Volver a los detalles del artículo Trabajo y tiempo libre. El espacio dedicado a la recreación en la vida cotidiana del trabajador tercerizado


Trabalho e tempo livre. O espaço dedicado ao lazer no cotidiano do trabalhador terceirizado

Work and free time. The space dedicated to leisure in the daily life of the outsourced worker

Trabajo y tiempo libre. El espacio dedicado a la recreación en la vida cotidiana del trabajador tercerizado

 

Caio Tavares Arraes*

caiotarraes@gmail.com
Amanda Raquel Rodrigues Pessoa**

amandampb@hotmail.com

Marla Maria Moraes Moura***
marlamariam@hotmail.com

 

*Licenciado em Educação Física pelo Instituto Federal do Ceará - Campus Juazeiro do Norte

Aluno do Curso de Mestrado em Educação Física do Programa de Pós-Graduação

em Educação Física da Universidade Federal do Vale do São Francisco

**Licenciada em Educação Física pela Universidade Regional do Cariri

Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira

da Universidade Federal do Ceará. Professora do Curso de Licenciatura

em Educação Física do Instituto Federal do Ceará - Campus Juazeiro do Norte.
***Licenciada em Educação Física pela Universidade Regional do Cariri

Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação

da Universidade Federal de Pernambuco. Professora do Curso de Licenciatura

em Educação Física do Instituto Federal do Ceará - Campus Juazeiro do Norte

(Brasil)

 

Recepção: 01/04/2018 - Aceitação: 19/12/2018

1ª Revisão: 13/12/2018 - 2ª Revisão: 16/12/2018

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

 

Resumo

    Na modernidade, a compreensão do lazer assim como a do trabalho, perpassa por uma visão distorcida de seus sentidos e significados, impulsionada por uma corrente de idealismos neoliberais. Assim, este estudo visa analisar o tempo de não-trabalho dos servidores terceirizados, bem como o tempo dedicado ao lazer destes indivíduos. Utilizou-se uma metodologia qualitativa, baseada no materialismo histórico-dialético possibilitando a realização de entrevistas semiestruturadas com 16 servidores terceirizados do IFCE – Juazeiro do Norte, sendo 08 participantes do sexo masculino e 08 do sexo feminino, com um tempo de serviço variando entre 03 e 23 anos. A análise das entrevistas possibilitou refletir sobre a relação lazer e trabalho a partir da concepção destes sujeitos e permitiu investigar o tempo do trabalhador terceirizado e o espaço dedicado ao lazer. Perante as informações expostas e os argumentos utilizados, foi possível perceber que o lazer permanece em segundo plano no cotidiano da população, principalmente no contexto dos trabalhadores terceirizados, abrindo espaços para constantes investigações visando expandir as dimensões desta problemática.

    Unitermos: Trabalho. Tempo livre. Lazer. Trabalhador tercerizado.

 

Abstract

    In modernity, the understanding of leisure as well as of work, runs through a distorted view of its senses and meanings, propelled by a chain of neoliberal idealisms. Thus, this study aims to analyze the non-working time of outsourced servers, as well as the leisure time of these individuals. A qualitative methodology was used, based on historical-dialectical materialism, making it possible to conduct semi-structured interviews with 16 outsourced servers from the IFCE - Juazeiro do Norte, of which 08 were male and 08 female, with a service time ranging from 03 and 23 years. The interviews analysis made it possible to reflect on the leisure and work relationship from the conception of these subjects and allowed to investigate the time of the outsourced worker and the space dedicated to leisure. Given the information presented and the arguments used, it was possible to perceive that leisure stays in second place in the daily life of the population, especially in the context of outsourced workers, opening spaces for constant investigations aiming to expand the dimensions of this problem.

    Keywords: Work. Free time. Leisure. Outsourced worker.

 

Resumen

    En la modernidad, la comprensión del ocio así como la del trabajo, atraviesa una visión distorsionada de sus sentidos y significados, impulsada por una corriente de idealismos neoliberales. Así, este estudio busca analizar el tiempo de no-trabajo de los trabajadores tercerizados, así como el tiempo dedicado al ocio de estos individuos. Se utilizó una metodología cualitativa, basada en el materialismo histórico-dialéctico posibilitando la realización de entrevistas semiestructuradas con 16 empleados tercerizados del IFCE - Juazeiro do Norte, siendo 08 participantes del sexo masculino y 08 del sexo femenino, con un tiempo de servicio variando entre el 03 y 23 años. El análisis de las entrevistas posibilitó reflexionar sobre la relación ocio y trabajo a partir de la concepción de estos sujetos y permitió investigar el tiempo del trabajador tercerizado y el espacio dedicado al ocio. En cuanto a las informaciones expuestas y los argumentos utilizados, fue posible percibir que el ocio permanece en segundo plano en la vida cotidiana de la población, principalmente en el contexto de los trabajadores tercerizados, abriendo espacios para constantes investigaciones buscando expandir las dimensiones de esta problemática.

