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Jogos Escolares: possíveis influências na prática 

pedagógica das aulas de Educação Física escolar

Los Torneos Escolares: posibles influencias en la práctica pedagógicas en las clases de Educación Física en la escuela

 

Graduado em Educação Física, UEFS

Especialista em Educação Física Escolar, UGF

(Brasil)

Fábio Souza de Oliveira

fabio@performbahia.com.br

 

 

 

 

Resumo

          Este estudo de revisão teve como objetivo, discutir possíveis influências dos Jogos Escolares na prática pedagógica das aulas de Educação Física Escolar, continuando o debate sobre as iniciativas neste campo, especificamente sobre o trato dos conteúdos e a hegemonia do esporte. Buscou-se levantar as questões que perpassam a existência dos Jogos Escolares, mencionando suas possibilidades e contribuições para a Educação Física Escolar e/ou, possíveis impactos contrários às propostas mais atuais da área, a saber, a Cultura Corporal. Neste sentido, propõe-se a verificação constante dos efeitos dos JEB’s sobre a Educação Física na escola através do levantamento das questões envolvidas no seu entorno, possibilitando a formulação de propostas embasadas nestas questões que superem tais diferenças.

          Unitermos: Jogos Escolares. Educação Física Escolar. Esporte.

 

Abstract
          This review article aimed to discuss the possible influences of School Games in teaching practice lessons in Physical Education, continuing the debate about the initiatives in this area, specifically on the deal with content and the hegemony of the sport. We tried to raise the issues that underlie the existence of the School Games, mentioning their possibilities and contributions to Physical Education, or possible impacts contrary to most current proposals in the area, namely, the Body Culture. Here, we propose to check constantly the effects of JEB's on Physical Education through a survey of issues involved in their surroundings, enabling the formulation of proposals based on these issues that outweigh the differences.

          Keywords: School Games. Physical Education. Sports.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 16, Nº 161, Octubre de 2011. http://www.efdeportes.com/

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Introdução

    A Educação Física Escolar, tal como hoje se propõe, é fruto dos impactos políticos, econômicos, sociais e culturais sofridos ao longo da história e que resultaram nas suas profundas transformações. Seu objeto inicial, a ginástica que visava à atuação sobre o corpo que pudesse atender às demandas do modo de produção vigente, variou ao longo do tempo, passando pela hegemonia do esporte e chegando ao que foi denominado por uma das correntes que propôs várias das mudanças da área de “Cultura Corporal”, que continuou a contemplar a ginástica e o esporte, mas ampliou seus olhares para outros conteúdos e, acima de tudo, outras formas de tratamento destes conteúdos (COLETIVO DE AUTORES, 1992).

    Apesar das amplas discussões, da instauração de cursos de formação em Educação Física, do aumento de periódicos que tratam da Educação Física no âmbito escolar, dos espaços de discussão sobre os percursos históricos da Educação Física, como os encontros regionais e nacionais da área, o esporte sem dúvida, permanece hegemônico enquanto conteúdo. Sua justificativa inicial, pautada no fortalecimento da soberania nacional, apesar de largamente debatida, cede lugar às novas intencionalidades, mas não perde o status de carro chefe da Educação Física na escola.

    O privilégio do esporte é sustentado por uma indústria própria, que vende a imagem de heróis esportivos, trajando super roupas, conquistando feitos milagrosos, modificando vidas marcadas pela miséria através da ascensão social pelo esporte e, em segunda análise, por uma escola decadente, pouco atrativa e que compõe um cenário favorável às práticas esportivas tão atraentes aos alunos, certamente por ser uma das poucas propostas da escola que se aproxima de suas realidades. Porém, especificamente no caso do esporte, as políticas públicas neste setor compõem fator preponderante, uma vez que elas giram prioritariamente em torno deste conteúdo, negligenciando diversas vezes as demais possibilidades. Os Jogos Escolares são provavelmente o exemplo mais marcante, com sua estrutura em teia, alcançando os diversos centros educacionais pelo país, fomentando o sonho do ideal olímpico, muitas vezes pautado nos pressupostos da era do enaltecimento da pátria, do esporte de alto rendimento, desconsiderando os avanços dos debates até aqui.

