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Vinculações entre mídia, cidades e seus times e torcedores: territórios e fãs em jogo

Linking between media, cities and soccer teams and fans: places and admirers in action

Relaciones entre medios de comunicación, ciudades y sus equipos de fútbol e hinchas: territorios y fanáticos en acción

 

Helcio Ribeiro Campos

helcio.campos@ifsudestemg.edu.br

 

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia

(Brasil)

 

Recepção: 15/01/2018 - Aceitação: 28/06/2018

1ª Revisão: 26/06/2018 - 2ª Revisão: 26/06/2018

 

Resumo

    O artigo analisa vinculações entre mídia, cidades e seus times e torcedores, que foram drasticamente mudadas com o advento da moderna comunicação e a exibição de jogos pela TV, a contar dos anos 1960. Antes disso, os nexos entre torcidas e suas cidades eram mais fortes; a rede das solidariedades de bairro, classe social, grupos dos locais de trabalho etc. destacaram-se na criação dos clubes de futebol, produzindo territorialidades e se apropriando de elementos simbólicos (como estádios e sedes sociais, por requererem esforços coletivos). Entrementes, o binômio circulação-comunicação criou novos vínculos entre equipes de futebol, núcleos urbanos e a mídia, articulando (via transportes ou TV) espaços longínquos em menor tempo. Assim, os dérbis municipais/regionais se esvaziaram em função dos embates interestaduais/internacionais e das razões mercadológicas. Inaugurava-se a era das dificuldades para os clubes “pequenos” (via de regra, do interior) e para as solidariedades e grupos sociais do passado, pois a relação do torcedor com seu local de vivência ficou mediada por terceiros. Quando o torcedor opta por um clube, opta ainda por uma cidade (a “sua” ou outra), um mercado que beneficiará, uma circulação que incentivará etc. Em termos conceituais, o texto usa a noção de identidades territoriais e flertes com os frankfurtianos.

    Unitermos: Identidades territoriais. Influência midiática. Vínculos torcida-cidade. Time pequeno x time midiático.

 

Abstract

    The article analyzes the links between media, cities and their teams and fans, which have been drastically changed with the advent of modern communication and the exhibition of games on TV since the 1960's. Before that, the links between fans and their cities were stronger; the network of neighborhood solidarities, social class, work place groups etc. (soccer clubs), producing territorialities and appropriating symbolic elements (such as stadiums and social headquarters, because they require collective efforts). Meanwhile, the movement-communication binomial has created new links between soccer teams, urban centers and the media, articulating (via transports or TV) far spaces in a shorter time. Thus, municipal/regional confrontations were emptied due to interstate/international strikes and marketing reasons. The era of difficulties for the "small" clubs (generally of the interior) and for the solidarities and social groups of the past was opened, since the relationship between the supporters and their place of living was mediated by third parties. When a fan opts for a club, he either opts for a city ("his" or another), a market that will benefit, a circulation that will encourage, etc. In conceptual terms, we use the notion of territorial identities and flirtations with the Frankfurters authors.

    Keywords: Territorial identities. Media influence. Fan-city links. Small team x media team.

 

Resumen

    El artículo analiza las relaciones entre medios de comunicación, las ciudades y sus equipos e hinchas, que fueron drásticamente transformadas con el advenimiento de la moderna comunicación y la exhibición de partidos por la TV, a partir de la década de 1960. Antes de eso, los nexos entre torcidas y sus ciudades eran más fuertes; la red de las solidaridades de barrio, clase social, grupos en los lugares de trabajo, etc. se destacaban en la creación de los clubes de fútbol, ​​produciendo territorialidades y apropiándose de elementos simbólicos (como estadios y sedes sociales, ya que se necesitaban esfuerzos colectivos). Mientras tanto, el binomio circulación-comunicación creó nuevos vínculos entre equipos de fútbol, ​​núcleos urbanos y los medios de comunicación, articulando (vía transportes o TV) espacios lejanos en menor tiempo. Así, los derbys municipales y regionales se vaciaron en función de los embates interestatales e internacionales y de las razones mercadológicas. Se inauguró la era de las dificultades para los clubes "pequeños" (por regla general, del interior) y para las solidaridades y grupos sociales del pasado, pues la relación del hincha con su lugar de vivencia quedó mediada por terceros. Cuando el hincha opta por un club, opta por una ciudad (la suya u otra), un mercado que beneficiará, una circulación que alentará, etc. En términos conceptuales, el texto utiliza la noción de identidades territoriales y relaciones con los frankfurtianos.

