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O que mudou na cidade? A
trajetória de formação de espaços ¿Qué cambió en la ciudad? La
trayectoria de la formación de espacios de recreación |
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*Doutor em Ciência do Movimento Humano pela Universidade Federal de Santa Maria, RS e professor adjunto dessa instituição. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisa em Gerontologia na UFSM **Mestre em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) |
Marco Aurélio de Figueiredo Acosta* Ariane Corrêa Pacheco** |
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Resumo Este estudo tem como objetivo olhar para o passado, procurando entrelaçá-lo a questões contemporâneas da formação da paisagem da cidade, particularmente sobre o lazer, em conjunto a determinadas mudanças na compreensão do envelhecer e de espaços destinados a idosos. A partir de uma abordagem qualitativa, utilizamos fotografias do município de Santa Maria/RS para a realização das entrevistas, nas quais contamos com a presença de 5 homens e 5 mulheres pertencentes a grupos de convivência para a terceira idade. Através das histórias contadas, protagonizadas por pessoas que se encontram com mais de 60 anos, evidencia-se um olhar positivado sobre o envelhecer na cidade, atravessado pela formação de grupos de convivência para idosos, sendo esses significados como espaço/tempo de lazer. Unitermos: Envelhecimento. Lazer. Cidade. Fotografia.
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EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 17, Nº 176, Enero de 2013. http://www.efdeportes.com/ |
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Introdução
O processo de envelhecimento deixou de estar atrelado apenas às perdas que acometem o indivíduo conforme a passagem dos anos, tão pouco ao fato de tais decréscimos refletirem somente em sua privacidade, o envelhecimento passou a ser uma questão social. Debert (1999) aponta para a transformação da velhice em tema privilegiado, quando se pensa nos desafios enfrentados pela sociedade brasileira.
As implicações sociais de uma população envelhecida, em conjunto aos diferentes olhares sobre a velhice, podem estar articuladas com determinadas transformações na cidade ao longo do tempo. Nesse sentido, algumas mudanças podem ser observadas tanto na paisagem das cidades, como nas relações humanas que fazem parte de seu funcionamento, fomentando a criação de novos espaços, serviços e atendimento aos idosos.
A lógica de funcionamento das cidades, que economicamente prima pela produtividade em série e acumulo de capital, segundo Magnani (2002), em diferentes momentos, parece transmitir uma imagem como se ela fosse fornada à parte de seus moradores, pensada como resultado de forças econômicas transacionais, das elites locais, de lobbies políticos, variáveis demográficas, interesse imobiliário e outros fatores de ordem macro. Nessa linha, a cidade poderia parecer um cenário desprovido de ações, atividades, pontos de encontro e redes de sociabilidade. No entanto, há outra maneira para pensá-la. Procurando o contraponto a visão anterior, Magnani (1998; 2002) nos oferece uma boa dose de argumentos para pensar a cidade e a formação de espaços urbanos articulados com o circular dos agentes e de suas redes de sociabilidade.
Buscando uma linha que tangencie tanto a formação dos espaços urbanos, quanto o olhar sobre o envelhecimento humano, nos direcionamos a uma das estruturas da cidade que tem assumido um significativo lugar quando o assunto é o envelhecer: a universidade. Entre as iniciativas de atendimento à população, neste trabalho vamos direcionar nosso olhar aos projetos de extensão voltados ao público idosos. De acordo com Fenalti & Schwartz (2003) tais projetos assumem uma proposta de incentivar a valorização pessoal, a convivência grupal, o fortalecimento da participação social, a formação de um cidadão consciente de suas responsabilidades e direitos, buscando que os idosos mantenham e/ou conquistem certa autonomia.
Nesse sentido, através de uma perspectiva panorâmica, procuramos compreender certas transformações no cenário urbano e, em particular, nos espaços de lazer, sob o olhar de pessoas viveram essas mudanças e, no presente, encontram-se dentro das universidades em programas voltados aos idosos. Para realizar este trabalho buscamos nas falas de nossos interlocutores que, além de fazer parte das mudanças na paisagem da cidade de Santa Maria/RS, são protagonistas do processo de envelhecimento, um dos pilares de discussão dessa pesquisa.
Um caminho como metodologia
O presente estudo tem um caráter de investigação qualitativo. Neto (1999) afirma que o termo qualitativo engloba diferentes técnicas de investigação, centradas em procedimentos hermenêuticos que tratam de descrever e interpretar as representações e os significados que um grupo social dá à sua experiência cotidiana.