    Neste sentido, este estudo tem como objetivo discutir possíveis influências dos Jogos Escolares na prática pedagógica das aulas de Educação Física Escolar. Os Jogos Escolares Brasileiros (JEB’s) são hoje provavelmente potencializadores do esporte na escola, mobilizando expectativas em torno da participação nos eventos, mantendo alunos interessados em permanecer no ambiente escolar com vistas à atuação nos jogos. É possível que projetos como este venham interferir nos índices de evasão escolar, por serem um motivo razoável de permanência na escola para aqueles que não vêem nos demais componentes curriculares, relação de prazer para continuar no ambiente escolar. Por outro lado, há que se analisar os efeitos colaterais dos Jogos Escolares, antes de tudo, por ainda se tratar de um evento para escolares, com pouca ou nenhuma relação com práticas educacionais, utilizando-se de uma perspectiva excludente por ocasião da formação das equipes, deixando de lado parte significativa da comunidade escolar. Além disso, a realização dos jogos não contempla amplamente os conteúdos apropriados pela Educação Física, frutos do debate histórico e que são entendidos como relevantes à formação do cidadão, como as ginásticas, a capoeira, as lutas e as danças. Por serem elemento de visibilidade para a escola, que diversas vezes percebem o evento como possibilidade de marketing empresarial, a unidade escolar que se abster do debate sobre a participação nos Jogos Escolares podem incorrer em proposta distante daquela defendida em seu Projeto Político Pedagógico. De forma semelhante, a proposta é tentadora para professores, que podem ver neste evento possibilidade de reconhecimento do seu trabalho, através da participação bem sucedida, mesmo que à custa da exclusão de parte de seus alunos, e finalmente, o segmento estudantil não pode ficar à mercê da imposição da situação acima descrita, podendo e devendo atuar criticamente sobre os Jogos, certamente não com o intuito de por fim à proposta, mas de compreendê-la, e por isso aceita-la ou não, adequando-a, portanto, com base no conhecimento da intencionalidade que está nos bastidores. Como ressalta Cerqueira (2009, p. 30), “todo o aparato mercadológico que há por trás do esporte de rendimento, deve ser desvelado ao educando, de forma que ele possa construir uma crítica a respeito deste fenômeno”. Este estudo justifica-se, portanto, por sua intenção em continuar o debate sobre as iniciativas no campo da educação física escolar, levantando os olhares para a viabilidade educacional de cada proposta, tendo por principal objetivo discutir possíveis influências dos Jogos Escolares na prática pedagógica das aulas de Educação Física Escolar.

    Neste intuito, discutiu-se o itinerário dos Jogos Escolares no Brasil, bem como das práticas pedagógicas na educação física escolar, como pressupostos para a compreensão das possíveis alterações do percurso da prática pedagógica em Educação Física por influência dos Jogos Escolares.

O que vem praticando a Educação Física Escolar...

    A entrada da Educação Física no âmbito escolar data dos séculos XVIII e XIX, com o intuito de educar o corpo para a produção (BRACHT, 1999). O principal conteúdo nos seus primórdios era a ginástica, com objetivo de formar corpos fortes e moldados para atender diferentes objetivos: defesa da nação; implantação do capitalismo como modo de produção, formando o trabalhador (CERQUEIRA, 2009). Os exercícios físicos

    [...] passaram a ser entendidos como “receita” e “remédio”. Julgava-se que através deles [...] seria possível adquirir o corpo saudável, ágil e disciplinado exigido pela nova sociedade capitalista. Sendo assim, práticas pedagógicas como a Educação Física foram pensadas e postas em ação, uma vez que correspondiam aos interesses da classe social hegemônica [...] (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 51).

