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Considerações sobre a preparação física para pilotos de automobilismo. Revisão narrativa

Considerations on physical preparation for motoring drivers. Narrative review

Consideraciones sobre la preparación física para pilotos de automovilismo. Una revisión narrativa

 

Alessandro de Freitas*

ale.educacaofisica@uninove.br

Leandro Manoel de Oliveira**

leandroedufisica2014@hotmail.com

 

*Mestre em Educação Física

Docente Universidade Nove de Julho

**Especialista em Medicina do Esporte e Atividade Física

Universidade Estácio de Sá

(Brasil)

 

Recepção: 01/06/2018 - Aceitação: 04/03/2019

1ª Revisão: 24/02/2019 - 2ª Revisão: 01/03/2019

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

 

Resumo

    Este trabalho teve como objetivo fomentar as discussões e identificar parâmetros necessários para preparação física de pilotos de corrida. Os descritores utilizados foram automobilismo; preparação física e piloto de corrida. Dentre os resultados foram encontradas evidências que relatam a alta demanda física ao praticar a modalidade, considerando a FCMáx, o lactato como indicadores de esforços. O nível de lesão também se mostrou importante uma vez que há um grande envolvimento muscular e altas temperaturas dentro dos carros. Conclui-se que estes parâmetros podem subsidiar profissionais na preparação física dos pilotos e que não se devem desconsiderar os princípios do treinamento para tal.

    Unitermos: Automobilismo. Preparação física. Piloto de corrida.

 

Abstract

    This study aimed to conduct to foment the discussions and to identify parameters necessary for the physical preparation of race pilots. The descriptors used were motoring; physical preparation and racing driver. Among the results, were found evidences that report high physical practice demand, considering FCMax and basic lactate testing as effort indicators. The level of injury also proved to be important since there is a big muscle involvement and high temperatures inside cars. We conclude that these parameters may help professionals in the physical preparation of pilots and should not disregard the principles of training for such.

    Keywords: Motoring. Physical preparation. Racing driver.

 

Resumen

    Este trabajo tuvo como objetivo fomentar las discusiones e identificar parámetros necesarios para la preparación física de pilotos de carreras. Los descriptores utilizados fueron automovilismo; preparación física y piloto de carrera. Entre los resultados se encontraron evidencias que refieren la alta demanda física al practicar esta modalidad, considerando la FCMáx, y el lactato como indicadores de esfuerzos. El nivel de lesión también aparece relevante ya que hay un gran compromiso muscular y altas temperaturas dentro de los vehículos. Se concluye que estos parámetros pueden aportar a los profesionales en la preparación física de los pilotos y que no se deben descartar los principios del entrenamiento para ello.

    Palabras clave: Automovilismo. Preparación física. Piloto de carreras.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 250, Mar. (2019)


 

Introdução

 

    Não há dúvidas que a preparação física é um importante componente para práticas de modalidades esportivas. Muitos são os fatores que compõe o processo de preparação física. Gomes (2002) sugere que este conjunto de fatores apresentam um cenário complexo, mas que todos eles devem estar intimamente relacionados as características da modalidade (aspectos físicos, fisiológicos, técnicos, táticos) a ser praticada e aos objetivos estabelecidos por seus praticantes.

 

    Seja no kart rental, amador ou profissional, nas modalidades de fórmula, nas competições de marcas (carros de rua preparados) ou protótipos, o piloto é componente primordial desta prática esportiva e junto a ele devem estar as principais variáveis a serem investigadas. A caracterização da prática (capacidades físicas relacionadas à prática, demandas físiológicas, aspectos biomecânicos do movimento, demandas energéticas, dentre outras situações) deve ser sempre realizada, e deve estar associada a altas temperaturas e duração de prova que variam entre 30, 45 minutos (a maioria) ou 24 horas (endurances).