    Palabras clave: Trabajo. Tiempo libre. Recreación. Trabajador tercerizado.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 248, Ene. (2019)


 

Introdução

 

    O presente estudo aborda a relação lazer e trabalho a partir da ótica do trabalhador terceirizado. Parte-se da compreensão que o lazer na sociedade moderna é abordado como uma válvula de escape de uma rotina severamente condicionada pela necessidade produtiva imposta à classe trabalhadora, o que limita suas possibilidades, reduzindo-o apenas ao sentido de aliviar o estresse, recuperar as energias e elevar a produtividade.

 

    Deste modo, o lazer deixa de constituir uma das esferas de atividade humana e passa a servir apenas ao trabalho produtivo, reduzindo seu significado a somente uma parte constituinte do sistema, responsável por fazê-lo seguir funcionando perfeitamente, amenizando o impacto social das obrigações, principalmente aquelas referentes ao trabalho produtivo e à acumulação de capital. (Werneck, 2000).

 

    Podemos relacionar o rigoroso reducionismo do significado e sentido, não só do lazer, mas do tempo livre da classe trabalhadora, aos processos de reestruturação produtiva. Os acontecimentos acumulados nas décadas de 1980 e 1990 envolvendo o final da ditadura, o despertar dos processos de redemocratização, o constante movimento de capital estrangeiro no país, o bloqueio do Crédito Internacional e o surgimento da política de desenvolvimento denominada Consenso de Washington culminaram na incorporação, pelo governo brasileiro, do modelo de acumulação flexível, trazendo consigo a “flexibilização e a desregulamentação dos direitos sociais, bem como a terceirização e as novas formas de gestão da força de trabalho, implantadas no espaço produtivo” (Antunes, 2014, p.14).

 

    Este modelo de acumulação flexível consiste em uma nova dinâmica de expansão da produção, agregando uma nova base tecnológica, organizacional e sociometabólica para um melhor aproveitamento da força do trabalho assalariado. Ele surgiu em contraposição ao estrito modelo de produção fordista e se embasava numa maior flexibilidade dos processos do mercado e do trabalho, dos produtos e dos padrões de consumo, tendo como características os novos setores de produção, novas opções de mercado e, principalmente, a intensificação das taxas de inovação comercial, tecnológica e organizacional (Alves, 2011).

 

    Tais circunstâncias condicionaram a coexistência do modelo de produção toyotista com outros modelos produtivos (fordismo/taylorismo) ainda vigentes em parte dos ramos industriais brasileiros.

 

    A instauração da nova ordem política e econômica, sob a ótica neoliberal, direcionou a ação estatal para medidas voltadas, essencialmente, para as necessidades do capital, executando estratégias que priorizavam a acumulação da riqueza abstrata do capital, abrindo mão de estratégias que abrangiam o desenvolvimento econômico visando o benefício coletivo no que tange a produção e distribuição financeira. Em virtude disso, o Estado

    [...] foi assumindo a lógica privada na busca da eficiência e eficácia, o que significou realizar privatizações, reformas administrativas na perspectiva de enxugar o seu tamanho e de reduzir a sua importância na garantia para o pleno exercício da cidadania (civil, política e socioeconômica) (Krein, 2014, p. 15).

    A imposição da política neoliberal,o sistema de acumulação flexível e a reestruturação do sistema capitalista no Brasil, promoveram, segundo Alves (2014b), impactos destrutíveis no mundo do trabalho, consolidando a terceirização, desde que passou a ser reconhecida como atividade-meio pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST), como principal forma de flexibilização tanto do processo contratual, quanto da legislação trabalhista nacional.

 

    O modelo de trabalho terceirizado potencializou a reestruturação capitalista do país fazendo parte do processo de reordenamento da produção das grandes empresas. Com isso, elas tenderam a internalizar, gradativamente, as inovações tecnológicas e organizacionais e a exteriorizar os gastos com o contingente produtivo e as despesas com possíveis danos. Sendo assim, “distinguem-se, então, as relações de trabalho entre os trabalhadores considerados estratégicos – que permanecem na empresa principal – e os terceirizados e subcontratados” (Krein, 2014, p.16).

