Citação
sugerida: Koch, R. (2022). Jardim do
Turia: uma celebração à diversidade esportiva valenciana em imagens. Lecturas:
Educación Física y Deportes, 27(288), 189-205. https://doi.org/10.46642/efd.v27i288.3240
Resumo
Este artigo trata-se de um relato de experiência inicial com objetivo de
identificar hábitos desportivos entre os cidadãos valencianos, com olhares
mais específicos para a prática e manifestações culturais atreladas ao
futebol, pois os interesses futuros de investigação estão voltados para
este campo. Foram utilizadas duas ferramentas metodológicas para a coleta
de dados: observação e registro de imagens, com posterior descrição dos
fatos para caracterizar a população. O Jardim do Turia, atualmente, reúne
uma diversidade de modalidades desportivas e, tal condição fica mais bem
exposta e descrita através de imagens; recurso utilizado neste artigo. A
partir deste levantamento inicial das atividades desportivas praticadas
pelos cidadãos e visitantes da Comunidade Valenciana, em seu principal
espaço público, foi possível delinear as principais práticas corporais e
esportivas desta população, além de apontar caminhos investigativos
futuros na pesquisa pós-doutoral.
Unitermos: Jardim do Turia.
Sociologia do Esporte. Valência. Diversidade cultural.
Abstract
This article is a report of an initial experience with the objective of
identifying sporting habits among Valencian citizens, with more specific
perspectives on the practice and cultural manifestations linked to
football/soccer, as future research interests are focused on this field. Two
methodological tools were used for data collection: observation and image
recording, with subsequent description of the facts to characterize the
population. Turia Garden currently brings together a variety of sports and
this condition is better exposed and described through images; resource used
in this article. From this initial survey of sports activities practiced by
citizens and visitors of the Valencian Community, in its main public space,
it was possible to outline the main bodily and sports practices of this
population, in addition to pointing out future investigative paths in
post-doctoral research.
Keywords: Turia Garden. Sport
Sociology. Valence. Cultural diversity.
Resumen
Este artículo es un primer informe de experiencia con el fin de identificar
hábitos deportivos entre los ciudadanos valencianos, con una mirada más
específica sobre la práctica y manifestaciones culturales vinculadas al
fútbol, ya que los intereses de investigación futuros se
centran en este campo. Se utilizaron dos herramientas metodológicas para la
recolección de datos: observación y registro de imágenes, con posterior
descripción de los hechos para caracterizar a la población. El Jardín del
Turia reúne actualmente una diversidad de deportes y esta condición se
expone y describe mejor a través de imágenes, recurso utilizado en este
artículo. A partir de este primer relevamiento de las actividades
deportivas practicadas por los ciudadanos y visitantes de la Comunidad
Valenciana, en su principal espacio público, fue posible esbozar las
principales prácticas físicas y deportivas de esta población, además de
señalar futuras vías de investigación en la investigación post-doctoral.
Palabras clave: Jardín del Turia.
Sociología del Deporte. Valencia. Diversidad cultural.
Este artigo foi desenvolvido a partir de observações feitas por este
pesquisador em seus primeiros meses de residência na cidade de Valência
(Espanha), por conta do período de estágio pós-doutoral na Universitat de
València, vinculado à Facultat de Ciències Socials e ao Institut Universitari
de Creatividad i Innovacions Educatives, no curso letivo de 2021-2022. O
objetivo destas observações iniciais foi identificar hábitos desportivos
entre os cidadãos valencianos, com olhares mais específicos para a prática e
manifestações culturais atreladas ao futebol, pois os demais interesses de
estudo estão voltados para este campo. No entanto, a diversidade esportiva
encontrada no principal parque urbano da cidade despertou novos caminhos
investigativos, que poderão ser explorados a partir do texto que segue tanto
neste período de investigação como em futuros estágios, ou até mesmo por
outros pesquisadores interessados na temática.
Como metodologia foram utilizadas duas ferramentas para a coleta de dados:
observação e registro de imagens, com posterior descrição dos fatos para
caracterizar a população. A escolha destas ferramentas metodológicas se deve
pela facilidade de emprego das mesmas e análise imediata e direta dos fatos,
já que o objetivo deste levantamento foi apenas apurar condições iniciais e
não aprofundadas dos comportamentos sociais a partir de práticas desportivas.
