Lecturas: Educación Física y Deportes | http://www.efdeportes.com

ISSN 1514-3465

 

Qualidade de vida de idosos participantes de 

um projeto de atividade física em Roraima, Brasil

Quality of Life of Elderly Participants in a Physical Activity Project in Roraima, Brazil

Calidad de vida de personas mayores que participan en un proyecto de actividad física en Roraima, Brasil

 

Roberta Mendes da Silva*

mendes.roberta490@gmail.com

Marcello da Silva Soares**

marcello.soares@ifrr.edu.br

Fabiana Leticia Sbaraini+

fabiana.leticia@ifrr.edu.br

João Victor da Costa Alecrim++

joaovictoralecrim73@gmail.com

 

*Graduada em Licenciatura em Educação Física

pelo Instituto Federal de Roraima (IFRR)

**Mestre em Engenharia de Produção

pela Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá

da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho

Graduado em Licenciatura em Educação Física

pela Universidade Federal do Amazonas

Professor efetivo do Instituto Federal de Roraima (IFRR)

Coordenador do projeto de extensão Superação 60+ no Campus Boa Vista do IFRR

+Graduada em Educação Física Licenciatura Plena

pela Universidade Federal de Santa Maria

Mestra em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Catarina

Doutora em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos

Atualmente é docente do mestrado ProfEPT do IFRR

Professora EBTT do IFRR, atuando na linha de pesquisa

de Práticas Educativas em Educação Profissional e Tecnológica (EPT)

Docente do curso de Licenciatura em Educação Física

++Graduado em Bacharelado e Licenciatura em Educação Física

pela Universidade Norte do Paraná e IFRR, respectivamente

Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de Roraima

Vice Coordenador do GT de Políticas Públicas e Atividade Física

da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde

Pesquisador do Laboratório de Biociências e Motricidade Humana de Roraima

(Brasil)

 

Recepción: 08/04/2024 - Aceptación: 15/02/2025

1ª Revisión: 11/08/2024 - 2ª Revisión: 12/02/2025

 

Level A conformance,
            W3C WAI Web Content Accessibility Guidelines 2.0
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0

 

Creative Commons

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Silva, R.M. da, Soares, M. da S., Sbaraini, F.L., y Alecrim, J.V. da C. (2025). Qualidade de vida de idosos participantes de um projeto de atividade física em Roraima, Brasil. Lecturas: Educación Física y Deportes, 29(322), 55-67. https://doi.org/10.46642/efd.v29i322.7548

 

Resumo

    O presente estudo analisou a qualidade de vida (QV) de idosos participantes do Projeto Cabelos de Prata do município de Boa Vista/RR. A amostra foi composta por 55 idosos, equivalente a 44% do total de idosos do projeto. Foram utilizados dois questionários como instrumentos de avaliação, sendo um para avaliar perfil sociodemográfico e WHOQOL-OLD para avaliar a QV. Os dados das variáveis foram tabulados no Microsoft Excel 2010 para categorização dos resultados obtidos. O resultado da pesquisa sociodemográfica revelou que os idosos são, em sua maioria, do sexo feminino, 84%, com idade média de 71,69 anos, sendo 31% casados e 31% solteiros e apenas 33% consideraram muito ruim o estado vivido durante a pandemia. Em relação à QV, de acordo com as respectivas facetas avaliadas o Funcionamento Sensório foi considerada regular com 3,86, Autonomia foi considerada boa com 4,58 e QV “boa” chegando a 4,19 na autoavaliação. Conclui-se que, os idosos participantes do projeto Cabelos de Prata da cidade de Boa Vista/RR percebem sua QV como “boa” na autoavaliação, e que enquanto seus sentidos estiverem em bom funcionamento a ponto de conseguirem enxergar, escutar e interagir com seus colegas e familiares, eles estariam satisfeitos com seus níveis de QV.

    Unitermos: Qualidade de vida. Sáude do idoso. Atividade física. Política de saúde.