    Palabras clave: Identidades territoriales. Influencia mediática. Vínculos hinchas-ciudad. Equipo chico x equipo mediático.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 241, Jun. (2018)


 

Introdução

 

    Este texto está focado em analisar as articulações entre torcer pelo clube da cidade, ou de fora (de outra cidade), com a repercussão daí advinda: o aficionado pelo futebol fica, consequentemente, atrelado ao seu espaço de vivência imediato ou, então, se vincula a espaços mais distantes de sua realidade. Se a segunda escolha for a única tomada pelo fã de futebol, a mídia acaba por se transformar no seu grande elo de ligação com o clube escolhido alhures, mas, em geral, sediado em metrópoles brasileiras – com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo – e até em metrópoles estrangeiras.

 

    Como meio de conhecer o pensamento do fã de futebol, opiniões e entrevistas com ex-jogadores e torcedores foram colhidas e utilizadas neste artigo. Assim, é possível perceber se o fã e o futebolista percebem que tentam ser amealhados para a influência dos clubes mais poderosos sediados nessas metrópoles, que irradiam influências ligadas ao “mundo” do futebol, como as influências culturais, econômicas, políticas etc.

 

    A formação desse torcedor moderno pode ser designada como a formação do teletorcedor, filho da era das comunicações esportivas (do rádio, TV e, agora, internet também). Nossa preocupação recai, neste artigo, no fato de o futebol local e regional brasileiro ter perdido um brutal espaço de representação social, sobretudo entre jovens torcedores. Nessa perspectiva, a sobrevivência dos ditos “pequenos clubes”, bem como a das agremiações amadoras, está em jogo na atualidade. Não focamos aqui sobre o desenvolvimento ou histórico da mídia esportiva no Brasil – jornais, rádios e TVs –, mas sim nos efeitos territoriais e de filiação clubística por ela instaurada.

 

    Ao denominarmos os clubes de “pequenos”, fazemos referência ao sentido midiático e econômico. Isso é dito popularmente e nem nos damos conta de que já colocamos a questão da força da racionalidade econômica e seus ditames na expressão “time pequeno”. Contudo, a existência valente de tais agremiações está atrelada a uma rede de sociabilidade que envolve a participação de grupos sociais urbanos (como estudantes, comerciantes, operários etc.) que se organizaram há muitas décadas para se fazerem representar pela via da associação esportiva, principalmente na primeira metade do século XX e até os anos 1970, aproximadamente.

 

    Nessa fase, a rede das solidariedades do bairro, de classe social, de grupos dos locais de trabalho etc. tiveram um destacado papel na composição dos clubes de futebol. Ainda que o rádio tivesse alcançado o êxito de se popularizar em uníssono com o futebol, amealhando fãs para os times (do eixo Rio-São Paulo) dos quais transmitia os jogos, o envolvimento com a escala local/regional não foi desfigurado como o conhecemos nos dias de hoje.

 

    Vários autores reforçam essa ligação clube-cidade-região que aqui alardeamos. Claro que futebol e cidade se serviram um do outro em sua construção na modernidade. Os clubes de futebol se tornaram elementos importantes da construção de uma identidade compartilhada para diversas cidades. Tal processo não é exclusivo da Mata Mineira – como no exemplo dado adiante neste artigo –, mas sim de alcance nacional. Para Raphael Ribeiro (2012, p. 1 e 2), “durante o século XX, muitas foram as localidades que tiveram em seus clubes de futebol um símbolo de identidade daquele lugar”. Além disso, a maioria desses clubes, no Brasil e no mundo, “[...] tem suas tradições arraigadas à relação com uma cidade em especial [e em] [...] algumas ocasiões esse recorte se reduz ainda mais, vinculando-se a um bairro”.

