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Desnutrição em crianças indígenas brasileiras de 0 a 5 anos de idade: uma revisão

Malnutrition in Brazilian indigenous children aged 0 to 5 years of age: a review

Desnutrición en niñas y niños indígenas brasileños de 0 a 5 años: una revisión

 

Joas Soares Lauriano*

joas222@hotmail.com

Francielli Luiza Silva Malaquias**

francielli_luiza@hotmail.com

Danielle Martins Pereira Martins***

danipmartins82@gmail.com

Marianne de Faria Chimello****

marianne-fc@hotmail.com

Natália Miranda da Silva*****

naymiranda24@hotmail.com

Nyvian Alexandre Kutz******

nyviankutz@hotmail.com

Marcia Maria Hernandes de Abreu de Oliveira Salgueiro*******

marciasalgueironutricionista@yahoo.com.br

 

*Enfermeiro, Mestrando em Promoção da Saúde

pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo

**Enfermeira, Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena – Vilhena-RO

Secretaria Especial de Saúde Indígena – SESAI, vinculada ao Ministério da Saúde

***Graduanda em Nutrição pelo Centro Universitário Adventista

de São Paulo. Bolsista PIBIC

****Graduanda em Nutrição pelo Centro Universitário Adventista

de São Paulo. Voluntária de Iniciação Científica

*****Nutricionista pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo

******Nutricionista, Mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo

Docente do Curso de Nutrição do Centro Universitário Adventista de São Paulo

*******Nutricionista, Doutora e Mestre em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo

Docente do Mestrado em Promoção da Saúde e do Curso de Nutrição

do Centro Universitário Adventista de São Paulo

(Brasil)

 

Recepção: 21/03/2019 - Aceitação: 10/07/2019

1ª Revisão: 14/06/2019 - 2ª Revisão: 08/07/2019

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

 

Resumo

    O Brasil conta com uma grande diversidade de povos indígenas, onde muitos vivem em situação de precariedade, que logo afeta suas condições de saúde, em especial seu estado nutricional. Este trabalho objetivou-se a revisar a literatura existente sobre a presença de desnutrição em crianças indígenas brasileiras de 0 a 5 anos de idade. Foram realizadas buscas nas bases de dados eletrônicas MEDLINE e LILACS, bem como textos oficiais e levantamentos, a partir da leitura integral dos textos que tinham como objetivo caracterizar o estado nutricional de crianças indígenas brasileiras. Foram encontrados 14 artigos sobre o tema, a maioria descrevendo a situação de um ou, no máximo, dois povos indígenas de uma determinada localidade. Encontrou-se, na maior parte dos estudos, taxas elevadas de desnutrição em crianças indígenas. Principalmente, quando comparadas com a população geral, uma maior prevalência de déficit de estatura do que de peso. Mesmo sabendo da tamanha relevância, a situação nutricional dos indígenas brasileiros é descrita em poucos estudos, sendo que esses, em sua maioria, se restringem a estudar uma única comunidade por vez. Faltam estudos que possam integrar os dados existentes e combiná-los para auxiliar numa descrição mais apurada de toda a situação.

    Unitermos: Índios Sul-Americanos. Criança. Desnutrição.

 

Abstract

    Brazil has a great diversity of indigenous peoples, where many live in precarious conditions, which soon affects their health conditions, especially their nutritional status. This study aimed to reviewing the existing literature on the presence of malnutrition in Brazilian indigenous children from 0 to 5 years of age. We searched the electronic databases MEDLINE and LILACS, as well as official texts and surveys, based on an integral reading of texts that focused on the nutritional status of Brazilian indigenous children. There were 14 articles on the subject, most describing the situation of one or at most two indigenous people of a certain locality. Most studies have found high rates of malnutrition in indigenous children. Mainly, when compared with the general population, a higher prevalence of short stature than weight deficit. Even if we know the importance of this, the nutritional situation of Brazilian natives is described in a few studies, most of which are limited to studying a single community at a time. There is a lack of studies that can integrate the existing data and combine them to aid in a more accurate description of the whole situation.

    Keywords: South American Indians. Child. Malnutrition.

