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O fisiculturismo no Brasil: uma análise histórico-social

Bodybuilding in Brazil: constitution historical social

 

*Mestranda em Saúde Coletiva pelo

Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da

Universidade Federal do Rio de Janeiro

**Professora Adjunta do Instituto de Estudo em Saúde Coletiva

da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Doutora em Antropologia Social - École des Hautes Études en

Sciences Sociales (EHESS) - França (CAPES-2003)

Andreza Conceição de Souza*

drezacsandreza@hotmail.com

Jaqueline Teresinha Ferreira**

jaquetf@gmail.com

(Brasil)

 

 

 

 

Resumo

          Paralelo às exigências sociais contemporâneas da linha e da forma do corpo, o fisiculturismo vem ganhando relevância mediante essas exigências corporais. Como prática esportiva no Brasil, ele vem se expandindo e fortalecendo, fato perceptível pelos megaeventos realizados e títulos conquistados a nível sul americano e mundial. Através de uma análise histórico-social observamos que sua relevância no país pode estar associada à perda das referências na contemporaneidade buscando assim a (re) produção dos corpos e atributos de deuses como a bravura de Hércules e a beleza ideativa de Afrodite. São imperativos de dedicação ao corpo que por sua vez, são uma resposta a imperativos sociais tais como a linha e a forma. Este estudo teve por objetivo compreender a expansão do fisiculturismo no Brasil como prática esportiva e corporal articulando com as representações sociais sobre identidade, regionalidade e cultura brasileira, embasado em documentos tratando de sua constituição histórica.

          Unitermos: Corpo. Estética. Treinamento de resistência.

 

Abstract

          Parallel to contemporary social demands of line and forms of the body, bodybuilding is winning relevance by these corporal demends. As sports practice in Brazil, it has been expanding and strengthening, facts noticeable by mega events realized and titles conquered the South American and world level. Through a social-historical analysis we noted that its relevance in the country may be associated with loss of references in contemporary thus seeking (re) production of bodies and attributes of the gods as the bravery of Hercules and the ideational beauty of Aphrodite. Dedication imperatives of the body which, in turn, are a answer to social requirements such as the line and form. This study aimed to understand the expansion of bodybuilding in Brazil as a sports and body practice articulating with the social representations of identity, regionality and Brazilian culture, based on documents dealing of its historical constitution.

          Keywords: Body. Esthetics. Resistance training.

 

Recepção: 06/09/2016 - Aceitação: 20/10/2016

 

1ª Revisão: 29/09/2016 - 2ª Revisão: 15/10/2016

 

 
Lecturas: Educación Física y Deportes, Revista Digital. Buenos Aires, Año 21, Nº 221, Octubre de 2016. http://www.efdeportes.com/

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Introdução

    O fisiculturismo é uma técnica corporal que vem se expandido no Brasil com atletas, admiradores e patrocinadores. As conquistas de títulos a nível sul americano e mundial lhe vêm auferindo ampla dimensão, paralelo às exigências sociais contemporâneas da linha e da forma do corpo, um imperativo febril de dedicação ao corpo (Le Breton, 2007).

Fisiculturista egípcio 'Big Ramy' ganha o clássico Brasil Arnold

em São Paulo. Apresenta o prêmio: Arnold Schwarzenegger

http://www.kingfut.com/2015/06/05/egyptian-bodybuilder-wins-3rd-arnold-classic-sao-paulo/

    Podemos considerar o fisiculturismo, para além dos limites de prática esportiva, como técnica corporal à luz de Marcel Mauss (1974) onde “corpo é o primeiro e o mais natural objeto técnico, e ao mesmo tempo meio técnico do homem” e como sendo “as maneiras pelas quais os homens, de sociedade a sociedade, de uma forma tradicional, sabem servir-se de seu corpo¨ (p. 201). Assim, a expansão do fisiculturismo, entendida dentro da trama social onde está inserida, pois o uso do corpo não é simplesmente produto de mecanismos individuais, é também de natureza social (Mauss, 1974).