 

Abstract

    This study aimed to analyze the quality of life (QoL) of elderly participants in the Cabelos de Prata Project in the municipality of Boa Vista/RR. The sample consisted of 55 elderly individuals, representing 44% of the total participants in the project. Two questionnaires were used as assessment instruments: one to evaluate the sociodemographic profile and the WHOQOL-OLD to assess QoL. The variable data were tabulated in Microsoft Excel 2010 for categorization and analysis of the obtained results. The sociodemographic research findings indicated that the majority of participants were female (84%), with an average age of 71.69 years. Among the elderly, 31% were married, and 31% were single. Regarding the pandemic, only 33% rated their well-being as "very poor." Concerning QoL, according to the respective assessed facets, Sensory Functioning was considered regular (mean of 3.86), Autonomy was classified as good (mean of 4.58), and overall QoL self-assessment was rated as "good" (mean of 4.19). Thus, it is concluded that the elderly participants in the Cabelos de Prata Project in Boa Vista/RR perceive their QoL as satisfactory. Furthermore, the preservation of sensory capacities, such as vision and hearing, as well as social interaction with peers and family members, are determining factors for their positive perception of quality of life.

    Keywords: Quality of life. Elderly health. Physical activity. Health policy.

 

Resumen

    El presente estudio analizó la calidad de vida (CV) de personas mayores participantes del Proyecto Cabelos de Prata en la ciudad de Boa Vista/RR. La muestra estuvo conformada por 55 personas mayores, equivalente al 44% del total de personas mayores del proyecto. Se utilizaron dos cuestionarios como instrumentos de evaluación, uno para evaluar el perfil sociodemográfico y el WHOQOL-OLD para evaluar la calidad de vida. Los datos de las variables fueron tabulados en Microsoft Excel 2010 para categorizar los resultados obtenidos. El resultado de la encuesta sociodemográfica reveló que los adultos mayores son en su mayoría del sexo femenino, 84%, con una edad promedio de 71,69 años, 31% casados ​​y 31% solteros y sólo el 33% consideró muy malo el estado que vivieron durante la pandemia. En cuanto a la CV, según las respectivas facetas evaluadas, el Funcionamiento Sensorial se consideró regular con 3,86, la Autonomía se consideró buena con 4,58 y la CV “buena” alcanzando 4,19 en la autoevaluación. Se concluye que los ancianos participantes del proyecto Cabelos de Prata en la ciudad de Boa Vista/RR perciben su CV como “buena” en la autoevaluación, y que mientras sus sentidos estén en buen funcionamiento hasta el punto de poder ver, oír e interactuar con sus colegas y familiares, estarían satisfechos con sus niveles de CV.

    Palabras clave: Calidad de vida. Salud de las personas mayores. Actividad física. Política de salud.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 29, Núm. 322, Mar. (2025)


 

Introdução 

 

    O envelhecimento humano é um processo fisiológico, regido por uma degeneração estrutural do corpo físico podendo ser acelerado ou não com base nos hábitos de antes e durante essa época. Trata-se de um fenômeno social multifacetado que demanda enfrentamento interdisciplinar. O aumento do número de anos de crescimento e desenvolvimento rápido é progressivo, principalmente nos países da América do Sul (Dawalibi et al., 2014). Esse processo diz respeito à sociedade de forma geral e o idoso não deve sofrer discriminação de nenhuma natureza, bem como deve ser o principal agente e o destinatário das transformações indicadas por essa política. (Alecrim et al., 2019)

 

    As modificações morfológicas e funcionais relacionadas ao envelhecimento constituem uma das maiores preocupações para os profissionais da área da saúde, sobretudo no que se refere à prevenção de doenças e melhora da qualidade de vida (QV) (Silva et al., 2012). A QV é um fenômeno subjetivo associado à percepção de vida, e envolve critérios de natureza biológica, psicológica e socioestrutural. Além disso, aspectos culturais, valores, objetivos, expectativas e preocupações do idoso em relação à vida também estão associados a esse fenômeno (Scherrer et al., 2019). A melhoria da QV dos idosos é uma meta a ser alcançada, e passa a ser função de uma equipe multiprofissional, em todos os níveis de atenção à saúde. (Kuok et al., 2017)

 

