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O esporte e a arte na sociedade

El arte y el deporte en la sociedad

The art and sport in society

 

Professor Doutor da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo

Pesquisador, membro da equipe da USP do Núcleo de Estudos, Ensino

e Pesquisa do Programa de Assistência Primária de Saúde Escolar, PROASE

José Eduardo Costa de Oliveira

prof.zedu@usp.br

(Brasil)

 

 

 

 

Resumo

          Nos últimos anos, a área de educação física (EF) e o esporte procuraram se aproximar das ciências humanas e sociais. Porém, sem se afastar por completo do conhecimento biomédico que sempre marcou e caracterizou a área, desde a sua gênese, oriunda do pensamento médico higienista do passado (MELO, 2010). A – arte – que deriva do latim – ars - significando técnica e/ou habilidade. A arte geralmente é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepções, emoções e idéias; com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores, dando um significado único e diferente para cada obra (FENSTERSEIFER, 2001). Na intencionalidade de discutir as interfaces do esporte com a arte na contemporaneidade, o presente ensaio apresenta duas perspectivas para aqui tratar do tema. A primeira, acerca da possibilidade do esporte ser tomado como uma forma de arte; e, na segunda, discutindo o quão são relevantes os aspectos estéticos, na configuração da importância da presença social e da popularidade do esporte na sociedade. Numa perspectiva de uma análise conclusiva, o presente ensaio afirma o quão – não é - difícil concluir que o esporte possa ser definitivamente considerado como arte nas sociedades contemporâneas. Quiçá a oitava arte. Sendo que também é possível compreendê-lo como uma - forma de arte – se for buscado em várias perspectivas, a exemplo do sentido de chamar a atenção para certos preconceitos que podem ainda persistir; no sentido de compreender melhor o objeto de trabalho; vislumbrando perceber de maneira mais precisa e multifacetada sua ocorrência social, e, fundamentalmente, no sentido de argumentar que seu diálogo com a arte se deu no nível de linguagens similares que trocaram, se interpenetraram.

          Unitermos: Arte. Esporte. Sociedade.

 

Resumen

          En los últimos años, el área del deporte y la educación física busca acercarse más a las ciencias humanas y sociales. Sin embargo, sin apartarse por completo del conocimiento biomédico que siempre ha caracterizado y caracteriza al campo desde su génesis, derivados del pensamiento médico higienista pasado (MELO, 2010). El arte -que se deriva del latín Ars- es decir, la técnica y/o capacidad. El arte se entiende generalmente como la actividad humana vinculada a las manifestaciones de orden estético, realizadas por artistas de percepciones, emociones e ideas, con el fin de estimular la conciencia en estos casos, de uno o más espectadores, dando un significado único y diferente para cada obra (FENSTERSEIFER, 2001). Para discutir la intención de las interfaces con el deporte en el arte contemporáneo, este artículo presenta dos enfoques para abordar la cuestión aquí. El primero, sobre el potencial del deporte para ser tomado como una forma de arte, y, en segundo lugar, discute qué tan importante es la estética, la configuración de la importancia de la presencia social y la popularidad del deporte en la sociedad. Punto de vista de un análisis definitivo, este ensayo sostiene que no es difícil concluir que el deporte puede ser definitivamente considerado como arte en las sociedades contemporáneas. Tal vez el octavo arte. Ya que también es posible entenderlo como una forma de arte si se lo entiende desde varias perspectivas, tales como el sentido de llamar la atención sobre ciertos prejuicios que aún persisten; en el sentido de comprender mejor el objeto de trabajo; vislumbrando percibir con mayor precisión de muchas formas la ocurrencia social, y en última instancia, fundamentalmente en el sentido de argumentar que su diálogo con el arte se lleva a cabo a nivel de lenguajes similares intercambiables, que se interpenetran.

          Palabras clave: Arte. Deporte. Sociedad.