 

    Diante deste cenário, diagnosticar, avaliar e entender as capacidades físicas, estruturas psicológicas envolvidas torna-se essencial para treinadores e praticantes da modalidade, uma vez que o nível de exigência física e a precisão dos movimentos são consideradas altas. Controlar ou estabelecer uma relação de conhecimento sobre esses fatores podem contribuir para a melhora de performance dos pilotos diante dos contextos de ansiedade, tensão e fadiga.

 

    A literatura apresenta alguns estudos que indicam variáveis a respeito das condições físicas a que os pilotos são submetidos e algumas características relacionadas à modalidade automobilística (temperatura interna do corpo, indicadores de lactato, análise da frequência cardíaca e tempo de reação). Entretanto, poucos são os estudos que consideram as relações destas variáveis em relação a preparação física dos pilotos.

 

    Deste modo, o presente estudo, por meio de uma revisão narrativa, teve como objetivo descrever os principais parâmetros acerca das condições de pilotagem de praticantes de automobilismo e apresentar requisitos necessários para preparação física de pilotos das diferentes modalidades automobilistas. Neste estudo foram encontrados artigos sobre as modalidades de fórmula, kart e stock car.

 

Metodologia

 

    Trata-se de um estudo de revisão narrativa que segundo Rother (2007) viabiliza análises e interpretações críticas de um determinado tema a partir de um referencial teórico e perguntas norteadoras. As bases eletrônicas consultadas foram: Medline, PubMed, Lilacs, Embase e Scielo (br e org). Os descritores utilizados foram automobilismo; preparação física e piloto de corrida e suas correspondentes na língua inglesa: “motoring” e “physical preparation” and “racing driver”.

 

Critérios de inclusão

 

    Estudos que avaliam as demandas das capacidades físicas, psicológicas, ambientais e fisiológicas de pilotos de corrida; estudos que avaliaram os efeitos do exercício físico no desempenho de pilotos de corrida.

 

Critérios de exclusão

 

    Estudos que não apresentaram o exercício físico como intervenção, ou com intervenção não detalhada. Artigos que apresentavam variáveis que não identificassem os descritores e/ou suas correlações. Artigos que não apresentam nenhuma indicação de resultados referentes aos pilotos.

 

Resultados e discussões

 

    Foram encontrados 42 estudos que citam o tema a ser pesquisado, dos quais após o procedimento de análise, exclui-se 28 estudos. Dentre eles apenas um não foi obtido, conforme Figura 1.

 

Figura 1. Fluxograma

 

    Para melhor compreensão e apresentação dos dados, dos 13 estudos selecionados, foram atribuídas categorias (perguntas) para melhor análise narrativa, sendo: (i). Quais os níveis de Intensidade que a pratica automobilista exige dos pilotos? (ii). Existem indicadores de fadiga e/ou lesões durante as práticas? (iii). Quais as capacidades Físicas e/ou neuromotoras exigidas durante a prática? (iv). Quais os indícios para prescrição do treinamento?

 

    Perante os resultados, o texto foi dividido em três momentos. O primeiro discute os níveis de intensidade, o segundo diz respeito à fadiga e as lesões relatadas e o terceiro trata das capacidades Físicas e ativação neuromuscular relatadas no momento do ato de pilotar.

 

Níveis de intensidade

 

    A identificação dos níveis de intensidade de uma modalidade esportiva deve seguir fielmente suas características e influências fisiológicas em sua execução. Para Lazzoli et al. (2001), devem ser considerados aspectos epidemiológicos, de efeito sobre o aparelho locomotor e esforço do corpo em sua totalidade durante a prática. Como no caso do automobilismo a locomoção do corpo é realizada por uma máquina (esporte a motor), e considerando a sugestão de classificação utilizada por Lazzoli et al. (2001), podemos inferir que as modalidades de esporte a motor possuem:

  • Componente dinâmico leve: Pouco deslocamento corporal durante a prática (uso do tronco, abdômen e membros superiores para a condução do veículo e uso dos membros inferiores para aceleração e desaceleração.

