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Contribuições da ergonomia na construção de um mobiliário 

adaptado escolar para estudantes com paralisia cerebral

Contributions of ergonomics in the construction of a school adapted for students cerebral palsy

Aportes de la ergonomía a la construcción de un mobiliario 

adaptado escolar para estudiantes con parálisis cerebral

 

Lara Belmudes Bottcher*

larabottcher@hotmail.com

Heloisa Barbosa Maia Fernandes de Oliveira**
helomaiato@yahoo.com.br
Juliane Sanches Ferreira Santos***

santosusanchesf@hotmail.com

Marcos Antonio Araujo Bezerra****

marcosantonio@leaosampaio.edu.br

 

*Doutoranda em Ciências da Saúde - Faculdade de Medicina do ABC

Mestre em Ciências da Motricidade -UNESP

Especialista em Gestão dos Serviços de Saúde- Unitoledo

Especialista em Educação na Saúde para Preceptores do SUS- Sírio Libanês

Bacharel em Educação Física - UNESP. Licenciada em Educação Física

Coordenadora dos Cursos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física

e Coordenadora da Pós Graduação na Área de Educação Física

do Centro Universitário Dr. Leão Sampaio

**Terapeuta ocupacional da Prefeitura Municipal de Três Lagoas-MS

Bacharel em Terapia Ocupacional pela Universidade Católica Dom Bosco

Especialista em Acupuntura Pela Faculdade Cidade Verde

***Terapeuta Ocupacional no Instituto Sul Mato Grossense

para Cegos Florivaldo Vargas/ISMAC

Bacharel em Terapia Ocupacional pela Universidade Católica Dom Bosco

Acadêmica do Curso de licenciatura em Pedagogia

pela Universidade Católica Dom Bosco

****Mestrando em Saúde da Criança e do Adolescente

da Universidade Estadual do Ceará - UECE

Docente de Educação Física do Centro Universitário

Dr. Leão Sampaio - Juazeiro do Norte, CE

Docente de Educação Física da Faculdade Vale do Salgado – FVS, Icó, CE

(Brasil)

 

Recepção: 04/10/2018 - Aceitação: 25/04/2019

1ª Revisão: 08/04//2019 - 2ª Revisão: 14/04/2019

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Resumo

    Os alunos com Paralisia Cerebral estão sendo inseridos na escola regular. Para que o processo de inclusão seja realizado de maneira efetiva é necessário que várias adaptações ocorram no ambiente escolar. Este artigo tem por finalidade referendar as contribuições da ergonomia na construção de um mobiliário adaptado escolar para os estudantes com Paralisia Cerebral. O delineamento da pesquisa do estudo foi de caráter exploratório. Foi realizada consulta em periódicos do banco de dados do Scielo e Lilacs. Os estudos analisados relatam diversas considerações a respeito da confecção de um imobiliário adaptado para crianças com Paralisia Cerebral, como por exemplo, a importância de evitar cadeiras com assento de lonas, já que não garante estabilidade postural ao aluno. A fabricação de uma cadeira adaptada deve beneficiar o aluno através do alivio da pressão do quadril no assento, evitar dores, melhorar a função de membros superiores, não desenvolver úlceras de pressão e estabilizar o tronco. Mesmo assim mais estudos a respeito do tema precisam ser produzidos, principalmente aqueles realizados em nosso país, considerando a realidade de nossas escolas.

    Unitermos: Paralisia cerebral. Ergonomia. Mobiliário escolar. Mobiliário adaptado.

 

Abstract

    Students with cerebral palsy are being inserted in regular school. In order for the inclusion process to be done effectively it is necessary that various adaptations occur in the school environment. Thus, this article aims to endorse the contributions of ergonomics in building an adapted school for students with cerebral palsy. The research design of the study was exploratory. Consultation was held in periodicals database: Scielo and Lilacs. The analyzed studies reported several considerations regarding the making of objects adapted for children with cerebral palsy. For example, the importance of avoiding chairs with seat pads, since postural stability cannot be guaranteed to the student. The manufacture of a chair adapted to benefit the student must be through pressure relief of the hip in the seat, avoiding pain, improving function of the upper limbs, not developing pressure ulcers and stabilizing the trunk. However, more studies on the subject is required, especially those made in our country (Brazil), considering the reality of our schools.