 

Abstract

          In recent years, the area of ​​physical education and sport tried to approach the humanities and social sciences. However, without departing completely from the biomedical knowledge that has always marked and characterized the area since its genesis, arising from the medical thinking of the past hygienist (MELO, 2010). A - art - which derives from the Latin - ars - meaning the technical and / or ability. The art is generally understood as human activity linked to manifestations of aesthetic order, made by artists from perceptions, emotions and ideas, in order to stimulate awareness in these instances one or more viewers, giving a unique and different meaning for each work (FENSTERSEIFER, 2001). Discuss the intent of the interfaces with the sport in contemporary art, this paper presents two approaches to address the issue here. The first, about the potential of sport to be taken as an art form, and, second, discussing how important are the aesthetics, the configuration of the importance of social presence and the popularity of sport in society. Perspective of a definitive analysis, this essay argues how - is not - difficult to conclude that the sport can be definitely considered as art in contemporary societies. Perhaps the eighth art. Since it is also possible to understand it as a - art form - if it is sought from various perspectives, such as the sense of drawing attention to certain prejudices that may still persist, in order to better understand the work object; overlooking notice more accurately the occurrence and multifaceted social, and ultimately, to argue that its dialogue with the art took place at the level of language similar exchanged, interpenetrate.

          Keywords: Art. Sports. Society.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 16, Nº 162, Noviembre de 2011. http://www.efdeportes.com/

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Introdução

    Nos últimos anos, a área de educação física (EF) e o esporte procuraram se aproximar das ciências humanas e sociais. Porém, sem se afastar por completo do conhecimento biomédico que sempre marcou e caracterizou a área, desde a sua gênese, oriunda do pensamento médico higienista do passado (MELO, 2010).

    Assim, inicia-se o presente ensaio remetendo a – arte – que deriva do latim – ars - significando técnica e/ou habilidade. A arte geralmente é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepções, emoções e idéias; com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores, dando um significado único e diferente para cada obra (FENSTERSEIFER, 2001).

    Suas definições podem variar de acordo com a época e a cultura. Pode ser separada ou não em diferentes formas de arte, como são entendidas hoje na civilização ocidental, do artesanato a ciência; da religião a técnica no sentido tecnológico e etc.

    Originalmente, ela pode ser entendida como o produto ou processo em que o conhecimento é usado para realizar determinadas habilidades. Este era o sentido que os gregos, na época clássica (século V a.C.), entendiam a arte, pois, ainda não existia a palavra - arte - no sentido que se emprega hoje, e sim "tekné", da qual originou-se a palavra "técnica" nas línguas neolatinas. Para eles, havia a arte ou técnica de se fazer esculturas, pinturas, sapatos ou navios (HEGEL, 2001).

    No sentido moderno, também se pode incluir o termo arte como a atividade artística ou o produto da atividade artística. Tradicionalmente, o termo arte foi utilizado para se referir a qualquer perícia ou maestria, um conceito que terminou durante o período romântico, quando arte passou a ser visto como uma faculdade especial da mente humana, para ser classificada no meio da religião e da ciência.

    A arte existe desde que há indícios da humanidade. Ao longo do tempo, a função da arte tem sido vista como um meio de espelhar o mundo (naturalismo), para decorar o dia-a-dia e para explicar e descrever a história e os diversos "eus" que existem dentro de um só ser (como pode ser visto na literatura) e para ajudar a explorar o mundo e o próprio homem.

    Nas suas interfaces com o esporte, ela relaciona-se diretamente com a - estética. Uma disciplina de conhecimento oriundo das ciências humanas, de cunho filosófico (FENSTERSEIFER, 2001).

    Considerando o exposto e a partir das observações que se fez das colocações de Melo (2010), presentes na apostila do projeto segundo tempo, do programa de capacitação continuada do Ministério do Esporte, da Secretaria Nacional de Esporte Escolar e Identidade Cultural, o presente ensaio, na intencionalidade de discutir as interfaces do esporte com a arte na contemporaneidade, apresenta duas perspectivas para aqui tratar do tema. A primeira, acerca da possibilidade do esporte ser tomado como uma forma de arte; e, na segunda, discutindo o quão são relevantes os aspectos estéticos, na configuração da importância da presença social e da popularidade do esporte na sociedade.