O artigo está dividido em cinco partes: introdução, breve histórico da
constituição do Jardim do Turia (locus das observações), metodologias
empregadas, descrição dos resultados encontrados a partir das observações,
registro de imagens e coleta de dados, e considerações finais.
Acreditamos que a descrição das próximas páginas contribui não só para os
estudos deste pesquisador, como também para outros pesquisadores com interesses
voltados para práticas corporais e esportivas urbanas em espaços públicos,
não só, mas também na região da Comunidade Valenciana.
O
Jardim do Turia
Valência, na Espanha, foi fundada por soldados romanos aproximadamente entre
135 a.C. e 138 a.C. ao longo do plano e das margens do Rio Turia que estava há
vários quilômetros da costa. A fundação de Valência ocorre, sobre uma ilha
fluvial no delta do rio, produzida pela bifurcação do Turia. Posteriormente,
em outros períodos históricos, Valência foi ocupada e dominada por árabes e
depois tomada pelo catolicismo com as cruzadas. A cidade era definida como
fluvial e não marítima devido à distância do mar em relação ao centro da
cidade e das modestas instalações de seu porto, além do caráter torrencial
do rio que provocava periodicamente inundações.
Desde as suas origens que cidade de Valência está intimamente ligada ao rio
Turia. [...] A identidade comum representa a intimidade que havia e há entre
o rio e a cidade. A consolidação de Valência como cidade deve-se em parte
à presença do rio sendo este um elemento importante e ao desenvolvimento da
agricultura baseada na melhoria de um sistema de regadio eficiente, chamado
“acéquias”. Este sistema de “valas” permitia controlar o curso da
água, especialmente nos meses secos. O Turia era um rio domesticado e metade
do seu caudal não era constante. A população nos meses de Primavera e
Verão, aproveitava o caudal “seco” do rio para realizar festas,
celebrações, feiras, mercados e outros usos quotidianos e de lazer.
(Azevedo, 2013, p. 29)
No entanto, por vezes o rio transbordava. Segundo Azevedo (2013) “as
inundações produzidas pelas fortes chuvas nos meses de Outono, tinham como
consequência natural o aumento do caudal levando-o a transbordar. Os primeiros
relatos são registrados, no século XI
[...]”. Uma das piores inundações ocorreu em setembro de 1870 quando houve
um forte temporal. Houve vítimas, danos na agricultura, e destruição de
pontes. A situação se agravou com o aparecimento da febre amarela, causando
mais baixas na população. Segundo Llopis (2011), entre 1321 e 1957
registram-se vinte e dois transbordos e onze enchentes do rio na cidade. Ao
final do século XIX o panorama urbano era o seguinte: após décadas de
litígio, o governo havia aprovado o projeto de expansão de Valência,
limitado pelo canal do Rio Turia e com muros de contenção em alguns pontos.
(Llopis, 2011)
Ao final do século XIX (1881-1890) projetos iniciais de ocupação das margens
e posterior desvio do curso do Rio Turia começam a ganhar força. A ideia era
proporcionar à Valência uma extensa área de terrenos para expansão e
exploração imobiliária, dispor de vários hectares para o cultivo de
cítricos, e transformar o canal do rio também em uma área comercial a ser
explorada, com armazéns e docas de interesse geral. Os projetos indicavam que o
Rio Turia se tornaria o canal de águas baixas, com zonas próprias para
inundações controladas que tornariam o solo mais fértil.
A data determinante para a transformação do Rio Turia em Jardim foi o dia 14
de outubro de 1957, quando o rio, pela última vez, transbordou e inundou a
cidade, levando consigo sessenta e nove vidas e um incalculável prejuízo
econômico (Azevedo 2013). Portanto, quando a barreira tradicional do Turia
finalmente transborda a área urbana, é estabelecida na margem esquerda uma
ampla zona habitada.