 

    Odette Seabra (2000, p. 14) mostra que o futebol incutiu uma nova vida aos bairros e não apenas dele se nutriu de torcedores. “Desde os primeiros anos deste século, uma febre invadiu todas as ruas, quintais, portas de fábrica, terrenos baldios, e o que mais houvesse. Era o futebol. Esta foi a primeira grande festa do povo [...]. A sociabilidade do bairro foi enormemente enriquecida com o futebol”.

 

    Essa relação mais imediata entre instituições esportivas e a formação identitária também nos reporta aos primórdios do futebol, quando os moradores do bairro e da cidade passaram a frequentar cada vez mais os jogos e, assim, campeonatos passaram a ser criados. Os grupos fundadores dos times e seus torcedores passam a produzir territorialidades e a outorgar e a se apropriarem de elementos simbólicos, dentre os quais estádios e sedes sociais, por requererem esforços coletivos.

 

    Entrementes, o famoso binômio circulação-comunicação criou novos vínculos entre equipes de futebol, núcleos urbanos e a mídia, em relevo a partir dos jogos televisionados ao vivo na década de 1960. A isso soma-se o desenvolvimento dos transportes – como o aéreo –, permitindo deslocamentos mais longínquos e em menor tempo, assim como ocorreu com as imagens via TV.

 

    Desse modo, os jogos e campeonatos ganharam escalas territoriais cada vez maiores. Os dérbis municipais e regionais foram sendo esvaziados em função dos embates interestaduais e até internacionais. Estava inaugurada a era das dificuldades para os chamados clubes pequenos, via de regra localizados nas cidades do interior e onde os grandes times passaram a quase não ir mais como faziam no passado. Tomando os anos 1970 como etapa de transição, a contar daí os grandes jogadores seriam raramente vistos no interior do Brasil. A TV substitui o estádio e os jovens e novos admiradores de futebol terão que se contentar com o controle da televisão, e esta como o controle dos calendários de jogos, deliberando sobre as equipes que aparecerão no seu vídeo.

 

    Ocorre que as decisões mercadológicas de uma emissora de TV não caminham, necessariamente, de mãos dadas com todos os interessados em futebol. Ou seja: mesmo entre os torcedores de times fortes e sediados em grandes cidades há escolhidos e preteridos. Os escolhidos são, invariavelmente, as agremiações cariocas e paulistas/paulistanas. Os preteridos são as demais, com um pequeno espaço a mais para mineiros e gaúchos frente aos times de estados como Pernambuco, Bahia, Paraná, Santa Catarina, Goiás etc.

 

Clubes, torcedores e suas cidades: vinculações e desvinculações pela mídia

 

    Certamente, todos nós, envolvidos com futebol, já ouvimos algo como “amor não tem fronteiras” ou “torcer não tem fronteiras”. Torcer para um clube que não está sediado na cidade onde residimos não é, por si só, um problema. Mas pode vir a ser. Nesse contexto, trouxemos um caso que coletamos na Zona da Mata de Minas Gerais) para fins de observação e análise.

 

    Em Muriaé, na Mata Mineira, a criação de uma torcida organizada (TO) do Corinthians, em fevereiro de 2015 (Alves, 2015, s/p, grifos nossos), mobilizou posicionamentos identitários com base na relação time-cidade. Nomes e apelidos com os quais os torcedores se identificaram na internet foram omitidos. Vejamos um trecho do debate:

  • Torcedor “A”: “Deus, ninguém merece isso em Muriaé! Bando de torcedores modinha! O time dos muriaeenses tem que ser o Nacional [time profissional local] e ponto final”.

  • Torcedor “B”: “Pode ficar tranquilo, mano, que é só cada um ficar no seu espaço que para torcer pelo Corinthians não precisa estar em São Paulo. Acho que você deveria respeitar assim como nós respeitamos vocês”.

  • Torcedor “C”: “Concordo com você [Torcedor “A”], já não falta mais nada pra acontecer em Muriaé. Até falando gíria de paulista os caras já estão falando! Será que vão quebrar tudo quando o timão [sic] perder, igual lá em Sampa?”.