    Sabe-se que as alterações em decorrência do envelhecimento, geralmente, reduzem o desempenho e a capacidade orgânica do indivíduo. Nesse cenário, a atividade física (AF) pode mitigar esses efeitos deletérios, além de prover aos idosos benefícios psicossociais, como uma autoimagem positiva e a alegria de viver, fazendo com que o indivíduo se integre mais, tenha maior convívio social, e uma perspectiva de vida (Nadai, 1995). A prática regular de AF é fundamental para elevar a QV do idoso, auxiliando na manutenção da capacidade funcional de toda a gama de habilidades físicas e mentais que ele adquiriu ao longo de sua vida. Além disso, a AF melhora a percepção subjetiva e objetiva da qualidade do sono e QV, sendo recomendada como tratamento terapêutico nos tratamentos dos distúrbios do sono. (Ropke et al., 2017)

 

    Silva e colaboradores (2010) observaram que, quanto mais fisicamente ativa a pessoa é, melhor sua QV. Comparados aos que não são fisicamente ativos, pessoas que praticam AF regularmente apresentam melhorias não apenas em aspectos de saúde física, mas, também, aspectos psicológicos e cognitivos.

 

    Em Boa Vista/RR, está em plena atividade o Projeto Cabelos de Prata, que oferece atividades a idosos a partir de 60 anos de idade. Este projeto proporciona aos participantes vivências em grupo, diversos tipos de oficinas, experimentações artísticas, culturais, esportivas, lazer e a valorização das experiências vividas, que constituem em formas privilegiadas de expressão, interação e proteção social. (Miranda, 2022)

 

    O Projeto Cabelos de Prata, desenvolvido pela Prefeitura de Boa Vista, Roraima, desde 2001, tem como objetivo promover a valorização da pessoa idosa, proporcionando atividades que melhoram a autoestima, incentivam hábitos saudáveis e garantem os direitos fundamentais dos idosos. Atualmente, o projeto atende 1.137 idosos com idade acima de 60 anos.

 

    A presente pesquisa teve por objetivo fazer uma análise da QV de idosos do munícipio de Boa Vista/RR, frequentadores do Projeto Cabelos de Prata, para identificar a sua percepção por meio das facetas de habilidades sensoriais, autonomia, atividade passada, presente e futuro, participação social, intimidade e morte e morrer.

 

Metodologia 

 

    De acordo com Gil (2002), a presente pesquisa é caracterizada como descritiva de corte transversal e de campo e, segundo Turrioni, e Mello (2012) classificada como quantitativa.

 

    A população desta pesquisa foi constituída por idosos (60+) de ambos os sexos participantes do projeto municipal Cabelos de Prata do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) no bairro Silvio Leite da zona urbana de Boa Vista/RR. As atividades ocorrem semanalmente nos CRAS e Centros de Múltiplo Uso (CMU). Os participantes têm acesso a oficinas de confecção de tapetes, crochê, entre outras, que além de promoverem a integração social, podem servir como fonte de renda extra, também são realizados exercícios físicos adaptados às necessidades dos idosos, visando a melhoria da saúde física e mental. Os participantes são divididos em grupos conforme a faixa etária, com encontros duas vezes por semana e duração de aproximadamente duas horas por dia. A seleção dos participantes foi realizada por conveniência, sendo composta por 55 idosos integrantes do Projeto Cabelos de Prata (44% da população). A participação foi voluntária, garantindo-se o direito à recusa sem qualquer prejuízo.

 

    A coleta de dados ocorreu por meio da aplicação de dois questionários. O primeiro foi um questionário semiestruturado de autoria dos pesquisadores, elaborado especificamente para avaliação do perfil sociodemográfico, englobando os seguintes aspectos: idade, sexo biológico, nacionalidade, escolaridade, aposentadoria, renda familiar, estado civil, número de dependentes, moradia e transporte.

