efdeportes.com

Educação Física Escolar: conhecimento 

científico e prática pedagógica... caminham juntos?

Educación Física Escolar: el conocimiento científico y la práctica pedagógica… ¿van de la mano?

 

*Discente do Curso de Pós-Graduação em Educação Física Escolar

da Universidade Salgado de Oliveira, Profissional de Educação Física – Licenciatura

Plena, Coordenador de Esportes da Secretaria Municipal

de Esportes do Município de Maricá - RJ

**Professor Orientador. Docente do Curso de Pós-Graduação

em Educação Física Escolar e Docente do Curso de Educação Física

da Universidade Salgado de Oliveira

Ricardo Vianna Batista*

ricardoprofessor@bol.com.br

Edson Farret da Costa Junior**

edsonfarret@gmail.com

(Brasil)

 

 

 

 

Resumo

          Este trabalho tem como objetivo identificar junto aos Professores de Educação Física que atuam na rede de ensino da cidade de Maricá-RJ, se conhecem sobre as Abordagens pedagógicas da Educação Física Escolar que vem se apresentando no contexto nacional principalmente após o início da década de 1980, com a abertura política no fim da ditadura militar, aliado a este objetivo, este artigo procura saber se estes profissionais se interessam pela existência de novas publicações cientificas que possam orientar e a formular objetivos para as suas aulas. O procedimento metodológico utilizado foi o estudo de caso com pesquisa de campo e coleta de dados através de questionários, considerando as abordagens pedagógicas e o conhecimento científico produzido. Conclui-se que os profissionais buscam o conhecimento científico produzido, porém, isto não se faz presente de forma consistente nas práticas pedagógicas, pois os mesmos desconhecem a maioria das abordagens pedagógicas da Educação Física Escolar criando assim uma lacuna a ser preenchida entre teoria e prática.

          Unitermos: Educação Física Escolar. Conhecimento científico. Prática pedagógica.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 16, Nº 161, Octubre de 2011. http://www.efdeportes.com/

1 / 1

1.     Introdução

    Após a década de 1980 no Brasil houve uma grande difusão de publicações e estudos a respeito da Educação Física, principalmente após a abertura do sistema repressivo instaurado pela Ditadura Militar, o que levou vários profissionais da área a rediscutir o verdadeiro papel da Educação Física na sociedade brasileira, até mesmo em questões ligadas às mudanças necessárias ao nível da prática efetiva nas quadras, ginásios e campos (GHIRALDELLI JR, 1989).

    Segundo Darido (2003), é nesse momento que a Educação Física passa por um período de valorização dos conhecimentos produzidos pela ciência. A discussão do objeto de estudo da Educação Física, a abertura de programas de mestrado na área, a volta de inúmeros profissionais titulados nos principais centros de pesquisa do mundo, a confirmação da vocação da Educação Física para ser ciência da motricidade humana, adicionados a um novo panorama político-social resultante da abertura, contribuem para que seja rompida, ao menos no nível do discurso, a valorização excessiva do desempenho como objetivo único na escola.

    De acordo com os PCNs (1998), ainda nesta mesma década os efeitos desse modelo tecnicista começaram a ser sentidos e contestados: o Brasil não se tornou uma nação olímpica e a competição esportiva da elite não aumentou significativamente o número de praticantes de atividades físicas. Iniciou-se então uma profunda crise de identidade nos pressupostos e no próprio discurso da Educação Física, que originou uma mudança expressiva nas políticas educacionais: a Educação Física escolar, que estava voltada principalmente para a escolaridade de quinta a oitava séries do primeiro grau, passou a dar prioridade ao segmento de primeira a quarta séries e também à pré-escola. O objetivo passou a ser o desenvolvimento psicomotor do aluno, propondo-se retirar da escola a função de promover os esportes de alto rendimento.

    Campos (2004) relata que nesse momento da década de 80 já estava evidente um novo pensamento a respeito de Educação Física Escolar. Porém, não se pode garantir que a prática dessa Educação Física Escolar caminhasse em harmonia com esse pensamento acadêmico, mas, é possível que na formação de novos professores, para aquela época, já tenha sido discutido em algumas escolas formadoras esse novo pensamento.

    Ainda segundo Campos (2004), ao olhar a Educação Física dentro da Escola admitimos a divisão da Educação Física para aquela especificamente dentro dos muros escolares e a outra externa a este ambiente e nesse sentido a Educação Física Escolar começou um processo de afirmação como componente curricular essencial como os outros componentes na formação integral do aluno.