    Como toda técnica corporal o fisiculturismo tem sua especificidade e sua forma. Vários são os atributos físicos e psicológicos que configuram um atleta fisiculturista: o humor que oscila devido à rigidez da dieta; a abdicação de várias atividades em prol do treino e da manutenção do descanso; o estresse pré-campeonato; a modificação corporal constante de tamanho e forma, entre outros fatores. Todos esses aspectos circundam um maior: a preocupação com o corpo que corresponde aos cuidados de si. Por outro lado, a perda das referências na contemporaneidade reflete a (re) produção dos corpos e atributos dos próprios deuses: a bravura de Hércules e a beleza ideativa de Afrodite. Dessa forma, o corpo do fisiculturista não representa apenas a saúde personificada, mas também a imortalidade no que tange a semelhança com os deuses.

    Esse artigo busca refletir sobre as representações sociais do fisiculturismo no Brasil, envolvendo as relações entre identidade, regionalidade e cultura brasileira, embasado em documentos tratando de sua constituição histórica. Para Moscovici (2011), as representações sociais são produtos da interação, as quais dizem respeito a um sistema de valores, ideias e práticas, com uma dupla função: estabelecer uma ordem que possibilita às pessoas orientar-se em seu mundo material e social e controlá-lo; quanto possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade. A forma como o indivíduo percebe seu corpo está circunscrita em uma perspectiva histórico-social. O cuidado saudável do corpo e a posição estética confluem para uma unicidade no fisiculturismo: estética parece indicar saúde; a saúde é a estética, celebrá-la, pontuá-la, analisá-la e premiá-la é o foco dos Campeonatos de Fisiculturismo, dos quais, o Brasil tem conquistado importantes títulos.

O surgimento das competições de Fisiculturismo no contexto de um novo modelo corporal

    Com o surgimento da era Moderna marcada pela crescente industrialização por volta do final do século XIX, houve uma mudança das pequenas cidades para as metrópoles. Consequente a facilidades advindas do processo de industrialização, tais como a criação do automóvel e de alimentos cada vez mais refinados, houve a diminuição da prática de exercícios físicos e um aumento do sedentarismo em geral. É neste cenário que surge o fisiculturismo como um retorno ao ideal grego, isto é, o desenvolvimento muscular como celebração estética do corpo humano na tentativa de combater esses aspectos emergentes de época: o modelo europeu boêmio e barrigudo (Schwarzenegger, 2002).

    Desta forma, os fisiculturistas buscavam um modelo cujo físico incorporasse as ideias que estavam tentando disseminar, isto é, inspirados nas estátuas clássicas dos atletas da Grécia Antiga a busca por um corpo atlético através da prática esportiva, a preferência pela alimentação natural e, assim, uma vida saudável. Como afirmam Courbin, Courtine e Vigarello (2008) “um corpo que se qualificaria de atlético segundo normas neoclássicas, feitas de uma relação entre o tamanho, o peso, o desenvolvimento muscular e a mobilidade” (p. 419-420).

    Por volta dos anos 1920 e 1930 ficou estabelecida a distinção entre levantar pesos puramente pela força e treinar com pesos para dar forma e proporção muscular ao corpo. Em 1950, Steve Reeves após conquistar os títulos Mr. América e o Mr. Universe, tornou-se uma estrela de cinema internacional com atuação nos filmes Hércules, Morgan, o Pirata e O Ladrão de Bagdad (Schwarzenegger, 2002). Esse é um momento crucial ao fisiculturismo, quando os corpos de fisiculturistas conquistam o cinema, apresentando um novo modelo de corpo e um importante marco no surgimento do ideal de beleza masculino ocidental.

    Esse panorama foi se abrangendo cada vez mais onde por exemplo corpos musculosos apareciam nos anúncios de jornais, revistas e televisão (Schwarzenegger, 2002). Esse fato evidencia como o crescimento e expansão do fisiculturismo como prática corporal foi também circunscrito ao mercado político econômico. Como consequência, novos atores de cinema e televisão, modelos fotográficos e de passarela também passaram a frequentar o ginásio para estar em forma com o objetivo de impressionar o público e conquistar esse corpo atlético que já simbolizava o prestígio social, manifestava a nova ética da competição e do mérito, bem como um ideal estético (Schwarzenegger, 2002; Courbin, Courtine & Vigarello, 2008).

