efdeportes.com

Considerações sobre uma abordagem socioeducativa
no treinamento de natação em adolescentes

Consideraciones sobre un abordaje socioeducativo en el entrenamiento de natación en adolescentes

 

*Graduação em Educação Física e Especialista em Treinamento Desportivo

Docente na Secretaria da Educação de São Paulo, Coordenador/Técnico em natação

e membro/fundador da instituição: EQUAÇÃO Atividades Interdisciplinares

**Doutora em Educação Física pela Unicamp e Professora Titular

na Faculdade Adventista de Hortolândia

***Graduação em Educação Física, é Especialista em Pedagogia do Movimento

Mestre em Educação Escolar e Doutorando na mesma área. Atualmente é docente

nas Faculdades Network, na Secretaria da Educação de São Paulo

e membro/fundador da instituição: EQUAÇÃO Atividades Interdisciplinares.

****Possui graduação em Educação Física e é Especialista em Atividade e Esportes

de Aventura. Atualmente é docente na instituição Pestalozzi, membro do LEL

(Laboratório de Estudos do Lazer), Deptartamento Educação Física, I.B. UNESP

e membro/fundador da instituição: EQUAÇÃO Atividades Interdisciplinares

Jefferson Tadeu Castanho de Melo*

jeffux@hotmail.com

Helena Brandão Viana**

hbviana2@gmail.com

Kleber Tuxen Carneiro***

kleber2910@gmail.com

Rodolfo Antonio Zagui Filho****

rodolfozagui@gmail.com

(Brasil)

 

 

 

 

Resumo

          O presente texto dedica-se a refletir sobre alguns aspectos que permeiam o treinamento na modalidade natação para adolescentes. Buscou-se discorrer sobre o treinamento a partir de uma ótica socioeducacional e seus imbricamentos na construção e consolidação de uma cultura esportiva. Cabe ressaltar que as proposições do presente texto, advêm de inquietações, observações e experiência de longos anos de trabalho com adolescentes no ambiente da natação, podendo constatar assim, uma intrigante relação, entre a iniciação e o treinamento na adolescência e sua repercussão na construção da cultura esportiva, para além do paradigma do alto rendimento.

          Unitermos: Natação. Treinamento. Cultura esportiva. Adolescente. Enfoque socioeducacional.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 17, Nº 172, Septiembre de 2012. http://www.efdeportes.com/

1 / 1

Introdução

    “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” Fernando Pessoa (2007)

    A palavra adolescência tem sua origem etimológica no Latim, composto pelo prefixo ad (para) somada a olescere (crescer), portanto adolescência significaria, crescer para, o que remete a idéia de expansão ou melhor, de desenvolvimento, algo que prepara para o que está porvir, muito embora a fase guarde peculiaridades próprias, merecendo serem compreendidas, respeitadas e otimizadas.

    Considerando tais características e as possibilidades inerentes desse período, buscou-se pensar sobre as contribuições do esporte para esse processo transitório (fase) denominada adolescência. Assim, a forma como os adolescentes são introduzidos no ambiente esportivo, repercute significativamente na perenidade da prática esportiva. De tal modo, acredita-se que da fase da iniciação ao treinamento, o esporte passa a ter diferentes conotações e significados que poderão repercutir substancialmente no modo como essa prática será vivenciada no futuro, podendo ser internalizada como uma prática agradável e motivadora, ou como uma atividade fastidiosa e/ou opressora.

    Assim, entende-se que a adolescência caracteriza-se como uma das fases mais significativas para o desenvolvimento e a consolidação da cultura esportiva. Concebe-se cultura esportiva neste texto a partir das contribuições de Pires (2000) como conjunto de ações, valores e compreensões que representam o modo predominante de ser/estar na sociedade globalizada e busca relacionar a cultura ao seu aspecto estrutural-contextualizador. Deste modo, considera-se que o desenvolvimento da cultura esportiva nesta fase refletirá na forma como o adolescente perceberá e compreenderá o esporte, podendo assim, desenvolver condições e subsídios para questioná-lo, criticá-lo e até transformá-lo e não ser apenas mais um praticante ou expectador passivo.