 

Resumen

    Brasil tiene una gran diversidad de pueblos indígenas, muchos de los cuales viven en situación de precariedad, lo cual afecta sus condiciones de salud, especialmente su estado nutricional. Este estudio tuvo como objetivo revisar la literatura existente sobre la presencia de desnutrición en niños y niñas indígenas brasileños de 0 a 5 años. Se realizaron búsquedas en las bases de datos electrónicas MEDLINE y LILACS, así como en textos oficiales y encuestas, a partir de la lectura completa de los textos que tenían como objetivo caracterizar el estado nutricional de los niños y niñas indígenas brasileños. Encontramos 14 artículos sobre el tema, la mayoría de los cuales describen la situación de uno o como máximo dos pueblos indígenas de una localidad determinada. En la mayoría de los estudios, se encontraron altas tasas de desnutrición en niños indígenas. Especialmente, en comparación con la población general, una mayor prevalencia de déficit de altura que de peso. Incluso conociendo la relevancia, el estado nutricional de los pueblos originarios brasileños se describe en algunos estudios, la mayoría de los cuales se limitan a estudiar una sola comunidad a la vez. Faltan estudios que puedan integrar los datos existentes y combinarlos para ayudar a una descripción más precisa de toda la situación.

    Palabras clave: Pueblos originarios de Sudamérica. Niños y niñas. Desnutrición.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 24, Núm. 255, Ago. (2019)


 

Introdução

 

    O Brasil conta com uma grande diversidade de povos indígenas por todas as regiões do território nacional: são 305 etnias que, no conjunto, contam com uma população de cerca de 900 mil pessoas (IBGE, 2017). Logo, estudar a população indígena torna-se um desafio devido à grande heterogeneidade de costumes, vivências, línguas, atitudes e organização dos mesmos. (Brasil, 2009)

 

    Os índios brasileiros têm vivido um processo histórico nos últimos séculos, cuja questão reverbera em todos os aspectos de seu modo de vida atual: a perda de território, as alterações econômicas e as mudanças sofridas na cultura indígena impactam diretamente sobre suas respectivas realidades. Assim, ao se analisar a questão da alimentação, essa também sofreu com o processo de mudança de costumes dos povos indígenas. Hoje, muitos índios preferem viver em regiões urbanas, não mais produzindo seus alimentos através dos métodos tradicionais de seu povo. Mesmo os que vivem em áreas de reserva não conseguem escapar do mercado, uma vez que o processo de colonização, em suas inúmeras atividades rurais e extrativistas, provocou mudanças na natureza e afetou diretamente os hábitos alimentares desses povos. (Brasil, 2009)

 

    Dessa forma, a população indígena caracteriza-se por uma alta vulnerabilidade, principalmente pelos problemas alimentares, carências nutricionais e elevada prevalência de distúrbios nutricionais em crianças menores de cinco anos. Os distúrbios nutricionais são a quinta causa de óbito infantil na população indígena. (Brasil, 2011)

 

    A avaliação do estado nutricional é essencial para rastrear a existência de situações de risco para um indivíduo e uma população. Portanto, é através dela que é possível acompanhar o crescimento e o desenvolvimento da criança e do adolescente a fim de detectar precocemente os distúrbios nutricionais, sejam estes, desnutrição ou obesidade. (Sociedade Brasileira de Pediatria, 2009)

 

    Dessa maneira, observa-se a necessidade e a importância de se aprofundar mais dessa questão para que o conhecimento sobre o estado nutricional dos povos indígenas brasileiros saia do obscurantismo e possa ser alvo de estratégias públicas de intervenção com melhor embasamento acadêmico, vinculando a realidade com a ciência.

 

    Portanto, o presente estudo pretende revisar a bibliografia existente sobre a desnutrição em crianças indígenas de 0 a 5 anos no Brasil, a fim de que o conhecimento construído até então possa ser sintetizado, auxiliando na determinação de quais pontos necessitam uma maior atenção em pesquisas futuras.

 

Métodos

 

    O presente estudo trata-se de uma revisão bibliográfica sobre a desnutrição em crianças indígenas brasileiras de 0 a 5 anos. O objetivo principal foi coletar os dados dos artigos publicados nos últimos vinte anos a fim de ajudar a delimitar um panorama sobre a situação da saúde das crianças indígenas em relação à sua alimentação e à prevalência de estados de desnutrição.