Para a análise da QV, foi utilizado o WHOQOL-OLD, criado por pesquisadores do WHOQOL Group, em colaboração com a OMS, em 1999. (Becker, 2013)

 

    O WHOQOL-OLD é um instrumento autoavaliativo, um questionário autoexplicativo com 24 questões, que possui seis dimensões, chamadas de facetas, pertinentes à QV específica em idosos, sendo elas: habilidades sensoriais (HS), autonomia (AUT), atividade passada, presente e futura (PPF), participação social (PSO), morte e morrer (MM) e intimidade (INT) (Becker, 2013). A pontuação deste questionário também segue a sintaxe proposta pelo grupo WHOQOL. (Vagetti et al., 2012)

 

    No momento da aplicação dos questionários, foi realizada uma orientação explicativa sobre o preenchimento dos questionários. Cada idoso recebeu os questionários e o termo de consentimento livre e esclarecido em envelope lacrado e, após responder aos instrumentos da pesquisa e assinar o termo, foram depositados em novos envelopes, sem identificação, preservando, assim, a identidade dos participantes e o sigilo das informações.

 

    Os dados das variáveis foram analisados no Excel 2010, por meio de estatística descritiva. Para complementar a análise, foram calculadas medidas de tendência central, incluindo a média amostral, visando sintetizar as informações obtidas.

 

Resultados 

 

    Constatou-se que os idosos possuem a média de idade de 71,69 ± 6,46 anos, sendo a menor idade 60 anos e a maior 85 anos. A pesquisa sociodemográfica revelou que a maioria dos idosos é do sexo feminino (84%).

 

    A nacionalidade dos participantes constitui-se de 94% brasileira, 2% venezuelana, 2% chilena e 2% colombiana. A pesquisa identificou que 95% desses idosos possuem filhos e que mesmo os idosos solteiros possuem filhos.

 

    No que se refere à escolaridade, a predominância foi de ensino fundamental incompleto (44%) e de analfabetismo (36%), mostrando o baixo índice de escolaridade entre os integrantes do projeto. Ainda se obteve 9% com ensino médio completo, 5% fundamental completo, 4% médio incompleto e 2% com graduação.

 

    No que se refere a aposentadoria, 80% dos participantes são aposentados, 18% não são e 2% são pensionistas. A idade média dos participantes está na faixa permitida para que se aposentem, entretanto, 18% ainda não preencheram os requisitos para tal, com isto, sua renda familiar consiste em 1 salário-mínimo daqueles que possuem a aposentadoria e para os que não a possuem estão sem nenhuma renda fixa.

 

    Quanto à renda familiar, 84% responderam um salário-mínimo, 11% nenhuma renda, 3% menos de um salário-mínimo e 2% dois salários-mínimos.

 

    Em relação a com quem moram os idosos da pesquisa, 33% responderam com os filhos, 29% sozinho, 22% com o cônjuge e 16% com outros. Tratando sobre a moradia própria 82% possuem casa própria, bem-acabada ou precisando de algum reparo e 18% moram de aluguel.

 

    Quanto ao estado civil, foi constatado na pesquisa que 31% dos idosos são solteiros, 31% casados, 25% viúvos e 13% divorciados.

 

    Quanto ao transporte próprio, 87% responderam que não possuem, relatando que não possuem condições de dirigir ou de adquirir um, 5% possuem moto, 4% possuem carro e conseguem dirigi-los, e 4% possuem bicicleta.

 

    Os resultados obtidos acerca da avaliação de cada faceta e da qualidade de vida geral (QVG) dos idosos são apresentados na Tabela 1.

 

Tabela 1. Valor médio das facetas do WHOQOL-OLD de idosos (n= 55), Boa Vista/RR (2024)

Facetas

Média

Classificação

Funcionamento Sensório

3,83

Regular (3 até 3,9)

Autonomia

4,58

Boa (4 até 4,9)

Atividades Passadas, Presentes e Futuras

4,39

Boa (4 até 4,9)

Participação Social

4,59

Boa (4 até 4,9)

Morte e Morrer

3,90

Regular (3 até 3,9)

Intimidade

3,88

Regular (3 até 3,9)

QV Geral

4,19

Boa (4 até 4,9)

Fonte: Próprios autores

 

Discussão 

 

    O notório crescimento da população idosa leva a reflexão dos meios que possam promover QV a este público. A AF, então, vem pondo-se como fator fundamental no processo de promoção de saúde e QV, em especial, no contexto pós-pandêmico em que vivemos.

