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Rompendo com a cultura do “rola a bola” nas aulas de Educação Física Escolar

Breaking whit the culture “laissez-faire” in the classes of Physical Education School

Rompiendo con la cultura del profesor "laissez-faire" en las clases de Educación Física Escolar

 

Letícia do Carmo Casagrande Morandim*

leticiamorandim@gmail.com

Debora Gambary Freire Batagini*

deboragambary@yahoo.com.br

Rubens Venditti Júnior**

r.venditti-junior@unesp.br

 

*Discente no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Humano

e Tecnologias – IB/UNESP RIO CLARO. Bolsista CAPES

Membro do Laboratório de Atividade Motora Adaptada, Psicologia Aplicada

e Pedagogia do Esporte - LAMAPPE/DEF/FC, Unesp Bauru

**Docente Permanente do PPG UNESP Rio Claro/IB – Programa Interdisciplinar

de Desenvolvimento Humano e Tecnologias (DHT). Coordenador do Laboratório

de Atividade Motora Adaptada, Psicologia Aplicada e Pedagogia

do Esporte - LAMAPPE/DEF/FC, Unesp Bauru

(Brasil)

 

Recepção: 16/01/2019 - Aceitação: 30/06/2019

1ª Revisão: 30/04/2019 - 2ª Revisão: 25/06/2019

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

 

Resumo

    O presente estudo teve como objetivo identificar as opiniões de alunos e alunas, a respeito do trabalho didático-pedagógico nas aulas de Educação Física Escolar, problematizando a importância do estabelecimento de conteúdos e estratégias didáticas para superar a cultura de professores de Educação Física conhecidos como “rola-bola” no âmbito escolar. A pesquisa foi realizada pela abordagem qualitativa/descritiva, através de uma entrevista semiestruturada. Foram entrevistados onze alunos do sétimo ano do ensino fundamental II, e uma professora de Educação Física no interior do estado de São Paulo. Os resultados obtidos revelaram resistência por parte dos alunos em superar a cultura das aulas “laissez-faire”, livres e recreativas. A partir do momento que a professora conquistou o seu espaço e confiança dos alunos, observa-se a importância do comprometimento do professor em relação aos conteúdos a serem ministrados, concluindo ser de extrema relevância que os alunos aprendam novas práticas corporais, culturas, jogos e brincadeiras que despertam interesse em ambos os gêneros.

    Unitermos: Educação Física Escolar. Prática pedagógica. Ensino e aprendizagem. Atuação profissional.

 

Abstract

    The present study has as central issue the reflection about Physical Education (PE) at school practices culture known as "laissez-faire" activities. The research and analysis of the data was carried out from the qualitative/ descriptive approach, throughout semi-structured interview protocol. Eleven students at seventh grade from primary education were interviewed, and their PE school teacher in inner area of São Paulo State in Brazil. The results showed the students' resistance in overcoming that “laissez-faire” free and recreational classes culture. From the moment when that teacher had conquered her space and students confidence, the students' need for the teacher's commitment to the content to be taught is observed, concluding that it is extremely important that they learn new activities, cultures, games and activities which arouse interest in both genders.

    Keywords: School Physical Education. Pedagogical practice. Teaching and learning. Professional acting.

 

Resumen

    El objetivo de este estudio fue identificar las opiniones de los alumnos sobre el trabajo didáctico-pedagógico en las clases de Educación Física Escolar, problematizando la importancia del contenido y estrategias didácticas para la superación de la cultura conocida popularmente como "laissez-faire". La investigación fue realizada por medio el abordaje cualitativo/descriptivo, a través de una entrevista semiestructurada. Se entrevistó a once alumnos del séptimo año de la enseñanza fundamental II, y una profesora de Educación Física en el interior del estado de São Paulo en la región sudeste de Brasil. Los resultados obtenidos revelaron resistencia por parte de los alumnos para superar la cultura de las clases “laissez-faire”, con contenidos libres y recreacionales. A partir del momento en que la profesora conquistó su espacio y la confianza de los alumnos, se observó la importancia del compromiso del profesor en relación a los contenidos a ser enseñados, concluyendo que es de extrema relevancia que los alumnos aprendan nuevas prácticas corporales, culturales, juegos y actividades que despiertan interés en ambos géneros.