    Keywords: Cerebral palsy. Ergonomics. School furniture. Adapted furniture.

 

Resumen

    Los alumnos con Parálisis Cerebral están siendo incluidos en la escuela convencional. Para que el proceso de inclusión sea realizado de manera efectiva es necesario que ocurran distintas adaptaciones en el ambiente escolar. Este artículo tiene por finalidad confirmar las contribuciones de la ergonomía en la construcción de un mobiliario adaptado escolar para los estudiantes con Parálisis Cerebral. El delineamiento de la investigación del estudio fue de carácter exploratorio. En los estudios analizados se relatan diversas consideraciones respecto a la confección de un mobiliario adaptado para niños con Parálisis Cerebral, como por ejemplo, la importancia de evitar sillas con asiento de lonas, ya que no garantizan estabilidad postural al alumno. La fabricación de una silla adaptada debe beneficiar al alumno a través del alivio de la presión de la cadera en el asiento, evitar dolores, mejorar la función de miembros superiores, no desarrollar úlceras de presión y estabilizar el tronco. Sin embargo, es necesario producir más estudios sobre el tema, principalmente aquellos realizados en nuestro país, considerando la realidad de nuestras escuelas.

    Palabras clave: Parálisis cerebral. Ergonomía. Mobiliario escolar. Mobiliario adaptado.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 24, Núm. 252, May. (2019)


 

Introdução

 

    Durante muitos anos pessoas com deficiências foram segregadas em todas as esferas da sociedade. Na esfera educacional essa situação provocou um movimento da educação inclusiva que visa permitir que os estudantes tenham acesso, permanência e sucesso em escolas regulares de todo país. Mediante discursos sobre os desafios da inclusão a divisão de opiniões sobre a temática ficou notória entre os educadores e gestores devido os desafios que a inclusão trás consigo, porém por outro lado a inclusão é compreendida como benéfica para todos os participantes do processo. (Greguol et al., 2018)

 

    O processo de inclusão é considerado um processo educacional que tem por objetivo ampliar ao máximo a capacidade do indivíduo com deficiência na escola e na classe regular. Segundo Gavioli et al. (2014) a educação inclusiva precisa garantir a qualidade de ensino educacional a cada um dos alunos, respeitando e distinguindo a diversidade e respondendo a cada um de acordo com seu potencial e necessidade.

 

    Para que o processo de inclusão seja realizado de maneira efetiva é necessário que várias adaptações ocorram no ambiente escolar. Seguindo esse pressuposto a ideia de inclusão nesse meio tem como proposta organizacional a acessibilidade nos recursos da escola visando à participação de todos de um modo geral compreendendo suas necessidades (Rocha et al.,2018), não somente na estrutura educacional como a capacitação dos professores e profissionais envolvidos, mas também a estrutura física do ambiente e no mobiliário escolar.

 

    A respeito dos alunos com deficiência física, em especial aqueles que apresentam Paralisia Cerebral, é necessário que ocorra modificações no ambiente escolar para que sejam oferecidas iguais oportunidades e que possibilitem um desempenho satisfatório nas atividades desenvolvidas na escola. Segundo Rézio e Formiga (2014), Paralisia Cerebral é uma serie de desarmonias de movimentos e posturas ocasionando dificuldades na realização das atividades comuns e necessárias do dia a dia.