 

    As evidências sugerem que o declínio da capacidade funcional, da QV e o aumento do risco de morbidade, incapacidade e mortalidade relacionados com a idade podem ser compensados ou retardados pela adoção de estilos de vida mais fisicamente ativos (Cunningham et al., 2020). As diretrizes internacionais recomendam que os idosos pratiquem, no mínimo, 150 minutos de AF de intensidade moderada por semana. (Piercy et al., 2018)

 

    Os adultos mais velhos correm um risco particular de levar estilos de vida não-saudáveis. Para muitos, o envelhecimento é definido por declínios rápidos nos níveis de AF, perda de mobilidade e independência funcional e morbidade prematura. (Payette et al., 2011)

 

    Descobriu-se que as interrupções em grande escala da AF durante a pandemia do coronavírus são um dos principais preditores de transtornos mentais comuns. (Lange et al., 2023)

    

    A literatura tem evidenciado uma poderosa relação entre exercício físico/atividade física e sintomas de ansiedade e depressão (Nascimento et al., 2024). A prática regular de AF adaptada à faixa etária dos idosos desempenha um papel crucial na promoção de um envelhecimento saudável e ativo. Sendo assim, o programa Cabelos de Prata proporciona aos idosos vivências em grupo, diversos tipos de oficinas, experimentações artísticas, culturais, esportivas, lazer e a valorização das experiências vividas, que constituem formas privilegiadas de expressão, interação e proteção social, e que podem estar diretamente associados à QV.

 

    Cabe destacar que um ator importante nesse processo de promoção de QV e saúde é o profissional de educação física, cuja experiência formativa na graduação, emprega o exercício físico como promotor de inúmeros efeitos, principalmente, no que tange à melhora das capacidades físicas, bem como efeitos positivos na dimensão social e psicológica.

 

    Os dados mostram que ao tratar de aspectos sociodemográficos, Lenardt & Carneiro (2013) apresentam em um estudo semelhante a faixa etária das mulheres entre de 80 a 84 anos, em que 72,5% dos longevos eram do sexo feminino e 27,5% do sexo masculino. Alvarenga e colaboradores (2011) expõe em seu estudo a idade média de 72,6 anos para o sexo masculino e 70,9 anos para o feminino.

 

    Sobre a predominância do sexo feminino os dados evidenciam a feminilização e a predisposição deste gênero para a participação no Projeto Cabelos de Prata. Dados semelhantes foram encontrados no estudo de Caporicci e Neto (2011), em que o sexo feminino predomina em grupos de convivência e de prática de atividades físicas. De forma semelhante, no estudo de Güths e colaboradores (2017) existe maior prevalência do sexo feminino.

 

    Quanto à situação imigratória ocorrida nos últimos anos em Roraima, apesar da prevalência de idosos brasileiros participantes no projeto, há presença de estrangeiros, sendo o projeto aberto para qualquer nacionalidade.

 

    Ao relacionar à prole, os estudos Alvarenga e colaboradores (2011) e Lenardt e Carneiro (2013) afirmam que os idosos, em sua maioria, possuem filhos. Já Güths e colaboradores (2017) discordam, e afirmam que em sua maioria não possuem filhos. O processo relacionado à solidão pode trazer pontos negativos, quanto aspectos relacionados ao incentivo na prática de AF e à sensação de solidão, o que podem ser fatores negativos para a QV.

 

    Os estudos de Güths e colaboradores (2017), Lenardt e Carneiro (2013), Caporicci e Neto (2011) estão de acordo com os dados desta pesquisa, tendo em vista idosos com baixa escolaridade.

 

    No estudo de Alvarenga e colaboradores (2011), prevalecem os viúvos, em que a amostra não tem a determinação de procurar outro par após a perda dele(a). Caporicci e Neto (2011) também apresentaram maior índice de viúvos em sua pesquisa.