Na tentativa de buscar diferentes olhares de um mesmo contexto social, fizeram parte desse estudo 10 idosos, 5 homens e 5 mulheres. Tivemos o privilégio de encontrar moradores do município de Santa Maria/RS desde 1964. Essas pessoas viveram as transformações históricas da cidade e nos ofereceram a possibilidade de esclarecer suas comparações com o envelhecer em gerações anteriores.
Cabe salientar que a formação desse grupo de pessoas se desenvolveu através da identificação de idosos que lideram, de alguma forma, o grupo de terceira idade do qual fazem parte. A representatividade frente ao grupo do qual estão vinculados pode ser através da presidência do mesmo ou pela capacidade de fomentar ações que possibilitem diferentes transformações, sejam essas no próprio grupo ou de maior amplitude.
Buscar as lideranças, por um lado nos limita ao olhar de quem esteja em uma posição de demarcada simbolicamente pelo poder, na linha de Pierre Bourdieu (1996), mas, por outro, nos oferece o contato com pessoas que tem domínio sobre os assuntos pertinentes ao grupo e sobre as ações da universidade, construir relações que viabilizem o debate e se encaixem nos limites do texto que estamos propondo.
Em um primeiro momento, houve um contato de aproximação com os sujeitos, no qual os objetivos do trabalho foram expostos e realizava-se o agendamento da entrevista. Na sequencia, as realizamos em data e local de preferência dos idosos, favorecendo a criação de um ambiente confortável para o que o diálogo transcorresse o mais à vontade possível. As entrevistas foram gravadas e transcritas na integra, substituindo o nome dos colaboradores para garantir sua privacidade. Cabe salientar que este trabalho segue as normas do Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição, onde está registrado sob Nº 23081.008597/2009-20.
Para inclusão dos idosos no estudo, era fundamental sua participação no Grupo de Atividades Físicas para a Terceira Idade (GAFTI), projeto vinculado ao Núcleo Integrado de Estudos e Apoio à Terceira Idade (NIEATI), desenvolvido pelo Centro de Educação Física e Desportos (CEFD) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Fundado em 1984, o NIEATI é caracterizado como projeto extensionista, constituído por 76 grupos de atividades físicas, localizados em diferentes bairros da cidade de Santa Maria/RS e região.
A difusão dos grupos de terceira idade, oriundos do NIEATI, em conjunto ao trabalho consistente que perdura por 25 anos, possibilita uma forte articulação de idéias e ações entre os idosos, fomentando a participação dos mesmos no andamento dos projetos, na gerencia dos grupos e autonomia frente às iniciativas da Universidade. Devido ao grande número de grupos de terceira idade vinculados ao GAFTI, fizeram parte do estudo os pertencentes ao projeto de pesquisa “O Envelhecer na cidade: um estudo sobre os grupos de atividades físicas para a Terceira Idade em Santa Maria – RS” (ACOSTA, 2005), onde estão reunidas informações de grupos pioneiros no trabalho com terceira idade no município.
De acordo com o objetivo do estudo, realizou-se a escolha de fotografias que contemplem transformações históricas da paisagem do município. Cada fotografia engloba diferentes imagens separadas por décadas, formando uma linha do tempo ininterrupta que inicia na década de 40 até o ano de 2000. As imagens abordam espaços públicos, de acesso comum a todos, como, por exemplo, construções no centro da cidade e locais destinados ao lazer. A utilização de imagens tem como finalidade evidenciar as transformações da cidade nesse período e certificar que os sujeitos conhecem e reconhecem os lugares expostos, principalmente, porque os freqüentaram no passado.
A apresentação de imagens fez parte da tentativa de construção de uma linha de raciocínio, que favoreça aos idosos a relação entre as transformações do município e seu processo de envelhecer. Toda imagem nos faz pensar e sempre nos oferece algo para pensar: ora um pedaço de real para roer, ora uma faísca de imaginário para sonhar (BRUNO e SAMAIN, 2006, p. 29).
No primeiro momento, as imagens selecionadas foram expostas separadamente, cada década de uma vez, em ordem cronológica. Os idosos as contemplavam da maneira que os convinha e posteriormente elas eram organizadas em formato circular sobre uma mesa. De acordo com Bruno e Samain (2006) a disposição em circulo conduz a uma maior exploração de conexões, correspondências e aproximações entre as fotografias.