    Pouco mais tarde, nos séculos XIX e XX, outra marcante característica da história da EF é a sua esportivização, ou seja, a ênfase no conteúdo esportivo, com foco no alto-rendimento e no registro de recordes. Tanto a ginástica quanto o esporte vinham promover aptidão física e saúde, capacidade de trabalho, que eram objetos da política do corpo (BRACHT, 1999). Os exercícios físicos e os esportes, na Educação Física, não só atendiam aos ideais de formação de um corpo necessário ao modo de produção, como agora se tornaram ferramenta de enaltecimento da pátria.

    No Brasil especificamente nas quatro primeiras décadas do século XX, foi marcante a influência dos métodos ginásticos e da Instituição Militar, responsável por ministrar os exercícios físicos (COLETIVO DE AUTORES, 1992). O esporte neste momento histórico do pós-guerra torna-se hegemônico, configurando a relação entre professor e aluno como técnico e atleta. Estes dois conteúdos foram a base de sustentação da Educação Física, colaborados pela criação dos Jogos Escolares, que no Brasil, fortaleceram cada vez mais a esportivização da Educação Física.

    Para Bracht (2006) apud Cerqueira (2009), os planos nacionais de Educação Física e Esporte, construídos durante a ditadura militar, viam na educação física o espaço para o ensino do esporte e tinha como meta transformar o país numa grande potência esportiva, tendo os Jogos Escolares como elemento norteador do trabalho com esporte na escola, em suas versões municipais, regionais, estaduais e nacional. Para Bracht et al

    A ênfase na prática esportiva, com a criação dos Jogos Escolares Brasileiros (JEBs), com suas respectivas edições municipais e estaduais, vai reforçar a tendência de o esporte tornar-se o conteúdo hegemônico, quando não único, das aulas de Educação Física (BRACHT e outros, 2005, p.6).

    O advento das ciências do esporte nos anos 70, e suas bases biológicas, seu caráter disciplinador e unilateral, com vistas ao corpo, só foram de fato questionados nos anos 80, com a inserção das ciências sociais e humanas na educação física e a crítica ao paradigma esportivo.

    A década de 1980 especificamente, tem grande significação para o pensamento pedagógico brasileiro como um todo. Foi marcada por amplo debate cuja tônica foi a crítica da função social conservadora que o sistema educacional vinha desempenhando na sociedade brasileira contribuindo, para a reprodução nos moldes vigentes.

    Este movimento buscou alternativas para a prática pedagógica, o que se configurou nas chamadas Pedagogias Progressistas, cujas propostas de ação visam colocar a educação, na perspectiva da transformação social, rumo a uma sociedade igualitária e justa (BRACHT e outros, 2002).

    Este movimento percorrido pela pedagogia no Brasil, também pôde ser verificado no âmbito específico da Educação Física. As discussões no seio escolar a respeito das possibilidades de se formar um cidadão mais crítico foram incorporadas pela Educação Física, tomando o debate das ciências humanas e sociais, e partir daí, surgem diversas orientações pedagógicas dentro da Educação Física que vão orientar sua prática e seu objeto de estudo (ALMEIDA JUNIOR; OLIVEIRA, 2007). As chamadas teorias pedagógicas, como a desenvolvimentista, a psicomotora, a promoção de saúde, interferem fundamentalmente na Educação Física Escolar, acrescentando mudanças na sua práxis sem, contudo criticar o papel da educação na sociedade capitalista.

    As teorias que vem a seguir perfazem este papel. Uma delas a crítico-superadora vem dizer que o objeto de estudo da Educação Física é a cultura corporal, e com isso, defende os temas: esporte, jogo, danças, lutas, ginástica, mímica. Esta abordagem

    [...] prevê a valorização dos conteúdos que se aproximem da realidade dos sujeitos. Entende o esporte como prática social e deve ser submetido a análise crítica, e assim como os outros temas da cultura corporal, que permita o educando a enxergar-se e ao mundo de forma reflexiva através da problematização para então ler a realidade social da qual ele faz parte (CERQUEIRA, 2009, p. 31).

