As possibilidades das brincadeiras infantis e jogos populares nas aulas de educação física infantil: um estudo de caso |
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UNESP Rio Claro - SP (Brasil) |
Rodrigo Romero Faria Santos Rafael Kocian rafaelkocian@yahoo.com.br |
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http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 11 - N° 99 - Agosto de 2006 |
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Introdução
O Lúdico é eminentemente educativo no sentido em que constitui meios para desenvolver a curiosidade e o princípio de toda descoberta. Apresenta valores específicos para todas as fases da vida humana, assim na idade infantil e na adolescência a finalidade é essencialmente pedagógica. A criança opõe uma resistência ao ensino, porque acima de tudo ela pode deixar de ser lúdica. Nos referimos aos conteúdos observados em aulas de Educação Física Infantil que por muitas vezes, na prática, negam todos universos da cultura corporal, do lúdico, dos jogos e brincadeiras. É um grande equívoco reduzir todas possibilidades deste universo da Educação Física Infantil à prática de atividades esportivas e ao número reduzido de temas e propostas por parte dos Professores.
Segundo Schwartz 2002, a criança é automotivada para qualquer prática, principalmente a lúdica, sendo que tendem a notar a importância de atividades para o seu desenvolvimento, assim sendo, favorece a procura pelo retorno e pela manutenção de determinadas atividades. A criança não se importa se está indo bem ou mal em uma atividade, o que importa para ela é saber se está tendo prazer ou não em determinada atividade.
Os conteúdos relacionados ao universo esportivo predominam na cultura da Educação Física, sendo a criança condicionada desde as primeiras séries do ensino fundamental a associarem aulas de Educação Física com jogos de futebol, vôlei e queimada.
Sabemos que o esporte se tornou hegemônico nos conteúdos de Educação Física escolar (BETTI, 1995). É válido também salientar a dimensão do esporte espetáculo e suas conseqüências e influências divulgadas através dos meios de comunicação de massa, principalmente no Brasil, o futebol, possam estar sendo usados como conteúdos principais nas aulas de Educação Física nos ciclos I e II.
PressupostosPara o desenvolvimento da proposta curricular em pauta, partimos dos pressupostos de que:
as brincadeiras populares são um fenômeno histórico-social de irrefutável significação cultural de massa, independentemente de gênero, ideologia, etnia, credo, raça, condições socio-econômicas etc.;
cabe a escola socializar os indivíduos com o patrimônio científico e cultural produzido historicamente pela humanidade, de modo que os homens possam adquirir a autonomia necessária a sua interação e intervenção no processo de construção e direção da sociedade;
a reflexão e a prática da cultura corporal, quando adequadamente socializada e pedagogicamente encaminhada, constituem-se em privilegiado meio de formação da cidadania, identificada com valores democráticos;
A Resolução 184 de 27/12/2002 da Secretária de Educação do Estado de São Paulo atribuiu e delegou a devida importância da vivência das atividades de socialização, lúdicas e esportivas representando o processo de formação da criança enquanto estudante do Ciclo I do Ensino Fundamental. Proporcionar uma pedagogia das antigas brincadeiras de rua, manter o respeito mútuo, a dignidade e a solidariedade em situações lúdicas e esportivas, são apenas alguns dos diferentes e múltiplos objetivos atribuídos a Educação Física escolar nos PCN's (1997).
Objetivos da Educação FísicaA Educação Física tem como um de seus objetivos o estudo do corpo em movimento, seus limites e desafios. Entretanto sua importância se deve também ao desenvolvimento integral do aluno, que descobrirá seus limites e os diferentes modos de executar seus movimentos físicos, desenvolver sua criatividade e compreender conceitualmente as atividades corporais produzidas pelos seres humanos ao longo de sua história cultural, com liberdade de expressão de seus sentimentos.
" é difícil imaginar uma atividade humana que não seja culturalmente produzida pelo homem, assim como é difícil imaginar uma atividade cultural manifesta que não seja corporal" (Resende & Soares, 1995:11).
Assim, esta disciplina deve proporcionar ao aluno diferentes práticas corporais, desenvolver a sociabilização, respeitar características próprias e dos outros indivíduos do grupo, adotando atitudes de respeito, dignidade e solidariedade, conhecendo, valorizando, respeitando e desfrutando da cultura corporal, adotando hábitos saudáveis de higiene, educação alimentar, para assim solucionar problemas de ordem corporal, conhecendo a diversidade de padrões de saúde, beleza e estética, reconhecendo-as como uma necessidade básica do ser humano e um direito do cidadão (BRASIL, 1997).
As aulas de Educação Física previstas no currículo do Ciclo I e II das escolas Estaduais são desenvolvidas, em todos as séries, por professores portadores de licenciatura plena com formação específica na respectiva disciplina, ou seja, ministradas por professores especialistas em conformidade com a Resolução 184, de 27/12/2002. Fica explicitamente clara a importância representada por esta Resolução para a formação da criança enquanto estudante de 1a à 4a série do Ciclo I no Ensino Fundamental. Como apresentado, os conteúdos referenciais e temas interligados são de um universo amplo, com inúmeras possibilidades para proporcionar uma formação adequada ao aluno e oferecer a disciplina de Educação Física da maneira mais coerente possível.