  • Componente estático moderado: No que diz respeito ao nível de mobilidade e comprometimento dos efeitos sobre o aparelho locomotor. Entretanto a modalidade é Nível de esforço físico vigoroso: Devido ao alto nível de desidratação, frequência cardíaca média acima dos padrões e alta probabilidade de síncope e risco de colisões.

    Para ilustrar estas classificações, a intensidade está presente nas diferentes modalidades automobilísticas investigadas. Alguns estudos apresentaram de maneira específica marcadores que auxiliam a identificação destes níveis bem como as capacidades físicas (Tabela 1).

 

Tabela 1. Marcadores de Níveis de Intensidade em Pilotos de Corrida

Autores

Ano

Investigação

n

Análise

Schwaberger

1987

Frequência cardíaca, respostas metabólicas e hormonais ao estresse físico e psicoemocional

20 pilotos (Fórmula Ford e Renault-5-Cup)

FCMax; Teste de Urina (catecolaminas); Ergometria exaustiva, Lactato e Glicose).

Gobatto, Mendonça & Matsushigue

2000

Respostas do lactato sanguíneo e da frequência cardíaca

1 piloto profissional (kart e FC)

FC registrados em intervalos de 15 segundos. Prova de campo para determinar limiar anaeróbio e lactato.

Jacobs et al.

2002

Respostas fisiológicas associadas a condução de pilotos em alta velocidade

7 pilotos profissionais

Consumo de Oxigênio VO2máx; Análise metabólica (EKG)

Brearley & Finn

2007

Descrição da Sensação térmica, cardiovascular e perceptiva de pilotos durantes provas

4 pilotos

Ingestão de pílula termostática; FC; Escala de sensação térmica (GAGGE) e escala de esforço percebido - BORG

Matsumura et al.

2011

Variáveis entre treino e competições de kart

3 pilotos profissionais

Força G e Frequência Cardíaca (frequêncímetro)

Sperlich et al.

2014

Respostas cardiorrespiratórias, metabólicas e hormonais dos pilotos de kart indoor de elite

10 pilotos de kart indoor de elite

Absorção máxima de oxigênio e a frequência cardíaca: teste de rampa (100 W, aumento de 30 W · min-1); lactato sanguíneo e cortisol salivar; Percepção de Esforço subjetivo

Durand et al.

2015

Demandas energéticas e correlações com a frequência cardíaca

1 equipe de endurance - Kart (8 pilotos)

FC em intervalos de 5 segundos. O gasto total de energia e a relação de atividade física foram determinados por acelerômetro

Elaborado pelos autores (2019)

 

    Os artigos selecionados, destacam a frequência cardíaca (FC) como uma variável fundamental para monitoramento e predição da intensidade: Os níveis de FC variaram durante as provas entre 157 batimentos por minuto (bpm) (Durand et al., 2015) e 193 bpm (Sperlich et al., 2014). Esses valores correspondem em média a 85% da FCmáx (Frequência Cardíaca Máxima) de seus praticantes.

 

    Utilizar a frequência cardíaca como indicador de análise da modalidade, além de ser um importante marcador de intensidade, pode auxiliar os treinadores em seus treinamentos quando os pilotos estiverem em sessões de treinamento fora das pistas, aproximando o nível de intensidade das práticas.

 

    Dentre os fatores que podem explicar a variação estão: Contexto da mensuração durante treinos x competições, condições de temperatura, níveis de esforços isométricos, altas velocidades, trepidações do equipamento, pouco tempo para relaxamento muscular (Schwaberger, 1987; Gobatto, Mendonça & Matsushigue, 2000; Brearley & Finn, 2007; Matsumura et al.; Sperlich et al., 2014 & Durand et al., 2015).

 

    Podemos destacar o estudo de Matsumura et al. (2011) que, avaliando pilotos de kart profissional durante as competições, atingiram níveis 168,8 bmp de média enquanto durante os treinos os níveis foram de 140,9 bpm. Já Durand et al. (2015) mensuraram valores aproximados de 157 bpm (frequência média de 82%), encontrando uma relação direta de gasto energético de 300 kcal em uma prova de 25 minutos de kart profissional, mensurando um par de METS de 5,6. Esses níveis de esforços são semelhantes às modalidades de basquetebol, voleibol dentre outras.