As competições de Fisiculturismo no Brasil

    Os padrões corporais são ditados por várias vias, das quais se destacam a mídia, os grupos a que se pertence e os espaços aos quais se frequentam (Sant’anna, 2005). É importante levarmos isso em conta na análise da relação dos espaços de musculação com o fisiculturismo. A musculação, segundo Soares (2005), é uma das principais práticas corporais para se alcançar o shape ideal, a qual consiste essencialmente em séries de exercícios físicos a partir de grupos musculares e funções orgânicas com finalidades específicas, úteis, e não como mero entretenimento.

    Apesar do fisiculturismo ser praticado em diversos países, ele tem uma forma e especificidade diferente circunscrita em cada sociedade e grupo que o cultua. No Brasil, o fisiculturismo é um esporte amador e herdeiro da concepção de amadorismo do século XIX, que se refere a um equilíbrio natural do corpo – equilíbrio de movimentos e do regime alimentar (Courbin, Courtine, & Viagarello, 2008).

    Atualmente, no Brasil, as maiores competições de fisiculturismo são realizadas pela Federação Brasileira de Musculação NABBA Brasil (National Amateur Bodybuilding Association), a qual possui uma filial em 13 estados brasileiros. A matriz na 5º maior metrópole do mundo e a maior da América Latina é o estado de São Paulo. É importante ressaltar que além da federação NABBA Brasil há também a International Federation of Bodybuilding and Fitness (IFBB), entidade canadense que se estabeleceu e se fortificou nos EUA, com uma conotação mais profissional e empresarial, acabando por superar a NABBA no que se refere aos aspectos financeiros mas com menor força de atuação no país (Kprowski, 2016). Como ambas diferem nos critérios de competição, embora os corpos sigam o mesmo imperativo da linha e forma, optamos aqui por destacar a NABBA, tendo em vista também sua importante atuação no território (Brasil, 2014).

    A NABBA foi fundada em 1948 na Inglaterra por um grupo de entusiastas do fisiculturismo. Até meados dos anos 1970, era a maior entidade diretiva do bodybuilding internacional e os atletas tinham como meta vencer o mais notório campeonato mundial o Mister Universe (Kprowski, 2016).

    A NABBA permanece como uma Federação amadora do esporte, visa incentivar os atletas a se reunir como forma de sociabilidade de seus membros baseado no pressuposto de que o esporte fisiculturismo é uma forma de expressão da arte, da dedicação com disciplina à construção do corpo e mente saudável. Parte do pressuposto de que, a dedicação à atividade física no aprimoramento do próprio corpo leva também ao fortalecimento e manutenção da saúde como bem maior (Kprowski, 2016).

    No site oficial da Federação Mineira de Body Building (FMBB) encontra-se disponível o “Manual de Competiçãoda NABBA (NABBA Internacional, 2016). onde são apresentados os critérios para participação nos campeonatos, categorias, poses e julgamentos. Acompanhando a crescente inserção de novas formas corporais pela prática da musculação, com frequência tem sido criada novas categorias, principalmente, femininas. É importante ressaltar que a competição para homens e mulheres é a mesma distinguindo apenas categorias masculina e feminina.

    O manual apresenta as categorias oficiais para as competições a nível mundial da NABBA. Conquanto que nas competições mundiais sejam observadas as regras internacionais, há liberdade das filiadas dividirem as categorias conforme os seus critérios. Além disto, as categorias podem ser ajustadas, dependendo do número de participantes.

    O regulamento da competição pressupõe que são cinco ou sete árbitros para avaliar, julgar e classificar os melhores bodybuilders (como costumam ser chamados os atletas fisiculturistas). Os atletas se apresentam no palco usando trajes de sua escolha, em cores sólidas, opacas, destituído de bordado, faixas, marcas ou outros emblemas. Para as mulheres, biquínis e para os homens, sungas, uma vez que o foco é julgamento do desenvolvimento muscular do corpo, o que, por conseguinte, pressupõe que este esteja visível ao máximo.