 

    Segundo Antunes e Praun (2015), a terceirização se tornou uma epidemia que se disseminou nos âmbitos industriais, agrícolas, de serviços e até nos cargos públicos, estendendo-se das atividades-meio para as atividades-fim. As diversas modalidades de trabalho terceirizado findaram por classificar o trabalhador em categorias primárias e secundárias, ocasionando uma condição de inferioridade ou desigualdade. Este boom das empresas terceirizadas e o processo de privatização das estatais favoreceu direta e indiretamente o processo de valorização do capital.

 

    A terceirização constituiu-se em uma importante estratégia de redução de custos da força de trabalho, tornando-se tendência no meio administrativo empresarial vindo a ser um importante componente do processo de precariedade salarial e das recém-adquiridas formas de administração da produção capitalista influenciada pelos fundamentos toyotistas (Alves, 2014a).

 

    Giovanni Alves (2014a, p. 91) disserta sobre o processo de precarização salarial, entendendo-o como “sendo o novo modo de organizar o processo de trabalho e a produção do capital a partir da lógica do trabalho flexível, sendo ela caracterizada pela adoção das novas tecnologias informacionais, gestão toyotista e relações de trabalho flexíveis”. Esse novo modo de organização fere as condições de dignidade humana, transforma o trabalho em uma elemento social sem reconhecimento, promove a precarização do salário, retira as condições de saúde “que se manifesta pelo aumento dos casos de adoecimento laboral nos locais de trabalho reestruturados” (Alves, 2014a, p.92).

 

    Deste modo, assim como o processo de terceirização, a subcontratação, a contratação do indivíduo enquanto pessoa jurídica, o trabalho informal, a ilegalidade trabalhista (que permaneceu alta) e a rotatividade de funcionários, também constituíram e disseminaram a precarização salarial e a desvalorização do trabalhador nas atividades laborais dentro das grandes empresas (Krein, 2014).

 

    Esta precarização do trabalho e, consequentemente, do trabalhador, tem em suas principais características as jornadas de trabalho mais prolongadas, acentuação no ritmo e intensidade de trabalho e os índices de rotatividade, insegurança e insalubridade cada vez mais altos. Em consequência disso, a fragmentação da classe trabalhadora no interior das empresas se torna mais evidente provocando conflitos entre trabalhadores de categorias diferentes e a divisão dos órgãos sindicais, resultando na criação de sindicatos específicos para cada setor do trabalho terceirizado, por exemplo: setores de limpeza, vigilância, alimentação, manutenção e etc. (Antunes & Praun, 2015).

 

    Lourenço Filho e Paixão (2014) evidenciam a divisão da classe trabalhadora e a separação sindical por setores. Segundo os autores, os conflitos consistiam em ameaças e confrontos entre os trabalhadores efetivos e os terceirizados. Além disso, destacam os diferentes empregadores em um grupo de empregados e as questões contratuais que carregavam uma série de diferenças de funcionário para funcionário, como aspectos que agravam o processo de precariedade laboral.

 

    O dossiê da Central Única dos Trabalhadores (CUT) realizado em 2014 sobre as faces da terceirização traz a tona o destrato das empresas para com os terceirizados, principalmente no que se refere a calotes financeiros:

    Quando se fala de terceirização no Brasil, o principal problema vivenciado pelos trabalhadores terceirizados é o calote. Basta uma simples pesquisa na internet ou conversas com os trabalhadores para constatar que o não cumprimento das obrigações trabalhistas, principalmente ao final dos contratos de prestação de serviços, é uma realidade nefasta no mundo da terceirização (CUT, 2014, p. 21).

    Outro aspecto que corrobora com a precarização do trabalho terceirizado são os acidentes e as mortes nos ambientes industriais. Por conta da flexibilização contratual e administrativa dos empregados terceirizados, as empresas contratantes se sentem isentas da responsabilidade de proporcionar segurança para o profissional, empurrando esta obrigação para as empresas prestadoras que também não tomam as medidas necessárias para a formação consciente do trabalhador no que se refere a sua segurança (Araújo, 2016).