 

    Tendo em vista que o ato de pilotar exige esforço moderado a vigoroso, alguns autores avaliaram as respostas do lactato durante a prática. Para as modalidades de Fórmula, Kart Profissional, Kart Rental, os níveis de concentração de lactato sanguíneo foram significativamente superiores após a corrida do que no início dela (Schwaberger, 1987; Gobatto, Mendonça & Matsushigue, 2000; Sperlich et al., 2014).

 

    O estudo de Schwaberger (1987), apresenta uma alta correlação entre os níveis de lactato encontrados após as corridas quando comparados com os testes experimentais. No estudo de Gobatto, Mendonça e Matsushigue (2000), apenas um piloto foi avaliado, entretanto o mesmo fez os testes pilotando um kart profissional e um carro de corrida (F-Corsa). Em ambas situações os níveis de concentração de lactato foram elevados após a pratica, sendo que no kart profissional os resultados foram mais expressivos, indicando maior esforço nesta modalidade quando comparado com o carro.

 

    No estudo de Sperlich et al. (2014), os autores encontraram alta correlação entre os níveis de lactato sanguíneo, o cortisol salivar e a percepção subjetiva do esforço, indicando que praticantes da modalidade Kart Rental apresentaram níveis propensos à fadiga. Entretanto, os autores indicam que a modalidade pode ser classificada como atividade de esforço moderado, mostrando que a especificidade está mais relaciona aos aspectos psicofísicos do que somente as modulações fisiológicas.

 

Fadiga e lesões

 

    Assim como nos demais esportes, a exigência da aptidão física e do desempenho, seja no nível amador ou profissional, faz com que a modalidade conduza o organismo/praticante ao mais próximo de seus limites, consequentemente ao desgaste, a fadiga e a ocorrências de lesões. Existem correlações diretas entre a FC, níveis hormonais e enzimáticos e percepções térmicas que se destacam quando se fala de fadiga e lesões (Tabela 2).

 

Tabela 2. Fatores que influenciam a fadiga e lesões em pilotos

Autores

Ano

Investigação

n

Análise

Schwaberger

1987

Frequência cardíaca, respostas metabólicas e hormonais ao estresse físico e psicoemocional

20 pilotos (Fórmula Ford e Renault-5-Cup)

FCMax; Teste de Urina (catecolaminas); Ergometria exaustiva, Lactato e Glicose).

Tsopanakis & Tsopanakis

1998

Respostas hormonais,e antioxidantes, lipídios e níveis de enzimas em pilotos

7 pilotos profissionais

Os parâmetros medidos foram: testosterona (Tes), cortisol (Cor), IgM, IgA, colesterol, HDL, billirrubina, ceruloplasmina, ureia, ácido úrico, creatina quinase e transaminases

Mansfield & Marshall

2001

Lesões Músculos-esquelética

13 pilotos profissionais de Rally e 105 amadores

Questionário de Percepção de Lesão

Brearley & Finn

2007

Descrição da Sensação térmica, cardiovascular e perceptiva de pilotos durantes provas

4 pilotos

Ingestão de pílula termostática; FC; Escala de sensação térmica (GAGGE) e escala de esforço percebido - BORG

Yamakoshi et al.

2010

Monitorar a temperatura corporal central e outras variáveis ​​fisiológicas e ambientais

15 pilotos

Termômetro de radiação modificado - analise de temperatura corporal através do tímpano

Minoyama & Tsuchida

2014

Lesões registradas durante e após corridas entre 1996 e 2000

81 corridas 2607 pilotos

102 incidentes registrados (taxa de acidentes 1,2 por 1000 concorrentes). As maiores lesões em carros fórmula (58%). Os hematomas dos membros inferiores eram mais comuns que os hematomas dos membros superiores.