La gran riada de València del 14 de octubre de 1957, popularmente conocida como
La Riuà, marcó el futuro del urbanismo de la ciudad. El elevado número de
víctimas que causó -según datos oficiales hubo 81 muertos, una cifra que
nunca gozó de mucha credibilidad y a buen seguro que fue ampliamente superada
por el número real de fallecidos y desaparecidos-, se debió en gran medida a
la existencia de una población flotante que habitaba en chabolas y otras
infraviviendas (bidonvilles) ocupando una parte del cauce del rio en las
proximidades de València. (Alvarez García, 2019, p. 1138)
Con la intención de evitar que esta catástrofe natural pudiera repetirse con
tales consecuencias, el Ayuntamiento de Valencia, junto con la Confederación
Hidrográfica del Júcar, planteó tres posibles soluciones entre las que
destacaba el denominado ‘PLA SUD’ (1958). Este proyecto, aprobado por ley en
diciembre de 1961 por el gobierno franquista, consistía en desviar el cauce del
río a un nuevo canal alejado de la ciudad y con mayor volumen para prevenir las
posibles inundaciones periódicas. (Serra Albert, 2019, p. 11)
O centro vital de Valência sofre assim um notável deslocamento para o norte e
a faixa do canal urbano se torna a espinha dorsal da nova cidade. O canal que
abandona o Turia constitui uma magnífica oportunidade de dotar a cidade de
algumas expansões verdes que faziam muita falta. O futuro desenvolvimento de
Valência deveria ser para oeste e noroeste, onde os terrenos eram mais baratos,
mais saneáveis e, por causa do declive, nunca haveria o problema de esgoto. O
canal abandonado do rio permitiria sua transformação em rodovia da cidade
baixa e, portanto, adversa aos conflitos urbanos da cidade (Llopis, 2011). O
período franquista ao mesmo tempo que encobriu os problemas do Turia, utilizou
também os projetos urbanos que envolviam o rio para propaganda política. Havia
promessas, porém os avanços eram lentos.
A intervenção definitiva, e mais importante é realizada após a última
inundação -de 1957- e altera profundamente o leito do rio. A solução é
radical e prende-se com a construção do Plano Sul (1964-1974) que consiste na
construção de um novo caudal para o rio Turia a sul da cidade, retirando assim
a água do centro. Assim sendo, coloca-se um “ponto final” nos problemas das
inundações que tanto afetaram cidade [...] Esta solução permitiu, libertar
para a cidade, novos e grandes espaços livres, cujo destino foi dos temas mais
discutidos e debatidos durante a segunda metade do século XX. A oportunidade
que se criou com o “vazio” e seco leito do rio era única. Abriram-se novas
“pontes” para intervir num novo e enorme espaço público no interior da
cidade. Estas soluções, [...] não passaram, [...] de projeto e provocaram a
mobilização alternativa popular que defendia, a transformação do antigo
caudal do rio num grande jardim. [...] Este momento, foi decisivo para
transformar o caudal do rio Turia no parque público que hoje conhecemos.
(Azevedo, 2013, pp. 31-32)
Em 1958, baseado na Solução Sul, aprova-se um “novo” Rio Turia que iria
percorrer o sul da cidade de Valência e iria manter as “acéquias”.
Pretendia-se que o caudal tivesse 12,6 quilómetros de comprimento, 200 metros
de largura e uma capacidade de escoamento de 5000 m3/segundo. Teria o início em
Quart de Poblet e conclusão em Pinedo. (Azevedo, 2013, p. 62)
Enfim, nos finais da década de 1960 são executadas as obras do “Plano Sul”.