 

    Assim, tem-se o terceirizado como um trabalhador invisível aos olhos da sociedade, sofrendo com desgastes no que tange a violação dos direitos e da dignidade humana. O dossiê da CUT também relata a discriminação que os terceirizados sofrem no interior do campo de trabalho. De acordo com o documento (CUT, 2014, p.29),

    A discriminação ocorre pela distinção criada nos locais de trabalho entre trabalhadores diretos e terceiros, seja porque o tipo de trabalho desenvolvido pelo terceirizado é considerado menos importante, seja pelas desigualdades de salário, qualificação, jornada e condições de trabalho. Os trabalhadores terceiros relatam como é difícil e duro terem que utilizar refeitórios, vestiários e uniformes diferentes dos usados por trabalhadores diretos. Condições “diferentes”, no sentido de serem de pior qualidade e precárias.

    Essa discriminação é atrelada a outras circunstâncias e gera desgastes mentais no trabalhador. Araújo (2016) agrega o fator ‘medo de ficar desempregado’ como crucial para que o terceirizado suporte todas as condições a ele impostas no ambiente de trabalho, sofrendo com a sobrecarga trabalhista que o desgasta tanto física, quanto mentalmente.

 

    Barros e Mendes (2003), em uma análise mais apropriada sobre o sofrimento psíquico de um grupo de funcionários terceirizados, apontam, em seus resultados, o desgaste físico e mental e a falta de reconhecimento as principais causas. Destacam ainda, a negação do desgaste e a aceitação das condições de trabalho como necessárias para a sobrevivência, partindo da racionalização do sofrimento, entendendo tais situações como um mal necessário.

 

    Compreende-se, então, a terceirização como um desmoralizante instrumento de acumulação de capital que abre portas para a precariedade do trabalho, provocando a corrosão dos direitos do trabalhador, desqualificando-o enquanto ser humano. É nesta perspectiva que o trabalho precarizado se instaura no Brasil após o término da ditadura militar e a assimilação dos ideais do capitalismo globalizado.

 

    Com base nos pressupostos apresentados, no que se refere à precarização do trabalho concernente aos processos de terceirização, a realização deste estudo se propõe a evidenciar a relação trabalho e lazer no cotidiano do servidor terceirizado possibilitando o entendimento pluralístico das esferas de vida social, expondo a necessidade de uma abordagem totalizadora na formação social do indivíduo, além de apresentar contribuições para os estudos sobre a sociologia do trabalho e do lazer em virtude das referências aqui utilizadas suscitarem diversos questionamentos a respeito da política neoliberal e sua íntima relação com a precarização do trabalhador em sua totalidade.

 

    Logo, o cerne da questão consiste em como se dá a constituição da relação lazer e trabalho no cotidiano do servidor terceirizado do IFCE1 – Campus Juazeiro do Norte e de que maneira tal relação ilustra a precarização do trabalho. Portanto, estabelecemos como objetivo geral analisar o tempo de não-trabalho dos servidores terceirizados, bem como o espaço dedicado ao lazer.

 

Métodos

 

    A metodologia empregada neste estudo o caracteriza como uma pesquisa qualitativa configurando a intermediação da pesquisa com a realidade social investigada, tendo como abordagem teórico-metodológica o materialismo histórico-dialético de Marx que, segundo Paulo Netto (2011), é considerada um método de estudo das transformações nas estruturas sociais, econômicas, culturais e simbólicas ocasionadas em contraste à evolução dos meios de produção concomitantemente à evolução do pensamento humano.

 

    Participou deste estudo um grupo de servidores terceirizados do IFCE – Juazeiro do Norte, representando 092 das 10 categorias profissionais existentes na instituição. Sendo assim, a amostra da pesquisa foi composta por 16 dos 43 terceirizados atuantes no período de realização da coleta, sendo 08 participantes do sexo masculino e 08 do sexo feminino, com um tempo de serviço variando entre 03 e 23 anos. Para efeito de identificação os participantes obtiveram um codinome em que se utilizou o “T” para identificar categoria de terceirizado e o número da ordem das entrevistas.

 

    Utilizou-se como instrumento de coleta de informações uma entrevista semiestruturada, na qual o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema abordado (Boni & Quaresma, 2005). A pesquisa seguiu os princípios morais estabelecidos na resolução nº 510 de 07 de Abril de 2016, preservando a dignidade e promovendo a devida proteção ao entrevistado por meio de ações éticas do pesquisador demandadas pela ação livre e consciente do participante, que autorizou o seu envolvimento com a pesquisa bem como a utilização das informações concebidas assinando a um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em duas vias, ficando uma de posse do próprio e outra em posse do pesquisador. (Conselho Nacional de Saúde, 2016)

 

Resultados

 

    Depois de transcritas as entrevistas e realizadas as análises, as informações foram organizadas em uma categoria composta por subcategorias conforme a disposição dos objetivos, detalhando o uso do tempo de não-trabalho e o espaço dedicado ao lazer dos servidores terceirizados do IFCE – Campus Juazeiro do Norte.