 

    Assim, foram realizadas pesquisas por meio digital nas bases de dados eletrônicas MEDLINE (via PubMed) e LILACS (via Biblioteca Virtual em Saúde) publicadas entre 2000 e fevereiro de 2019. Para realização das buscas, foram utilizadas as seguintes palavras-chaves em combinação: desnutrição, crianças, indígenas. Optou-se por incluir artigos em língua portuguesa e inglesa, publicados em qualquer data, que tivessem como foco informações sobre o estado nutricional de crianças indígenas brasileiras.

 

    Os artigos incluídos foram lidos integralmente para a extração das principais informações acerca da temática abordada. Os dados foram então sintetizados, de maneira clara e objetiva, para a elaboração do texto final do artigo.

 

Resultados

 

    As pesquisas nas bases de dados eletrônicas tiveram um total de 38 resultados, dos quais 14 artigos cumpriam os critérios de inclusão para o estudo. Todos os textos incluídos foram produzidos por autores de instituições brasileiras, embora dois deles tenham sido encontrados apenas escritos em língua inglesa, justamente por estarem publicados em periódicos internacionais. Os estudos abrangiam pesquisas realizadas nas cinco macrorregiões brasileiras, incluindo os Estados do Pará, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Paraná, Rondônia, Acre, Mato Grosso, Pernambuco, Minas Gerais, Alagoas, Roraima, Rio de Janeiro e São Paulo.

 

    Apenas um dos estudos abrangia uma população ampla, tendo a análise dos dados de quatro das cinco regiões brasileiras; os demais eram centrados no estudo do estado nutricional de um ou mais povos indígenas específicos. Três dos estudos foram baseados em dados secundários, tanto do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) como dos Relatórios de Gestão da Secretaria de Saúde Indígena (SESAI), enquanto o restante foi realizado de forma descritiva e transversal com amostras das populações estudadas.

 

    Todos os estudos encontraram dados compatíveis com o perfil de desnutrição esperado para as crianças da população indígena, mas, ao mesmo tempo, com diferenças regionais que garantem uma alta variabilidade entre os valores encontrados. As análises presentes variaram entre aquelas restritas ao estado nutricional das populações e aquelas que avaliaram, ainda, comorbidades importantes da desnutrição, como a anemia e o risco aumentado de infecções.

 

Tabela 1. Resumo com os principais resultados dos artigos pesquisados, Juína, MT, Brasil, 2019

Autores

Título

Objetivo

Conclusão

Araújo et al., 2016

 

Desnutrição infantil em um dos municípios de maior risco nutricional do Brasil: estudo de base populacional na

Amazônia Ocidental Brasileira

Estimar a prevalência de desnutrição infantil e fatores associados em um município de elevado risco nutricional do Brasil

A desnutrição infantil permanece um grave problema de saúde pública no interior da Amazônia, indicando dificuldades adicionais para o enfrentamento do problema nessa região do país.

Barreto, Cardoso, & Coimbra, 2014

Estado nutricional de crianças indígenas Guarani nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, Brasil

Descrever e comparar os resultados de um inquérito nutricional de crianças Guarani < 5 anos de idade, residentes em aldeias nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo

Destaca elevadas prevalências de desnutrição crônica e anemia na criança Guarani, e põe em evidência as graves desigualdades em saúde e nutrição que afetam a criança indígena no país.

Caldart et al., 2016

Fatores associados à pneumonia em crianças Yanomami internadas por condições sensíveis à atenção primária na região norte do Brasil

Analisar os fatores associados à pneumonia em crianças Yanomami internadas por condições sensíveis à atenção primária

(ICSAP)

O excesso de internações evitáveis é um forte indício da baixa qualidade das ações em terras indígenas e do limitado acesso à atenção primária.

.

 

Campos et al., 2016

Déficit estatural em crianças do povo Karapotó, São Sebastião, Alagoas, Brasil

Descrever a prevalência do déficit estatural entre crianças do povo Karapotó

As prevalências de déficit estatural verificadas são expressivas, são caracterizadas como problema de saúde pública. Destacam-se, entre os fatores associados, condições desfavoráveis de alfabetização materna, renda familiar.