Em conjunto a observação das imagens foi realizada uma entrevista, com questões abertas, que de forma geral abordavam questões sobre a cidade, espaços de lazer, envelhecimento e grupos de convivência. Através da leitura do material produzido, buscamos compreender algumas transformações da paisagem na cidade, entrelaçadas com a percepção dos idosos sobre o envelhecer em Santa Maria/RS.
Até esse momento buscamos apresentar alguns caminhos construídos no decorrer da pesquisa. Essa formação metodológica procurou estimular o imaginário dessas pessoas sobre a formação da cidade em que vivem, conduzindo seu olhar para a percepção sobre o lazer no decorrer de um longo período. Na seqüencia, passaremos a olhar para cada uma das histórias, narradas por nossos interlocutores, buscando entrelaçá-las com a discussão teórica acerca do processo de envelhecimento, práticas de lazer e formação de grupos de convivência.
A formação das cidades e seus espaços de lazer através de algumas histórias
Fruto da imaginação e trabalho articulado de muitos homens, a cidade é uma obra coletiva que desafia a natureza (ROLNIK, 2004). Seja nos sinais primitivos de seu nascimento ou nas grandes metrópoles contemporâneas, as cidades se constituem a partir da fixação em determinado local, apresentando uma organização social e política, na qual se fazem presentes gestores que coordenaram a produção coletiva.
A cidade, conduzida por um modo de produção econômico que prima pelo acumulo de capital, e por muitas vezes exclui, segundo Monte-Mor (2006) também garante a diversidade e riqueza da vida social, onde a competição e a cooperação são características da vida contemporânea. De acordo com Magnani (2002), a cidade comporta inúmeras possibilidades e alternativas aos seus sujeitos. Para o autor, é na existência de grupos, redes, sistemas de troca, pontos de encontro, instituições, arranjos, trajetos e muitas outras mediações que a entidade abstrata do indivíduo participa cotidianamente.
Para além das estruturas ou daqueles que gerenciam, nesse trabalho, nossa preocupação passa a ser compreender de que forma nossos interlocutores estão envolvidos no enredo de formação histórica de uma cidade e como percebem sua construção. As mudanças e fatos, narrados de forma minuciosa e que se complementam entre uma fala e outra, da mesma maneira que nos oferecem a possibilidade de compreendê-los pelo olhar de quem protagonizou um processo, guardam também a vulnerabilidade da memória pessoal que, de um lado, nos oferece o a incompletude de um só olhar, mas, por outro lado nos privilegia com a oportunidade de conhecer como se circulava por determinados locais através de “quem esteve por lá”.
O desenvolvimento da cidade de Santa Maria, RS é apontado através da fala de diferentes sujeitos, onde a Estação Ferroviária, os Quartéis do Exercito e a Universidade Federal de Santa Maria constituem as principais alavancas para o crescimento do município.
Santa Maria cresceu muito através da Rede Ferroviária e os Quartéis que tinham em Santa Maria, apesar de que os Quartéis têm até hoje né!? Mas a rede ferroviária era muito forte, a Avenida Rio Branco que hoje tu vê abandonada, era o centro de Santa Maria, os melhores hotéis, o comércio todo era concentrado na Avenida Rio Branco, a partir da Estação Férrea até a Praça Saldanha Marinho, isso eu me lembro muito bem, as lojas mais fortes, o comercio mais forte, lojas de roupas, ferragem, os melhores hotéis (Pedro, 62 anos).
Que se agradece ao Mariano da Rocha que foi ele que promoveu aquela Universidade lá fora, foi estimulado por ele, ele era o reitor, ele criou a Universidade, quer dizer entrou com a idéia e o desenvolvimento de Santa Maria se pode agradecer a Universidade de Santa Maria porque dali para cá é que começou a desenvolver (Arlindo, 68 anos).
O transporte de passageiros, através da rede ferroviária, se torna obsoleto e a Universidade e os Quartéis permanecem como estruturas significativas no cotidiano santa-mariense. A cidade, que por determinado tempo esteve ligada numa relação dicotômica com campo, passa por um processo de urbanização no qual algumas referências, por exemplo, a utilização de trens, permanece somente na memória. Na sequencia, podemos perceber que as estruturas que ainda hoje são utilizadas e permanecem como marcas históricas de formação desse município, carregam um significado de “desenvolvimento” e “progresso” para essas pessoas.