 

    Sendo assim faz-se importante que ocorra adequação do espaço físico, de material escolar, adaptação dos recursos pedagógicos, equipamentos e mobiliário escolar específico. Por meio da ergonomia podemos realizar a remoção de barreiras que possam dificultar o processo do ensino aprendizagem de estudantes com necessidades específicas realizando a construção de um mobiliário adaptado que atenda as características particulares dos estudantes com Paralisia Cerebral, por meio de uma análise de fatores que possam influenciar no desempenho acadêmico desse alunado.

 

    Segundo a Associação Brasileira de Ergonomia (Capucho et al., 2012) entende-se por ergonomia o estudo das interações das pessoas com a tecnologia, a organização e o ambiente, objetivando intervenções e projetos que visem melhorar, de forma integrada e não dissociada, a segurança, o conforto, o bem-estar e a eficácia das atividades humanas. Já o conceito da Organização Mundial de Saúde (Burton, 2010) sobre ergonomia diz: "A Ergonomia é uma ciência que visa o máximo rendimento, reduzindo os riscos do erro humano ao mínimo, ao mesmo tempo em que trata de diminuir, dentro do possível, os perigos para o trabalhador. Estas funções são realizadas com a ajuda de métodos científicos e tendo em conta, simultaneamente, as possibilidades e as limitações humanas devido à anatomia, fisiologia e psicologia".

 

    Ou seja, a ergonomia compreende a relação do ser entra as atividades de produção, compreendendo o ambiente físico e o organizacional (Scopel, 2017), e por ser considerada em sua grande maioria uma ciência relacionada ao trabalho infelizmente tem-se observado uma grande lacuna de adaptações e adequações ergonômicas no ambiente escolar.

 

    A escola é composta por diversos espaços sociais, porém a sala de aula representa o espaço mais utilizado devido à maior parte do tempo estar ligada diretamente ao ensino e aprendizagem transformando-se assim em um posto de trabalho para os alunos fazendo-se necessário uma harmonia no ambiente de forma ergonômica visando à adequação para a realização das atividades de forma adequadas (Paschoarelli; Menezes, 2009). No caso das crianças com necessidade especiais essa adequação se faz importantíssima, em especial aquelas com Paralisia Cerebral.

 

    Diante disto, este artigo tem por finalidade referendar as contribuições da ergonomia na construção de um mobiliário adaptado escolar que atenda os estudantes com Paralisia Cerebral.

 

Métodos

 

    Foi utilizado como delineamento da pesquisa um estudo de caráter exploratório. Foi realizada consulta em periódicos do banco de dados do Scielo e Lilacs. A busca foi feita por meio das palavras encontradas nos títulos e nos resumos dos artigos e os descritores utilizados foram: Ergonomia, ergonomia na escola, ergonomia e Paralisia Cerebral, Paralisia Cerebral, mobiliário escolar, mobiliário escolar e Paralisia Cerebral. As buscas foram realizadas em português e Inglês. As referências foram selecionadas por data, sendo incluídas no estudo as publicações encontradas dentro do período dos últimos dez anos. Os artigos foram previamente selecionados através da leitura de seus títulos e posteriormente foi realizada uma leitura crítica e reflexiva dos resumos a fim de eliminar os artigos que não correlacionavam com o objetivo desse trabalho.

 

Resultados

 

    Para melhor compreensão e visualização dos resultados da pesquisa, os trabalhos selecionados foram sistematizados e estão apresentados em forma de tabela, onde os dados são apresentados segundo os autores, tipo de pesquisa, perfil dos indivíduos e resultados encontrados (Tabela 1).

 

Tabela 1. Apresentação dos resultados quanto às características dos artigos analisados

Autor, Data

Tipo de pesquisa

Perfil do indivíduo avaliado

Resultados

encontrados

Mancini et al. (2002)

 

Experimental

Grupo normativo: 142 crianças com desenvolvimento normal (idade média= 4,9 anos); Grupo com Paralisia Cerebral: 33 crianças com Paralisia Cerebral (idade média= 5,6 anos).