    Corroborando tais premissas de que a adolescência desvela-se como uma fase decisiva para o despertamento da volição pelo esporte, como destaca Bloom (1985) que é entre a faixa dos 11 aos 15 anos de idade que os adolescentes são fisgados em suas atividades esportivas favoritas, podendo internalizar o esporte e alcançar melhores desempenhos por meio do treinamento esportivo.

    Assim observa-se um lugar proeminente para o treinamento, notadamente na melhora no condicionamento e desempenho físico, entretanto, observa-se também, a existência de outras tendências ou perspectivas para o desenvolvimento do mesmo. Ressalta-se ainda, que falar sobre o fenômeno esportivo é tarefa árdua, por se tratar de um fenômeno abrangente, complexo e multifacetado, desta forma, a discussão se restringirá a modalidade natação discorrendo sobre o treinamento na adolescência a partir de uma ótica socioeducacional e seus imbricamentos na construção e consolidação de uma cultura esportiva. Para tanto, buscou-se elementos que apresentassem a existência de outras finalidades para a prática dessa modalidade, além obviamente dos almejados pelo treinamento de alto rendimento.

    Logo encontra-se em Rohlfs (1999), a advertência de outras finalidades para natação, assim segundo a autora, a natação também pode ser utilizada para fins recreativos, utilitários, terapêuticos e competitivos. Contudo, a utilização da natação somente para fins competitivos é muito comum desde a infância, tornando-se mais evidente na adolescência notadamente na atualidade, engendrado pelos bons resultados brasileiro obtidos na modalidade no cenário mundial, sobre tudo por alguns representantes como: César Cielo, Thiago Pereira, Kaio Márcio, Rebeca Gusmão, Felipe França, Ricardo Prado, entre outros.

    Considerando que as proposições do presente texto, advêm de inquietações, observações e experiência de longos anos de trabalho com adolescente no ambiente da natação, pode-se constatar uma intrigante relação, entre a iniciação e o treinamento na adolescência e sua repercussão na construção da cultura esportiva, para além do paradigma do alto rendimento. Contudo, ressalta-se que esse fato deva ser observado no mínimo como algo inquietante.

    Para compreender as dimensões alcançadas por tal conjectura, e apresentar algumas proposições para o presente artigo, respaldou-se numa perspectiva crítico/emancipatória, a partir das proposições de Kunz (1994), por ser uma abordagem que concebe uma transformação didático pedagógica do esporte, com conotação e o enfoque na emancipação e o desenvolvimento humano. Assim, a luz do pensamento do autor procurou-se refletir sobre a problemática da introdução do adolescente ao treinamento em natação e suas desajustamentos no que se refere a construção da cultura esportiva, a negligência de um enfoque socioeducacional e a inadequação na condução do treinamento em adolescentes introduzidos no universo da natação.

    Para melhor compreensão destas dimensões, parte-se da observação de um exemplo empírico próprio do ambiente produzido pela modalidade (natação), assim, observa-se em um adolescente de 12 anos que apresente uma boa desenvoltura e um significativo domínio da modalidade, uma tendência a produzir expectativas e projeções no âmbito da natação. Então, logo surgem os convites para as equipes de treinamento, por conseguinte virão as competições e conseqüentemente a necessidade dos resultados, somando-se a isso, as cobranças pelos mesmos.

    Tal concepção, corrobora com a hipótese de que os adolescentes são introduzidos ao treinamento esportivo, sobre a ótica e aspirações do alto rendimento, restringido-se o universo da natação ou qualquer outra modalidade esportiva a perspectiva do desempenho, e desconsiderando assim, as diferentes aspirações ou intenções do próprio adolescente praticante da modalidade.