Fávaro, 2011

Perfil nutricional da população indígena Xukuru de Ororubá,

Pernambuco, Brasil

Traçar o perfil nutricional do povo Xukuru de Ororubá, na perspectiva de situá-los no processo de transição nutricional em curso no Brasil

O binômio obesidade-anemia está fortemente delimitado e é o grande desafio a ser enfrentado no que se refere à assistência nutricional da população Xukuru de Ororubá

Ferreira et al., 2012

Nutritional status and growth of indigenous

Xavante children, Central Brazil

Caracterizar o estado nutricional de crianças indígenas xavante

< 10 anos de idade no Brasil Central e avaliar a hipótese de uma associação entre nutrição infantil e diferenciação socioeconômica nessa população

A subnutrição, em particular o déficit de crescimento linear, é um problema de saúde notável para as crianças Xavante.

Horta et al., 2013

 

Nutritional status of indigenous children: findings

from the First National Survey of Indigenous

People’s Health and Nutrition in Brazil

O presente artigo avalia o estado nutricional de crianças indígenas <5 anos de idade no Brasil

A elevada taxa de nanismo observada em crianças indígenas aproxima-se da dos não-indígenas brasileiros há quatro décadas, antes que grandes reformas na saúde reduzissem sua ocorrência em todo o país

Kühl et al., 2009

 

Perfil nutricional e fatores associados à ocorrência de desnutrição entre crianças indígenas Kaingáng da Terra Indígena de Mangueirinha, Paraná, Brasil

O objetivo deste estudo foi avaliar o estado nutricional de crianças indígenas e investigar fatores associados a déficits nutricionais

Baixo peso ao nascer e construção de moradias não-alvenaria foram associados estatisticamente com déficits nutricionais. As crianças Kaingáng estão sujeitas a más condições de vida, associadas a déficits em seu perfil nutricional.

Leite, Santos, & Coimbra Júnior, 2007

 

Sazonalidade e estado nutricional de populações indígenas: o caso Wari', Rondônia, Brasil

Descrever a antropometria nutricional em uma população indígena do sudoeste amazônico, com particular atenção às flutuações sazonais das condições de nutrição

O perfil nutricional Wari', marcadamente precário, pode ser considerado enquanto resultante da posição marginal que as populações indígenas, como um todo, ocupam na sociedade brasileira.

Magalhães, 2010

Avaliação do estado nutricional de crianças Maxakali menores de cinco anos no município de Santa Helena de Minas (MG)

Avaliar o estado nutricional de crianças Maxakali menores de cinco anos de idade a partir de dados secundários

O índice de desnutrição nas crianças Maxakali ainda é bastante elevado

Menegolla et al., 2006

 

 

Estado nutricional e fatores associados à estatura de crianças da Terra Indígena

Guarita, Sul do Brasil

O estado nutricional de crianças menores de cinco anos e fatores associados à estatura e foram estudados usando dados de um programa para controle da desnutrição e mortalidade na Terra Indígena Guarita, Rio

Grande do Sul, Brasil, 2001/2002

O destino dos dejetos evidenciou efeito apenas no modelo bruto. Não houve evidência de efeito do número de filhos menores de cinco anos. Políticas de inclusão social e provisão de recursos sociais e de saúde são potencialmente relevantes para a saúde e nutrição nessa população.

Mondini et al., 2009

Estado nutricional e níveis de hemoglobina em crianças Aruak e Karibe – povos indígenas do Alto Xingu, Brasil Central, 2001- 2002

Avaliar o estado nutricional de crianças dos povos indígenas de famílias linguísticas Aruak e Karibe do Alto Xingu, no Brasil Central, e verificar a associação entre os níveis de hemoglobina das crianças segundo sexo, idade e estado nutricional

Verificou-se, entre as crianças indígenas, elevada prevalência de déficit de estatura; a condição de baixo peso praticamente inexiste e o excesso de peso é expressivo entre as crianças mais novas e as de maior idade. A magnitude da anemia alcança cerca de 70% e a idade parece ser o principal fator associado às baixas concentrações de hemoglobina.