Wertman, Gaston & Heisel

2016

Epidemiologia de lesões NASCAR

Revisão 2013 e 2014

118 lesões. Os pilotos estão propensos a neuropatias, como a síndrome das vibrações mão-braço.

 

    Estudos experimentais apontam alterações de catecolaminas presentes na urina dos pilotos (adrenalina + noradrenalina) após as corridas.

 

    Shwaberger (1987) avaliou 20 pilotos durante as provas e em condições de corrida utilizando ergometria. A média foi de 252,3 +/- 77,9 ng min-1 durante as corridas de carro e 121,9 +/- 37,3 ng min-1 durante ergometria exaustiva.

 

    Tsopanakis e Tsopanakis (1998) detectaram aumento significativo de cortisol e enzima muscular, a creatina quinase (CK) aumentou em 6 vezes (p <0,01) após as corridas de carro.

 

    Esses marcadores indicam alto potencial de fadiga durante o esforço físico e potencial considerado para lesões. As condições de calor, às quais os praticantes são submetidos também devem ser consideradas correlacionais à fadiga. Nos interiores dos carros, os pilotos estão sujeitos a suportar altas temperaturas. O uso de capacete, balaclava, macacão, luvas e sapatilhas, que por sua vez são equipamentos obrigatórios para a segurança dos pilotos limitam a ventilação e hidratação dos mesmos aumentando exponencialmente a temperatura corporal nas competições. As temperaturas do corpo podem atingir níveis entre 38,4 °C e 39,7 °C) após a corrida.

 

    Esses dados corroboram com a pesquisa de Yamakoshi (2010) que encontrou temperaturas similares em pilotos de kart 36,8 ℃ para 38,2 ℃ e 41°C ao redor do corpo. Naturalmente a percepção de calor é aumentada por conta dos fatores externos, e o desconforto térmico pode atingir níveis extremos após as corridas.

 

    No estudo de Brearley & Finn (2007) a análise da temperatura dentro do carro era feita por sensores acoplados a uma cápsula de silício. As informações eram registradas a cada 30 segundos e foram consideradas avaliando pilotos em provas de curta e longa duração. Os pilotos afirmaram que enfrentam desconforto térmico e esforço físico em níveis elevados, porém não foi relatado exaustão durante ou até mesmo após a competição. Este fato pode ser explicado por se tratarem de pilotos profissionais que além de estarem adaptados a estas condições, já realizam preparação física.

 

    Além da fadiga percebida nestes estudos, as lesões podem estar relacionadas não somente aos acidentes, mas às vibrações, relacionadas às condições de adequação do carro À estatura do piloto e ao tipo de esforço muscular exigido.

 

    Na perspectiva de investigar essas questões, Minoyama & Tsuchida (2014) avaliaram pilotos de diferentes categorias em monopostos (com apenas um local para banco) e categoria turismo (carros de rua adaptados para as provas). Foram registrados 102 incidentes durante as provas (taxa de acidentes 1,2 por 1000 concorrentes) e treze ferimentos após a corrida, sendo as maiores lesões em carros fórmula (58%). Os hematomas dos membros inferiores eram mais comuns que os hematomas dos membros superiores. Essas lesões foram atribuídas, em sua maioria, a ação da força “g” (unidade de aceleração correspondente), que se aproxima entre 5 a 10 g durante a aceleração de 160-200 km/h.

 

    Em outro estudo conduzido por Mansfield e Marshall (2001), 91% dos participantes que competiram ou testaram por mais de 10 dias por ano relataram desconforto em pelo menos uma área do corpo após a pratica de Rally. Problemas na coluna lombar (70%), coluna cervical (54%), ombros (47%) e coluna torácica (36%) foram os mais comuns.