Onze itens apresentaram diferença significativa nos valores dos dois grupos. Destes setes itens apresentaram dificuldade relativa superior no grupo de crianças com Paralisia Cerebral e quatro itens apresentaram dificuldade relativa maior no grupo de crianças normais.

 

Moro (2005)

 

Experimental

93 alunos da escola pública estadual com desenvolvimento normal

78% atribuem problemas com a cadeira escolar. 54% deles relataram aparecimento de dores ou desconfortos durante as atividades na carteira escolar na região da nuca e do pescoço.

 

Capucho et al. (2012)

Revisão de literatura

Base de dados MEDLINE

(PubMed)

Crianças com Paralisia Cerebral: Recomendado angulações diversas ao sentar.

Crianças espásticas tem melhor desempenho com angulação 0o e as ateróides com 15º de inclinação anterior.

 

Recomenda treino de uma atividade por uma hora, três vezes na semana, durante ao menos cinco semanas, à contenção do tronco. Recomendado uso de uma mesa recortada para oferecer maior apoio lateral do tronco e dos membros superiores durante a atividade caligrafia para estudantes com Paralisia Cerebral com tetraplegia espástica, ateróide e hemiplegia.

 

Braccialli et al. (2008)

Experimental

11 indivíduos com faixa etária entre 7 e 28 anos com Paralisia Cerebral.

A velocidade media de execução das tarefas não foi influenciada pelo tipo de assento utilizado;

O tempo de execução da tarefa foi influenciado pelo tipo de assento utilizado.

O assento de um mobiliário escolar para um aluno com Paralisia Cerebral espástica não deve ser muito flexível.

 

Oliveira e Braccialli (2008)

Experimental

11 alunos com Paralisia Cerebral espástica com idades entre 7-28 anos

Na execução de tarefa no assento de lona os indivíduos apresentavam maior pontuação para a realização das atividades lúdicas se comparado com o assento de madeira.

 

Braccialli e Codogno (2011)

Revisão de Literatura

Revisão literária nas bases de dados Scopus, Bireme, Scielo do período de 1980 a 2011.

Importância do posicionamento adequado no sentar de indivíduos com Paralisia Cerebral.

Mobiliário deve proporcionar ao usuário estabilidade de tronco, alivio da pressão no assento, não ter dores, não desenvolver úlceras de pressão e melhorar desempenho de membros superiores.

 

Ganança (2006)

Estudo de caso

3 sujeitos com idades entre 15 e 22 anos, com Paralisia Cerebral e desvio postural tipo escoliose.

Melhoras psico-sociais, ortopédicas, neurológicas e clínicas do usuário do assento adaptado, além de melhora significativa (p ≤ 0,01) nas condições posturais da coluna vertebral.

Fonte: Do próprio autor

 

    Do total dos sete artigos, um foi publicado no ano de 2002, um no ano de 2005, um no ano de 2006, dois no ano de 2008, um no ano de 2011 e um no ano de 2012. Em se tratando dos tipos de pesquisa utilizados observou-se que dois artigos são de revisão bibliográfica e os demais artigos são pesquisa de campo sendo quatro experimentais e um estudo de caso.

 

    A Paralisia Cerebral está relacionada a um grupo de desordens no desenvolvimento do movimento e da postura, limitando atividades. Ela é atribuída como um distúrbio não progressivo que ocorrem através de uma lesão no cérebro em desenvolvimento durante a infância (Muller, 2012).No indivíduo com Paralisia Cerebral as desordens motoras geralmente são acompanhadas por alterações na sensação, cognição, percepção, comunicação e comportamento, podendo também ser acompanhado de crises convulsivas (Bax et al., 2005). A Paralisia Cerebral é uma expressão abrangente para diversos distúrbios que afetam a capacidade infantil para se mover e manter a postura de equilíbrio. Estes distúrbios são causados antes, durante ou dentro dos primeiros dias após o nascimento.