    O 1º torcedor cobra uma relação dos corinthianos de Muriaé com a cidade, declarando-os volúveis, ou “torcedor modinha”. A identificação com o clube local é colocada como uma obrigação, pois o time do muriaeense “tem que ser” o Nacional. O envolvimento palpável, factível, de um indivíduo tende a ser mesmo no seu local de vivência, no seu lugar. O problema se dá quando isso é visto de modo essencialista, reducionista, inviabilizando posturas em contrário e “ponto final”. O torcedor “C” observa até a interação de supostos “falsos corinthianos” (pois são de Muriaé e não de São Paulo) com uma cultura externa pelo uso de uma gíria paulistana. O membro da TO corinthiana se justifica com ênfase numa desterritorialização sem, contudo, perceber que é um indivíduo que vive uma multiterritorialidade, porque mesmo que ele não precise de fato estar em São Paulo para ser corinthiano, ao menos no futebol esse torcedor prescinde do que a sua cidade lhe oferece como opção clubística. Esse debate se insere no rol das noções acerca das identidades, como em Luchiari e Isoldi (2007, p. 167): “A identidade territorial está diretamente ligada aos significados do território na construção do imaginário social. A noção de pertencimento ao lugar é construída a partir da vivência e das práticas sociais, e passa a ser constituinte da própria noção de ser”.

 

Em se tratando especialmente de futebol, o SIRCThe Social Issues Research Centre – (2008, p. 40, tradução nossa) mostra a efetividade das já citadas relações de ordem espacial, identitárias e clubísticas:

    Ser um fã de futebol está intimamente ligado à idéias de história e tradição, bem como noções de identidade nacional e regional. Para muitas pessoas, tornar-se torcedor de uma equipe significa tornar-se imerso na história e tradições do clube e seus jogadores [...] aprender a sua história é uma parte importante da identidade [...]. Isso pode ser fortemente amarrado a um sentido de identidade política, regional ou étnica, e de como a equipe de futebol local e seus fãs podem se tornar representantes das maiores questões políticas e culturais.

    A dissensão entre os torcedores nos remete também a uma reflexão de Pollice (2010, p. 18), tendo em conta que se a identidade muda no tempo, seus símbolos também podem ser mudados, pois “[...] a identidade [territorial] se funda sobre o compartilhamento destes valores que são sentidos pela comunidade local como expressão tangível da própria especificidade cultural”. Assim,

    a comunidade local pode ser progressivamente induzida a adequar a percepção de si e da própria especificidade cultural, mudando a própria iconografia. Isto acontece, sobretudo, quando os outsiders são portadores de uma cultura dominante e os processos de desenvolvimento em escala local apresentam uma matriz fortemente exógena (Pollice, 2010, p. 14).

    Esse desencaixe time-cidade pode oferecer análises que se articulam com o diálogo dos internautas de Muriaé. Ainda assim, imaginar um indivíduo cercado por filiações longínquas leva-nos a vaticinar que ele daria menos de si em prol do futebol de seu bairro ou cidade. No caso real de Muriaé – nosso exemplo, ou outra cidade qualquer – e naquilo que tange o envolvimento com o desenvolvimento do desporto local, é provável que os torcedores de clubes de fora não prestigiem o Nacional e compareçam ao estádio, mas movimentarão a economia paulista (devido ao Corinthians, por exemplo) e carioca (sede do SporTV) ao comprarem pacotes para acompanharem os jogos. Observemos o texto do blog da Fiel Juiz de Fora (2015, s/p, grifos nossos), que congrega noções de polarização urbana – a influência de uma cidade sobre outra(s) – ação da TV aberta, solidariedade entre torcedores e circulação de riquezas:

    Ser corinthiano em uma área de influência do Rio de Janeiro não é nada fácil. Poucos conhecidos torcedores do mesmo time e dificuldade em encontrar locais para assistir aos jogos – que a TV aberta raramente exibia [...]. Motivados por uma reportagem de jornal (que focou o amor de torcedores de clubes fora de Minas Gerais e Rio de Janeiro em Juiz de Fora), alguns corinthianos se reuniram. [...] [Isso] foi o embrião da Torcida Organizada Fiel de Juiz de Fora.