 

    Notou-se que a QV dos participantes está boa e pode-se atribuir parcela desse resultado às intervenções de AF, sejam esportivas ou culturais desenvolvidas no referido projeto. No estudo de Fleck et al. (2003), os grupos de idosos pesquisados transcorreram sob uma atmosfera de cooperação, amistosa e tranquila, que demonstraram satisfação em poder discutir aspectos de QV específicos de sua faixa etária, manifestando contentamento em observar que suas experiências serão levadas em conta e que há interesse em estudar pessoas idosas.

 

    Corroborando com nossos achados, o estudo de Meidutė, e Česnaitienė (2020) demonstrou que após oito semanas de intervenção de exercício físico em idosos, as taxas de depressão e ansiedade foram reduzidas, e tanto a QV, quanto as funções motoras foram melhoradas.

 

    Vagetti e colaboradores (2014) apontaram, em sua revisão, que a AF foi positiva e, consistentemente, associada a alguns domínios da QV entre indivíduos mais velhos, apoiando a noção de que a promoção da AF em idosos pode ter um impacto além da saúde física.

 

    Concomitante a isso, Paredes (2023) aponta que a prática regular de AF é um indicador de boa QV em idosos e que, com o passar do tempo, se converte em um hábito saudável, por isso, a inatividade física fomenta maus hábitos e é prejudicial para a saúde.

 

    Chaviano (2024) aborda o caráter recreacional da AF, este modelo para público idoso, quando realizado em grupo, influencia de forma positiva a QV. Para tal afirmação foi utilizado observação, consulta e recolhimento de depoimentos dos idosos que afirmam que suas vidas mudaram, melhorando sua autonomia, memória, alegria e capacidade para se relacionar com a sociedade.

 

    Silva (2023) traz que técnicas como pilates, hidroterapia, cinesioterapia, gameterapia contribuem para serem obtidos inúmeros benefícios como melhora da resistência, força muscular, coordenação, equilíbrio, flexibilidade articular, correção postural, aumento da capacidade respiratória. Mediante as melhorias supracitadas, há redução de quedas nos idosos e alterações funcionais, promovendo os últimos anos de vida com autonomia, confiança, independências, bem estar físico, social e psicológico. (Silva, 2023)

 

    Rabelo e colaboradores (2023) abordaram a fragilidade desse público e afirmaram a necessidade da continuidade e aprofundamento em estudos futuros que avaliem e tentem padronizar um instrumento prático, bem como que busquem analisar maneiras de amenizar as consequências desse processo. Dessa forma, o atendimento e a manutenção da QV da pessoa idosa serão facilitados e melhor oferecida à essa população.

 

    Recomenda-se que outros estudos com uma população maior e especificando intensidade, volume, tipo de AF sejam feitos para melhores representações com especificidade superior.

 

Conclusão 

 

    Conclui-se que os idosos ativos no projeto Cabelos de Prata da cidade de Boa Vista/RR, que participam de atividades físicas, percebem sua QV como “boa” na autoavaliação. As facetas que contribuíram diminuindo os valores da QV foram Funcionamento Sensório, Morte e Morrer e Intimidade.

 

    Essa pesquisa não teve como objetivo estabelecer relação direta entre as facetas dos domínios do WHOQOL-OLD e os dados levantados do perfil sociodemográfico, mas sim, ampliar os dados relativos ao grupo analisado. Pode-se considerar que este estudo não teve a pretensão de ser conclusivo, ao contrário, pelo fato do ineditismo da pesquisa, espera-se que os achados nesse estudo sirvam como referência para outros pesquisadores que queiram seguir essa linha de pesquisa.

 

Referências 

 

Alecrim, J., Alecrim Neto, J., Pena Junior, G., e Triani, A. (2019). Uma análise sobre os marcos históricos das políticas públicas para idosos no brasil. In C. Senhoras, e. Senhoras (Eds.), Políticas Públicas: Caleidoscópio Temático! (pp. 19-21). Editora da Universidade Federal de Roraima.