Orellana et al., 2006

Estado nutricional e anemia em crianças Suruí, Amazônia, Brasil

Analisar o perfil nutricional de crianças indígenas Suruí menores de 10 anos através da antropometria e da dosagem de hemoglobina.

Os resultados apontam para um quadro de alta prevalência de desnutrição e anemia nas crianças Suruí.

Pícoli, Carandina, & Ribas, 2006

Saúde materno-infantil e nutrição de crianças Kaiowá e Guaraní, Área Indígena de Caarapó,

Mato Grosso do Sul, Brasil

Estudar o estado nutricional de crianças indígenas e conhecer condições de saúde materno-infantil.

Este estudo evidenciou elevada ocorrência de desnutrição infantil e uma preocupante situação de saúde materno-infantil.

Silva et al., 2014

Vigilância alimentar e nutricional de crianças indígenas menores de cinco anos em Mato Grosso do Sul, 2002-2011

Descrever a evolução do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) e do estado nutricional de crianças indígenas menores de cinco anos de idade no Estado de Mato Grosso do Sul, no período de 2002 a 2011.

Houve aumento da cobertura do Sisvan indígena e significativa redução da desnutrição infantil no período estudado; entretanto, não se podem negligenciar os grandes desafios, todavia existentes, para promoção da saúde e nutrição infantil nessa população.

Capelli & Koifman, 2001

Avaliação do estado nutricional da comunidade indígena Parkatêjê, Bom Jesus do Tocantins, Pará, Brasil

Conhecer o estado nutricional dos membros da Área Indígena Mãe-Maria em Bom Jesus do Tocantins, Pará

Comparativamente às curvas normatizadas da população norte-americana (NCHS), notou-se prevalência de sobrepeso e de desnutrição crônica da ordem de 6,7 e 8,6%, respectivamente, nas 104 crianças menores de dez anos avaliadas.

 

Discussão

 

    Horta et al. (2013) descrevem os dados do Primeiro Inquérito Nacional sobre a Saúde e Nutrição do Povos Indígenas Brasileiros. Esse foi o primeiro estudo a avaliar uma amostra de nível nacional, com coleta de dados de povos de quatro das cinco macrorregiões brasileiras. As prevalências de baixo peso e estatura para a idade nas crianças foram maiores na região Norte em famílias de classe econômica mais baixa, casas com piores condições sanitárias e com mães com diagnóstico de anemia. Segundo os autores, o padrão de desnutrição encontrado nas crianças indígenas era semelhante àquele presente na população não-indígena de 40 anos atrás. A evolução da assistência à saúde e às mudanças orquestradas nas políticas públicas de saúde garantiram uma redução drástica da desnutrição na população brasileira em geral, mas que não se verificou com a mesma intensidade nas crianças indígenas.

 

    Já em uma pesquisa realizada com 478 crianças de um município de alto risco para desnutrição no Estado do Acre, encontrou-se uma prevalência de 59,4% de desnutrição nos indivíduos de até 5 anos com ascendência indígena. A região é especialmente vulnerável por conta da dificuldade de acesso aos locais urbanos e, ainda, por estar localizada em uma das áreas com maior densidade de povos indígenas. A porcentagem de desnutrição encontrada nesse município foi maior que de toda população indígena brasileira e da população da região Norte. Ainda assim, algumas cidades nortistas chegam a ter taxas de desnutrição infantil ainda maiores, na casa do 80%. (Araújo et al., 2016)

 

    Em um inquérito realizado com as crianças Guarani nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, encontrou-se a taxa de 50,4% de baixa estatura para idade, 7,9% de baixo peso para idade e de 0,8% de baixo peso para estatura. Tal déficit de estatura encontrado foi 96% maior do que a média da população indígena brasileira, e, ainda, 7,2 de vezes maior do que a da população não-indígena. De forma análoga, a presença de anemia nessa mesma população foi 3,1 vezes maior do que a da população geral. Nesse caso, os dados elevados de desnutrição da população indígena, associado ao fato de os índios Guarani viverem em Estados onde estão concentrados os maiores IDH do país, mostra que a disparidade da situação do povo indígena é marcante. Junto às prevalências de desnutrição, surgem também as complicações, que, nesse caso, a marcante é a de caráter infeccioso, afinal, é a que mais leva as crianças Guarani a serem internadas. Os autores apontam que tal fenômeno pode ser explicado pelo fato desse agrupamento indígena ter entrado em um ciclo vicioso de infecção-desnutrição. (Barreto, Cardoso & Coimbra, 2014)