    Portanto, a partir desse exemplo verídico e elucidativo, recorre-se a Montagner (1999), que considera a atitude em pressupor um futuro como atleta, sem ter a certeza da capacidade, do interesse e da vontade do adolescente, deva ser considerada uma atitude um tanto arbitrária. Atitudes como esta, ocorrem cotidianamente, comprometendo, não somente o futuro desse adolescente enquanto atleta, mas principalmente, seu futuro enquanto indivíduo crítico, participante e possivelmente transformador desse fenômeno denominado esporte, como concebe a abordagem crítico/emancipatória ao reconhecer por meio do mesmo a capacidade de conhecer, reconhecer e problematizar sentidos e significados aos fenômenos, através da reflexão crítica, como advoga Kunz (1994).

    Não obstante, entende-se que a responsabilidade pela introdução inadequada do adolescente ao treinamento esportivo de maneira geral e especialmente na natação, não se restringe aos professores/técnicos, mas também, aos pais ou tutores dos adolescente. Sabe-se que muitos tutores ou responsáveis podem vir a influenciar de forma expressiva, inclusive negativamente o processo de formação esportiva dos filhos, principalmente por meio da imposição de elevados níveis de exigências quanto ao desempenho esportivo como advertem Hahn (1988), Paes (1997), Weineck (1999) e Balbino (2001). Tais exigências seguramente repercutirão na adesão destes adolescentes a atenderem às expectativas alheias, deixando de lado seus próprios interesses e desejos como aponta Orlick (1978).

    Contudo, a difícil tarefa de orientar o adolescente ao longo do processo de formação esportiva, notadamente na natação, ainda incide sobre os técnicos/professores, que deveriam usar de sobriedade, competência e muita responsabilidade na condução desse processo. Todavia, espera-se que tais especialistas devam conceber o treinamento a partir da perspectiva da Pedagogia do Esporte, que segundo Montagner (2000), é de “formar e informar”. Portanto, a função de orientar, pais e atletas iniciantes, deve ser compreendida por esses profissionais sobre o prisma socioeducacional, orientando-os sobre as reais possibilidades do desempenho e abordando as dimensões e os riscos que circundam a natação competitiva, e sobre tudo, esclarecer as diferentes manifestações do esporte enquanto fenômeno sócio-cultural e mercadológico, apontando as diferenças entre o processo de formação esportiva e as pretensões do esporte de alto nível.

Alguns apontamentos sobre as problemáticas que circundam o treinamento em natação para adolescentes

    Há inúmeros fatores que envolvem e problematizam o treinamento esportivo e conseqüentemente o processo de formação esportiva. Dentre eles destaca-se a adequação de uma faixa etária apropriada para o início dos treinamentos em natação. Assim considera-se a escolha de procedimentos adequados para condução do mesmo, uma questão relevante a ser esclarecida antes da elaboração de um planejamento voltado ao treinamento em natação aplicado aos adolescentes.

    Mesmo com as contribuições dos estudos que compreendem os aspectos do desenvolvimento humano, como por exemplo a taxionomia (seqüências) do desenvolvimento motor propostas por Gallahue e Cleland (2003) e Gallahue e Ozmun (2002), ainda assim, encontra-se concepções diferentes na compreensão da iniciação do treinamento. Alguns autores advogam de maneira favorável ao início dos treinamentos em natação antes da puberdade, em geral, antes dos 10 anos. Maglischo (1999), é um dos principais defensores dessa teoria, atribuindo ao treinamento precoce, o segredo para se obter sucesso com futuros nadadores, assegurando que o inicio precoce dos treinamentos permite aos atletas mais tempo para apurar suas habilidades em natação.

    Apropriando-se dessa concepção, alguns especialistas propõem um treinamento intenso e nocivo para as crianças, atribuindo ao treinamento precoce o caráter de aperfeiçoamento, na tentativa de garantir condições melhores aos seus futuros atletas. Contudo, prefere-se considerar que a fase de aperfeiçoamento difere abruptamente da fase de treinamento, pois ambas possuem objetivos, conteúdos e estruturas diferentes, não podendo de forma alguma serem confundidas.