Em 1974, surge a proposta para que o velho canal do rio seja somente parque. A
década é marcada por avanços urbanos em relação ao Rio Turia. Optou-se por
utilizar o local, única e exclusivamente como espaço público, de modo a
contribuir para a resolução de problemas que Valência tinha, sem que tal
solução beneficiasse não somente os cidadãos motorizados. Os objetivos eram
dotar a cidade de um espaço público de livre acesso, eliminar a agressividade
ao meio ambiente e revalorizar a imagem histórica de Valência. “A
construção do novo caudal levava a que o antigo começasse a ficar cada vez
com menos água. É no período das obras que se ‘ocupa’ o antigo leito do
rio com campos desportivos e começam a ser construídas ou remodeladas pontes
especialmente nos primeiros setores – oeste – para facilitar o trânsito”
(Azevedo, 2013, p. 64). No velho canal do Rio Turia convergem os espaços verdes
e públicos mais importantes da cidade, que isolados como estão agora, ao mesmo
tempo estão separados e integrados ao tecido urbano de forma harmônica. Com a
intenção de conservar a imagem da cidade, se mantém uma corrente contínua de
água em certos pontos, como uma fina lâmina, com objetivo ecológico de
purificar e manter o grau de humidade. A partir de meados da década de 1970 a
cidade se desenvolve na direção do mar, ao sul, e são criadas linhas
ferroviárias com tuneis e trilhos aéreos. O velho leito do Rio Turia se
converte então em um parque com árvores frondosas e um canal interior de
drenagem. A parte final é transformada em estuário, o que permite também o
desenvolvimento de esportes náuticos, e uma doca industrial e de carga com
imbatíveis condições. Elege-se três temas considerados prioritários: o
homem, a árvore e a água. (Llopis, 2011)
O Turia se tornaria então em um grande parque de recreação e expansão da
cidade com mais de 160 hectares. Não há dúvidas que, definitivamente, se
trata de um rio que forma parte da história da cidade e que ainda que se
qualifique como zona verde deverá conservar de alguma forma este caráter.
Portanto, se propõe que o parque urbano conte com o elemento água com fins de
manter viva a imagem do rio e sobretudo valorizar sua importância e beleza das
antigas pontes da cidade. A década de 1980 apresenta outros avanços urbanos
vinculados ao Turia -com o início da construção do parque que passa a ser
conhecido como Jardim do Turia em 1985- e, finalmente a partir dos anos 1990 há
as transformações finais que conduzem e condicionam o Turia em jardim, sendo
acrescidos ao seu contexto o Palácio da Música (1987), o complexo da Cidade
das Artes e das Ciências (a partir de 1998) e, o Parque da Cabecera (2002).
A Cidade das Artes e das Ciências é um
complexo arquitetônico, cultural e de entretenimento. Desenhado
por Santiago Calatrava e Félix Candela, o projeto começou a ser
executado em julho de 1996 e inaugurado em 16 de
abril de 1998. O último componente da Cidade, o Palácio das Artes
Rainha Sofía, foi inaugurado em 09 de outubro de 2005. O complexo é
formado pelas seguintes construções: L'Hemisfèric (cinema, e
planetário), El Museu de les Ciències Príncipe Felipe (museu
interativo de ciências), L'Umbracle (trilha de caminhada com plantas
selvagens, que conta também com uma galeria de arte com esculturas de artistas
contemporâneos), L'Oceanogràfic (o maior aquário oceanográfico
da Europa), El Palau de les arts Reina Sofia (casa de ópera e
apresentações de artes), a Praça Principal (coberta, onde são
realizados concertos e eventos esportivos), e futuramente as
Torres de Valência, Castellón e Alicante.
O antigo leito do rio Turia é atualmente um imenso parque público com uma
área aproximada de 12 km de comprimento e mais de 150 metros de largura (em
alguns pontos pode chegar aos 250 metros). O Jardim do Turia, está dividido por
dezoito setores e constitui a coluna vertebral da cidade de Valência. Estes
setores estão divididos espacialmente, pelas pontes, que fazem a ligação
entre ambas as margens e que sempre estiveram presentes na paisagem urbana da
cidade. Ao longo de todo espaço público do Turia há diversos campos
esportivos.
Figura
1. Vista aérea de parte do Jardim do
Turia e da cidade de Valência
Fonte:
Google Images
Recentemente, Valência foi eleita pelo segundo ano consecutivo a cidade mais
saudável do mundo, tendo o Jardim do Turia como fator de destaque na
avaliação. “Por segundo año consecutivo los resultados de este estudio han
vuelto a coronar a la capital del Turia por ser la que mejor cuida de la salud
de los suyos y sus visitantes”. O levantamento da Money.co.uk levou em conta
os seguintes aspectos: níveis de obesidade, esperança de vida, níveis de
contaminação, atenção sanitária, segurança, índice de criminalidade
e horas de luz solar. O relatório final do estudo destaca ainda que
“[...] cabe añadir los cinco millones de metros cuadrados de zonas verdes de
la ciudad. El Parque de Cabecera, el Parque Central, los Jardines del Real o el
Jardín del Turia son solo algunos de los principales lugares donde ciudadanos y
visitantes pueden disfrutar de árboles, flores y pájaros”.