    Nesse sentido, inicia-se pelo viés da estética, que deriva do grego "aisthésis", que significa percepção, sensação, e que tem por objeto o estudo da natureza do belo e dos fundamentos da arte (JIMENEZ, 1999). Ela estuda o julgamento e a percepção do que é considerado belo, a produção das emoções pelos fenômenos estéticos, bem como as diferentes formas de arte e do trabalho artístico; a idéia de obra de arte e de criação; a relação entre matérias e formas nas artes (MELO, 2010).

    Por outro lado, a estética também pode ocupar-se da privação da beleza, ou seja, o que pode ser considerado feio, ou até mesmo ridículo (BURKE, 1993).

    Ainda tramitando pela esteira da estética, afirma-se que a mesma adquiriu autonomia como ciência, destacando-se da metafísica, da lógica e da ética com a publicação da obra - Aesthética - do educador e filósofo alemão Baumgarten, através de uma nova abordagem ao estudo da obra de arte, considerando que os artistas, deliberadamente, alteram a natureza, adicionando elementos de sentimento a realidade percebida (FENSTERSEIFER, 2001).

    Assim, o processo criativo do esporte moderno está espelhado na própria atividade artística.

    Na antiguidade, especialmente com - Platão, Aristóteles e Plotino - a estética era estudada imbricada com a lógica e a ética. O belo, o bom e o verdadeiro eram indissociáveis com a obra (BURKE, 1993).

    No âmbito do belo, dois aspectos fundamentais podem ser particularmente destacados: a estética iniciou-se como teoria que se tornava ciência normativa às custas da lógica e da moral; e a estética que assumiu características, também, de uma metafísica do belo, que se esforçava para desvendar a fonte original de todas as belezas sensíveis.

    A filosofia do belo na arte é a designação aplicada a partir do século XVIII por Baumgarten, à ciência filosófica que compreendeu o estudo das obras de arte e o conhecimento dos aspectos da realidade sensorial, classificáveis em termos de belo ou feio (BURKE, 1993). Os conceitos do belo seguem o rumo da contemplação e da busca pela universalização, pela ratificação de sua definição.

    Vários filósofos se preocuparam com o belo durante este período, entre eles cita-se Hume e Burke. Cada um deixou contribuições valiosas na tentativa de definição dos conceitos e parâmetros do belo, mas nenhum foi tão importante quanto Kant, cuja contribuição foi decisiva nas tentativas de explicação deste, sendo que, a maioria dos autores das teorias estéticas o tomam enquanto referencial principal em suas obras (CHALITA, 2008).

    Foi assim, os conceitos Kantinianos sobre o belo, modificaram os valores estéticos, alterando as bases do juízo estético ocidental, que até ele, vinculavam as obras de arte e a beleza natural ao sobrenatural (MELO, 2010).

    A beleza, até então, era algo que a razão não poderia compreender, a arte era quem trancendia incognoscível absoluto e pelos símbolos trazia o ideal para o real. O que tornava a arte apreciável era o prazer de desfrutar o belo, a influência moral que exercia sobre a natureza humana.

    Hegel foi outro grande filósofo, que após Kant dedicou-se ao estudo do belo parecendo concordar, de certa maneira, com Platão, ao abordar a questão do ideal e do belo.

    Sobre a beleza, Hegel disse que ela só pode se exprimir na forma, porque ela só é manifestação exterior através do idealismo objetivo do ser vivente e se oferece à nossa intuição e contemplação sensíveis. Ele definiu a estética como a ciência que estuda o belo, conferindo-lhe a categoria de ciência filosófica (MELO, 2010). Sua análise do belo é basicamente em cima do belo artístico, relegando o belo natural a segundo plano.

    Para justificar esta visão, assevera-se que a toda a ciência cabe o direito de se definir como queira. Uma análise detalhada das diferenças do belo artístico e do belo natural, também foi feita por Hegel, privilegiando o belo artístico, por considerá-lo superior.

O esporte, enquanto uma forma de arte

    Numa segunda esteira, agora a da contextualização da arte, do belo e da estética com o esporte, remete-se a possibilidade de se pensar a intervenção profissional de EF e o esporte, imbicadas numa possibilidade de animação e mediação cultural, em face à aproximação da área, para com as considerações pedagógicas dos autores que buscam nos estudos socioculturais, inspiração para repensar o papel da EF na sociedade.