 

    Wertman, Gaston e Heisel (2016), apresentam resultados com diferentes lesões em posições especificas avaliadas durante uma temporada de corrida (NASCAR). Observaram incidências de lesões na extremidade superior (mãos), no rádio, escápula e neuropatia causada pelas pressões nos nervos durante as provas. Deve-se levar em consideração o tempo de competição desta modalidade, que ultrapassa 2hs. Ainda neste estudo os autores sugerem que a alta pressão carpal pode ocasionar lesões como a síndrome do túnel do carpo, resultante da compressão do nervo mediano localizado no punho (túnel do carpo).

 

Capacidades físicas e ativação neuromuscular

 

    As respostas motoras estabelecidas pelo conjunto homem x máquina são sempre correlacionadas ao objetivo de ser mais preciso, constante e rápido durante as provas. O planejamento e os treinamentos que antecedem as provas extrapolam os circuitos e pistas, pois os altos custos inviabilizam treinos constantes. Por este motivo, o trabalho envolvendo grupos musculares exigido durantes as competições devem receber uma atenção especial, concomitante às capacidades físicas envolvidas na ação de pilotar.

 

    A Eletromiografia (EMG), tem sido um recurso bem utilizado para monitorar a ação neuromuscular e das capacidades físicas que envolvem velocidade de reação, força, resistência muscular e equilíbrio (Tabela 3).

 

Tabela 3. Estudos sobre as Capacidades Físicas e Ativação Neuromuscular

Autores

Ano

Investigação

N

Análise

Backman et al.

2005

Características Neuromuscular e Performance de Pilotos

Pilotos de Rally, 9 pilotos de corrida de rua e 10 pessoas fisicamente ativos (grupo controle)

Teste de velocidade, força muscular e resistência muscular e preensão manual

Baur et al.

2006

Tempo de Reação, Estabilidade e Capacidade de Força

8 pilotos e 10 pessoas fisicamente ativo (controle)

Controle Postural (plataforma móvel); Força de Extensores da perna; Força de Resistência MMSS

Balasubramanian & Adalarasu

2007

Nível de Fadiga em grupos Musculares (ombro e pescoço)

20 Pilotos Profissionais e Amadores

Jogo em um simulador de automóveis, usando os EMG.

Figueirêdo; Almeida & Santos

2012

Analisar o comportamento eletromiográfico da musculatura cervical e do ombro

21 pilotos de kart

Eletromiografia – EMG

 

    Alguns pilotos apresentam características semelhantes, às vezes superior a atletas de diferentes modalidades; por exemplo, níveis elevados de pressão manual, flexão do ombro e força de flexão plantar do tornozelo em comparação a grupos de pessoas fisicamente ativos (Backman et al., 2005).

 

    No mesmo estudo o autor comparou também pilotos de Rally x pilotos carros de turismo, sendo que os de Rally foram mais fortes na flexão plantar e forças de extensão do tronco, enquanto que os pilotos de turismo foram mais fortes nas flexões e extensão lateral do pescoço (Backman et al., 2005).

 

    Para Baur et al. (2006), há uma necessidade no desenvolvimento de intervenções que possuem objetivos relacionados à força, apesar do corpo permanecer grande parte do tempo em baixa ou nula mobilidade, uma vez que há grande ativação muscular em função da necessidade de estabilidade corporal, bem como, relacionada à resistência muscular. Neste estudo, foram avaliados o controle postural, força dos extensores de perna, força de resistência de membros superiores e tempo de reação de pilotos comparando com pessoas fisicamente ativas. Não houve diferenças entre os grupos, com exceção do tempo de reação (Baur et al., 2006).

 

    O autor ainda indica que os procedimentos de frenagem podem chegar a 700 N em carros de turismo. Associadas as vibrações dos carros durante a frenagem; a ação aplicada no pedal de freio pode equivaler cerca de 50 a 80 Kg de força. Essas condições justificariam as sobrecargas em regiões específicas e movimentos repetitivos.