    Palabras clave: Educación Física Escolar. Práctica pedagógica. Enseñanza y aprendizaje. Actuación profesional.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 24, Núm. 254, Jul. (2019)


 

Introdução

 

    O estudo tem como problemática a reflexão sobre a cultura da prática na Educação Física (EF) escolar (EFE) conhecida como “rola-bola”1. A primeira autora, ao realizar a disciplina de “Estágio Supervisionado no Ensino Fundamental II – anos finais”, observou que a professora enfrentava um grande desafio em fazer com que os alunos participassem e se interessassem pelos conteúdos propostos.

 

    Após esse primeiro contato durante o estágio, questionando a professora desta turma sobre essa resistência que os alunos demonstraram, ela declarou que no ano anterior o outro professor de EF deixava os alunos “livres” para escolherem o que iriam fazer nas aulas, desconsiderando as diversas tendências, abordagens e concepções que norteiam o ensino da EF na escola. Foi a partir desse esclarecimento que surgiu o interesse em realizar a presente pesquisa.

 

    As propostas e os objetivos educacionais da EFE foram, ao longo deste último século XX, se alterando e ainda hoje influenciam as práticas pedagógicas dos professores de EF (Darido, 2003). É necessário que a aula seja um lugar de aprender coisas novas e não apenas executar uma única prática corporal, como os esportes – conteúdo hegemônico na escola, onde os alunos que já dominam suas técnicas, vão praticar o esporte, enquanto os outros continuam no mesmo lugar (Soares, 1996).

 

    Segundo Betti e Zuliani (2002) enquanto componente curricular, a EF deve introduzir o aluno na cultura corporal de movimento, fazendo com que assumam a tarefa de usufruir do jogo, do esporte, das atividades rítmicas e danças, das ginásticas e práticas de aptidão física, fazendo com que os alunos produzam, reproduzam e transformem esses conteúdos em benefício da qualidade de vida.

 

    Para crescer em sociedade, é importante que os alunos desenvolvam autonomia refletindo, assimilando e questionando sobre conjuntos de regras e normas que permitem terem comportamentos adequados. Podemos destacar que a EF também tem a sua responsabilidade na concretização de todo esse processo no qual o professor, de modo geral, atua orientando os alunos, pois ele representa não só a figura de uma autoridade adulta, como também valores de conhecimento. (Guimarães et al., 2001)

 

    Para que a EF seja caracterizada, conhecida e reconhecida, deve ir muito além do simples fazer por fazer, não visando apenas melhoria da aptidão física e da saúde e sim promover programas que contribuam com a formação do cidadão, permitindo a reflexão e a sua utilização em situações do dia a dia. (Ulasowicz; Peixoto, 2004)

 

    A EF dispõe-se como um lócus para discussões e reflexões, um espaço muito rico levando em consideração os conflitos entre valores que existem na escola. Cabe ao professor e professora, assumir e representar o papel de orientador (a), agindo como um modelo e referência de diálogo (Guimarães et al., 2001). De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s):

    A Educação Física escolar pode sistematizar situações de ensino e aprendizagem que garantam aos alunos o acesso a conhecimentos práticos e conceituais. Para isso, é necessário mudar a ênfase na aptidão física e no rendimento padronizado que caracterizava a Educação Física, para uma concepção mais abrangente, que contemple todas as dimensões envolvidas em cada prática corporal. É fundamental também que se faça uma clara distinção entre os objetivos da Educação Física escolar e os objetivos do esporte, da dança, da ginástica, e da luta profissionais, pois, embora seja uma referência, o profissionalismo não pode ser a meta almejada pela escola. (Brasil, 1997, p. 27)

    Ainda, o documento reforça que o processo de ensino e aprendizagem em EF, vai além de realizar exercícios físicos e modalidades esportivas, o indivíduo é capacitado a refletir sobre suas possibilidades corporais, com autonomia social e culturalmente significativa e adequada (Brasil, 1997).

 

    Os alunos só poderão assumir novas atitudes e ter uma mudança de comportamento quando compreendem porque estão fazendo determinadas atividades, entendendo e vivenciando aquela aprendizagem.