 

Alvarenga, M.R.M., Oliveira, M.A.C., Domingues, M.A.R., Amendola, F., e Faccenda, O. (2011). Rede de suporte social do idoso atendido por equipes de Saúde da Família. Ciência & Saúde Coletiva, 16, 2603-2611. https://doi.org/10.1590/S1413-81232011000500030

 

Becker, A.M. (2013). Exercício físico, qualidade de vida e autoestima global em idosos portugueses: Um estudo exploratório do instrumento Whoqol-old [Dissertação de Mestrado em Exercício e Saúde em Populações Especiais. Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, Universidade de Coimbra]. https://estudogeral.uc.pt/handle/10316/25068

 

Caporicci, S., e Neto, M.F.O. (2011). Estudo comparativo de idosos ativos e inativos através da avaliação das atividades da vida diária e medição da qualidade de vida. Motricidade, 7(2), 15-24. http://dx.doi.org/10.6063/motricidade.7(2).107

 

Chaviano, M.B., Pérez, Y.V., e Villa, Y.C. (2024). Influencia de las actividades recreativas en la calidad de vida de los adultos mayores. Revista Científica Cultura, Comunicación y Desarrollo, 9(1), 173-179.

 

Cunningham, C., O’Sullivan, R., Caserotti, P., e Tully, M.A. (2020). Consequences of physical inactivity in older adults: A systematic review of reviews and meta‐analyses. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, 30(5), 816-827. https://doi.org/10.1111/sms.13616

 

Dawalibi, N.W., Goulart, R.M.M., e Prearo, L.C. (2014). Fatores relacionados à qualidade de vida de idosos em programas para a terceira idade. Ciência & Saúde Coletiva, 19(8), 3505-3512. https://doi.org/10.1590/1413-81232014198.21242013

 

Nascimento, P.F.M., Silva, R.S., Rodrigues Neto, G., e Oliveira, L.S. (2024). Treinamento multicomponente e de força melhoram saúde mental e qualidade de vida de idosos. Lecturas: Educación Física y Deportes, 29(311), 71-82. https://doi.org/10.46642/efd.v29i311.7460

 

Fleck, M.P.A., Chachamovich, E., e Trentini, C.M. (2003). Projeto WHOQOL-OLD: Método e resultados de grupos focais no Brasil. Revista de Saúde Pública, 37(6), 793-799. https://doi.org/10.1590/S0034-89102003000600016

 

Gil, A. C. (2002). Como elaborar projetos de pesquisa (4 ed.). Editora Atlas.

 

Güths, J.F. da S., Jacob, M.H.V.M., Santos, A.M.P.V. dos, Arossi, G.A., e Béria, J.U. (2017). Perfil sociodemográfico, aspectos familiares, percepção de saúde, capacidade funcional e depressão em idosos institucionalizados no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, Brasil. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 20(02), 175-185. https://doi.org/10.1590/1981-22562017020.160058

 

Kuok, CFK, Li, L., Xiang, Y., Nogueira, BOCL, Ungvari, GS, Ng, CH, Chiu, HFK, Tran, L., e Meng, L. (2017). Quality of life and clinical correlates in older adults living in the community and in nursing homes in Macao. Psychogeriatrics, 17(3), 194-199. https://doi.org/10.1111/psyg.12214

 

Lange, K.W., Nakamura, Y., e Reissmann, A. (2023). Sport and physical exercise in sustainable mental health care of common mental disorders: Lessons from the COVID-19 pandemic. Sports Medicine and Health Science, 5(2), 151-155. https://doi.org/10.1016/j.smhs.2023.01.005

 

Lenardt, M.H., e Carneiro, N.H.K. (2013). Associação entre as características sociodemográficas e a capacidade funcional de idosos longevos da comunidade. Cogitare Enfermagem, 18(1). https://doi.org/10.5380/ce.v18i1.31299

 

Meidutė, V., e Česnaitienė, V.J. (2020). Impact of physical exercise on depression and anxiety symptoms, quality of life and muscle strength in the elderly. Reabilitacijos Mokslai: Slauga, Kineziterapija, Ergoterapija, 1(22). https://doi.org/10.33607/rmske.v1i22.933

 