Percurso
metodológico
Esta é uma pesquisa descritiva, na qual foi caracterizado o perfil de uma
população, através de fatos recentes. Neste estudo foram utilizados
basicamente duas ferramentas metodológicas: observação (Marconi, e Lakatos
2003) e fotografias. A observação permite ao pesquisador observar o
comportamento das pessoas em seu ambiente natural ou controlado. Foram
registrados de forma sistemática os dados de comportamentos, fatos e ações. A
atividade de observação se preocupa em utilizar os sentidos para entender o
cotidiano e extrair conhecimentos, e é considerada como um método vantajoso
porque permite conhecer os fatos e fenômenos diretamente. Entre os vários
tipos de observação, nesta pesquisa foram utilizadas as observações
sistemática e participante (Gil, 2008). Este pesquisador viveu na comunidade
valenciana durante oito meses entre os anos de 2021 e 2022 e, frequentava o
Jardim do Turia de três a cinco vezes semanais.
Já as imagens oferecem registros restritos, mas poderosos das ações temporais
e dos acontecimentos reais. Embora a pesquisa nas ciências sociais esteja
tipicamente a serviço de complexas questões teóricas e abstratas, ela pode
empregar, como dados primários, informação visual que não necessita ser nem
em forma de palavras escritas, nem em forma de números. Cada vez mais, a
sociedade em que vivemos está crescentemente sendo influenciada pelos artefatos
digitais e visuais de comunicação. Portanto, o visual e a mídia desempenham
papeis importantes na vida social, política e econômica. Eles se tornaram “fatos
sociais” e não podem ser ignorados (Loizos, 2002). Neste estudo as
fotografias foram produzidas por este pesquisador, evitando a identificação
dos indivíduos, por vezes presentes. Portanto, também não houve a necessidade
de autorização prévia para utilização científica das mesmas como fonte de
dados. As fotos foram realizadas ao longo de três meses (setembro a novembro de
2021) e, depois selecionadas para posterior análise das imagens.
Jardim
do Turia no século XXI: uma celebração à diversidade esportiva
As observações e registros de imagens realizados no segundo semestre de 2021
nos mostram um Rio Turia, contemporaneamente, tomado por atividades esportivas e
recreativas, sendo um espaço de convívio social dos moradores e visitantes da
cidade de Valência. O parque, como é chamado pelos habitantes, ou Jardim do
Turia (nome oficial), reúne uma diversidade de modalidades desportivas. Tal
condição fica mais bem exposta e descrita através de imagens do que com
simples palavras. Nas sequência deste texto, relacionamos e relatamos o que
encontramos neste estudo observatório e descritivo.
Dentro
do Jardim do Turia, há um circuito de quase 6 km para Corrida, inaugurado em
setembro de 2015. O circuito tem uma rota linear de 5.731 metros de layout
específico para o corredor. Nesse sentido, o desenho da rota levou em
consideração as dimensões e geometria do circuito com segurança e conforto
para corredores profissionais ou amadores.
Esta iniciativa se enmarca dentro del proyecto global Valencia Ciudad del “Running”
liderado por la Fundación Trinidad Alfonso, que incluye el maratón y medio
maratón de Valencia, recientemente galardonadas con el sello de oro de la
IAAF (International Association of Athletics Federations). (Alcover et al.,
2016, p. 28)
Figura
2. Placa indicativa do percurso de
corrida no Jardim do Turia
Fonte:
Autor
O Ciclismo é outra prática do cotidiano dos valencianos. Há uma extensa malha
ciclo viária na cidade, utilizada tanto para o lazer e atividades físicas como
para os próprios deslocamentos dos cidadãos, na qual o Jardim do Turia atua
como eixo principal e norteador, apresentando pistas seguras e bem-sinalizadas
em ambas as margens do parque. Portando, é rotineiro encontrar ciclistas
profissionais, amadores, turistas que locam bicicletas para passeio e lazer, ou
simples moradores da cidade que em alguns momentos do dia ou da semana realizam
a prática desportiva ciclística no espaço público do Turia.