 

O tempo do trabalhador terceirizado e o espaço dedicado ao lazer

 

    Nesta categoria o foco consistiu em analisar o espaço destinado ao lazer no tempo do servidor terceirizado do IFCE – Campus Juazeiro do Norte. Para tanto, levou-se em consideração aspectos como as limitações do tempo para vivência do lazer, o tempo dedicado ao lazer e as obrigações que interferem a fruição do lazer. Cada aspecto citado partiu de uma questão presente na entrevista, possibilitando a organização de subcategorias detalhadas no desenrolar deste tópico.

 

Tempo limitado para o lazer

 

    Com base nas respostas dos indivíduos, foi possível identificar as conjunturas que permeiam o tempo de lazer no cotidiano dos trabalhadores terceirizados, evidenciando a existência ou não de um tempo de lazer, bem como os aspectos que, segundo os terceirizados, influenciam na fruição deste tempo.

 

Tabela 01. Disposição das respostas quanto a ter ou não tempo para viver o lazer

Você tem tempo para viver o lazer?

Nº de respostas

Terceirizados

Sim

06

T01, T03, T08, T10, T11, T16

Pouco, devido outras obrigações.

05

T04, T05, T06, T09, T13

Sim, mas não como gostaria.

04

T04, T05, T12, T14

Pouco, devido às condições financeiras.

01

T02

Não

01

T15

Fonte: dados coletados durante a pesquisa.

 

    De um modo geral, quase todos declararam ter tempo para viver o lazer, uns afirmando com absoluta convicção e outros, apresentando fatores que impossibilitam a sua fruição. Desta maneira, o lazer de alguns dos entrevistados sofre restrições advindas de diversas condições, tais como: as cotidianas, a financeira, a do trabalho ou mesmo das obrigações domésticas.

 

Obrigações que interferem na vivência do lazer

 

    Para além das obrigações domésticas, 14 dos 16 entrevistados, afirmaram ocupar seu tempo de não-trabalho com outras obrigações, dentre as quais destacam-se as obrigações familiares e sociais, as relacionadas aos estudos e atividades religiosas. A Tabela 02 apresenta detalhadamente a frequência destas obrigações nas falas.

 

Tabela 02. Obrigações que ocupam o tempo dos terceirizados fora do trabalho

Obrigações

Nº de respostas

Terceirizados

Familiares/sociais

10

T01, T03, T04, T06, T07, T08, T09, T10, T11, T15

Estudos

03

T05, T13, T14

Atividades religiosas

01

T13

Fonte: dados coletados durante a pesquisa

 

Tempo dedicado ao lazer

 

    No que se refere à possibilidade de os trabalhadores terceirizados do IFCE – Campus Juazeiro do Norte vivenciarem o lazer diariamente houve um equilíbrio entre as respostas. Dos 16 entrevistados, 08 relataram não ser possível ter lazer todos os dias. Por outro lado, 08 entrevistados declararam o oposto, afirmando ser possível ter lazer todos os dias, podendo ainda, estimar uma quantidade de horas dedicadas ao lazer no seu cotidiano. A Tabela 03 traz essas informações:

 

Tabela 03. Quantidade de horas de lazer que os trabalhadores terceirizados possuem

Horas de lazer por dia

Terceirizados

Menos de 1 hora

T04

De 1 a 2 horas

T02, T08, T10

2 horas

T14,T15

De 2 a 3 horas

T16

Mais de 3 horas por dia

T03

Fonte: dados coletados durante a pesquisa.

 

Discussões

 

    No que diz respeito à categoria Tempo limitado para o lazer, pode-se perceber, como mostra a Tabela 01, que o lazer de parte dos entrevistados é influenciado por diversas condições, como demonstram as falas a seguir:

    Rapaz, tempo a gente tem, né?! Hoje pela situação financeira a gente pode não ter tempo financeiro, mas ter tempo, a gente tem (T02).

 

    Tempo suficiente como eu gostaria de ter, não. Gostaria de ter mais. Poder escolher o horário melhor. A gente tem que abrir mão de dormir adequadamente, como deveria umas 8 horas por dia, pra acordar mais disposto (T04).

 

    Tenho muito não. Quando eu chego eu vou fazer as coisas de casa. Tem janta pra fazer, tem prato pra lavar. Quando chega ainda tem o meu serviço de casa (T06).