    Assim, a adequabilidade da faixa etária para a introdução do adolescente ao treinamento em natação, constituir-se-ia em umas das alternativas encontradas para se evitar que adolescentes sejam expostos de maneira precoce a programas de alto rendimento, muitas vezes, com características sub-humanas. Considera-se que a iniciação as experiências motoras e as diferentes práticas corporais, possam ocorrer na mais tenra idade, todavia não expondo os adolescentes a excessivas sobre-cargas de treinos e maçantes repetições de gestos estereotipados destituídos de significado.

    A partir das contribuições de Farinha & Darido (1997), que apresentam interessantes contribuições sobre o conceito e à caracterização do treinamento precoce, descrevendo e observando tais elementos, como:

  • Seções de treinamento aplicadas a crianças e adolescentes com idades menores que 12 anos;

  • Freqüência do treinamento superior a 3 seções semanais;

  • Carga horária superior a 2 horas por seção;

  • Competições regulares;

  • Utilização de metodologias voltadas à melhoria sistemática de rendimento.

    Considerando as proposições apresentadas pelas autoras, e também as observações e experiência de longos anos de trabalho com adolescentes no ambiente da natação, comunga-se do mesmo entendimento de Farinha & Darido (1997), quanto à caracterização dos aspectos que determinam o treinamento precoce. Portanto compreende-se que os programas de treinamento poderão proporcionar melhor efeito quando aplicados a partir dos 12 anos, ainda que sob forma de adaptabilidade aos novos níveis de exigência.

    Uma vez que um processo de treinamento seja instaurado, o nível de exigências recebe um aumento significativo, transformando o então aluno de natação em um atleta iniciante, como destacam Andries & Dunder (2002), quando alertam sobre os problemas oriundos de um processo de treinamento instaurado de maneira precoce. Os autores argumentam que, em geral, algumas etapas do processo de desenvolvimento da modalidade natação, não são realizadas adequadamente, ocorrendo demasiadamente rápida, conduzindo os alunos/atletas diretamente á fase do treinamento.

    Para Andries & Dunder (2002), o que tem ocorrido, é a existência de “uma lacuna entre a fase de iniciação e a fase de treinamento”, principalmente no que se refere ao aperfeiçoamento dos nados e a formação técnica dos alunos, que acabam ingressando nas equipes de treinamento para o alto rendimento, sem o desenvolvimento adequado e o respeito as características do desenvolvimento humano. De acordo com os autores mencionados acima, esse aligeiramento ou salto é causado pela busca frenética de atletas, a fim de comporem a demanda das equipes de alto rendimento.

    No entanto, esse aligeiramento, ou aceleração na transposição de etapas do processo de aprendizagem podem acarretar prejuízos significativos na construção do repertório motor das crianças e principalmente dos adolescentes, que acabam sendo furtados da oportunidade de adquirirem maior repertório motor ao longo da fase do aperfeiçoamento adequado dos nados. Ao observar a prática cotidiana de muitos clubes, escolas e academias, se observa que no momento em que um processo de treinamento é instaurado, a possibilidade de aprender e aprimorar os estilos, passa a ser irrelevante frente a necessidade arbitrariamente imposta na busca pelo treinamento mais forte e do ter que nadar mais rápido e reduzir índices.

    Essa solicitação ou demanda equivoca frente ao processo de introdução do adolescente ao treinamento em natação, muitas vezes é alentada por pseudo desejos e projeções no ideário que circunda o universo da natação especialmente, podendo ser nocivo e desalentador para o prosseguimento harmonioso do processo de formação esportiva, o que poderá conduzir o adolescente a desistência ou abandono da perenidade da prática esportiva ou a deturpação da formação e consolidação da cultura esportiva, a partir de uma leitura crítico/emancipatória como esclarecido anteriormente.