 

    Neste cenário, muitos professores de EF limitam suas práticas pedagógicas em apenas observar os seus alunos em quadra, enquanto realizam atividades que escolheram, ou aquelas que os materiais disponíveis permitem, sendo quase sempre o futebol, voleibol e queimada. (Morandim, 2016)

 

    Segundo Saviani (1987, p.59), “os conteúdos são fundamentais e, sem conteúdos relevantes, conteúdos significativos, a aprendizagem deixa de existir, ela se transforma num arremedo, ela se transforma em uma farsa”. Frisando que esse cenário que carece da intervenção sistemática do professor durante as aulas, não é exclusividade das aulas de EF, nas outras disciplinas alguns professores também utilizam esse “falso aprendizado”. Em alguns contextos, esses professores de EF que não sistematizam e mediam conteúdos, são conhecidos como professores “rola-bola”.

 

    Esse problema se observa em professores despreparados para compreender a relevância de seu trabalho pedagógico dentro da escola, podendo ser reflexo da formação inicial e continuada que lhes fora oferecida, não trabalhando a criticidade necessária aos professores que atuam na escola. Imbernón (2000, apud Cruz; Ferreira, 2005), destaca que a formação permanente do professor, contribui sobre sua prática docente, além de proporcionar trocas de experiências entre seus pares e a formação junto a um determinado projeto de trabalho.

Darido (2003, p. 23) ressalta que:

    Apesar do grande número de abordagens no contexto da EF escolar brasileira, é preciso ressaltar que a discussão e o surgimento destas tendências não significaram o abandono de práticas ao modelo esportivo, biológico ou, ainda, ao recreacionista, que podem ser considerados os mais frequentes na prática do professor de EFE.

    Segundo Betti e Zuliani (2002), os professores precisam fundamentar-se teoricamente, estreitando as relações entre teoria e prática pedagógica, inovando, experimentando novos modelos, estratégias, metodologias, conteúdos, a fim de promover contribuições para a formação integral das crianças e jovens.

 

    Diante desse cenário, o objetivo desta pesquisa foi identificar as opiniões de alunos e alunas, assim como a da professora responsável, a respeito do trabalho didático-pedagógico nas aulas de EFE, problematizando a importância do estabelecimento de conteúdos e estratégias didáticas para superar a cultura de professores e professoras de EF conhecidos como “rola-bola” no âmbito escolar.

 

Metodologia

 

    A pesquisa realizada na abordagem qualitativa/descritiva (Godoy, 1995), que tem como principal objetivo a coleta de dados sobre a população a ser investigada, no caso do presente trabalho, os alunos/alunas e professora de EF, através de artifícios como entrevistas. (Markoni; Lakatos, 2016)

 

    Os 11 participantes dessa pesquisa foram alunos do sétimo ano do Ensino Fundamental II (05 meninas e 06 meninos); e a professora de EF, ambos de uma escola estadual do estado de SP. A professora de EF era nova na escola, fazendo menos de seis meses que assumiu as aulas, porém era experiente na área por estar a mais de dez anos atuando no âmbito escolar. As técnicas de pesquisa utilizadas foram pesquisa bibliográfica e entrevista semiestruturada (Negrine, 1999). A entrevista semiestruturada abrange perguntas previamente definidas pelo pesquisador e proporciona maior liberdade para o entrevistado dissertar sobre o tema. As perguntas utilizadas na entrevista semiestruturada foram (quadro 01, a seguir):

 

Quadro 1. Perguntas utilizadas na entrevista semiestruturada para alunos e professora

Aos Alunos/alunas

À Professora EF

 

Como era a EF no ano passado?

Quais as dificuldades que você encontra durante as aulas?

Como você realiza seu planejamento?

 

O que você acha da aula de EF de hoje?

Quais estratégias que você usa?

Como é o estranhamento/aceitação dos alunos perante as novas aulas?

 

O que você mais gosta das aulas de hoje? E o que menos gosta?

Quais avanços em relação aos alunos você percebeu durante esse tempo?

Como você lida com os alunos que ficam sem realizar as aulas por não gostar das atividades propostas?

Se você fosse o professor, o que mudaria nas aulas?

Quais expectativas você tem em relação aos alunos?