    O primeiro fator a se destacar é o lazer atrelado ao consumo, já que um dos empecilhos que atrapalham a fruição do tempo de lazer são as condições financeiras, apontando o lazer como um produto a ser consumido, mercantilizado. Werneck, Stoppa e Isayama (2001) relacionam a instrumentalização do lazer à indústria cultural, que tem o negócio como sua essência, a diversão como instrumento para efetuar suas finalidades, e, como poder, a capacidade de produzir necessidades momentâneas nas pessoas, principalmente, se for considerar o ritmo e o estilo de vida da atual sociedade urbana.

 

    O segundo fator a ser destacado é a necessidade por mais tempo de vivência do lazer. No caso em questão, a carga horária de trabalho é exaustiva, obrigando os sujeitos a escolherem entre o descanso e o lazer. Domingues e Rechia (2016) afirmam que essas possibilidades para uso do tempo de não-trabalho fragmentam, não apenas as horas, mas o homem e as suas relações por completo, além de evidenciar, também, a mercantilização do aspecto tempo, restando ao trabalhador apenas o período para se recompor, recuperando as energias necessárias ao aumento da produtividade.

 

    O último fator destacado nas falas acima são as obrigações domésticas como limitadoras da vivência do lazer. Quanto a isso, Elias e Dunning (1992), classificam como uma das atividades de tempo livre, mas não necessariamente atividades de lazer. As obrigações de casa, para os autores, correspondem à classificação do trabalho privado e administração familiar constituído por atividades que, querendo ou não, precisam ser realizadas, exigindo um trabalho árduo e, algumas vezes, estressante. Desse modo, somando as horas de trabalho profissional com as horas de trabalho doméstico, o tempo para o lazer fica cada vez mais restrito.

 

    Observa-se na Tabela 01, que um sujeito afirma não ter tempo para viver o lazer. A categoria tempo, para o entrevistado, foi dissociada das atividades de lazer citadas em momentos posteriores. Acredita-se que há uma relação com o grau de realização por ele atribuído ao aspecto temporal para realizar o lazer. Não sendo, por ele, suficiente para garantir uma maior qualidade de vida dentro e fora do trabalho.

 

    Na segunda categoria, Obrigações que interferem na vivência do lazer, evidenciam-se, além das obrigações domésticas, atividades de cunho familiar e social, educacionais e religiosas.As obrigações familiares, nas falas dos sujeitos, englobam, de uma maneira geral, os cuidados com a casa e com os próprios membros da família, que já foram teoricamente encaixados na classificação do trabalho privado e administração familiar de Elias e Dunning (1992).

 

    Silvestre, Ferreira e Amaral (2016) ao analisarem, comparativamente entre gêneros, o tempo de não-trabalho e lazer de terceirizados da vigilância da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), constataram que as atividades de cunho doméstico e os cuidados com os filhos são, na maior parte do tempo, realizadas pelas mulheres, apresentando uma média de tempo gasto semanalmente com cada uma dessas obrigações de 15,8 horas, enquanto que os homens, em média, gastam 2,6 horas por semana com obrigações domésticas e 1,5 horas em cuidados com os filhos.

 

    Aqui, todavia, se tem um número igual de homens e mulheres gastando seu tempo com obrigações domésticas e familiares, entretanto, devido à estrutura deste estudo, não foi possível estabelecer quem emprega mais tempo nessas atividades, homens ou mulheres terceirizadas do IFCE – Campus Juazeiro do Norte, ficando aqui a sugestão para uma pesquisa específica que abranja tais aspectos.

 

    Os estudos também foram destacados como obrigações, de certa forma, distanciando o lazer do seu caráter educativo, retirando o prazer que se encontra no ato de estudar sem o caráter obrigatório, como consta nas falas a seguir:

    Sim. Dedico ao estudo, após aqui, eu tenho horário de fazer corrida, após a corrida, volto e começo os estudos. Estudo todo dia (T05).

 

    A faculdade, a igreja também. Acho que as obrigações que eu tenho atualmente são essas: a faculdade e a igreja (T13).

    Desse modo os estudos, assim com a igreja, surgem como obrigações, encaixados em uma rotina normatizada, ocupando o tempo do não-trabalho dos sujeitos, reduzindo ainda mais o tempo que seria destinado ao lazer.