    E, sendo assim, é que as considerações acerca da estética devem ser trazidas às discussões dos de dentro da área. No entanto, adverte-se que ela não está relacionada apenas à arte, pois, todos estão submetidos, cotidianamente, a situações estéticas, mesmo que de maneira inconsciente.

    Afirma-se que o conceito de estética está relacionado ao conhecimento sensível, ligado às sensações, aos sentidos (visão, audição, paladar, tato e gustação), algo para o qual se é educado cotidianamente, que interfere nas escolhas dos indivíduos em sociedade, mesmo que não se dê a ela, a importância que deveria ter no processo educacional (MELO, 2010).

    Com isso, o presente ensaio afirma que uma das responsabilidades de toda intervenção pedagógica, incluindo-se as em EF, deva ser a educação das sensibilidades, educando-se para a construção de novos valores, vislumbrando que a educação estética é uma necessidade, e é tão importante quanto qualquer outra perspectiva de atuação docente.

    Deve-se compreender que há uma articulação entre valores e sensibilidades na formação dos sujeitos e das sociedades. Daí a necessidade de uma ação articulada em ambos os âmbitos.

    Se a estética não se resume à arte, esta continua a ser uma prática social importante e pode ser uma eficaz ferramenta no processo de educação das sensibilidades, dos diferentes beneficiários da EF e do esporte.

Os aspectos estéticos, na configuração da importância da presença social e da popularidade do esporte na sociedade

    Acerca da arte representada no esporte, as relações devem ser compreendidas de forma multifacetada. Uma das ocorrências mais facilmente identificadas é a comparação de atletas com artistas, com as celebridades do Show Business; de belas jogadas com obras de arte ou a utilização de termos artísticos, como referência às peculiaridades dos certames esportivos, bem como ao fato de se considerar as competições verdadeiros espetáculos, óperas e a comparar os atletas a gênios da arte, pela capacidade dos mesmos em – também - instaurar o prazer e a satisfação nos torcedores, a exemplo do que se verifica no caso da arte pura.

    É comum que cronistas e jornalistas esportivos façam uso de expressões como: "futebol-arte, a equipe joga por música, aquela jogada foi uma pintura, o time jogou como se coreografasse, aquele atleta é um artista, aquele atleta é um gênio da bola e etc." (MELO, 2010).

    Outra dimensão importante a ser considerada é a tematização do esporte pelas diferentes manifestações artísticas. No Brasil, isso pode ser claramente identificado, mas, ao se observar outros países, vê-se que esta relação não é peculiar, o que não surpreende, visto que o esporte é uma das manifestações culturais e sociais mais populares e influentes do último século.

    Em face da questão da possibilidade do esporte poder ser considerado como uma forma de arte. O ensaio inicia afirmando que nas décadas de 70 e 80, houve muitas discussões nesse sentido, todas, convergindo para a idéia de que o esporte não era arte, mas, se for, todavia considerado as modificações contemporâneas dos próprios conceitos de arte na contemporaneidade, bem como do próprio esporte e da própria sociedade, o texto não se atreve a compartilhar tal afirmação (MELO, 2010). Para ilustrar a discussão, destaca-se o aspecto relacional da arte, que nele, existe um jogo criativo que se estabelece entre o artista (jogador) e o público, uma forma de diversão fundamental e muito séria, tanto quanto qualquer outra atividade humana.

    Para o esporte, uma atividade tão simbólica quanto à arte, também este aspecto relacional é importante: a torcida participa ativamente do espetáculo, se envolve, influencia nos resultados, deleita-se, alegra-se, se entristece, encanta-se, desencanta-se, aprecia, critica e etc. Portanto, o esporte serve aos mesmos propósitos da arte pura.

    Obviamente que isso não é suficiente para que se apresente o esporte como arte, se fazendo necessário, portanto, buscar novos elementos para referendar tal afirmação. Para tal, a saída está nos próprios deslocamentos dos conceitos envolvidos. Inicialmente, há que se ter em conta que algumas práticas e objetos que hoje são considerados como artísticos, originariamente não eram encarados como arte. A exemplo do que pode ser observado em alguns objetos da cultura popular, produzidos com função prática e não para serem exibidos em museus ou galerias, como o - cinema - que inicialmente constituía-se apenas de uma curiosidade a ser exibida em feiras, e/ou era fruto do avanço tecnológico. Atualmente, a indústria cinematográfica classifica o cinema como a "sétima arte" (MELO, 2010).