    Além do traje, os atletas fisiculturistas, fazem o uso de bronzeadores, cremes e óleos, uma vez que esses realçam a definição muscular evidenciando cada músculo. Os atletas dispõem de um minuto de apresentação, que se dá por através de uma coreografia dançada com a música de sua escolha. A coreografia não é aleatória, nada no fisiculturismo é aleatório, ela é ensinada pelo treinador do atleta, em cursos preparatórios. Cada técnica é pensada, em concordância com o pensamento de Mauss (1974) acerca das técnicas corporais: há uma adaptação constante a um objetivo físico, mecânico, efetuada numa série de atos montados.

    Os critérios de julgamento na competição física são três: muscularidade, que a grosso modo, é o volume muscular total, resultando em corpos gigantes. Simetria, a qual por sua vez, corresponde à estrutura harmônica corporal, forma, proporção, resultando um todo coeso. Isto é, um fisiculturista do sexo masculino, por exemplo, não pode ter os membros superiores muito desenvolvidos, se os membros inferiores não são trabalhados. E, por fim, a apresentação, que consiste em mostrar a habilidade de posar, postura, projeção e presença de palco.

    No Brasil, as competições acontecem a nível local em cada um dos 13 estados brasileiros onde há uma filial NABBA Brasil (cada uma presidida por diferentes presidentes). Posteriormente, a nível regional. Então segue o Campeonato Brasileiro e deste, os vencedores seguem para a competição Sul Americana e, por fim, o Mundial.

    Como critério do esporte, todas as pessoas que o praticam, independentemente do motivo porque estão praticando, precisam dominar as técnicas e compreender o que está envolvido na formação de um programa de treino. A rotina do atleta fisiculturista difere de um praticante de musculação comum. Em relação a aspectos singulares, tais como o tipo corporal, o tempo com que uma pessoa consegue aumentar o volume de massa muscular, o índice metabólico são alguns dos aspectos que podem variar entre os indivíduos (Schwarzenegger, 2002). Toda técnica é uma habilidade manual que requer aprendizagem, e que se aprende lentamente; e tem sua forma (Mauss, 1974).

    Em 2011, o Brasil sediou o maior evento de bodybuilding já realizado na América Latina, o Campeonato Mundial NABBA 2011, sendo realizado no estado de São Paulo. Decorrente do sucesso desse fato, a partir de 2013, passou a receber anualmente no estado do Rio de Janeiro, um dos maiores eventos amadores do planeta deste seguimento, o Arnold Classic, que conta com a presença do seu idealizador, o ator e atleta fisiculturista Mister Universe Arnold Schwarzenegger. Para os amantes do fisiculturismo Arnold Schwarzenegger representa o “mito” deste esporte.

    O Brasil também já conquistou, diversas vezes, o maior título na categoria mundial da Federação NABBA de Fisiculturismo, o Mister universe, a exemplo do Mister universe amador 2005; Mister universe 2008 (Master Nabba); Mister universe 2013; Miss universe 2005 e overall (Figure Nabba); Miss Universe Overall 2006; Miss universe overall 2007 (Figure Nabba), Miss universe 2009 (Figure Nabba); sexto lugar mundial na categoria feminina Miss Toned 2013, entre outros.

    O fato da sede do fisiculturismo encontrar-se na grande Metrópole São Paulo, que é a quinta maior metrópole do mundo e a maior da América Latina, justifica-se na facilidade de implantação e crescimento, partindo de um lugar de representação social e econômica importante para o país, ilustrando como o fisiculturismo só se insere como prática dentro de um contexto político e econômico específico.

Análises contextual do Fisiculturismo no Brasil

    Relembrando Mauss (1974) que argumenta que o corpo é o primeiro e mais natural instrumento do homem e é “o homem que sempre e em toda parte, soube fazer de seu corpo um produto de suas técnicas e de suas representações” (p. 13), objetivo técnico e ao mesmo o meio técnico, podemos aplicar esse conceito ao fisiculturismo que coloca o corpo em evidência onde técnicas são ensinadas em academias de musculação e dietas são preconizadas com o objetivo de aperfeiçoamento do mesmo. A instrumentalidade do corpo no fisiculturismo relaciona-se ao seu rendimento.