Desta forma podemos sugerir àqueles que lecionam a disciplina de Educação Física escolar a realização de uma metodologia que estimule o aluno em todas as esferas de seu comportamento humano (motora, cognitiva, afetiva e social) e não somente a motora, como observa-se atualmente, e possibilitar à criança inúmeras possibilidades e vivências descritas nos PCN's. Estudar, conhecer e reconhecer o que devemos possibilitar para cada aluno e o que cada um pode potencialmente realizar e em quais condições pode apresentar um nível de desenvolvimento que lhe permita realizar múltiplas atividades, adequando de forma prática e eficaz, para que assim possamos contribuir, dentro da Educação Física escolar, para o avanço do processo do desenvolvimento pleno da criança.
Os PCN's constituem um referencial para fomentar a reflexão sobre planejamentos pedagógicos estaduais e municipais na coerência das políticas de melhoria da qualidade de ensino (SANTOS & LORENZETTO 1999). Muito distante da divulgação dos PCN's, ROSADO (1998) afirmava que a Educação Física tinha plena competência para trabalhar atitudes positivas como a ética, o desenvolvimento moral, pessoal e social, a discriminação social e racial, entre outras. Isso muito se assemelha aos nossos temas transversais citados nos PCN's (1997). Ainda citando ROSADO (1998) isso tudo pode e deve ser tratado como oportunidades que a Educação Física pode oferecer.
MétodoForam observados os alunos participantes durante as aulas de Educação Física, meninos ou meninas, independente da faixa etária, porém alunos regulares das distintas séries da escola. As observações foram feitas na área correspondente onde eram realizadas as aulas de Educação Física (pátio, praça, quadra, etc...).
Os procedimentos inicialmente foram de observações ao local da aula, com o objetivo de fazer um levantamento sobre as atividades relacionadas ao brincar das crianças e em que condições ocorriam. As sessões de observação foram distribuídas durante os horários da Educação Física da escola, com todas as séries do período vespertino. As sessões de observação duravam o período de ocorrência da aula, como as crianças chegavam e como eram realizadas as atividades propostas aos alunos sendo que o objetivo maior da observação era nas atividades desenvolvidas pelas crianças. Foram feitos registros simultâneos às ocorrências das atividades e posteriormente descritas. De posse dos registros, procurou-se descrever as brincadeiras através dos seus aspectos mais comuns e gerais, como eram realizadas, e principalmente se poderia ser reconhecida como conteúdo de aula.
DiscussãoOs mesmos conteúdos observados durante o tempo livre da criança na escola (recreio, entrada e saída) estavam presentes em grande parte durante as aulas de Educação Física como atividades secundárias, ou seja, quando os alunos não estavam fazendo aula. As atividades observadas foram: jogos que fazem parte do folclore infantil como cantigas, pular elástico, brincadeiras de roda, cabra-cega, bem-me-quer, e jogos tradicionais como mãe da rua, pega-pega, esconde-esconde, entre outras. Com isso podemos apresentar sugestões didáticas para que estes conteúdos possam ser entendidos como possibilidades e potencialidades para Educação Física Escolar:
Brincadeiras Infantis e Jogos Populares - Elementos Caracterizadores
Tipos e formas de organização do espaço físico flexíveis e variáveis;
Variabilidade de nomes e regras de execução;
Possibilidade de improvisação de recursos materiais.
Informalidade tática em função da potencialidade e motivação dos executantes;
Jogos e Brincadeiras Populares a serem ensinados como conteúdos bimestrais nos planejamentos: piques; queimadas; jogos de arremessos diversos; jogos de passe; jogos de rebater com tacos; estafetas; amarelinhas; bola de gude; pipa, brincadeiras de roda, peteca; cantigas e outros que serão apresentados pelos alunos;
O professor junto aos alunos documentar esses jogos e atividades que são desenvolvidas em aulas e fora do período de aulas, como forma de manter a tradição e cultura popular, sendo que cada aluno poderá ter uma cópia e com isso temos uma possibilidade de execução e d divulgação fora do ambiente escolar.
Muitos jogos infantis fazem parte do folclore, da cultura popular, tornada normativa pela tradição. Não foi observado que conteúdos de jogos da cultura popular e brincadeiras infantis estavam presentes no planejamento anual da disciplina de Educação Física da escola. Estes conteúdos devem auxiliar o desenvolvimento da criança e tornar a Educação Física Infantil melhor aproveitada em relação aos temas e conteúdos de aulas, mais estimulante e melhor justificada.
Referências bibliográficas
BETTI, I.C.R. Esporte na escola: mas é só isso, professor? Motriz, n° 01, v. 01: 25-31, 1995
BRASIL. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais. Vol. Educação Física. Brasília: MEC/SEF, 1997.
BRASIL. Ministério da Educação. Informativo MEC, novembro/dezembro 2004.
BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução 184, 27/12/2002 (Imprensa Oficial). Secretária de Educação do Estado de São Paulo.
RESENDE, H. G. DE & SOARES, A. J. G. Conhecimento e especificidade da educação física escolar, na perspectiva da cultura corporal. Revista Paulista de Educação Física. São Paulo: supl. 02. p. 49-59. 1996
ROSADO, A. Nas margens da Educação Física e do Desporto. Faculdade de Motricidade Humana. Universidade Técnica de Lisboa. 1998.
SANTOS, R.R.F e LORENZETTO, L.A. Os novos Parâmetros Curriculares Nacionais: perspectivas para a educação física de primeira à quarta série. Trabalho de formatura. Universidade Estadual Paulista, 1999.
SCHWARTZ, G. M. Emoção, aventura e risco - a dinâmica metafórica dos novos estilos. In: Burgos, M.S.; Pinto, L.M.S. (Org.). Lazer e estilo de vida. 01 ed. Santa Cruz do Sul, 2002, p.139-168.
revista
digital · Año 11 · N° 99 | Buenos Aires, Agosto 2006 |