 

    O fato de apenas um entre os entrevistados ressaltarem as obrigações religiosas nos aproxima da afirmação de Dumazedier (1979, p. 47) quando o autor ressalta “que a extensão do tempo livre é acompanhada de uma regressão do tempo dedicado às atividades controladas pela autoridade religiosa”. Nesse sentido, no contexto da investigação, as obrigações sócio-espirituais regrediram na ocupação do tempo livre em detrimento de outras obrigações ou lazeres que tendem a ganhar novos formatos. Ressalta-se que nenhum terceirizado demonstrou possuir obrigações sociopolíticas, o que nos leva a refletir sobre a necessidade de engajamento nessas práticas sociais para que haja um movimento reivindicatório e de luta da classe, incluindo a luta por tempo para fruir o lazer.

 

    Na terceira e última categoria, Tempo dedicado ao lazer, metade dos entrevistados afirmarem não vivenciarem o lazer todos os dias. Boa parte desses indivíduos relacionou a ausência do lazer no cotidiano ao trabalho e outras obrigações, justificando que seu tempo de lazer fica restrito ao final de semana, conforme as falas apontam:

    Não, né?! Só mais no final de semana (T01).

 

    Não, não é possível ter lazer todos os dias, principalmente durante a semana. Porque você tem o seu trabalho, depois tem outros afazeres e dedica-se aos finais de semana tirar um tempo, umas 4, 5, 6 horas, pra poder fazer alguma coisa que te deixa bem (T05).

 

    Não. Acredito eu que não, no meu tempo eu não teria lazer todos os dias não. Acho que uma por semana, no final de semana (T07).

 

    Marcellino (2007, p. 28) retrata essas características destacando a forte valorização da “performance” e da produtividade. O autor também destaca a influência do caráter social moderno que a produtividade exige, aprisionando o lazer a momentos fora do expediente produtivo, como no caso de alguns dos sujeitos desta pesquisa, nos finais de semana, nas folgas ou nas férias.

 

    Todavia, entre aqueles que afirmaram vivenciar o lazer todo dia, percebe-se que eles dedicam pelo menos uma hora por dia para as manifestações de lazer, enquanto que apenas um (ver Tabela 03) apresenta ter um tempo dedicado ao lazer inferior à uma hora.

 

    De modo geral, nesta categoria, verifica-se o equilíbrio das respostas dos entrevistados quanto à existência das manifestações de lazer no seu cotidiano e a dedicação, quando possível, às atividades de lazer. Entretanto, o que chama a atenção é o fato de o lazer permanecer como uma atividade secundária, sendo manifestado apenas na sobra do tempo que seria gasto em outras atividades, como trabalho, relações familiares, estudos, etc.

 

    Werneck (2000) analisa que, para o lazer ser valorizado pela sociedade, é necessária uma revisão de prioridades, sendo fundamental atentar a fatores como educação, trabalho, lazer, justiça social, saúde e meio ambiente, de maneira equivalente. Para a autora, a cada dia se descobre uma nova possibilidade no lazer, representando a oportunidade da sociedade ser, realmente, sujeita de sua história, podendo fazer escolhas e colher, prazerosamente, os frutos destas ações.

 

    O lazer é um direito social e não cabe à entidade alguma negar à população este direito. Porém, nas atuais condições da sociedade, com severas exigências do aumento da produtividade, deteriora-se não só o tempo de lazer dos indivíduos como também o tempo dedicado aos cuidados com a saúde, a família e a socialização

 

Conclusões

 

    A realização desta pesquisa possibilitou analisar o tempo do não-trabalho e o espaço dedicado ao lazer do servidor terceirizado do IFCE - Campus Juazeiro do Norte, apontando alguns aspectos que retratam o quadro de precarização a qual está sujeita a classe trabalhadora brasileira, em especial o trabalhador terceirizado, público alvo do estudo.

 

    Podemos destacar, com os parágrafos introdutórios e com as informações empíricas da pesquisa, que o lazer é banalizado, sujeitando-se as necessidades da produção e do consumo, resultado das imposições do sistema capitalista. Observa-se que as prioridades giram em torno das atividades produtivas em detrimento das outras esferas de atuação do homem, colocando o lazer sempre em segundo plano no cotidiano da população, principalmente pelo fato de suas manifestações estarem sempre reservadas aos finais de semana, folgas e feriados.