    Não obstante a esse fato, pensa-se que os aspectos negativos que contribuem para a inadequação do processo de formação esportiva dentro da modalidade natação estejam diretamente ligados a algumas questões, tais como:

  • Forte demanda para revelação de novos talentos e aligeiramento na formação de atletas de alto nível para suprir tal necessidade;

  • Elevadas expectativas quanto aos resultados esportivos.

  • A excessiva valorização do resultado esportivo na adolescência e a dificuldade da compreensão do processo em detrimento ao resultado final;

  • Altivo níveis de exigências imposta por: pais/tutores, técnicos/professores, dirigentes e até pelo próprio atleta, por meio da cobrança de melhores resultados, e o que pior a qualquer preço;

  • A ausência de cultura esportiva necessária para a compreensão das dimensões e compromissos do esporte de maneira geral, e também deturpação formativa para a construção do entendimento dos objetivos do esporte de formação (socioeducativo) e os objetivos do esporte de alto rendimento;

  • A aleivosa concepção de que um processo de treinamento precoce em natação, instaurado antes da puberdade, com fins estritamente competitivos e pretensas intenções de bons resultados futuros acaba sendo a única dimensão dessa modalidade.

    A conjuntura desses elementos e de seus imbricamentos podem sinalizar ações afim de evitar desajustamentos e excessos ao longo do processo de introdução e condução do adolescente ao treinamento em natação.

    No que tange os excessos, preocupa o extasiamento com que alguns profissionais reagem diante da potencialidade apresentada por alguns atletas iniciantes, provenientes em alguns casos de um processo de maturação precoce o que conduz a intensificação dos treinamentos.

    Entendendo que a adolescência, é uma fase marcada por grandes transformações, especialmente por grandes alterações hormonais ocorridas no início da puberdade, os atletas iniciantes, geralmente apresentam estatura elevada e um aumento significativo da musculatura, como apontam García (1998) e Weineck (1999). Fato este, que alerta claramente que estes atletas iniciantes, se encontram transitoriamente mais suscetíveis que os demais e conseqüentemente mais aptos a suportarem cargas mais elevadas durante o processo de treinamento.

    No entanto, não nega-se que estes atletas iniciantes, momentaneamente mais hábeis, possam realmente serem capazes a responder positivamente aos estímulos intensos que recebem, principalmente aos estímulos provenientes de trabalhos anaeróbios.

    Todavia, Weineck (1999) e Weineck, (2000), adverte que trabalhos anaeróbios intensos, envolvem um elevado acúmulo de lactato no sangue, causando a fadiga e a queda da motivação, devendo os mesmos, serem desaconselhados até o fenecimento da adolescência.

    Segundo García (1998), os técnicos que suplantam os trabalhos anaeróbios intensos, acabam por alcançar resultados surpreendentes sob aplicação de programas de treinamento considerados inadequados, especializando atletas iniciantes em provas curtas de 50 e 100 metros. O problema em torno desta prática, reside na excessiva ênfase do resultado a curto prazo, com objetivos direcionados a projeções pessoais ou institucionais, desconsiderando a dimensão socioeducacional da modalidade e sua interferência na construção da cultura esportiva, sobre a ótica crítico/emancipatória como já apresentada anteriormente.

    Cabe ressaltar ainda, que segundo García (1998), os mesmos atletas submetidos a excessivos trabalhos anaeróbios intensos teriam chances de alcançar performances idênticas mediante trabalhos mais coerentes. Sobretudo, o autor advoga, que o maior benefício de um trabalho mais coerente, é a não exposição desse atleta iniciante, aos riscos de uma especialização precoce.

    Contudo, acredita-se na idéia de uma possível especialização gradativa, pautada num trabalho coerente e que respeite as características do desenvolvimento humano, estando de acordo aos ideais propostos por Andries Jr. & Dunder (2002) em o treinamento fundamental em natação. Ideais estes considerados necessários para o desenvolvimento de um programa de treinamento em natação dirigido ao público adolescente. A seguir apresenta-se uma síntese dos principais elementos que mereçam ser observados, são eles:

  • Despertar o prazer em nadar.