 

    Balasubramanian et al. (2007) contribuíram no que se diz respeito à identificação e análises da atividade muscular envolvendo ombro e pescoço (musculatura que supostamente são as mais envolvidas na ação) durante simulações de corrida. Para tal separaram os pilotos em dois grupos, profissionais e não profissionais; e realizou testes acoplados em simuladores por eletromiografia - EMG (Figura 2). Além de identificar os músculos ativados, o estudo tinha o objetivo de iniciar propostas de prescrição, no caso da preparação física e da reabilitação.

 

Figura 2. Eletrodo de superfície EMG - RSC: esplênio da cabeça; 

RT, trapézio direito; RMD, deltóide medial direito (Balasubramanian et al., 2007).

 

    Foi considerado o tempo de pilotagem de 15 minutos. Neste período, foram observadas diferenças significativas de ativação nos músculos deltóide esquerdo, trapézio e esplênio da cabeça. Os demais grupos musculares observados não apresentaram grandes padrões de ativação. Por se tratar de uma simulação, os autores sugerem que esta estimulação do músculo é dependente do tamanho das unidades motoras ativas para força de contração e que novos padrões de ativação são encontrados em contexto real.

 

    Estes dados corroboram com o de Moshou et al. (2005) que afirmam que os grupos musculares dominantes na condução de um carro de corrida são os deltóides, bíceps, tríceps, flexor radial do carpo, trapézio e esplênios da cabeça.

    

    Em outro estudo utilizando a variável EMG, porém na modalidade de Kart Rental, Dantas, Figueiredo e Santos (2012) analisaram a ativação dos grupos musculares: TS = Trapézio Superior; EA = Escaleno Anterior; ECM = Esternocleidomastoideo; DA = Deltóide Anterior. Foi realizada a análise dos dois hemisférios corporais. Os resultados apontam menor ativação dos músculos cervicais (TS, EA e ECM) quando relacionados aos resultados encontrados no músculo DA. Isso é um importante indicativo para a prescrição de exercícios para os praticantes da modalidade.

 

Conclusões

 

    De acordo com Watkins (2006) algumas modalidades possuem similaridade com a Fórmula 1, que é a modalidade considerada elite do automobilismo (devido ao seu alto nível de complexidade e grandes investimentos). O mesmo autor também cita, além de vários pilotos (depoimentos) que as mesmas condições de pilotagem e exigências são encontradas no kart. Deste modo, sendo o kart mais acessível a pilotos amadores e profissionais, vale a pena avaliar o nível de exigência física, e condições de preparação física a partir do tempo de duração aproximada de 30 minutos (duração da corrida).

 

    Apesar dos estudos apresentarem algumas limitações, principalmente no que se diz respeito aos dados de campo e a escassez de publicações, podemos concluir que mapear as demandas que dizem respeito à preparação física é primordial,sendo estas: o volume, a intensidade, temperatura do ambiente interno e controle da temperatura do piloto, a desidratação, a preparação muscular, o envolvimento dos sistemas aeróbio e anaeróbio e o tempo de reação e atenção.

 

    No caso do automobilismo, sugere-se que os seguintes princípios dos conhecimentos científicos sejam levados em consideração para elaboração de programas de treinamento de pilotos com objetivos da preparação e melhora da condição física: Planejamento e periodização; especificidade; equilíbrio entre as dimensões físicas, psicológicas, técnicas e táticas e o respeito à individualidade biológica.

 

    Estar atento à modalidade/categoria automobilística na qual o piloto se encontra, característica do circuito (oval, misto, de alta ou baixa velocidade média), tempo de duração de prova e condições climáticas é fundamental para a composição do programa de treinamento. A preparação física poderá ser um item que contribuirá para o melhor desempenho, evitando complicações relacionadas à fadiga e lesões.

 

    Sugere-se que novos estudos possam investigar essas especificidades de cada categoria e que estas variáveis possam ser exploradas em contexto de treinamento durantes as competições.

 

Referências

 

    Backman, J. et al. (2005). Neuromuscular performance characteristics of open-wheel and rally drivers. J Strength Cond Res. Nov; 19(4):777-84.

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 250, Mar. (2019)

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