 

    A pesquisa estabeleceu uma provocação na análise da relação entre lazer e trabalho, com a certeza de que estas reflexões não devem ser encerradas na organização dos dados deste estudo. Em virtude disso, buscando ampliar análises a respeito da temática, faz-se necessário a realização de novas pesquisas, na ótica do trabalhador, sobre suas condições de fruir atividades de lazer no contexto da sociedade capitalista. Pesquisas centradas nesta temática de investigação necessitam se ampliar no âmbito científico dada sua relevância social. Especialmente, esta pesquisa, deteve-se na compreensão de que a chave para quebrar paradigmas sobre a fruição do lazer está na constante transformação dos conhecimentos já existentes.

 

Notas

  1. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará- Campus Juazeiro do Norte. Localizado no Interior do Estado do Ceará na Região do Cariri na Cidade de Juazeiro do Norte.

  2. A exceção se deu por conta da ausência do profissional devido à licença laboral.

Referências

 

    Alves, G. (2011). Terceirização e acumulação flexível do capital: notas teórico-críticas sobre as mutações orgânicas da produção capitalista. Estudos de Sociologia, 16(31), 409-420.

 

    Alves, G. (2014a). Terceirização e capitalismo no Brasil: um par perfeito. Revista TST,80(3), 90-105.

 

    Alves, G. (2014b). Terceirização e neodesenvolvimentismo no Brasil. São Paulo, SP. Blog da Boitempo. Recuperado em 31 março 2018, de https://blogdaboitempo.com.br/2014/08/11/terceirizacao-e-neodesenvolvimentismo-no-brasil/

 

    Antunes, R. (2014) A nova morfologia do trabalho e as formas diferenciadas da reestruturação produtiva no Brasil dos anos 1990. Sociologia, 27, 11-25.

Antunes, R.; Praun, L. (2015) A sociedade dos adoecimentos no trabalho. Serviço Social Sociedade, (123), 407-427.

 

    Araújo, J. A. S. (2016). Flexibilização: a terceirização como forma de precarização das normas trabalhistas no brasil. Trabalho de Conclusão de Curso. UFRN, Natal, Rio Grande do Norte, Brasil.

 

    Barros, P. C. R.; Mendes, A. M. B. (2003). Sofrimento psíquico no trabalho e estratégias defensivas dos operários terceirizados da construção civil. Psico USF, 8(1), 63-70.

 

    Boni, V.; Quaresma, S. J. (2005). Aprendendo a entrevistar: como fazer entrevistas em Ciências Sociais. Em Tese, 2(1), 68-80.

 

    Conselho Nacional de Saúde. Diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Resolução nº 510/2016. Recuperado em 31 março 2018, de http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2016/Reso510.pdf.

 

    CUT (2014). Terceirização e desenvolvimento: uma conta que não fecha:Dossiê acerca do impacto da terceirização sobre os trabalhadores e as propostas para garantir a igualdade de direitos. São Paulo, SP, Secretaria Nacional de Relações de Trabalho e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos,Central Única dos Trabalhadores.

 

    Domingues, T.; Rechia, S. A. (2016). Trabalho e Lazer: Oposição ou composição? Licere, 19(3),363-382.

 

    Dumazedier, J. (1979). Sociologia empírica do lazer. São Paulo: Perspectiva.

 

    Elias, N.; Dunning, E. (1992). A busca da excitação. Lisboa, PT: Difel.

 

    Krein, J. D. (2014). As transformações no mundo do trabalho e as tendências das relações de trabalho na primeira década do século XXI no Brasil. Revista do Núcleo de Estudos de Economia Catarinense,2(3), 6-25.

 

    Lourenço Filho, R.; Paixão, C. (2014). Impactos da terceirização no mundo do trabalho: tempo, espaço e subjetividade. Revista TST, 80(3), 58-74.

 

    Marcellino, N. C. (2007). Lazer e Educação (12ª ed.). Campinas, SP: Papirus.

 

    Paulo Netto, J. (2011).Introdução ao estudo do método de Marx. São Paulo: Editora Expressão Popular.

 

    Silvestre, B. M.; Ferreira, O. C.; Amaral, S. C. F. (2016) O tempo de não trabalho e o lazer dos trabalhadores terceirizados da vigilância da Unicamp: uma análise comparativa entre os gêneros. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, 24(4), 110-120.

 

    Werneck, C. L.G. (2000). Lazer é questão de prioridade e cidadania. Parceria, Belo Horizonte: Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais,6(80), 11-11.

 

    Werneck, C. L. G.; Stopppa, E. A.; Isayama, H. F. (2001). Lazer e mercado. Campinas, SP: Papirus.


Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 248, Ene. (2019)

Utilizamos cookies para ofrecer la mejor experiencia, navegando en esta web aceptas su uso. OK