  • Proporcionar o condicionamento necessário para o desenrolar de um nado contínuo e econômico.

  • Promover o aperfeiçoamento técnico dos estilos e o aumento do repertório motor por meio de exercícios de coordenação.

  • Respeitar a individualidade de cada atleta, assim como os seus limites, vontades e possibilidades.

  • Estimular o senso crítico e a cultura esportiva.

  • Promover a consciência corporal por meio do auto-conhecimento, assim como o conhecimento dos processos que envolvem o treinamento.

  • Despertar o gosto pela competição, por meio da criação de novas formas de avaliar o desempenho de cada atleta ou de uma equipe, deixando de lado a valorização excessiva do resultado competitivo, que favorece e motiva apenas os mais capazes.

    A partir dos constructos levantados e propostos pelos autores Andries Jr. & Dunder (2002) tem se respostas para as necessidades básicas na elaboração de um programa de treinamento em natação para adolescentes. Em consonância a ótica da Pedagogia do Esporte, certamente poder-se-á orientar atletas iniciantes na tentativa de conduzi-los por um processo de formação adequado e coerente, onde os resultados surgem como conseqüência de um trabalho diligente , consciente e planejado.

Considerações finais

    Iniciou-se o presente texto a partir das palavras de Fernando Pessoa, oportunas para este momento das considerações finais. O poeta fala do novo que nasce a partir do rompimento com o antigo. Nas palavras do poeta, o novo ganha vida a partir de um processo de ruptura com o passado. Há quem diga que um passado, mesmo que brilhante, pode impedir que o novo e necessário venha a se estabelecer.

    Assim neste texto, buscou-se refletir sobre o treinamento em natação e seus desajustamentos ou inadequação na condução do mesmo para adolescentes no âmbito da natação e sua repercussão no que se refere a construção da cultura esportiva.

    Neste ponto Pessoa (2007) parece alentador ao convidar o rompimento com velho e a abertura ao novo. Deste modo, ao analisar os fatores e os risco que envolvem o esporte de alto rendimento como apresentados anteriormente, sugere-se uma abordagem crítico/emancipatória que favoreça a formação e o desenvolvimento integral do adolescente, bem como o direito da aquisição e construção da cultura esportiva, diferentemente do modelo que busca estritamente o resultado em detrimento as demais dimensões.

    Deve-se lembrar ainda, que a orientação de um adolescente num programa de treinamento, é uma tarefa complexa e arriscada, exigindo muita responsabilidade de seu tutor/condutor, como alerta Hahn (1988), o treinamento somente poderá ter efeitos positivos mediante a presença da responsabilidade pedagógica necessária.

    Nem todos os adolescentes tornar-se-ão necessariamente atletas (nadadores), mas nem por isso, deverão ser privados de usufruir da perenidade da prática esportiva e da construção da cultura esportiva para desenvolverem condições e subsídios de questionar, criticar e até transformar as diferentes dimensões do esporte. Esta disposição interna corresponde ao chamado de Pessoa: É o tempo da travessia.

    E aos que escolherem autonomamente a profissionalização como atletas, possam se beneficiar de uma concepção socioeducacional combatendo as mazelas das dimensões mercadológicas, instrumentais e exploratórias próprias do esporte de alto rendimento. Embora alguns insistentemente afirmam que não há o que fazer no presente tempo. Frente a este panorama, a voz de Pessoa parece solitária, utópica, até ingênua, mas considera-se necessário se deixar seduzir pelo poeta visionário – é o tempo da travessia.

    Considerando a aproximação de grandes eventos esportivos, de suas demandas reais e imaginárias (os encantamentos que os mesmos produzem como: projeção e estatus) que fortemente mobilizarão e já estam mobilizando a sociedade brasileira é preciso redimensionar o treinamento em natação e suas pretensões.