Seguindo essa linha, de compreender como as transformações são percebidas pelos sujeitos, passamos a olhar para as mudanças na dinâmica de funcionamento da cidade que se encontram articuladas com o envolvimento em atividades de lazer. Abaixo, apresento um trecho da entrevista de Pedro, na qual ele evidencia algumas mudanças de atitudes frente às atividades. O que ele vai denominar como “cultura de criação” nos oferece elementos para mostrar que, de acordo com o momento histórico, os significados e envolvimento com as atividades de lazer são marcados pelo modo de vida desse mesmo período, o que leva a discussão para além de espaços. Segue, nas palavras dele:
Pessoas com uma média de 60, 65 e 70 anos eu acredito que tiveram uma cultura de criação diferente, principalmente quem nasceu e se criou na cidade, são pessoas que procuram mais o lazer, atividade, ginástica, caminhar e se movimentar (Pedro, 62 anos).
Localizados por nossos interlocutores no passado, os espaços de lazer estavam vinculados às atividades das Igrejas e Clubes da cidade. O Clube Esportivo, União Familiar, Treze de Maio, Grêmio dos Ferroviários, Clube Comercial Caixeral, estavam entre os mais citados. Na década de 80, destacam-se os cinemas, como o Cine Independência, o Cine Imperial e o Cine Glória, peças de teatro, programas de auditórios de emissoras de televisão e atividades desportivas, como, por exemplo, o futebol. A utilização do Parque Itaimbé, como possibilidade de acesso público ao lazer, é também evidenciada.
O Itaimbé é utilizado sempre para essa parte de caminhada, de exercício, sempre foi, a principio o projeto era para ser uma Avenida e não foi e antes quando abriram aquilo ali o pessoal usa para caminhada, ciclismo e tem hoje para o lado do Bombril tem quadras de futebol de salão, futsal, umas duas ou três ali (Carlinhos, 61 anos).
Atividades assistemáticas também fizeram parte das recordações, nas quais o lazer esteve vinculado ao circo e parques de diversões.
Aqui era o ponto de passeio do pessoal, era o passeio, diversão era só quando vinha o circo, o parque. Aqui nessa década teve o cara que caminhava de bicicleta no fio, que ligaram de um edifício ao outro, uma semana ficou aí, era a maior diversão que tinha na década eu acho, e tinha apresentação da banda (Carlinhos, 61 anos).
Pensando o lazer dentro da complexidade social e distante de um olhar funcionalista, que tende a observá-lo a partir das funções que supostamente teria a cumprir, podemos compreendê-lo como:
Uma dimensão da cultura constituída por meio da vivência lúdica de manifestações culturais em um tempo/espaço conquistado pelo sujeito ou grupo social, estabelecendo relações dialéticas com as necessidades, os deveres e as obrigações, especialmente com o trabalho produtivo (GOMES, 2004, p.124).
A relação entre os tempos, de trabalho e de lazer, bem como sua compreensão a partir de um olhar sociocultural encontra-se presente não só nas falas, mas no imaginário de nossos interlocutores. Esses espaços são formados e a são formadores de sujeitos, marcas de uma época e do envelhecimento de diferentes gerações. Nesse sentido, passaremos a olhar para o processo de envelhecer do decorrer dessas mudanças estruturais do município. Vamos buscar compreender de que maneira os indivíduos amarram suas concepções de envelhecimento à vida na cidade.
Quando o envelhecer e a cidade se entrelaçam
Buscando uma breve contextualização histórica sobre a construção do envelhecer como faixa etária, circunscrita por determinadas particularidades, e como área específica de estudos, Silva (2008) nos mostra que a noção de velhice surge num período de transição entre os séculos XIX e XX. A autora destaca a formação de novos saberes médicos, que investiam sobre o corpo envelhecido, e a institucionalização das aposentadorias como fatores fundamentais e determinantes para a formação da velhice enquanto categoria social.
Tendo como ponto de partida uma perspectiva sociológica, as teorias sobre o processo de envelhecimento passam por transformações significativas no que se refere ao modo de olhar para os sujeitos em relação ao meio social do qual fazem parte. De acordo com Siqueira (2002), as teorias sociológicas do envelhecimento começaram a ser sistematizadas na década de 60 e foram incorporando alterações com o passar dos anos que, apesar de arbitrárias e passíveis de críticas, as classificações contribuem para a compreensão da elaboração teórica como um processo dinâmico e em permanente construção.
