

 

    Kaufmann, J. C. (2004). A Invenção de Si: Uma teoria da identidade. Tradução Joana Chaves. – Coleção: Epistemologia e Sociedade. Lisboa: Instituto Piaget.

 

    Ricoeur, P. (2014). O si-mesmo como outro. (I. C. Benedetti, Trad.) São Paulo: Editora WMF Martins Fontes.

 

    Singly, F. (2006). Uns com os outros: Quando o individualismo cria laços.(1ª ed., M. B. Figueiredo, Trad.). Lisboa: Instituto Piaget. (Obra original publicada em 2003).

 

    Touraine, A. (1994). Critica da Modernidade. Petrópolis: Ed. Vozes.

 

    Wieviorka, M. (2002). A Diferença. Tradução Miguel Serras Pereira. Lisboa: Edições Fenda.


Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 249, Feb. (2019)

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