    De acordo com Nunes & Rúbio (2008), diversas críticas ao modelo vigente foram elaboradas e surgiram novas abordagens, ampliando o debate acerca das novas tendências da Educação Física que buscava a construção de um referencial teórico próprio para a área.

    Darido (2003) descreve que as principais abordagens pedagógicas da Educação Física Escolar são: Abordagem Desenvolvimentista, Abordagem Construtivista– Interacionista, Abordagem Crítico-Superadora, Abordagem Sistêmica, Abordagem da Psicomotricidade, Abordagem Crítico-Emancipatória, Abordagem Cultural, Abordagem dos Jogos Cooperativos, Abordagem da Saúde Renovada, Abordagem dos Parâmetros Curriculares Nacionais, apresentando os seguintes quadros sobre estas Abordagens:

Quadro 1. Abordagens da Educação Física Escolar segundo Darido (2003)

 

Quadro 2. Abordagens da Educação Física Escolar segundo Darido (2003)

    Azevedo e Shigunov (2000), apud Maldonado et al. (2008), relatam que as Abordagens Pedagógicas da Educação Física são definidas como movimentos que tentam uma renovação teórico-prática, com o objetivo de estruturar os campos de conhecimentos específicos da Educação Física Escolar.

    Ainda segundo Oliveira (2008), o terreno escolar talvez tenha sido mais fértil para inadequações. Pois, para ele, o professor assumiu o papel de educador físico, deixando de atender às necessidades do homem total.

    Coletivos de Autores (1993), afirma que é preciso que cada educador tenha bem claro: qual o projeto de sociedade e de homem que persegue? Quais os interesses de classe que defende? Quais os valores, a ética e a moral que elege para consolidar através de sua prática? Como articula suas aulas com este projeto maior de homem e de sociedade?

    Deste modo o objetivo deste estudo foi verificar na rede de ensino do Município de Maricá no Estado do Rio de Janeiro, se o conhecimento produzido nos meios acadêmicos tem sido alvo de interesse dos professores de Educação Física na sua vida profissional e de forma ainda mais profunda e crítica detectar se esses mesmos educadores conhecem as tendências pedagógicas da Educação Física Escolar.

2.     Metodologia

    O presente estudo caracterizou-se por uma pesquisa de cunho qualitativo, escolhido pelo autor a partir do problema de pesquisa, técnicas e acessos aos profissionais de Educação Física para desenvolvimento e conclusão do mesmo.

    A amostra foi composta por 10 professores de Educação Física que atuam em escolas públicas e privadas do Ensino Fundamental (1° ao 9° ano) do Município de Maricá no Estado do Rio de Janeiro.

    A coleta de dados se deu através da técnica de questionário individual de forma fechada divido em três categorias: perfil dos profissionais de Educação Física, nível de interesse sobre o conhecimento científico produzido e grau de conhecimento e práticas sobre as Abordagens da Educação Física Escolar.

    Primeiramente foi apresentada aos professores uma solicitação por escrito para participação de forma voluntária na pesquisa, assim como o apontamento do objetivo e relevância da mesma para o pesquisador e para o campo de atuação do profissional voltado para área escolar, logo após o consentimento foi entregue o questionário para que os mesmos pudessem responder as questões propostas.

    Após a coleta de dados, foi realizada a quantificação de cada questão para posterior análise de conteúdo.

3.     Resultados

3.1.     Perfil dos Profissionais

3.1.1.     Formação Profissional

    A maioria dos Profissionais são formados por Instituições de Ensino Particular (9) e um único Profissional em Instituição de Ensino Publica (1), sendo que 1 se graduou em 1996, 1 em 2001, 2 em 2002, 1 em 2006, 4 em 2009 e 1 em 2010.

3.1.2.     Atuação Profissional

    Dos Profissionais pesquisados 7 atuam em escolas particulares com tempo de atuação profissional que varia de 1 à 6 anos e o restante do profissionais (3) atuam em escolas públicas municipais com o tempo de atuação entre 6 e 10 anos.

3.2.     Nível de interesse sobre o conhecimento científico produzido

    Nesta categoria o objetivo foi detectar o interesse dos profissionais sobre as publicações produzidas nos meios acadêmicos através de artigos, teses, monografias, dissertações e livros, e paralelamente saber se estes mesmos profissionais de alguma forma buscam conhecimentos atualizados em cursos, encontros, simpósios, etc. Relacionado ao tema específico da Educação Física Escolar.