    O fisiculturismo no Brasil, apesar de apresentar-se como uma prática esportiva, só tem auferido repercussão e galgado posições no país, por estar em coerência com representações sociais da sociedade brasileira onde a busca de um corpo ideal está sempre presente. Ilustrando isso, há programas de televisão transmitidos em horários nobres trazem ao fundo do palco, mulheres com os corpos quase nus e de musculatura bem definida, os quais são fabricados mediante a prática da musculação e dieta voltada para esse fim.

    Recentemente, um programa brasileiro de cunho popular, cresceu significativamente em audiência em todo o país devido ao conjunto de mulheres denominadas “panicats”. Essas mulheres, que exibem seus corpos no programa, se distinguem das até então animadoras de palco, pois a musculatura dos seus corpos é muito próxima à musculatura de um shape do fisiculturista. As manequins usadas em lojas para demonstrar peças de roupas à venda seguem o mesmo padrão de forma do corpo.

    O culto ao corpo, dentro dessa configuração, está camuflado sob a suposta aquisição e preservação da saúde, a qual, já é compreendida socialmente como conquista e responsabilidade individual (Soares, 2005). O que se percebe, no entanto, é o fato de que, não é a saúde o que importa, pelo menos não como o objetivo primordial nessa prática corporal. Além disto, a frase slogan frequentemente utilizada pelos atletas fisiculturistas é “para além dos limites do corpo”. Como então fazer apologia ao corpo da saúde e o que seria definido como limites do corpo? Portanto, o foco no fisiculturismo é a representação da boa forma corporal, do shape ideal, perfeito e de simetria muscular significado dentro do próprio universo desta prática corporal, visto que, o belo e ideal do fisiculturismo difere-se de outros construtos de belo e ideal.

    Os padrões de beleza são ditados por várias vias, das quais se destacam a mídia, os grupos a que se pertence e os espaços as quais se frequentam. O belo no fisiculturismo se singulariza, porém se assemelha aos padrões de beleza no Brasil. Os referenciais gregos são evocados no fisiculturismo no que tange à beleza idealizada e representada:

    Quando nossos antepassados ficavam estupefatos diante da musculatura de Hércules ou invocavam a extrema beleza de Afrodite, comparavam simultaneamente o intransponível abismo que separava seu estado, fustigado pelo sofrimento e pela fome, com a situação dos deuses, que bebiam a ambrosia durante seu banquete de imortalidade; sua dor cotidiana os reduzia ao mero status de mortais, distanciados de seus sonhos, deram-se a si próprios esse nome. Ao admirar o corpo dos deuses, nossos antepassados aceitaram que seus próprios corpos não eram mais provenientes deles (Serres, 2003 p. 32).

    Para o autor supracitado, em grande parte, o nascimento e o sucesso dos esportes populares são decorrentes de ritos coletivos e mundiais determinados pela emergência progressiva desse corpo, cujas performances se ampliam porque ele acabou de nascer e porque as lutas corporais talvez venham substituir as guerras. É no grande coliseu diário social que elas continuam a ser travadas. Guerras interiores geradas pela angústia do sujeito contemporâneo em se auto afirmar no mundo, onde os valores já não são tão delimitados, as referências são tênues. Portanto, o retorno ao ideal grego não se limita a musculatura do corpo, mas também, ao corpo espartano:

    Esse corpo novo aparece nos ícones da moda ou do esporte, em nossas exigências de saúde ou aparência. Responsáveis que somos pela aparência de nosso corpo, podemos parcialmente transformá-lo por meio de regimes, exercícios, drogas ou excessos, e isso porque descobrimos a medida de sua plasticidade. Os sucessos da medicina e do fisiculturismo nos transformaram em autores parciais de nossa corpulência” (Serres, 2003, p. 32).