Em forma de apresentação didática e seguindo uma ordem cronológica, Siqueira (2002) nos mostra três diferentes gerações de produção de conhecimento nessa área: na primeira (1949-1969) a unidade de análise era primordialmente o indivíduo, enfocando os papeis sócias e formas de ajustamento ao declínio advindo do envelhecimento; a geração posterior (1970-1985) enfatiza o nível macrossocial de análise focalizando a maneira que as transformações sociais influenciam o processo de envelhecimento e a situação do idoso como categoria social; a terceira geração agrupa categorias que criticam e sistematizam as propostas anteriores e analisam os níveis micro e macrossocial, focando os aspectos estruturais do envelhecimento, como as restrições sociais e a desigualdade na distribuição de recursos econômicos.
Partindo dessa breve contextualização histórica, que nos mostra de onde partem as análises para a compreensão da velhice, direcionamos nossa atenção aos saberes contemporâneo. Esse caminho possibilita articularmos o debate entre o olhar de nossos interlocutores, que percorre o passado e evidencia marcas de um presente, com o debate teórico.
No que tange ao envelhecimento social, Carstensen (1995) aponta como um resultado bastante confiável é que a taxa de inter-relações sociais declina, ou seja, na velhice as pessoas interagem bem menos com os outros do que na juventude. Embora os dados não forneçam condições de sustentar uma argumentação de encontro a tal afirmação, é possível mostrar que os idosos passam a ocupar determinado espaço social e fortalecer suas redes de sociabilidade a partir da convivência nesses locais.
Em diferentes momentos aparece nas falas a “satisfação do envelhecer como morador de Santa Maria/RS”, mesmo que o descontentamento com gestores também faça parte do discurso, o envelhecer na cidade assume uma concepção de “positivo”, “bom”, “melhor” do que de outras gerações. Trago alguns excertos das entrevistas para o debate:
Envelhecer em Santa Maria, acho que é um privilégio, é um privilégio porque é uma cidade que dispõe de recursos, recursos para a própria saudade da pessoa como, por exemplo, tu vais para uma cidade como, por exemplo, onde eu me criei, onde eu nasci tu não tem um grupo terceira idade para fazer física, não tem nada disso ai, não tem um lazer, é difícil (Arlindo, 68 anos).
Hoje em dia para os velhos Santa Maria é tudo de bom na vida! Pelo amor de Deus! Santa Maria simplificou, ela deu o exemplo para muitos e muitos lugares até maiores que Santa Maria (Clara, 67 anos).
Hoje é bem diferente, hoje a pessoa idosa é bem mais ativa, e participa do movimento social, na época eles já iam se desligando do movimento social, hoje ele faz parte, participa, é membro da sociedade, é membro ativo da sociedade, na época não era (Carlinhos, 61 anos).
Entre as entrevistas foi possível perceber a relevância dada à “iniciativa”, quando o assunto é a procura pela atividade, bem como a importância de manterem-se engajados em espaços voltados ao publico idosos. Através das falas “hoje ele faz parte”, “membro ativo da sociedade”, evidencia uma situação do idoso enquanto parte do contexto social da cidade. Na linha de Featherstone, citado por Lima (1999), esses depoimentos podem ser interpretados como “máscara da velhice”, ou seja, a percepção diante das evidências do envelhecendo se torna diferente da realidade, construindo certas resistências.
Lacunas são deixadas por nossos interlocutores quando o assunto é a disponibilização de espaços da cidade direcionados aos idosos, principalmente, os que favoreçam as atividades de lazer e sejam de livre acesso. O vazio deixado na fala dos idosos quando a interrogação era referente aos espaços de lazer, demonstra a percepção dos sujeitos quanto à disponibilização de recursos com tal finalidade.
A senhora vê que Santa Maria nós não temos, a não serem esses espaços que a gente aluga, porque senão os idosos ficam em casa [...] Olha, da condições, falta é vontade, falta vontade dos dirigentes da cidade, porque eles tem áreas deles, que eles podem fazer um negócio para o lazer das pessoas (Adair, 61 anos).