    Deste modo, a Educação Física avança no sentido de questionar o papel do conteúdo esporte na escola e, portanto, os debates acerca da validade da proposta de eventos como os Jogos Escolares ganham novo fôlego.

    Para Kunz (2001), noutra abordagem, denominada crítico-emancipatória, o jovem é elevado a uma condição em que ele possa ter autonomia no seu pensar crítico a respeito de todas as suas ações, que segundo o autor deve estar atrelada a uma didática comunicativa. Nesta perspectiva, o trabalho pedagógico visa o desenvolvimento de competências: a objetiva, que capacita o aluno na suas habilidades de ação do esporte; a social, onde através da interação o aluno acessa todo o conteúdo crítico, social e cultural, tornando-se capaz de problematizá-los; e a comunicativa, em que, segundo este autor, através da linguagem desenvolverá a sua emancipação.

    Este breve apanhado histórico se faz necessário enquanto condição para o entendimento do que temos hoje em se tratando de currículo para a Educação Física, que difere da sua origem e está proposta neste momento histórico de forma abrangente e condizente com uma educação crítica e socialmente engajada. Neste sentido cabe situar a proposta dos Jogos Escolares dentro de uma Educação Física preocupada com a formação e integração de seus alunos, conforme defende Kunz (2001), não só através do desenvolvimento da sua capacidade objetiva, mas de todo o aparato necessário para que o aluno possa apropriar-se do conteúdo social.

Jogos Escolares

    Os JEB’s surgiram nos anos 60, e geraram em sua decorrência, a realização dos jogos escolares estaduais e municipais, que seriam etapas para a seleção dos alunos com vistas aos jogos nacionais (BARBIERE, 1999; SANTOS, 2000). Esse tipo de evento esportivo acima citado, isolado da vida das Escolas e de seus currículos, gerou distorções significativas no âmbito dos Sistemas Estaduais de Educação, o que sem dúvida, apresentou conseqüências seletivas e discriminadoras na grande maioria das Escolas deste país (BARBIERI, 1999). Por outro lado, durante sua história, tem crescido significativamente em termos de adesão, tendo tornado-se provavelmente o maior evento de participação voluntária da educação brasileira como um todo. O quadro abaixo mostra os números de participação nas edições nacionais dos jogos entre 1980 e 1990.

Ano

1980

1981

1982

1983

1984

1985

1986

1987

1988

1989

1990

Alunos Partic.

194

392

439

363

480

376

511

383

353

394

514

Fonte: Ferreira, (1992)

    É importante lembrar o contexto daquela ocasião, de ditadura militar, por ser possível influenciador do caráter dos jogos em sua concepção: busca da supremacia, apresentação de um vencedor, com pouca ou nenhuma visão de formação de um evento desportivo da escola, permeado com princípios da participação, cooperação, co-educação, co-responsabilidade ou integração.

    Esta ênfase na prática esportiva, através da criação dos Jogos Escolares Brasileiros, segundo Bracht et al (2005), com suas respectivas edições municipais e estaduais, vai reforçar a tendência de o esporte tornar-se o conteúdo hegemônico, quando não único, das aulas de Educação Física, pensamento corroborado por Martins e Melo (2004), que afirma que os Jogos Escolares Brasileiros acabam por interferir nos programas e determinar os conteúdos das aulas de educação física em escolas de todo o país. Para se ter uma idéia, a participação nos jogos, entre 1981 e 1985, era vinculada à índices, que são marcas pré-estabelecidas, como critérios para participar dos jogos com o objetivo de melhorar o nível técnico dos jogos (FERREIRA, 1992). A visão do desporto na escola era de tal forma, que uma das propostas formuladas na ocasião foi:

    “Devemos colocar a escola como principal meio do desenvolvimento do desporto através, como dissemos, de um conteúdo programático como todas as disciplinas. Por meio dele, professores treinados em psicomotricidade poderiam desenvolver um plano de trabalho, visando a deixar os alunos devidamente coordenados. Assim ao atingirem a 5ª série comecem a receber os principais fundamentos das práticas desportivas. Os mais habilidosos seriam conduzidos, também, a professores especializados em iniciação desportiva com o objetivo maior de aprimorar os gestos desportivos. A nosso ver, este é o caminho” (FERREIRA, 1992).