 

    No trabalho de campo, foi utilizado um gravador de voz para realizar as coletas das entrevistas, além das observações e registros durante dois meses das aulas de EF, sendo junho e agosto/2016. No mês de julho/2016, não foi realizado a coleta das entrevistas, pois tanto os discentes quanto os docentes estavam em período de férias, impossibilitando a coleta de dados. Posteriormente as entrevistas foram transcritas para a análise, tentando revelar possíveis relações entre o fenômeno estudado e outros fatores (Marconi; Lakatos, 2016) entre os meses de setembro e outubro/2016.

 

    Para nos referir aos alunos e alunas, utilizaremos ao decorrer do texto, um número caracterizando-os, seguido da idade dos participantes (por exemplo: Aluna 2, 11 anos). Ao nos referirmos a atual professora a qual entrevistamos, iremos utilizar professora de EF.

 

Resultados e discussão

 

    Realizando uma comparação entre as aulas de EF do ano de 2015, com as aulas do ano de 2016, pode-se observar por meio dos relatos dos alunos e alunas, que o professor anterior não se preocupava em ministrar um conteúdo em suas aulas. Assim como afirmam dois alunos de EF: “O professor não passava nada pra gente, ele só deixava a gente brincar” (Aluna 1, 11 anos); e “Ano passado o professor deixava a gente livre. Pros moleques ele passava futebol e pras meninas, a gente vinha jogar vôlei aqui fora”. (Aluna 2, 11 anos)

 

    Analisando as demais respostas, identificamos que 7 de 11 alunos/alunas comentaram que eles apenas jogavam futebol durante as aulas de EF e que em sua maioria, os meninos ficavam na quadra, enquanto as meninas ficavam do lado externo, jogando vôlei ou sentadas sem realizar nenhuma atividade. Diante dessa realidade, podemos estabelecer uma relação ao que Darido e Junior (2010) mencionam que a crítica ao esporte de rendimento se voltou para outro extremo, em que o professor de EF praticamente não intervém e seu papel na escola se restringe a oferecer uma bola para que os alunos a manejem da maneira que desejarem.

 

    Identificado pela aluna (Aluna 3, S.,10 anos) a perspectiva de aprendizagem referente às aulas de EF: “as aulas eram uma bagunça, porque o professor deixava a gente livre, a gente não aprendia nada”. E reforçou que não gostava quando a professora cumpria o combinado de deixar a última aula do mês “livre”, pois assim, ela não aprendia novas atividades.

 

    Segundo o Coletivo de Autores (1992, p. 26):

    [...] todo educador deve ter definido o seu projeto político-pedagógico. Essa definição orienta sua prática no nível da sala de aula: a relação que estabelece com os alunos, o conteúdo que seleciona para ensinar e como o trata científica e metodologicamente, bem como os valores e a lógica que desenvolve os alunos.

 

    No âmbito educacional, a EF pode cumprir um papel muito importante na formação do aluno/aluna, pois contém uma prática pedagógica e social que tem o movimento corporal humano como objeto de estudo, que é expressa por intermédio dos jogos, das danças, ginásticas, capoeira, esporte, lutas e outras práticas corporais.

 

    Na entrevista com a atual professora de EF, ao perguntar quais as dificuldades que ela encontrou logo que chegou a escola, a docente comentou que: “(...) nos primeiros cinco meses de fevereiro até junho, a questão deles não estarem acostumados às aulas de EF ter conteúdo, eles acharem que é só bola, bola, bola...” (M., 42 anos, atual professora de EF). Também explicou que “[...] A primeira reação deles é a resistência, ‘eu não vou fazer’, ‘eu não quero’, ‘porque isso não é Educação Física’, então o primeiro momento a questão da resistência, aí aos poucos eles começam a ver que tem um plano a ser seguido, que você tem uma determinada maneira de trabalhar.”

 

    Através da fala da atual professora de EF, obtido pela entrevista, a estratégia que a docente utilizou para os alunos e alunas se acostumarem com suas práticas pedagógicas era um “acordo”, contendo uma lista com sete itens2 em relação a colaboração nas aulas e a participação. Caso essa lista fosse cumprida, os alunos tinham direito a uma “aula livre” todo o final de mês, em que eles escolhiam qual seria o conteúdo da aula, porém com a supervisão da professora, que também deixava os materiais na quadra, sempre presente e observando as atividades. Porém, se não houvesse a colaboração por parte dos alunos, eles perdiam esse direito e a professora seguia com o cronograma.