 

    Ao se tratar das comorbidades associadas e favorecidas pela desnutrição, o estudo de Caldart et al. (2016) descreve uma chance três vezes maior de internação hospitalar por pneumonia em crianças do povo Yanomami com desnutrição. Nessa população, foi evidenciado um aumento das hospitalizações por infecção respiratória, enquanto que a tendência nacional para os não-indígenas foi de diminuição importante dos casos graves de pneumonia, assim evidenciando a disparidade existente entre esses povos.

 

    Uma pesquisa realizada no Nordeste, com crianças de até 5 anos do povo Karapotó de um povoado da cidade de São Sebastião (AL), demonstrou menores valores de déficit estatural, mas que, ainda assim, são significativos, de 13,4%. Ressalta-se que a baixa estatura esteve mais presente nas crianças indígenas vivendo dentro do povoado (15,6%) do que naquelas que moravam na aldeia em si (9,1%). Os autores chamam a atenção para o número escasso de estudos disponíveis sobre o tema, mesmo cientes da gravidade da situação. (Campos et al., 2016)

 

    O povo Xavante, da região Centro-Oeste, apresentou um déficit de estatura em 29,9% de suas crianças, enquanto que a prevalência de baixo peso foi de 4,5%. Os valores ainda são menores do que aqueles encontrados em alguns povos da região Norte, porém, não deixam de ser significativos. Os níveis de baixa estatura foram maiores entre as crianças e 3 a 4 anos de idade (35%), tendo também uma associação direta com o IMC materno, ou seja, mães que tinham IMC maior tinham mais chances de terem filhos com maior crescimento estatural. (Ferreira et al., 2012)

 

    Em outro estudo, realizado com o povo Wari', em Rondônia, foram encontradas taxas de déficit estatural em mais de 50% das crianças avaliadas. Realizaram-se duas avaliações em diferentes períodos do ano para comparar a influência do período de secas e de chuvas na população, afinal, os hábitos alimentares são sazonais devido à disponibilidade de alimento. Apontou-se a prevalência de baixo peso para a idade, que ficou próxima aos 50%, ainda menor do que as taxas de baixa estatura (Leite, Santos, & Coimbra Jr., 2007). Valores semelhantes foram encontrados também ao se avaliar a comunidade Maxacali, a segunda maior etnia indígena aldeada de Minas Gerais, na qual os valores de deficiência do estado nutricional chegaram também próximos aos 50%. (Magalhães, 2010)

 

    Orellana et al. (2006) compararam a prevalência de anemia e as alterações do estado nutricional no povo Suruí. Foram encontradas taxas de baixa estatura para a idade de 31,4% e de baixo peso para a idade de 12,4% em crianças menores de 5 anos. As taxas de anemia foram ainda mais assustadoras, chegando a 84% nessa mesma população. O trabalho indicou uma diminuição importante na prevalência de baixa estatura entre os anos de 1987 e 2005, contudo, manteve-se taxas muito acima daquelas esperadas para a população em geral. O autor chama a atenção para a necessidade de implantação de atividades sistemáticas de monitoramento da evolução ponderal das crianças indígenas através da vigilância nutricional.

 

    Um estudo realizado com dados do SISVAN no Mato Grosso do Sul, apontou um aumento da população indígena abrangida pelo SISVAN de 82% em 2002, para 97,2% em2011, enquanto que houve diminuição nas taxas de baixo peso em crianças indígenas, variando de 16% em 2002 para 6,5% em 2011. (Silva et al., 2014)

 

    Por outro lado, Fávaro (2011) descreve uma situação muito diversa em relação ao povo Xukuru de Ororubá, o qual se encontra mais avançado no processo de transição nutricional, apresentando cada vez menos casos de desnutrição e cada vez mais adultos com sobrepeso. Os valores de desnutrição infantil encontrados foram menores do que os da população indígena geral e os da população não-indígena da região Nordeste. O autor atribui essa diferença de padrão à marcada organização política dos Xukuru, que conseguiu retomar terras que lhes haviam sido retiradas, conseguindo valorizar sua identidade cultural e garantindo uma melhor assistência à saúde para seu povo.