    Some-se a isto o fato de os Jogos Escolares serem via de obtenção da chamada Bolsa-Atleta, um financiamento do governo federal a atletas de alto rendimento. Teve como impulsionador ao seu surgimento a frustração no meio esportivo e entre a população em geral, quando nos Jogos Olímpicos de Sidney 2000 nenhum atleta brasileiro trouxe a ansiada medalha de ouro (GUIMARÃES, 2009). Segundo este mesmo autor, as discussões sobre a dificuldade de patrocínio aos atletas nacionais, levaram o então deputado Agnelo Queiroz a apresentar um Projeto de Lei com o objetivo de instituir a Bolsa-Atleta, destinada a garantir valores mensais aos atletas praticantes do esporte de rendimento em modalidades olímpicas individuais. A bolsa, segundo o projeto, pode ser obtida por três diferentes vias ou categorias: atleta internacional, para integrantes de seleções representativas do país em campeonatos internacionais; atleta nacional, para participantes do evento máximo nacional da modalidade; e o atleta estudantil, os que participam dos jogos organizados pelo Ministério do Esporte, bastando em qualquer das três categorias classificar-se até a terceira posição (GUIMARÃES, 2009). Deste modo, verifica-se a implementação de outra política, que associada aos Jogos Escolares, torna-os fomentadores da prática hegemônica do esporte, em detrimento dos demais conteúdos da Cultura Corporal.

    Segundo Barbieri (1999), essa visão de esporte, seguindo os modelos impostos pelos governos militares e incentivando, dentre outros aspectos, a seleção darwiniana, a competição exacerbada, a discriminação oficializada, durou até meados da década de 80, onde os debates acerca de uma Educação Física que ultrapassasse esse modelo começam a fervilhar, principalmente durante a chamada revolução pedagógica.

    Vale ressaltar que, nessa trajetória do esporte, contida neste breve apanhado feito até aqui, podemos identificar algumas exceções dentro deste panorama. Uma das principais foi a realização em 1989 de uma versão inédita dos Jogos Escolares, fundamentada nos princípios da participação, cooperação, co-educação, co-responsabilidade e integração. O diferencial deveu-se, dentre outros aspectos, à desmistificação da premiação, inclusão efetiva de deficientes, alteração das regras oficiais, realização de oficinas e palestras, e criação do jornal dos jogos. Ainda neste, de acordo com Ferreira (1992), houve outra mudança considerada polêmica, que foi a premiação da equipe que apresentasse o maior total de pontos, deixando de lado a ênfase no desempenho individual do atleta.

    Outro fator, dentro dos Jogos Escolares que deve ser mencionado é a inclusão das competições de Capoeira, aspecto que respalda o aprofundamento cada vez maior dos estudos da Capoeira enquanto atividade sociocultural educativa (SANTOS, 2000).

    Os Jogos Escolares, nesta segunda análise, trazem um efeito interno de consolidação de um “nós”, identidade coletiva, permitindo o sentimento de orgulho de pertencer a um Colégio capaz de grandes performances, gerando reconhecimento social (BRACHT e outros, 2005, p. 6). Na psicologia educacional, uma das teorias aceitas é a das necessidades de Maslow, que vem ao encontro da idéia acima citada por Bracht. Nesta teoria, Maslow defende que o comportamento humano pode ser motivado pela satisfação de necessidades biológicas (PILETTI, 2006; PENNA, 2001). As necessidades biológicas para este teórico estão nunca escala hierarquizada, como numa pirâmide, onde as necessidades mais básicas serão satisfeitas com prioridade em detrimento daquela logo acima na pirâmide. São elas as necessidades fisiológicas; a necessidade de segurança; a de amor e participação, expressando o desejo de todas as pessoas de pertencerem a um grupo; a necessidade de estima, que nos leva a procurar valorização e reconhecimento por parte dos outros; a “necessidade” de realização; e, no topo da pirâmide, a de conhecimento e compreensão (PILETTI, 2006; PENNA, 2001).