    De maneira especial, em suas contribuições para construção da cultura esportiva, potencializando a capacidade de conhecer, reconhecer e problematizar sentidos e significados aos fenômenos, através da reflexão crítica, como exora Kunz (1994). Sobre tudo, na otimização do desenvolvimento humano, parafraseando Pessoa (2007) porque se não ousarmos fazê-la, teremos ficado à margem dos mesmos erros.

Bibliografias

  • ANDRIES JR. O.; DUNDER, L. H. Natação: treinamento fundamental. São Paulo: Manole, 2002.

  • BALBINO, H. F. Jogos desportivos coletivos e os estímulos das inteligências múltiplas: base para uma proposta em pedagogia do esporte. 2001 164p. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas-SP, 2001.

  • FARINHA, F. K.; DARIDO, S. C. Programa de natação de alto rendimento na infância e adolescência e seus efeitos na idade adulta. Revista Kinesis, Centro de Educação Física e Desporto – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, nº 16, 57 – 74, 1997.

  • GALLAHUE, D. L. E; OZMUN, J. C. Understanding motor development: infants, children, adolescents, and adults. 5 th. ed. Boston: McGraw-Hill, 2002.

  • GALLAHUE, D. L.; CLELAND, F. Developmental Physical Education for all children. 4 th. ed. Champaign: Human Kinetics, 2003.

  • GARCÍA, A. N. Natación: entrenamiento de base en los niños e jóvenes. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Ano 3 - nº 11 – Outubro de 1998. http://www.efdeportes.com/efd11/agarcia.htm

  • HAHN, E. Entrenamiento con niños. Barcelona: Martínez Roca. 1988.

  • KUNZ, E. Transformação didático-pedagógica do esporte. Ijuí: Unijuí, 1994.

  • MAGLISCHO, E. W. Nadando ainda mais rápido. 1ª edição. São Paulo: Manole, 1999.

  • MONTAGNER, P. C. A formação do jovem atleta e a pedagogia da aprendizagem esportiva. 1999. Tese (Doutorado em Educação Física) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física, Campinas, SP, 1999.

  • _________________. Esporte, Marketing e Pedagogia: Reflexões introdutórias. In: Coletâneas do Congresso Científico Latino Americano da FIEP/Unimep. 2000, Piracicaba. Anais, Piracicaba: Tema: O fenômeno esportivo no início de um novo milênio, 2000 p. 404 a 408.

  • ORLICK, T. Vencendo a Competição. São Paulo: Círculo do Livro, 1978

  • PAES, R. R. Aprendizagem e competição precoce: o caso do basquetebol. 3ª ed. Campinas: UNICAMP, 1997.

  • PESSOA, F. Obras poética. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

  • PIRES, G. D. L. A educação física e o discurso midiático: abordagem crítico-emancipatória em pesquisa-ação no ensino de graduação. Subsídios para a saúde?. 2000. 251f. Tese (Doutorado em Educação Física) Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2000.

  • ROHLFS, I. C. P. M. Aprendizagem em natação. In: SILVA, C. I.; COLTO, A. C. P. (orgs.). Manual do treinador de natação. Belo Horizonte: FAM, 1999.

  • SAMULSKI, D. M.; MORAIS, L. C. C. A. Psicologia do esporte I. In: SILVA, C. I.; COLTO, A. C. P. (orgs.). Manual do treinador de natação. Belo Horizonte: FAM, 1999.

  • WEINECK, J. Treinamento ideal. 9ª ed. São Paulo: Manole, 1999.

  • ___________. Biologia do esporte. São Paulo: Manole, 2000.

Outros artigos em Portugués

  www.efdeportes.com/
Búsqueda personalizada

EFDeportes.com, Revista Digital · Año 17 · N° 172 | Buenos Aires, Septiembre de 2012
© 1997-2012 Derechos reservados