    Isso, de alguma forma, abre um caminho para se pensar se um processo análogo pode ocorrido com o esporte.

    O que se observa hoje em dia é um exacerbar da importância dos elementos estéticos na composição do espetáculo e do campo esportivo. O esporte é uma clara influência em vários setores ligados à estética, como no design, na moda e na arquitetura. Cada vez mais funciona como forma de celebração dos corpos, mesmo que influenciado por uma concepção clássica de beleza.

    A exposição corporal dos atletas é cada vez maior. É possível identificar atletas posando nus ou em posições sensuais, atuando como modelos, influenciando coleções, sendo destacados pela beleza muscular, ressaltando-se elementos eróticos ao redor da prática esportiva.

    Citam-se os casos internacionais de David Beckham, o Raí e o Káka do futebol, Maria Sharapowa e as irmãs Venus e Serena Willians (recentemente) e Björn Borg, Gabriela Sabatine, Steffi Graf (no passado), todos do tênis. Também no Brasil, as gêmeas do nado sincronizado (Branca e Bianca), Fernando Scherer (o Xuxa) da natação, Ana Paula do vôlei, Kelly Slater do surf, Tom Brady do futebol americano, entre outros não tão conhecidos, mas que, quer seja durante as carreiras e/ou ao final delas, dedicam-se às atuações enquanto modelos, artistas e etc. Sem mencionar aqueles que abandonam, precocemente, a própria trilha esportiva para investirem no mundo da arte, da propaganda e/ou da estética.

    Portanto, o estético chega a ser, em alguns casos, tão ou mais importante do que as habilidades técnicas em alguns atletas. Ou seja, é possível fazer sucesso e auferir proventos no esporte profissional, não só através do talento e/ou de uma habilidade esportiva específica, mas, também através do apelo estético, imagético desse atleta.

    Se for considerado a partir da modernidade, se questionou a preponderância da arte na definição do conceito de estética, deve-se ter em conta que tudo o que está próximo desta dimensão, acaba aproximada da arte, o que abre espaço para o esporte se aproximar desta última. Cita-se o atual modismo da confecção de calendários ilustrados por atrelas em posições sensuais, a presença, cada vez mais evidente, de atletas profissionais que posam para revistas de nudez (masculinas, femininas e GLSBT).

    Esse aspecto tem também ligação com outra importante consideração: o fato de que desde a arte moderna há uma tendência crescente em romper as limitadas esferas do campo artístico, trazendo-a para o cotidiano e incorporando este no âmbito da arte (MELO, 2010).

    Adenda-se a isto o fato de se perceber uma clara tendência à decomposição dos limites entre as formas usuais de manifestações artísticas e uma re-significação da cultura popular, o que faz com que antigas “não-artes” passem a ser consideradas como arte. A exemplo do fenômeno do esporte.

    Outro fato que deve ser destacado, e que não se pode descurar o grande número de similaridades entre os campos esportivo e artístico, inclusive nas suas formas de organização, infectadas de elementos simbólicos e se desenvolvendo em lugares específicos, regulados por normas próprias, quer sejam teatros, museus, cinemas, ginásios, arenas ou estádios (HEGEL, 2001).

    Ambos causam um enorme fascínio, por permitirem o acesso a elementos de identificação, de proximidade. A diferença é que o esporte é uma arte popular, mais acessível, normalmente mais facilmente apreciável, e a arte pura, algo, ao menos, tido como mais elitizado.

    Vale advertir outras coincidências. No século XVI, a palavra “sport” significava, apenas, atuação teatral. Na contemporaneidade, e, em inglês, o verbo “to play” pode ser adequadamente utilizado para designar a representação teatral, a performance musical, o jogo, a brincadeira (gênese do esporte) ou a prática esportiva (MELO, 2010).