    A perda das referências na contemporaneidade reflete a (re) produção dos corpos dos próprios deuses: sou deus de mim, o está ai (em mim) a força e a bravura de Hércules e a beleza ideativa de Afrodite.

Conclusões

    O que é definido por belo, em quaisquer pratica corporal é questionável e passível de discussão e de diferentes leituras. Todas as interações humanas pressupõem representações. As pessoas se relacionam de formas diferenciadas para corpos diferentes. A representação social que eu tenho do corpo me diz dados sobre o Outro, como por exemplo, sobre alguns dos seus gostos, de suas preferências. E pelo seu corpo eu entendo que seu estilo de vida não me é agradável ou o é. Isto se deve as representações sociais que criamos:

    As qualidades do homem são deduzidas da feição do rosto ou das formas do corpo. Ele é percebido como a evidente emanação moral da aparência física. O corpo torna-se a descrição da pessoa, testemunha de defesa usual daquele que encarna (...). O corpo do estrangeiro torna-se corpo estranho. A presença do Outro se resume à presença de seu corpo: ele é seu corpo” (Le Breton, 2007, p. 72)

    Para Moscovici (2011) as representações sociais são sempre produtos a interação e comunicação tomando forma e configuração específicas a qualquer momento. A sociedade atual tem como forma de agenciamento as relações o corpo. Como características localizam-se a intensa exploração comercial que se faz deste; o imperativo da beleza; o imperativo da saúde perfeita. Nessa lógica, ser gordo, possuir celulite, estrias, rugas e quaisquer espécies de “defeito” que afete a beleza do produto (isto é, o corpo) exposto ao consumidor e observador (isto é, o Outro) é tratado como um estigma. Assim, no tempo presente os gordos precisam fazer um esforço para emagrecer que lhes parece bem mais pesado do que o seu próprio peso (Sant’anna, 2001). Por outro lado, no Brasil, os magros precisam se esforçar para adquirir músculos.

    Segundo Garcia Roza (2008) para ser considerado socializado é preciso abrir mão da autonomia fisiológica em favor do controle social e se comportar a maior parte do tempo como as outras pessoas, seguindo rotinas culturalmente estabelecidas. O corpo é desejo de uma construção social e cultural (Le Breton, 2007), e por essa razão, o fisiculturismo encontra-se tão bem engajado no Brasil.

    O fisiculturismo apresenta-se como técnica corporal que objetiva a celebração do culto ao corpo, previamente pensado e com padrões articulados e bem definidos. É na configuração da sociedade contemporânea, porém, que o fisiculturismo encontra a pedra de toque e a condição sine qua non de conquista de território e autoafirmação como prática corporal. Sociedade onde o culto ao corpo é celebrado. Sociedade do paradoxo, o que predomina em suas práticas e rituais, é o descartável; enquanto o que se busca, em teoria, é a eternidade através dos avanços e descobertas científicas. Descartável no que tange a fluidez do ser, onde a cada dia é preciso, supostamente inovar; para tanto se buscam tratamentos clínicos, estéticos, faz-se uso abusivo de cosméticos, apelam-se as cirurgias plásticas, academias, suplementos alimentares e até esteroides. E eterno, no que tange a investigação da cura para doenças genéticas, doenças degenerativas e incuráveis.

    No Brasil, país de território extenso, múltiplas formas culturais, étnicas e raciais, o fisiculturismo tem encontrado respaldo nas representações de beleza e de práticas, da qual já fazem parte, de forma massifica a musculação. Essas representações legitimam os praticantes de fisiculturismo para um empenho cada vez maior e conquista de importantes títulos.

    O corpo é percebido como a evidente emanação moral da aparência física. Torna-se a descrição da pessoa, testemunha de defesa usual daquele que encarna (Le Breton, 2007). Assim, o fisiculturismo, apesar de apresentar-se como uma como prática esportiva, só tem auferido repercussão e galgado posições no Brasil por ir ao encontro de um culto ao corpo compartilhado e ressignificado na cultura do país.

Bibliografia

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EFDeportes.com, Revista Digital · Año 21 · N° 221 | Buenos Aires, Octubre de 2016
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