 

    Identificamos na fala do aluno 4 (11 anos), que a professora de EF, conseguiu ministrar suas práticas pedagógicas com os alunos mais resistentes, sendo que com o antigo professor “rola-bola” as “aulas eram legais”, (Aluno 4, 11 anos), mas que, segundo o mesmo aluno, agora também era, pois ele aprendia atividades diferentes com a atual professora de EF e que ele esperava até a última aula do mês para ter aula livre “agora não é sempre” (Aluno 4, 11 anos). Darido e Rangel (2005, p.108-109) mencionam que “[...] na relação professor-aluno, as ações dos alunos orientam-se pelas ações dos professores, visão esta que direciona o professor para o papel de formador de opinião e consciência dos estudantes e não um mero reprodutor de ideias prontas e acabadas.”

 

    Sobre as novas práticas pedagógicas e os novos conteúdos ministrados pela professora M, a aluna C relata sobre as aulas atuais: “são mais legais, porque a professora ensina mais coisa, passa coisa divertida que a gente nunca aprendeu e dançamos” (Aluna 6, C.,10 anos). Sobre essa motivação que a aula demonstrou ter, Silva (2014, p. 38) esclarece que:

    Mesclar algumas atividades que os alunos manifestem com atividades que possibilitem essa nova cultura corporal de movimento, permite que os alunos se mantenham motivados e não percam a vontade de participar das aulas. Apresentar novos esportes, com atividades que envolvam a cooperação e a coletividade dos alunos, permite que se sintam desafiados e, assim, se manterão dispostos e presentes em aula, sem que haja desistências.

    Analisando as respostas dos demais alunos, todos/todas mencionaram que as aulas estavam sendo mais bem aproveitadas por conta dessas novas atividades que despertam o interesse e a curiosidade, já que eles vêm de uma rotina que as aulas não tinham variações de conteúdos. Podemos citar a presença do professor e suas interferências como um fator muito importante em relação à motivação dos alunos nas aulas de EF, assim como cita o aluno 7 (11 anos) que as aulas estão mais legais e mudou bastante em relação ao ano anterior, porque agora a professora realiza até alongamento antes de passar uma atividade, e essas são mais diversificadas.

 

    Segundo Darido (2005, p.56):

    Para facilitar a adesão dos alunos às práticas corporais seria importante diversificar as vivências experimentadas nas aulas, para além dos esportes tradicionais (futebol, voleibol ou basquetebol). Na verdade, a inclusão e a possibilidade de vivências das ginásticas, dos jogos, das brincadeiras, das lutas, das danças podem facilitar a adesão do aluno na medida em que aumentam as chances de uma possível identificação.

    Embora ainda com muita dificuldade, a professora M falou que o maior avanço que teve nos últimos oito meses foram os alunos e alunas perceberem que, com ela, as aulas teriam um cronograma a ser seguido, além de objetivos determinados a serem alcançados.

 

    Partindo desse contexto, a professora menciona durante a entrevista que espera atingir suas expectativas, que é deixar os alunos cientes de que a aula de EF não é só jogar futebol, e que se no ano seguinte trocar de professor, eles possam cobrar um conteúdo a ser desenvolvido.

 

    Diante dessa pesquisa, foi possível constatar o quão necessário e importante é a professora, como agente pedagógica, mediar os conteúdos durante as suas aulas, de maneira objetiva, através de uma metodologia apropriada (Venditti Jr.; Sousa, 2008). Além de realizar o seu trabalho pedagógico, devido a sua relevância como professora de EF, consegue instigar os alunos a realizarem as atividades propostas, podendo assim contribuir para a vida desses indivíduos por meio dos saberes pertencentes à área.

 

    Para os alunos e alunas, apesar de inicialmente demonstrarem resistência às sequências de conteúdos programados pela professora no seu projeto político pedagógico, eles se sentem motivados a participarem das aulas, podendo aprender novos conteúdos que vão contribuir tanto para o desenvolvimento motor, social e cultural. (Darido, 2005)

 

Conclusões

 

    Ao identificar as opiniões de alunos a respeito do trabalho didático-pedagógico sistematizado nas aulas de EFE, problematizando a importância do estabelecimento de conteúdos e estratégias didáticas para superar a cultura de professores de EF conhecidos como “rola-bola” no âmbito escolar pode-se concluir que o objetivo foi atingido.