Acho que Santa Maria para a terceira idade, eu acho que mais pagando (Terezinha, 65 anos).
Atualmente, há um duplo movimento que acompanha a transformação da velhice em preocupação social. Em uma das vias, o envelhecimento é uma questão pública. Debert (1999, p. 13) afirma que:
Um conjunto de orientações e intervenções, muitas vezes contraditório, é definido e implementado pelo aparelho de Estado e outras organizações privadas. Um campo de saber específico – a gerontologia – é criado com profissionais e instituições encarregados da formação de especialistas no envelhecimento.
Em outra via, há o processo de reprivatização da velhice, onde cada indivíduo é responsável por seu envelhecimento. Debert (1999, p.14) coloca:
A tendência contemporânea é rever estereótipos associados ao envelhecimento. A idéia de um processo de perdas tem sido substituída pela consideração de que os estágios mais avançados da vida são momentos propícios para novas conquistas, guiadas pela busca do prazer e da satisfação pessoal.
A autora salienta que nesse momento em que cada um passa a ser responsável pelo seu envelhecer, surgem oportunidades para os idosos buscarem sua autoexpressão e explorar suas identidades através das “universidades para a terceira idade” e “grupos de convivência de idosos”. No entanto, afirma Debert (1999), a imagem passada para a sociedade é de um envelhecimento, no qual o individuo é reconhecido como um ser autônomo, capaz de exercer seus direitos de cidadania, encobrindo a realidade onde encontramos idosos em situações de abandono e dependência.
Se, de um lado, as entrevista nos mostram a ideia de “satisfação” no envelhecer como morador da cidade de Santa Maria/RS, por outro lado, existe um descontentamento com os espaços públicos e atendimento ao idoso por parte do Estado. Essa aparente contradição está articulada com esse movimento de compreensão social da velhice, discutido por Guita Debert (1999).
Nas falas, encontramos pessoas que assumem a responsabilidade por seu envelhecimento. Os sujeitos se misturam e se veem engajados num discurso de “ser ativo”, “autônomo”, ou seja, cumprindo um papel que supostamente lhes cabe. Por outro lado, as “queixas” ficam com o Estado, “não há espaços”, “não há incentivo”, o que o poder público faz estaria deixando a desejar.
Para além de questões de gerencia do Estado ou de tensionar o quanto os idosos consomem discursos de uma velhice “ativa”, questões que mereceriam ser discutidas em outro momento e com maior profundidade, vamos direcionar nosso olhar aos caminhos que idosos percorrem dentro da cidade e constroem suas redes de sociabilidade. Nessa linha, passaremos a olhar para os Grupos de Terceira Idade, um espaço de análise profícuo para compreender questões contemporâneas sobre a velhice.
Grupos de convivência
De acordo com Salgado citado por Portella (2004) a primeira experiência na formação de grupos de convivência ocorreu no SESC/Carmo, na cidade de São Paulo, em 1963, com o objetivo de formar grupos de aposentados e atender suas necessidades internas. A finalidade de tais iniciativas era manter as pessoas ativas, ocupadas com algo que viesse ao encontro de suas necessidades de conviver, de estar com outras pessoas, trocar sentimentos e experiências.
Com o passar do tempo multiplicam-se grupos de terceira idade e as atividades de lazer se encontram fortemente vinculadas a esses espaços. Portella (2004) afirma em seu estudo que os movimentos dos mais velhos, em grupos de convivência possuem propostas culturais ou de lazer ampliadas. Voltando para Santa Maria/RS, algumas falas nos remetem a criação desses grupos na cidade:
Em 80 que começaram a surgir os grupos de terceira idade, começou que eu me lembro o Grisalhas da Primavera foi o primeiro, e do Grisalhas da Primavera como descendente nasceu o Cabelos de Prata, que nasceu com a ideia de usar e achar um espaço para agregar essa pessoa de terceira idade e oferecer a elas lazer, diversão, aprendizado de alguma coisa (Pedro, 62 anos).
Os grupos foram sensacionais, os grupos resolveram os problemas, a gente teve a liberdade que sempre merecemos e não tinha (Clara, 67 anos).
A formação de grupos de convivência possibilitou aos idosos a construção de novos olhares sobre o envelhecer. Comparações às gerações anteriores tornam evidentes as transformações não somente na percepção acerca do processo, como a importância da participação em grupos de terceira idade para a possibilidade de reinserção social.