 

    Estima-se que em países subdesenvolvidos a prevalência de Paralisia Cerebral é de 7: 1000 nascidos vivos. No Brasil, os dados estimados de Paralisia Cerebral são de 30.000 a 40.00 casos novos por ano (Mancini et al., 2002).

 

    A Paralisia Cerebral ocasionará ainda alteração de tônus muscular e reflexos, que contribuíram para o desenvolvimento das alterações posturais. Para facilitar os estudos relacionados a este assunto pesquisadores decidiram classificar a Paralisia Cerebral de acordo a altura da lesão:

  1. Hemiplegia.

  2. Diplegia.

  3. Quadriplegia.

    Os casos de triplegia onde apenas três membros são envolvidos e monoplegia onde apenas um membro é envolvido acontecem raramente.

 

    Outro tipo de classificação é baseado nas alterações clínicas do tônus muscular e no tipo de desordem do movimento podendo produzir o tipo espástico, discinético ou atetóide, atáxico, hipotônico e misto (Surveillance of cerebral palsy in Europe, 2000 apud Capucho et al., 2012).

  • Atetóide: Caracterizada por movimentos involuntários, Neste tipo, os movimentos são involuntários devido a um estimulo ineficaz e exagerado que o cérebro envia ao músculo não sendo capaz de manter um padrão;

  • Discinético: Postura e movimentos com padrões anormais, além de movimentos involuntários, incontrolados e recorrentes. Pode ser divididos em dois subtipos:

    • Distônicos: hipocinesia e hipertonia (movimentos rígidos e tônus aumentado, respectivamente);

    • Coreoatetoide: Hipercinesia e hipotonia (movimentos rígidos e tônus diminuído, respectivamente);

  • Atáxico: Dificuldade de coordenação motora, alteração da forca, do ritmo e da metria do movimento, além de padrões anormais de postura e movimento;

  • Espástico: Devido uma lesão na região do córtex cerebral o indivíduo pode apresentar padrões anormais de postura e movimento, aumento do tônus muscular, reflexos patológicos e hiperreflexia ou sinais de liberação piramidal;

  • Mistos: Quando apresentam pelo menos dois tipos associados de alteração do movimento (Exemplo: espástico e atetóide).

    Mancini et al. (2002) compararam 142 crianças com desenvolvimento normal com 33 crianças com Paralisia Cerebral. O estudo utilizou uma escala de autocuidado da parte de habilidades funcionais, e os grupos foram avaliados pelo teste funcional norte americano Pediátrica Evaluation of Disability Inventory. Os resultados apresentaram diferença significativa nos valores dos dois grupos em onze itens. Destes sete itens apresentaram dificuldade relativa superior no grupo de crianças com Paralisia Cerebral e quatro itens apresentaram dificuldade relativa maior no grupo de crianças normais. Como conclusão os autores sugerem que o desenvolvimento de atividades funcionais pode ser influenciado pela presença da doença. Esse estudo nos ajuda entender que o indivíduo com Paralisia Cerebral apresenta diferença de comportamento motor em pequenas atividades cotidianas, o que não difere das atividades escolares.

 

    Por esse motivo, os estudantes com Paralisia Cerebral que foram incluídos no ensino regular necessitam de um mobiliário escolar que os permitam a acessibilidade dos conteúdos e melhor posicionamento em sala de aula.

 

    Numa situação ideal, a ergonomia deve ser aplicada desde as etapas iniciais do projeto de uma máquina, sistema, ambiente ou local de trabalho. Estas devem sempre incluir o ser humano como um de seus componentes. Assim, as características ou restrições das partes mecânicas, sistêmicas ou ambientais, devem se ajustar mutuamente umas às outras (Dragunov et al., 2005).