 

    As principais limitações do estudo incluem pouca fala das crianças, o que não nos possibilitou em aprofundar nossa análise, porém as informações concebidas através das entrevistas, juntamente com a produção da literatura permitiu verificar que no contexto que estamos inseridos, ainda encontramos professores descompromissados com o processo de ensino e aprendizagem nas aulas de EF, e o quão difícil é mudar uma cultura na qual os alunos já estão acostumados.

 

    A professora de EF, por ser nova na escola, encontrou dificuldades em relação à aceitação dos alunos e alunas perante as suas aulas, pois no ano anterior, com outro professor, os alunos não seguiam um cronograma de ensino, eles tinham liberdade para fazerem o que quiserem durante as aulas, conforme relatado pelos alunos.

 

    A partir dos relatos dos alunos entrevistados, identificamos que os meninos jogavam futebol e as meninas ficavam do lado de fora da quadra jogando vôlei, ou ambos não faziam nada, durante a aula do professor “rola-bola”. Alguns relataram que gostavam quando podiam ficar jogando futebol; porém, todos eles responderam que ainda assim preferem quando as aulas têm um planejamento a ser seguido, tornando assim, aulas mais ricas em relação aos conteúdos.

 

    Apesar das dificuldades, a professora de EF sente-se muito realizada em perceber que após seis meses de aulas, os alunos já estavam se adaptando, mesmo que de uma maneira mais lenta, com a sua forma de ensino, o que fez relatar que suas expectativas em relação aos alunos é que eles saibam cobrar dos futuros professores, caso ela não continue na escola, uma aula em que os conteúdos sejam realmente abordados.

 

    Resta o questionamento em saber o que leva esses professores de EF, intitulados de “rola-bola” a terem esses desinteresses pedagógicos, podendo aprofundar nas possíveis soluções em resolver esse problema.Conclui-se que essa pesquisa foi fundamental para perceber que mesmo os alunos pedindo durante as aulas para jogarem vôlei e futebol, eles sentem a necessidade de aprenderem novas atividades, culturas, jogos e brincadeiras que despertam interesse de ambos os gêneros durante as aulas de EF.

 

Notas

  1. O termo “rola-bola’ ou “professor(a) rola-bola” neste trabalho irá adquirir conotação pejorativa, utilizado para caracterizar o professor de EF, por conta de uma série de fatores, como por exemplo, distribuir materiais e deixar que a aula seja “livre”, com atividades escolhidas pelos alunos sem nenhum critério de organização/participação efetiva. Este termo pode ser correlacionado ao que conhecemos como o indivíduo “laissez-faire” (AYOUB, 2001), aqui empregado como aquele profissional que não se importa ou tampouco interage com os educandos e os conteúdos a serem apresentados, que é notoriamente reconhecido no âmbito da EF como o abandono pedagógico do professor (FONTANA, 2000), principalmente o aspecto de se abrir mão da mediação por parte do adulto educador no processo educativo com a criança, em contextos diversos. Aqui utilizaremos tanto o conceito “rola-bola”, quanto o “laissez-faire” ao profissional que abdica desta mediação e não estabelece a relação dialética com os educandos e nem o estímulo ao senso crítico nas atividades e conteúdos propostos dentro da EF escolar.

  2. 1- Fazer silêncio durante a chamada e a explicação da aula; 2- descer em fila, ir ao banheiro e beber água antes de entrar na quadra; 3- ao chegar à quadra, ir ao círculo vermelho e começar o alongamento; 4- se houver brigas ou palavras de baixo calão durante a aula, o aluno (ou a turma) fica sem realizar a aula (nesse caso, a turma decidia o que era melhor a ser feito); 5- todos devem participar das aulas, para ao final do mês a turma ter uma aula livre; 6- manter a limpeza da quadra em relação ao lixo deixado na hora do intervalo; 7- usar roupas adequadas para as aulas (Morandim, 2016).

Referências

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 24, Núm. 254, Jul. (2019)

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