Considerações finais

    Face ao que foi exposto, numa perspectiva de uma análise conclusiva, o presente ensaio afirma o quão – não é – difícil, nem impossível, concluir que o esporte possa ser, definitivamente, considerado como arte na sociedade atual. Quiçá a oitava arte, assim o texto propõe, mesmo que discordem os filósofos contemporâneos.

    Sendo que também é possível compreendê-lo como uma - forma de arte – se for buscado em várias perspectivas, a exemplo do sentido de chamar a atenção para certos preconceitos que podem ainda persistir; no sentido de compreender melhor o objeto de trabalho; vislumbrando perceber de maneira mais precisa e multifacetada sua ocorrência social, e, fundamentalmente, no sentido de argumentar que seu diálogo com a arte se deu no nível de linguagens similares que trocaram, se interpenetraram.

    Pois, justifica-se estas afirmações nas possibilidades de re-significação dos próprios conceitos de arte na contemporaneidade. No esporte, esses valores se proclamam em expressões como a "nobre arte", ao se referir ao boxe, nas diferentes manifestações das "artes marciais", no próprio reordenamento do nome da ginástica olímpica para "ginástica artística", entre outros.

    Valendo a pena afirmar também, que ao se discutir as relações entre estética, beleza e corpo, pode-se observar um denotado aumento da exposição corporal de atletas, identificando o auge de um processo que tem seu início nos anos finais do século XIX, quando a espetacularização do corpo passa a ser algo buscado e estimulado pela sociedade de consumo, que começava a se estruturar.

    Se antes o corpo estava escondido, envergonhado, camuflado, em função das injunções de natureza religiosa, a partir da modernidade ele passa a ser cada vez mais exposto, tornando-se continuamente um dos principais produtos difundidos pela indústria cultural (ADORNO, 1980).

    Para tanto, basta se observar nas transmissões esportivas, reconhecendo como o apelo corporal e o estético, estão constantemente, presentes nas propagandas, como sua exibição é freqüente nos programas televisivos, os transformado em produtos de compra e venda, com um parâmetro homogêneo de corpo, de moda, de consumo e de beleza, onde o corpo tem se transformado, antes em um objeto de desejo inalcançável, do que em uma dimensão fundamental de prazer e de reconhecimento das subjetividades.

    Assim, em decorrência disso, podem-se identificar reflexos perversos das mais diversas ordens, tais como: a ocorrência de acidentes por excesso de atividades físicas, a utilização de substâncias ilegais para alcance de um modelo de corpo, o crescimento do número de afetados por doenças ligadas aos transtornos alimentares, a mercantilização das práticas esportivas, a realização indiscriminada de cirurgias estéticas, entre outros.

    Essa é uma dimensão que não pode ser negligenciada em propostas pedagógicas com o esporte e a Educação Física, pois, não cabe a estes difundir um modelo corporal único, pautado em um conceito de beleza estética homogênea (OLIVEIRA, 2011). E sim, cabe a estes discutir e capacitar criticamente seus beneficiários acerca desta problemática.

    Antes, deve-se contribuir para que os beneficiários reconheçam seu corpo como dimensão importante para a constituição de suas subjetividades. Portanto, as relações entre esporte e arte devem ser compreendidas de forma multifacetada.

    Assim, pode-se utilizar as manifestações artísticas nas práticas pedagógicas relacionadas à Educação Física e ao esporte, para também programar processos de formação estética, não só porque esta é uma dimensão importante para os educandos, enquanto um aspecto relevante do processo educacional, mas também por permitir ampliar a compreensão sobre o próprio esporte, já que na arte encontram-se muitos indícios de representações sociais desta prática social (MELO, 2010).

    Por fim, mais do que compreender que se deve educar através do esporte para o desenvolvimento de novos valores, e não só para o esporte, é importante também educar pelo esporte para o desenvolvimento de novos olhares, novas sensações e forma de perceber o mundo. Nesse sentido, fala-se que também é necessário educar para o esporte, para que os aprendizes possam descobrir o prazer de se deliciar com outras formas de manifestação esportiva, outros arranjos na maneira de se praticar e/ou de assisti-lo.

Refeências bibliográficas

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