 

    Diversos estudos indicam que o mobiliário escolar influência no desempenho e comportamento dos alunos. Moro (2005) realizou um estudo que objetivou expor os problemas encontrados na sala de aula levando em consideração o aluno e sua relação com a carteira escolar. Dos 93 alunos da escola pública estadual foi verificado que 78% atribuem problemas com a cadeira escolar, 54% deles relataram aparecimento de dores ou desconfortos durante as atividades na carteira escolar na região da nuca e do pescoço. Demonstrando que mesmo para alunos sem necessidades específicas o mobiliário escolar não está de acordo com as necessidades e em diversos casos podem causar problemas posturais e de desempenho escolar.

 

    No caso de crianças com Paralisia Cerebral as necessidades de adaptações do mobiliário escolar são ainda maiores. Os estudantes com necessidades específicas estão sendo matriculados nas escolas regulares, o que torna necessário a garantia da acessibilidade. A ergonomia pode ser um colaborador extremamente rico nesse âmbito, já que por meio dela podemos pensar em recursos que facilitem o processo de ensino aprendizagem dos estudantes. A partir das considerações ergonômicas é possível realizar a construção de um mobiliário adaptado que atenda as características particulares dos estudantes com Paralisia Cerebral, por meio de uma análise de fatores que possam influenciar no desempenho acadêmico desse alunado. A ergonomia leva em considerações diversas ciências como a física, a biomecânica, antropometria, fisiologia, anatomia entre outras.

 

    Um estudo da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação (Arakaki et al., 2012) revisou artigos na base de dados do MEDLINE e demais fontes de pesquisa a fim de encontrar recomendações sobre adaptações nas carteiras para pacientes com Paralisia Cerebral.Segundo o artigo é recomendando o uso de angulações diversas quando a criança esta sentada, com o objetivo de promover melhor desempenho dos membros superiores, devendo-se levar em conta alterações do tônus. Segundo levantamento, crianças espásticas apresentaram melhor desempenho com angulação 0o e as ateróides com 15º de inclinação anterior. A Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação recomenda a realização de treino de uma atividade por uma hora, três vezes na semana, durante ao menos cinco semanas, à contenção do tronco, visando melhorar movimentos dos membros superiores e diminuir a movimentação compensatória que o tronco de indivíduos com Paralisia Cerebral fazem. Além disso, foi pesquisado qual o melhor mobiliário escolar para o favorecimento do posicionamento da criança com Paralisia Cerebral na escola e foi recomendado uso de uma mesa recortada para oferecer maior apoio lateral do tronco e dos membros superiores durante a atividade caligrafia para estudantes com Paralisia Cerebral com tetraplegia espástica, atetóide e hemiplegia. (Capucho et al., 2012).

 

    Braccialli (2000) afirma que é necessário levar em consideração diversas informações relacionadas ao indivíduo com Paralisia Cerebral para que a cadeira seja confeccionada de maneira correta. A primeira delas é que a cadeira deve compensar a falta de estabilidade postural e melhorar as habilidades funcionais e potencialidade do usuário. A estabilização pélvica e curvatura lombar são essenciais para manutenção de um alinhamento postural adequado. Por isso a cadeira adaptada no caso da Paralisia Cerebral espástica deve ter um recurso que favoreça esse alinhamento. É importante também que o assento da cadeira não seja demasiado flexível por pode causar uma instabilidade postural e impossibilidade de uso de braços, troncos e cabeça. Isso ocorre por que o assento é considerado parte integrante no auxílio do controle postural sentado de uma criança com Paralisia Cerebral.