Figura
3. Ciclistas trafegam pela ciclovia do
Jardim do Turia
Fonte:
Autor
Grupos com ou sem instrutores de Ginástica, Ioga, Dança e demais atividades de
alongamento também são frequentes no Jardim do Turia e, encontrados facilmente
ao longo dos seus quase 12 quilômetros de extensão. Estas atividades,
normalmente, se concentram na parte norte-oeste do parque, nas proximidades ou
entre as estações do metrô Alameda e Turia. A partir das observações, é
perceptível que alguns profissionais de Educação Física e Fisioterapia
utilizam o Jardim do Turia como espaço laboral para o atendimento de seus
alunos/clientes, o que caracteriza o parque também, em certa medida, como um
local para o trabalho informal.
Figura
4. No sentido horário, grupo de
atividades de ginástica e alongamento que se reúne diariamente, pessoas
dançando abaixo da ponte de L’Exposició, e prática de Ioga no Jardim do
Turia sob orientação de profissionais de Educação Física
Fonte:
Autor
Há vários desportos que dentro do Jardim do Turia disfrutam de condições
diferentes, provocando maior incidência na atividade daquelas nas quais já
existem equipamentos urbanos destinados às mesmas. Ao longo do espaço público
do parque há vários espaços pré-determinados para as práticas de
modalidades como Tênis de Mesa, Skate, Futsal, Basquete, e Futebol Sete, por
exemplo. enquanto outras modalidades são conduzidas de forma amadora e
improvisada pelos seus adeptos, como Vôlei, Boxe e demais lutas.
Figura
5. No sentido horário, mesas de Tênis
de Mesa disponíveis para cidadãos e turistas, espaço específico para a
prática do Skate, campo de futebol sete, e grupo de amadores jogando vôlei de
forma improvisada no Jardim do Turia
Fonte:
Autor
Figura
6. Quadras de Basquete e Futsal
Fonte:
Autor
Em contrapartida, há modalidades esportivas em condições ímpares no Jardim
do Turia, pois além de possuírem equipamentos de alta qualidade, ainda estão
organizadas em clubes e sob a tutela de federações. São os casos do
atletismo, beisebol, rúgbi e futebol. O atletismo é praticado por crianças,
jovens, adultos e idosos no Estádio do Turia de segundas-feiras às
sextas-feiras das 8 às 24 horas e, nos sábados e domingos das 8 às 22 horas.
O local também recebe, seguidamente, competições oficiais e conta com
escolinhas de atletismo, coordenadas pelo poder público local, para crianças e
jovens de várias idades.
A prática do beisebol no Jardim do Turia é conduzida pelo Club de Béisbol
Astros, fundado em maio de 2001, com uma clara vocação para a promoção do
beisebol, em todos os níveis, na Comunidade Valenciana. Sua equipe sênior
atualmente participa da Divisão de Honra da Liga Nacional de Beisebol,
continuamente desde 2008. Há escolinhas para todos os níveis e gêneros, além
de jogos aos finais de semana que podem ser acompanhados pelo público em geral
de forma gratuita.
Figura
7. No sentido horário, Estádio do
Turia, específico para a prática do atletismo.
Club de Béisbol Astros,
instalado dentro do Jardim do Turia, e Campo de Rúgbi
Fonte:
Autor
O rúgbi tem situação semelhante à do beisebol no Jardim do Turia. Há um
estádio, recém reformado, para a prática da modalidade. O campo é feito de
grama artificial, tem algumas arquibancadas para assistir aos jogos, e várias
equipes o utilizam, como CAU Rugby Valencia, que jogam e treinam no local.
Por fim, além dos vários espaços formais e informais para a prática do
futebol -modalidade hegemônica na Espanha e na Comunidade Valenciana-, há
vários clubes da modalidade instalados e com campos próprios dentro do parque
público, no Jardim do Turia, entre eles os mais destacados são: CD Serranos,
Atlético del Turia CF, e CD El Rumbo.