    O excerto anterior revela ainda as nuances práticas de o indivíduo fazer parte de uma minoria numa cidade onde faltarão, por decerto, os locais que simbolizam esse torcer: bares como locais de acolhida (reunião) e o pertencimento como fator de junção dos torcedores. Tal caracterização serve ainda ao sentido prático e difícil de ser atleticano, são-paulino, cruzeirense etc. e se sentir identificado em Juiz de Fora e arrabaldes, mas também nas demais cidades matenses dominadas pelas torcidas de times cariocas, sobretudo nas microrregiões de Muriaé, Ubá e Cataguases, consoante Campos (2016a).

 

    A postagem inspiradora citada revela a polarização das metrópoles pela via do futebol: em Juiz de Fora, o Corinthians é o 6º clube predileto, atrás dos 4 grandes cariocas e do Cruzeiro (4º lugar), mas superando o Atlético (em 7º), segundo o GE (2015). Quanto à TV aberta (Globo Juiz de Fora), não há endosso na reclamação da TO: em nossos levantamentos, o Corinthians foi o 4º time com jogos mais exibidos em 2014 e em 2015. Ou seja, recebeu privilégios até, já que esteve mais na grade da emissora (5 vezes em 2014 e 6 em 2015) do que clubes com mais torcida na região, como Botafogo (somente 2 vezes em 2014!) e Cruzeiro (5 em 2015).

 

    O texto da Fiel Juiz de Fora (s/d, s/p, grifos nossos) possui outro trecho interessante:

    O vínculo se estreitou e a parceria é grande principalmente com as torcidas Fiel Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Viçosa e Cataguases [...] que comparece às partidas. A Fiel Juiz de Fora aperfeiçoou sua gestão [...] e conta atualmente com o cadastramento de sócios, que contribuem mensalmente com um valor que viabiliza parte dos projetos. Em contrapartida, ganham descontos na aquisição de produtos, eventos e viagens. É mais uma prova de que a torcida é uma das mais organizadas em prol do Corinthians no interior do país. E de que fidelidade não tem mesmo distância.

    É prova ainda de que a economia alienígena funciona e atua também no universo do futebol – por meios da “aquisição de objetos” licenciados – e de que o dinheiro, como a fidelidade, não tem mesmo fronteiras e distâncias intransponíveis.

 

    Então, torcer para times de outras cidades e estados representa uma dose de produção e circulação desnecessárias? Se não, como conceber a ideia de espaço vivido/experenciado? Yi-Fu Tuan (1982, p. 149) atua no entendimento desta fenda perto/longe da relação identitária:

    Os lugares humanos variam grandemente em tamanho. [...]. Pequenos lugares podem ser conhecidos através da experiência direta [...]. Uma grande região, tal como a do estado-nação [sic], está além da experiência direta da maioria das pessoas, mas pode ser transformada em lugar – uma localização de lealdade apaixonada – através do meio simbólico da arte, da educação e da política.

    Bryan Roberts (1981 apud Castro, 1986, p. 38) aponta outra senda importante na observação dos posicionamentos vistos na articulação identidade-cidade ou time-cidade.

    Uma região e sua identidade são forjadas através das imposições de uma classe dominante local, na procura de expandir sua própria base material [...] e no uso do controle sobre a administração local para alcançar seus fins, (portanto), as classes dominantes desenvolvem formas de controle político apropriado a seus interesses econômicos (e de poder), tanto que uma região toma um aspecto político peculiar quando comparada com outras.