Gráfico 01. Interesse por leituras de artigos, teses, monografias, dissertações e livros sobre Educação Física Escolar

 

Gráfico 02. Interesse por participação em cursos, simpósios, encontros, etc.

3.3.     Grau de conhecimento e prática sobre as abordagens pedagógicas da Educação Física Escolar

Tabela 1. Conhecimento e prática sobre as abordagens pedagógicas da Educação Física Escolar

4.     Discussão

    Observamos nos resultados expostos que a maioria dos profissionais pesquisados apresenta de maneira bem satisfatória o interesse pelos conhecimentos científicos produzidos nos meios acadêmicos, seja ele mediante a participação em cursos, simpósios, encontros e/ou em forma de leitura de livros, artigos, teses e dissertações que versam sobre o tema da Educação Física Escolar. Porém ao compararmos com o conhecimento sobre as Abordagens Pedagógicas da Educação Física Escolar detectamos que o mesmo não se retrata de forma consistente e precisa, resultando assim em uma lacuna na relação teoria-prática o que pode ser explicado ao olharmos os Gráficos 01 e 02 aonde constatamos os números percentuais de 80% e 70% pelo interesse pelo conhecimento, o que não podemos dizer com mesma veemência ao analisarmos a Tabela 1, onde fica claramente visível que somente 2 (dois) profissionais conhecem todas as Abordagens e as utilizam em suas práticas pedagógicas, isto significa que: no universo dos pesquisados somente 20% do total tem conhecimento das 10 (dez) Abordagens propostas por Darido (2003), e os dados são ainda mais preocupantes ao olharmos de forma geral a mesma tabela, pois ao verificarmos os números fica fácil a constatação que 60% dos profissionais afirmam não conhecerem nem a metade das Abordagens Pedagógicas da Educação Física Escolar.

    É importante ressaltar que mesmo os professores que tiveram formação mais recente não conheciam todas as Abordagens de Ensino da Educação Física Escolar, mostrando que a formação acadêmica do professor de Educação Física apresenta falhas em seu processo.

    Porém ao observar o trabalho de Nahas & Bem (1997), que concordam com os autores que afirmam ainda predominar a visão dicotômica da relação Teoria e Prática em Educação Física, e que a idéia de práticos de um lado e estudiosos (teóricos) de outro, ainda serve para descrever a realidade da Educação Física, podemos rediscutir esta concordância, muito embora o conhecimento científico ainda não se faça presente de uma forma concreta, este estudo aponta um horizonte menos nebuloso ao demonstrar que a grande maioria do professores tem a consciência da necessidade de buscar novos materiais teóricos para a sua atuação profissional, e que esta busca pode resultar na direção de uma “Nova” Educação Física Escolar.

    Isto vem de encontro o que afirmam Santos & Matos (2004), que o simples ato de reflexão já nos induz a uma prática mais crítica e cada vez mais condizente com a realidade social, que se renova a cada dia. Estar atento a essas renovações pode revelar as necessidades do grupo em que se atua e qual é o melhor caminho a seguir.

    Pérez Gallardo (2005, pag. 15), entende que:

    “O professor apenas “capacitado” às vezes pode até compreender a necessidade de mudança no fazer pedagógico, contudo não consegue expressar na sua prática essa compreensão, falta-lhe o aprofundamento reflexivo e crítico de sua atuação profissional”.

    A formação profissional exige uma preocupação permanente com a formação de uma atitude científica e reflexiva. Os profissionais devem ser capazes de, nos seus campos profissionais, analisar criticamente os conhecimentos no sentido de compreender as condições e os processos pelos quais o conhecimento foi produzido; compreender o grau de fidedignidade e validade e suas possibilidades de generalizações com vistas à sustentação de suas ações profissionais, bem como compreender a necessidade de uma constante atualização, garantindo assim o desenvolvimento profissional. Pois correm o risco de terem suas atividades serem sem nenhum tipo de embasamento teórico-científico tornando assim as aulas puramente empíricas.

    Campos (2004, pag. 58) define que:

    “A escola é um lócus de relações sociais, do aprendizado e do aprimoramento dos conhecimentos acumulados decorrentes do processo histórico da evolução do homem. Esses conhecimentos acumulados devem passar por transformações e atualizações pelo homem e para o homem que constrói e aprimora sempre a sua história de vida. Para que isso ocorra é necessário um constante (re) pensar e um permanente (re) olhar nas ações da prática desses conhecimentos, obrigando o professor a adotar uma atitude investigativa para esse fim. Portanto, educadores devem estar sempre pesquisando, pois, entendemos que só será possível a transformação do processo de ensino e aprendizagem de um determinado componente curricular, quando se instala a ação de pesquisar, formulando teorias a partir de prática docentes reais e retornando sempre com a prática docente essas teorias”.