    Para Bracht (2005) a legitimação da vivência dos Jogos Escolares, pode ainda vincular-se à mobilização dos alunos; ao clima de festa que se constrói na escola; ao sentimento de sucesso que desperta na sua comunidade, ao sentimento de admiração que suscita na comunidade extra-escolar; e ao correspondente prestígio social que angaria para o colégio.

    Para a psicologia educacional, é de relevante conhecimento a teoria da motivação, que defende que nossos comportamentos não são determinados pelo acaso, mas por uma necessidade ou uma motivação, consciente ou inconsciente (DE BENI e outros, 2004). Parece que de algum modo, os estudantes sentem-se cada vez mais motivados à participação em eventos como os Jogos Escolares, talvez pelos objetivos inerentes ao próprio jogo, que embora diversas vezes venham de encontro à proposta educacional, conseguem dar sentido ou direção aos alunos. O indivíduo motivado, nesta teoria, encontra-se disposto a grandes esforços para alcançar os seus objetivos (OLIVEIRA, 2006). Para Ferracioli (2002), pode-se destacar como motivação alguns aspectos como: a necessidade de sensações, ou seja, o prazer que a atividade provoca no ser humano, a manifestação ostensiva da necessidade de afirmação para obter estima e reconhecimento, necessidade de filiação, de incorporar-se ao meio social através da demonstração de força ou de habilidade motora, dentre outros. Portanto, o esporte, mesmo nos moldes do alto rendimento, pode trazer motivação para parte do alunado que não vê na proposta da escola, motivo para sua mobilização.

Reflexões sobre a prática pedagógica e os Jogos Estudantis

    Partindo das premissas acima sobre a prática pedagógica nas aulas de Educação Física na escola e sobre os Jogos Estudantis, vários são os pontos de análise sobre a proposta e sua efetivação.

    A Educação Física na escola tem diversos momentos ao longo da história, contemplando diferentes conteúdos e formas de trato com estes conteúdos. Um deles, o esporte, é criticado em relação à sua implementação unidirecional e hegemônica (única proposta durante o período), e passa a ser modificado, dando lugar a diferentes práticas. Deste modo, a Educação Física passa a olhar não só para as práticas desportivas em prol de campeonatos oficiais com estudantes, mas com a Cultura Corporal: danças, ginásticas, jogos, lutas. Por outro lado, o evento de maior impacto da Educação Física Escolar são os Jogos Estudantis Brasileiros, com suas ramificações nos Estados e Municípios, colaborando com a hegemonia do esporte e com a proposta de busca pelo melhor desempenho, pouco embasada nos ideais da educação crítica que a Educação Física vivenciou principalmente após a década de 80.

    Embora haja algumas iniciativas de inserção de conteúdos que possam ir além do esporte de alto rendimento nos Jogos Escolares, tais propostas ainda são tratadas por viés excludente e discriminatório, dando espaço para aqueles alunos mais aptos à proposta dos jogos e finalmente com pouca ou nenhuma relação com a proposta pedagógica da escola. Verificou-se também o potencial que possuem os jogos em formar um grupo coeso dentro da escola, com senso de pertencimento, mobilizando toda a unidade escolar envolvida. Cabe, porém, verificar de que forma reduzir os efeitos colaterais do Jogos Escolares na proposta da Educação Física na escola, uma vez que sua implementação vai impactar na negligencia dos demais conteúdos da Cultura Corporal, além dos impactos da perspectiva excludente e classificatória dos Jogos. Não foi objetivo deste trabalho criticar os Jogos, propondo novo formato, ou mesmo atestar sua validade, mas, levantar as questões envolvidas no seu entorno, possibilitando formulação de propostas embasadas nas questões aqui suscitadas.

Referências

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