    Contudo, aos enunciados de Roberts (1981) devemos acrescentar que a dinâmica econômica, política e cultural contemporânea impõe racionalidades que ultrapassam limites geográficos, prescindem das distâncias. É exatamente isso o que ocorre com os torcedores de Muriaé: o Nacional é, pela via do futebol, uma expressão da sociedade local, desde sua fundação até o novo estádio, construído com recursos próprios e que mexe com o imaginário muriaeense. Por seu turno, o mesmo produz e representa o Corinthians, mas expressando uma base territorial material de envergadura exponencialmente maior, porém não menos elitista e dominadora do que uma classe dominante local. As emissoras de TV que divulgam o Corinthians estão incluídas nos quesitos dominação e base territorial. O futebol, especificamente, é resultante de uma racionalidade externa cujo domínio é, literalmente resultante de um “controle remoto”, ao menos em parte.

 

    As elites locais e as elites nacionais – mesmo no caso do futebol – são representações de períodos em que a sociedade era mais territorializada/enraizada e, depois, reticulada/organizada em rede. Não por acaso, o Nacional de Muriaé tem a sua torcida que convive localmente com um dos nós da “rede de corinthianos” espalhados pelo país.

 

    Destarte, passemos a ver como os torcedores têm sido enredados para este mundo escalar e futebolístico que vai do local ao global, e também a conformação de tal mundo.

 

    A sociedade contemporânea vive, inegavelmente, em um espaço reticular, cujos nós das intrincadas redes formadas recaem em muitas das cidades globais, bem como o aparato midiático. As relações socioespaciais intermediadas pelas comunicações e pelos transportes ganharam em rapidez e ubiquidade (Harvey, 2006). Nesse sentido, Santos e Silveira (2002, p. 71) lembram ainda do papel desempenhado pelas redes tradicionais, como a elétrica, responsáveis pela interligação dos sistemas isolados. Outras bases técnicas também foram importantes. Portanto, a organização espacial das redes (circulação, energia e telecomunicações) constitui um importante indicador dos efeitos modernizadores sobre o território.

 

    Assim constituída, a sociedade contemporânea permitiu não só a fluidez dos capitais, mas de tudo o que, em última análise, pode ser convertido em capital, a exemplo dos eventos esportivos, (sobretudo Olimpíadas e Copas do Mundo, além dos campeonatos nacionais e supranacionais de futebol). Portanto,

    [...] parece que uma segunda natureza domina, com leis fatais, o meio em que vivemos. Mas o espetáculo não é o produto necessário do desenvolvimento técnico, visto como desenvolvimento natural. Ao contrário, a sociedade do espetáculo é a forma que escolhe seu próprio conteúdo técnico. Se o espetáculo [...] dá a impressão de invadir a sociedade como simples instrumentação, tal instrumentação nada tem de neutra: ela convém ao automovimento total da sociedade” (Debord, 1997, p. 20-21, grifo do autor).

    Como citado anteriormente, o futebol foi caindo no gosto popular e, por conseguinte, no gosto do empresariado das telecomunicações ante a perspectiva de lucros. A base urbana e popularizada do futebol já tinha ocorrido, principalmente, na Europa e na América Latina durante as primeiras décadas do século XX. A apreensão do futebol como espetáculo viria décadas depois, na 2ª parte do século XX. Além disso, reterritorializa-se em escala mundial ao se expandir para Oceania, Ásia, África e América Anglo-Saxônica. O futebol é transformado em mais um veículo de mercantilização da cultura e do entretenimento. Nessa linha, Milton Santos assim se posicionou:

    Nossa era se caracteriza sobretudo por essas ditaduras: a ditadura da informação e a ditadura do dinheiro, e a ditadura do dinheiro não seria possível sem a ditadura da informação. Curiosamente, este formidável sistema ideológico acaba por ter um papel na produção da materialidade e na conformação da existência das pessoas.

    [...] Hoje a ideologia se tornou realidade, o que complica nossa tarefa de análise, porque se impõe à produção da história concreta dos homens a partir de um discurso único perfeitamente elaborado, e que se torna acreditável a partir do bombardeio das mídias (Santos, 2002, p. 13).