 

    Um estudo realizado com onze indivíduos entre 7 e 28 anos com diagnóstico de Paralisia Cerebral espástica objetivou verificar a influência da flexibilidade da superfície de assento da cadeira na velocidade e no tempo despendido por alunos com a doença durante a execução de uma tarefa de manuseio de um objeto na posição sentada. Os dados indicaram que a velocidade de execução das tarefas não foi influenciada pelo tipo de assento utilizado, entretanto o tempo de execução da tarefa foi influenciado pelo tipo de assento. Os resultados indicaram que nos testes com a utilização do assento flexível, com material de lona, o tempo de realização da tarefa aumentou. Os autores concluíram que o assento de um mobiliário escolar para um aluno com Paralisia Cerebral espástica não deve ser feito com material muito flexível, pois fornecerá uma base instável dificultando o desempenho dos alunos principalmente quando as tarefas exigem grande atividade dos membros superiores. (Braccialli et al., 2008)

 

    Oliveira e Braccialli (2008) utilizaram esses mesmos onze indivíduos com Paralisia Cerebral para estudar a influência do mobiliário nas atividades lúdicas. Inicialmente foi realizada uma avaliação antropométrica dos participantes e em seguida foi construída uma cadeira de madeira com assento de lona, com regulagem de altura para o apoio de pés e abdutor, regulagem de profundidade para o assento. Foi confeccionado também um assento de madeira removível que podia ser encaixado em cima do assento de lona. Como instrumento de coleta de dados foram utilizadas as Tarefas de Controle Motor de Membros Superiores adaptados à realidade brasileira, e uma pontuação era atribuída. Os resultados encontrados foram contraditórios em relação à literatura, já que a maioria dos participantes obteve maior pontuação no assento de lona. A literatura prediz que quanto mais instável a superfície de assento, pior a função dos membros superiores.

 

    Ganança (2006) em sua dissertação realizou um estudo de caso com o objetivo de aplicar os princípios do design ergonômico na reabilitação física de sujeitos com sequelas de Paralisia Cerebral e com escoliose. Foram aplicados um assento modular com regulagem vertical para os indivíduos e analisados se este minimizava os problemas decorrentes do desvio da coluna vertebral do tipo escoliose. Os resultados revelaram melhorias psicossociais, neurológicas, ortopédicas e clínicas do usuário do assento adaptado, e a avaliação da Biofotogrametria Computadorizada apresentou um resultado que indica uma melhora significativa (p≤0,01) nas condições posturais da coluna vertebral do usuário.

 

    Braccialli e Codogno (2011) realizaram uma revisão sistematizada da literatura sobre o controle postural e mobiliário adaptado para indivíduos com Paralisia Cerebral. Revelaram que um posicionamento sentado adequado traz diversos benefícios como a prevenção de úlceras, prevenção de deformidades músculo-esqueléticas, diminuição do cansaço, promoção do conforto, neutralização do tônus muscular anormal e ampliação das funções corporais. A partir do referencial teórico analisado os autores apontam convenções a serem consideradas para o sentar de modo a melhorar a função dos membros superiores, são elas:

  • É necessário que o mobiliário tenha superfícies de sustentação de peso que suportem os pés e coxas: deve estar com os dois pés apoiados no chão e com joelhos flexionas em ângulo reto de 90º. O assento deve ter profundidade suficiente para apoiar as coxas e o encosto deve oferecer suporte à coluna;

  • A cadeira deve manter a inclinação da pelve neutra ou anterior, com ângulo de flexão neutra de quadril;

  • Alinhamento vertical do tronco.

Conclusão

 

    Em todos os trabalhos analisados foi verificado a necessidade de se aplicar os conceitos da ergonomia para produção de um mobiliário que atenda as necessidades dos alunos com Paralisia Cerebral.

 

    Os estudos analisados relatam diversas considerações a respeito da confecção de um imobiliário adaptado para crianças com Paralisia Cerebral, como por exemplo, a importância de evitar cadeiras com assento de lonas, já que não garante estabilidade postural ao aluno.

 

    A fabricação de uma cadeira adaptada deve beneficiar o aluno através do alivio da pressão do quadril no assento, evitar dores, melhorar a função de membros superiores, não desenvolver úlceras de pressão e estabilizar o tronco.

 

    Mesmo assim mais estudos a respeito do tema precisam ser produzidos, principalmente aqueles realizados em nosso país, considerando a realidade de nossas escolas.

 

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