 

    Outro povo que fugiu à regra geral do esperado para crianças indígenas foi a comunidade Parkatêjê, no Pará, cujas taxas de baixa estatura infantil chegavam a apenas 8,6%, enquanto o sobrepeso e a obesidade nos adultos chegavam a 50% nas mulheres e 23,7% nos homens. (Capelli & Koifman, 2001)

 

    Os povos das famílias linguísticas Aruak e Karibe, da região do Alto Xingu, apresentaram uma prevalência elevada de déficit estatural, enquanto quase nenhuma criança apresentou baixo peso para a idade e os níveis de anemia encontrados chegaram a quase 70% (Mondini et al., 2009).

 

    Crianças de 0 a 5 anos do povo Kaingáng, da Terra Indígena de Mangueirinha no Paraná, tiveram um diagnóstico de baixa estatura de24,8% dos casos avaliados e de 9,2% de baixo peso para idade. Os dados que tiveram maior associação com o déficit nutricional foram o peso ao nascer e o material no qual era construída a parede da casa. O autor ressalta que o povo Kaingáng está inserido em um contexto de condições de vida precárias, o que desfavorece o estado nutricional. (Kühl et al., 2009)

 

    Menegolla et al. (2006), trazem mais dados para a discussão: além de apresentarem os valores de baixa estatura de 34,7% e de baixo peso de 12,9% para as crianças menores de 5 anos da Terra Indígena Guarita (RS), também utilizam modelos de regressão linear múltipla para identificar os possíveis fatores de risco para tal condição. Foram encontradas associações entre o nível de escolaridade da mãe e a idade com que teve o primeiro filho. Da mesma forma, mostraram que os meses em que os indivíduos passavam a usar água de fonte/poço/rio influenciaram em maiores taxas de desnutrição.

 

    As comunidades Kaiowá e Guarani do Mato Grosso do Sul também obtiveram resultados muito semelhantes, com prevalência de baixa estatura em menores de 5 anos de 34,1%, enquanto que o baixo peso estava presente em 18,2% dos indivíduos entrevistados. Observou-se que quase um quinto das mães não realizaram o pré-natal e mais da metade teve o parto domiciliar. (Pícoli, Carandina, & Ribas, 2006)

 

    De uma maneira geral, dentre os déficits nutricionais avaliados pelos estudos com diferentes povos indígenas, a porcentagem de baixa estatura para a idade foi sempre maior do que a de baixo peso para a idade. Essa característica foi descrita por alguns dos autores como sendo típica do padrão nutricional esperado dos indígenas brasileiros. (Capelli & Koifman, 2001; Fávaro, 2011)

 

    Outro ponto que se destaca na maior parte dos trabalhos é o impacto da condição socioeconômica dos povos indígenas em sua situação nutricional. É muito perceptível que o processo de marginalização e perda de direitos dos povos indígenas têm afetado suas condições de saúde e de nutrição, assim como a perda de suas áreas naturais de caça e pesca, a submissão ao padrão cultural dos não-índios e à disparidade econômica que apresentam.

 

Conclusão

 

    Os estudos abordados nesta revisão bibliográfica descrevem a situação nutricional dos indígenas brasileiros, que, em sua maioria, apresentam altas taxas de baixa estatura para idade em crianças menores do que 5 anos. É importante que cada caso seja estudado isoladamente, devido à grande diversidade cultural dos diferentes povos indígenas, por isso justifica-se a grande predominância de estudos que abordavam uma ou, no máximo, duas populações diferentes, se aprofundando nas características singulares de cada povo. A situação nutricional e de saúde da população indígena brasileira é de extrema complexidade, logo,faz-se necessário mais estudos que possam contribuir para as políticas públicas que assegurem melhores condições de saúde de todas as comunidades indígenas.

 

Referências

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 24, Núm. 255, Ago. (2019)

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