    Com a consubstanciação da indústria cultural planetária, um aspecto ideológico que a envolve ganha relevo: os aspectos objetivos, que se constituem nos expedientes empregados pelos agentes da indústria cultural para a realização dos seus propósitos, que são também econômicos, mas principalmente ideológicos. Dentre as diversas estratégias utilizadas, destaca-se, de acordo com Adorno e Horkheimer (1985, p. 102), a manipulação retroativa, que consiste num mecanismo segundo o qual os consumidores se convencem de que estão escolhendo o que verdadeiramente desejam, quando, na verdade, recebem o que “pensam” que querem de acordo com resultados de opinião previamente realizados, a partir dos quais são detectadas tendências psicossociais latentes que norteiam a elaboração da oferta de mercadorias culturais de uma temporada.

 

    Nesse sentido, André Masini (2003), escritor paranaense, assim contou como foi arrebatado, aos 7 anos de idade, pelo rádio e pelo maniqueísmo que ronda a escolha afetivo-clubística, quando foi levado pelo pai para ver um Palmeiras e Corinthians:

    A emoção que vinha do rádio era indescritível. Não que eu entendesse algo do que estivesse sendo narrado ou do que de fato acontecia no jogo. [...] mas a voz do narrador exprimia uma intensidade tão dramática... uma importância tão grandiosa... que parecia uma batalha épica e sobrenatural entre o bem (Corinthians) e o mal [...].

    As decisões das TVs detentoras dos direitos de transmissão do Brasileirão, por exemplo, expressam a manipulação retroativa. Há uma carga de jogos transmitidos das equipes de RJ SP (desde o período da radiodifusão e, agora, mais ainda na era da TV) para todo o país, mesmo que isso não seja o desejo de todos em certos estados. Tal imposição ajudou no surgimento de grandes torcidas dos clubes paulistas e cariocas no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O ex-jogador Edilson (Informação verbal, 2015) analisou esse contexto à luz do impacto nos atletas:

    Acho que a maioria dos jogadores brasileiros gostaria de jogar em times que nem o Flamengo, [...] que tem uma torcida muito grande [...] e visibilidade grande. Todo jogo do Flamengo é transmitido, [...] tem uma repercussão grande, e [...] abre várias portas para ele. Então, tem muitos jogadores que escolhem o time sim, por causa da torcida, por causa da popularidade [...].

    O time mais popular, que tem mais torcida, geralmente tem mais mídia [...]. Então a imprensa consome mais esses times [...] que nem Flamengo, Cruzeiro, Palmeiras, São Paulo. [...] infelizmente é assim, quem tem mais mídia aparece mais, mas isso não deixa de tirar o valor dos que não têm tanta popularidade assim.

    Apesar da força midiática representada pelo eixo Rio-São Paulo, todos os 5 ex-jogadores que entrevistamos – Amaral, Biro-Biro, Éder, Edilson e Vítor (2015) – disseram que seriam convocados para a Seleção Brasileira atuando por Atlético e Cruzeiro, como de fato ocorreu para Éder e Edilson, respectivamente para as copas de 1982 e 2002.

 

    No mesmo caminho das maiores agremiações nacionais, os grandes clubes europeus têm aumentando seus torcedores no Brasil inteiro e alhures.

 

    Em razão de tais imposições e manipulações é que os times que mais atendem a esse apelo das transmissões da TV foram denominados nesta obra de clubes midiáticos. Estratagemas assim põem em xeque a questão das identificações locais, do contato com as comunidades imediatas. Não por acaso, os “times locais” e aqueles de influência meramente regional tendem ao abandono, comportamento verificado principalmente entre jovens torcedores. E isso poderia ser ainda pior. Só não o é porque os núcleos de marketing dos clubes optam por ações que atingem os fãs de alta identificação com o time, mesmo tendo a oportunidade de “conversão” daqueles fãs de baixa identificação (e até sem identificação), alerta Giacomini (2011, p. 298-299). Hoje os clubes têm seus maiores lucros com a venda de atletas e direitos de transmissões dos jogos. Ou seja, a obtenção dos fãs de baixa identificação movimentaria ainda mais as receitas das agremiações, tornando-as ainda mais midiáticas e poderosas.