Quando eu era mais jovem, que eu era guri na década de 70, uma pessoa com 60 anos era um velho, hoje em dia tu vê uma pessoa com 80 anos que estão em pela atividade, claro que não estão trabalhando, não estão produzindo, mas estão em plena atividade através de um grupo de ginástica, gostam de passear, gostam de ir a baile, gostam de se divertir, não são mais aquele idoso a ficar sentado dentro de casa esperando a morte chegar como era antigamente isso ai acho que beneficiou para a qualidade de vida das pessoas (Pedro, 62 anos).
Mas é uma maravilha e como mudou para a gente, acho que muita gente já tinha morrido, se não tem essa natação, hidroginástica, ginástica, os grupos, os passeios, coisa bem boa! (Ilda, 69 anos).
Por diversas vezes, estão presentes nas entrevistas e parecem centrais na formação desses espaços de lazer, compreender as formas de sociabilidade, seja dentro de uma perspectiva teórica com contornos precisos como a de George Simmel (1983, p.169), que a define como “forma lúdica de sociação”, ou por conceitos com diferentes delimitações discutidos no trabalho de González (2007), os grupos de convivência, formados e gerenciados por idosos, tornam-se significativos para estabelecer essas redes de relações interpessoais.
Como argumentação recorrente, a participação em grupos de terceira idade mostra-se significativa para a construção de concepções sobre o envelhecer, não só de nossos interlocutores, mas do contexto social do município de Santa Maria/RS. Contudo, um entre os depoimentos nos chama atenção para a não padronização de um discurso e única forma de compreender um processo. Trago parte da entrevista de Arlindo, quando perguntamos sobre o que mudou quando passou a fazer parte do grupo de idosos próximo de sua casa, logo responde:
Tu sabes o que mudou, não mudou muito, porque o meu procedimento continuou aquele que era sempre, tratar todo mundo bem, respeitar bem, exercício é bom, é bom mesmo, mas eu estou sempre em movimento, e fazia os movimentos em casa, as vezes a mulher manda eu parar que eu não sou mais um gurizinho ta com quase 100 anos nas costas, vai sentar tomar um chimarrão, te alimentar, ah mas eu não deixo (Arlindo, 68 anos).
O debate que procuramos traçar até esse momento trás consigo concepções sobre o processo de envelhecimento humano, que foram se construindo ao longo de gerações numa articulação com o desenvolvimento da cidade. No entanto, normatizar discursos de um envelhecimento “ativo” e ratificar que projetos voltados ao público idoso alcançam a todos da mesma maneira seria limitar o potencial de discussão e suprimir os diferentes significados que possam existir nessas ações e espaços.
Conclusão
O resgate da trajetória de formação do município de Santa Maria – RS, através de seus personagens reproduz nos discursos um encantamento, que encobre um processo negligente na estruturação dos espaços destinados ao sujeito envelhecido, em favor de um olhar positivo do envelhecer na cidade. Enquanto a participação em grupos de terceira idade favorece a diversificação das atividades de lazer, possibilitando ao idoso um crescimento pessoal e social à medida que integram, conforme suas possibilidades, momentos de lazer em seu cotidiano.
O olhar positivo de envelhecer na cidade vai ao encontro dos estereótipos ligados a velhice atualmente, onde o processo caracterizado por perdas passa a etapa da vida marcada por descobertas e novas possibilidades aos que envelhecem. De acordo com Silva (2008) futuros debates devem considerar que se a ascensão das imagens positivas que compõem a terceira idade produzirem como consequências de sua extrema valorização, a exclusão da possibilidade de vivenciar o envelhecimento por meio da quietude, do descanso e da inatividade, certamente perderemos a diversidade referente aos modos de vida e aos caminhos de satisfação dos sujeitos.
Estudos destinados à análise de narrativas de idosos que não fazem parte dos grupos de terceira idade, abordando seu olhar sobre a cidade de Santa Maria/RS, suas concepções acerca do lazer e do processo de envelhecimento contribuiriam para uma analise comparativa entre tais percepções, enriquecendo assim, o estudo dos aspectos sociais do envelhecimento humano.
Referências
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SIQUEIRA, M. E. C. Teorias Sociológicas do Envelhecimento. In: FREITAS, E. V. et. al. (org.) Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2002.
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Digital · Año 17 · N° 176 | Buenos Aires,
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