    Outro caso também a se questionar sobre este alto nível de interesse sobre os conhecimentos científicos pode vir confirmar os resultados sobre o baixo grau de conhecimento sobre as abordagens pedagógicas, que as Instituições de Ensino Superior dos Cursos de Educação Física estão com processos defeituosos em suas grades de ensino, fazendo assim que os profissionais formados ao se depararem com a prática escolar sintam necessidades de buscar aprofundamento teórico que não tiveram quando discentes do curso de graduação, como podemos observar em Coletivos de Autores (1993), ao afirmar logo na sua introdução que encontraram o professor sedento do saber, inquieto por conhecer e suprir o que não lhe foi propiciado no período de sua formação profissional os levaram dentro outros objetivos a escreverem a sua obra.

    Também em Pérez Gallardo (2005), onde afirma que mesmo com um grande aumento de Instituições de Ensino Superior que formam professores de Educação Física, são poucas as que tem contribuído para a evolução da área, ou seja, buscar formar um professor “professor”.

    Então de posse deste estudo pretendemos mostrar que ele não é único e muito menos imutável na discussão sobre a reflexão Conhecimento Científico e Prática Pedagógica, mais que possa ir de encontro às aspirações de outros profissionais que buscam o mesmo objetivo, uma Educação Física Escolar de qualidade, com intenções e objetivos definidos e bem articulados com todos os campos do conhecimento, que a prática se torne uma ferramenta de aplicabilidade da pesquisa e do conhecimento produzido, de forma a se reproduzir no dia a dia do professor na escola com segurança e que lhe forneça subsídios que possam resultar como uma disciplina que introduz e integra o aluno na cultura corporal, formando o cidadão que vai produzi-la, reproduzi-la e transformá-la, instrumentalizando-o para usufruir dos jogos, dos esportes, das danças, das lutas e das ginásticas em benefício do exercício crítico da cidadania e da melhoria da qualidade de vida. (Santos & Matos, 2004; Pérez Gallardo, 2005; Campos, 2004; Darido, 2003).

5.     Considerações finais

    Ao pesquisar sobre a relação teórica e prática da Educação Física Escolar e sua aplicabilidade Campos (2004, p. 78), entende que:

    “...essa não apropriação efetiva de conhecimentos teóricos nos leva a conduzir o processo de ensino da Educação Física Escolar de forma autônoma e espontânea [...] começamos a entender que esse “descaso” não levava a um pleno desenvolvimento da Educação Física na escola...”

    Identificamos com este estudo que os profissionais que trabalham na área da Educação Física Escolar no Município de Maricá mantém interesse pelos Conhecimentos Científicos produzidos nos meios acadêmicos, no mesmo tempo que podemos afirmar não conhecerem todas as Abordagens Pedagógicas da Educação Física Escolar.

    Um fato a ser considerado neste estudo é que professores recém formados tem um grau de conhecimento sobre as Abordagens muito abaixo da metade das Abordagens atuais conhecidas, apontando uma falha existente no processo de ensino das Instituições de Ensino Superior no Curso de Educação Física, fato este, que deve ser olhado com preocupação, pois a cada ano se formam inúmeros novos profissionais que se deparam em grande maioria com o trabalho nas escolas.

    Há também que considerarmos o alto nível de interesse sobre os conhecimentos científicos produzidos, que a princípio pode se visto com entusiasmo, mas devemos ser um pouco mais críticos sobre isto, pois ao expandir um pouco a visão podemos nos deparar a duas interrogações, sendo a primeira: partindo da responsabilidade do professor com o conhecimento e atualização profissional para um melhor desempenho e confiança na sua prática pedagógica? Ou a que vem confirmar sobre o baixo nível de ensino nas Instituições de Ensino Superior, obrigando estes profissionais a buscarem capacitação e ou especialização por outros meios?

    Pensando neste contexto, além do objetivo central deste estudo, abre-se uma nova questão a ser discutida com mais ênfase no futuro e que poderá sugerir novos estudos sobre a área da Educação Física com atuação específica no campo escolar.

Referências

Outros artigos em Portugués

  www.efdeportes.com/
Búsqueda personalizada

EFDeportes.com, Revista Digital · Año 16 · N° 161 | Buenos Aires, Octubre de 2011
© 1997-2011 Derechos reservados