 

    Nesse contexto é que se encaixa a questão do torcer em escalas territoriais cada vez maiores e mais distantes: o contato local/identificação local tende a se alocar nos clubes mais poderosos, de países e cidades distantes. Os ídolos são estrangeiros ou nacionais, não importando a origem. Debord (1997, p. 25, grifo do autor) ressalta o papel imperioso da mídia na produção de espetáculos e na valorização das celebridades: “O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem”. O que importa é a exposição midiática: quando um atleta-celebridade tem o passe comprado, seu novo clube já fez, há tempos, a contabilidade da venda de camisas, dos novos valores negociados com patrocinadores e emissoras de TV (Campos, 2016b, p. 21). O problema desse desencaixe do lugar, é que a cidadania e a questão das solidariedades podem ser alteradas. Desencaixe é um termo que, na concepção de Giddens (2002, p. 221), expressa o deslocamento das relações sociais dos contextos locais e sua recombinação através de distâncias indeterminadas do espaço/tempo.

 

    Existem, claro, outros fatores que não a mídia que levam aos nexos com os clubes grandes em detrimento dos pequenos e locais. É o caso da qualidade dos atletas, mas isso, em última instância, reconduz a análise para o campo das determinações econômicas. O fator qualitativo foi marcante sobre dois de nossos entrevistados: influenciou a adesão de Marcel Brum ao Cruzeiro e de Tatiana Baldi aos jogos televisionados de equipes da Europa.

    Meu pai me levou para eu ver Cruzeiro e Nacional [de Muriaé]. Eu devia ter uns 7 anos de idade... Na época, o Nelinho jogava no Cruzeiro. Ele fez um gol e eu fiquei muito encantado com o time.

    [...] torço para o Botafogo e tenho simpatia pelo Cruzeiro. Não há uma razão específica, talvez por influência de um irmão. E gosto demais dos times europeus por apresentarem um futebol mais bonito, mais técnico. Quanto ao Tupi [de Juiz de Fora], “torço” [sinal de aspas com as mãos] sem empolgação, talvez por ser da cidade (Baldi, 2015).

    É importante que a escala local não provoque estranhamento aos seus próprios moradores. Nesse caso, pode o futebol também criar uma forma de “não-lugar”, de “não-cidadão”? Uma possível resposta exige um outro estudo e, por ora, o objetivo foi conhecer melhor as influências da mídia sobre o universo do torcedor.

 

Conclusões

 

    Os mecanismos de identificação com os clubes de futebol, portanto, fundem escalas: do local ao nacional etc., numa profusão de possibilidades. As atuais múltiplas influências manifestadas sobre a vida dos indivíduos e das cidades podem ser exemplificadas através da mídia (por meio da transmissão dos jogos de futebol) e da sobreposição das vinculações clubísticas dos espaços luminosos (comandantes) sobre os espaços opacos (obedientes), fatores que permitem rever as identidades territoriais estabelecidas antes das eras do rádio e da TV, assim como antes da transformação dos esportes em uma racionalidade a mais no universo do capital. Novos significados culturais são dados ao futebol, cuja expressão torna-se reticular entre os territórios e passível de menor espontaneidade (para os torcedores) e de maior especulação mercadológica (para as empresas, como as de comunicação).

 

    Sob tal concepção, o território fica dividido em muitas escalas de poder (e micropoder), com múltiplas faces em escalas diversas, quando abrange novos agentes e racionalidades no campo econômico, novos interesses políticos, um contingente populacional cada vez maior, além de territórios que delineiam mais relações. Tudo isso em uma dinâmica indutiva e dedutiva simultaneamente, indo e voltando em fluxo contínuo: as relações políticas, econômicas e culturais sobre os territórios, desde os locais até os nacionais, interligam e ressignificam esses mesmos territórios.

 

    Reiteramos que, no âmbito do futebol, a relação do torcedor com seu local de vivência pode ser mediada por terceiros, criando uma sobreposição territorial externamente construída ou um não-lugar clubístico/futebolístico. Quando, portanto, o torcedor opta por um clube, opta ainda por uma cidade (a “sua” ou outra), um mercado que beneficiará, uma circulação que incentivará etc.

 

Referências

 

    Adorno, T. W.; Horkheimer, M. (1985). Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 334 p.

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 241, Jun. (2018)