Miranda, M. (2022, March 24). Cabelos de prata - Protagonismo na maior idade: integrantes têm suas vidas transformadas após ingressarem no projeto. Prefeitura Municipal de Boa Vista. https://boavista.rr.gov.br/noticias/2022/3/cabelos-de-prata-protagonismo-na-maior-idade-integrantes-tem-suas-vidas-transformadas-apos-ingressarem-no-projeto

 

Nadai, A. (1995). Programa de atividades físicas e terceira idade. Motriz. Journal of Physical Education. UNESP, 1(2), 120-123. https://doi.org/10.5016/927

 

Paredes, J.F. (2023). Actividad física y calidad de vida en el adulto mayor: Revisión sistemática. GADE: Revista Científica, 3(1), 55-71. https://revista.redgade.com/index.php/Gade/article/view/190

 

Payette, H., Gueye, N.R., Gaudreau, P., Morais, J.A., Shatenstein, B., e Gray-Donald, K. (2011). Trajectories of physical function decline and psychological functioning: The Quebec longitudinal study on nutrition and successful aging (NuAge). Journals of Gerontology Series B: Psychological Sciences and Social Sciences, 66(suppl. 1), i82-i90. https://doi.org/10.1093/geronb/gbq085

 

Piercy, KL, Troiano, RP, Ballard, RM, Carlson, SA, Fulton, JE, Galuska, DA, George, SM, e Olson, RD (2018). The physical activity guidelines for Americans. JAMA, 320(19), 2020-2028. https://doi.org/10.1001/jama.2018.14854

 

Rabelo, M.A., Souza, D.M.S.T., Galhardo, V.Â.C., e Carvalho Mello, J.L. (2023). Fragilidade e qualidade de vida em idosos. Research, Society and Development, 12(3), e26712340738-e26712340738. http://dx.doi.org/10.33448/rsd-v12i3.40738

 

Ropke, LM, Souza, AG, Bertoz, APM, Adriazola, MM, Ortolan, EVP, Martins, RH, Lopes, WC, Rodrigues, CDB, Bigliazzi, R., e Weber, SAT (2017). Efeito da atividade física na qualidade do sono e qualidade de vida: revisão sistematizada. Archives of Health Investigation, 6(12). https://doi.org/10.21270/archi.v6i12.2258

 

Scherrer, G., Okuno, MFP, Oliveira, LM, Barbosa, DA, Alonso, AC, Fram, DS, e Belasco, AGS (2019). Quality of life of institutionalized aged with and without symptoms of depression. Revista Brasileira de Enfermagem, 72(suppl 2), 127-133. https://doi.org/10.1590/0034-7167-2018-0316

 

Silva, E.G. (2023). Os benefícios da fisioterapia na qualidade de vida do idoso [Trabalho de Conclusão de Curso. Instituição Unic Ary Coelho].

 

Silva, M.F. , Goulart, N.B.A., Lanferdini, F.J., Marcon, M., e Dias, C.P. (2012). Relação entre os níveis de atividade física e qualidade de vida de idosos sedentários e fisicamente ativos. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 15(4), 634-642. https://doi.org/10.1590/S1809-98232012000400004

 

Silva, R.S., Silva, I. , Silva, R.A., Souza, L., e Tomasi, E. (2010). Atividade física e qualidade de vida. Ciência & Saúde Coletiva, 15(1), 115-120. https://doi.org/10.1590/S1413-81232010000100017

 

Turrioni, J.B., e Mello, C.H.P. (2012). Metodologia de pesquisa em engenharia de produção. Unifei.

 

Vagetti, G.C., Barbosa Filho, V.C., Moreira, N.B., Oliveira, V. de, Mazzardo, O., e Campos, W. de (2014). Association between physical activity and quality of life in the elderly: A systematic review, 2000-2012. Brazilian Journal of Psychiatry, 36(1), 76-88. https://doi.org/10.1590/1516-4446-2012-0895

 

Vagetti, G.C., Oliveira, V., Barbosa Filho, V.C., Moreira, N.B., e Campos, W. (2012). Predição da qualidade de vida global em idosas ativas por meio dos domínios do WHOQOL-BREF e do WHOQOL-OLD. Motricidade, 8(2), 709-718.


Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 29, Núm. 322, Mar. (2025)