Figura
8. Alguns dos Clubes de futebol
instalados no Jardim do Turia
Fonte:
Autor
O Club Deportivo Serranos disputa atualmente a Primeira Regional da Comunidade
Valenciana, no grupo 4, equivalente à sexta divisão do Campeonato Espanhol. A
história da equipe começa em setembro de 1977, quando é fundada a escola de
base, com equipes de futsal para meninos de 11 anos. Na temporada 1979-1980, o
Serranos solicita à Federação Valenciana de Futebol um terreno no antigo
leito do rio Turia para a construção de um campo de futebol. Em março de
1986, devido às obras do coletor norte, o Serranos teve que se mudar para outra
instalação, construindo alguns estandes no antigo leito do rio Turia, sob as
Torres de Serranos, terreno onde, até hoje, é o local de preparação e jogos.
O Atlético del Turia Club de Fútbol, é um time amador voltado para a
formação de crianças e jovens em categorias de base. O clube nasceu da fusão
de duas equipes históricas do cenário futebolístico valenciano: Vallejo CF e
CD San Pedro Pascual na temporada 2009/2010. Hoje o clube tem a concessão
exclusiva de um campo com grama artificial (Camp de Futbol Pont de Fusta),
localizado no antigo leito do rio Turia sob a antiga estação de madeira e,
bastante próximo às instalações do CD Serranos.
O Club Deportivo El Rumbo, também disputa atualmente a Primeira Regional da
Comunidade Valenciana, no grupo 4 e, portanto, é adversário do CD Serranos
nesta liga local. De acordo com os registros, no ano de 1972, um grupo de
cidadãos, vendo que o bairro Olivereta abrangia uma ampla representação
social e que as crianças brincavam sem nenhum controle nas ruas do mesmo,
resolveu formar um time da categoria Infantil. Graças ao entusiasmo e ao
trabalho pessoal daqueles vizinhos e amigos, começou a formação do El Rumbo,
que hoje oferece escolas de futebol em diversas categorias e conta também como
uma equipe semiprofissional.
Figura
9. No sentido horário, campos de futebol
do CD Serranos, Atlético del Turia CF, e CD El Rumbo
Fonte:
Autor
Conclusões
A partir deste levantamento inicial e superficial das atividades desportivas
praticadas pelos cidadãos e visitantes da Comunidade Valenciana, em seu
principal espaço público -que praticamente une os pontos Oeste e Leste-sul da
cidade-, foi possível delinear as principais práticas corporais e esportivas
desta população, além de apontar caminhos investigativos futuros na pesquisa
pós-doutoral. Sobre este espaço urbano, há trabalhos acadêmicos recentes com
indicativos de novas intervenções no Jardim do Turia, com vieses na
arquitetura, engenharia e urbanismo (Valle Simón, 2020; Vaquer Gregori, 2021;
Villar Blanco, 2021), ou que discutem a condição social do parque (Aparici
Lozano, 2020; Serra Albert, 2019), conduzidos pela Universitat Politècnica de
València.
Especificamente para este pesquisador, interessa as práticas vinculadas ao
futebol -sejam estas em espaços formais ou não formais- e a consequente
pedagogia cultural que decorre da modalidade, provocando hábitos de
comportamento e consumo, bem como as transformações identitárias
entrelaçadas à modalidade. Neste aspecto é possível afirmar, inicialmente,
que assim como o Brasil, a Espanha também está com sua sociedade em condição
futebolizada (Koch, 2020), ou seja, sofrendo influências relacionadas aos
grandes clubes do futebol do mundo, todos eles localizados na Europa e, neste
momento temporal, tendo como referências os grandes clubes da Espanha, França,
Inglaterra, Alemanha, e Itália.
Os passos futuros dos caminhos investigativos e a produção
científico-acadêmica deste pesquisador serão conduzidos pelo futebol e suas
relações sociais, com olhares mais aguçados para a cidade de Valência e a
Espanha. No entanto, fica aberta a agenda para o mesmo, bem como para outros
pesquisadores, investigarem com maior profundidade as práticas desportivas que
ocorrem diariamente no Jardim do Turia, mas não só nele e, que constituem
parte importante da identidade valenciana na contemporaneidade.
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