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Comparação entre testes de aptidão 

física dos exércitos americano e brasileiro

Comparación entre pruebas de aptitud físia de los ejercitos de Estados Unidos y Brasil

Comparison between tests of physical fitness of American and Brazilian armies

 

Curso de Bacharelado em Educação Física

Universidade de Caxias do Sul, Caxias do Sul, RS

(Brasil)

Rocheli Müller

Yonel Ricardo de Souza

Eduardo Ramos da Silva

edurramos@gmail.com

 

 

 

 

Resumo

          O treinamento físico militar utilizado pelos exércitos tem como principal objetivo a melhora da aptidão física de seus soldados, capacitando os mesmos a exercerem suas devidas missões com êxito. A melhor forma de verificar se esses padrões vem sendo mantidos é através de testes de aptidão física. O objetivo do presente estudo foi comparar a equivalência de classificação de dois protocolos de avaliação militar: o teste de aptidão física do exército brasileiro (TAF) e o Army Physical Fitness Test do exército americano (APFT). Vinte e seis soldados do exército brasileiro foram avaliados segundo os dois protocolos, comparando-se o valor médio obtido em cada teste separadamente e a classificação dos militares através das médias frente aos dois métodos de avaliação. Não ocorreram diferenças significativas na realização do APFT original e modificado. Entretanto, ocorreram diferenças significativas na velocidade média, na flexão de braços na horizontal e também na flexão abdominal. Concluiu-se que há diferenças no padrão de classificação entre os dois protocolos de avaliação militar, que parecem estar relacionadas às necessidades e recursos de cada exército.

          Unitermos: Aptidão física. TAF. APFT. Exército.

 

Abstract

          The military physical training used by armies has as main objective the improvement of physical fitness of their soldiers, enabling them to carry out their due tasks successfully. The best way to check if these standards has been maintained is through physical fitness tests. The aim of this study was to compare the equivalence of the classification of two protocols of military assessment: the physical fitness test of the Brazilian Army (TAF) and Army Physical Fitness Test U.S. Army (APFT). Twenty-six soldiers of the Brazilian army were assessed according to the protocols, by comparing the value obtained in each test separately and the classification of the military through the medium outside both methods. There were no significant differences in APFT completion of the original and modified. However, there were no significant differences in average speed, the push-up flat and also on the bench press. It was concluded that there are differences in the pattern of classification between the two protocols of military, who seem to be related to the needs and capabilities of each army.

          Keywords: Physical fitness. APFT. TAF. Army.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires - Año 16 - Nº 158 - Julio de 2011. http://www.efdeportes.com/

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Introdução

    A aptidão física pode ser definida como um conjunto de atributos físicos adquiridos que se relacionam com a capacidade de realizar atividades específicas com menor esforço e máxima eficácia (ACSM, 2000). Um exemplo de aptidão desenvolvida através de treinamento é a militar, que associa-se substancialmente com a prontidão para condições extremas de confronto armado (EXÉRCITO, 2002).

    Ainda que uma diversidade de recursos tecnológicos sejam empregados nos contextos atuais de guerra, o homem continua sendo elemento decisivo para o sucesso dos exércitos no campo de batalha (JACOBINA et al, 2007; OLIVEIRA, 2005), podendo ser citado como exemplo, os conflitos em que Estados Unidos (DUBIK; FULLERTON, 1987) e Grã-Bretanha, (McCAIG; GOODERSON, 1986) foram participantes. Os relatórios atestam que a aptidão física proveniente de treinamentos regulares prévios, foi determinante nas tomadas de decisão diante de imprevistos, evitando assim muitas mortes.

    Segundo dados do International Institute for Strategic Studies (2008), o exército americano é citado como um dos melhores exércitos do mundo por seus altos investimentos (329 bilhões de dólares anuais) em tecnologia armamentista e formação do seu efetivo (1,4 milhões de soldados). Soma-se a este último o alto nível de aptidão de sua tropa desenvolvida a partir de rigoroso sistema de treinamento e avaliação física.

    Assim como o americano, o Exército Brasileiro busca no treinamento físico militar a melhora da aptidão de seus soldados, capacitando-os a exercerem suas missões com êxito. A melhor forma de acompanhar o processo de condicionamento e verificar a prontidão do efetivo para realização de missões é através de testes periódicos de aptidão física (ARMY, 1992; JÚNIOR, GONÇALVES, 1997).

    No Brasil, os testes de aptidão física (TAF) são realizados três vezes ao ano, visando avaliar a aptidão relacionada à saúde e condição física geral (COSTA et al, 2004) através de provas de corrida em terreno plano (máximo em 12min), flexão de braços na horizontal (sem limite de tempo), flexões abdominais (máximo em cinco minutos), flexão de braço na barra (sem limite de tempo) e a pista de pentatlo militar (EXÉRCITO, 2002), avaliando-se a capacidade aeróbica e força/resistência musculares, valências estas diretamente relacionadas à função militar. Com relação aos índices de classificação, os soldados brasileiros são avaliados através de tabelas de conceituação, que resultam nas seguintes menções: E (excelente), MB (muito bem), B (bem), R (regular) e I (insuficiente), de acordo com a menor menção lograda em um dos cinco testes de avaliação (EXÉRCITO, 2006).

    O exército americano realiza semestralmente com todos os soldados da ativa, reserva (quando reconvocados) e da Guarda Nacional, o teste denominado Army Physical Fitness Test (APFT), sendo composto por flexões máximas de braços na horizontal (dois minutos), flexões máximas abdominal (dois minutos) e corrida de duas milhas (ARMY, 1992; OLIVEIRA, 2005). Os índices de classificação são baseados em tabelas conforme o manual de treinamento físico americano (ARMY, 1992), onde se deve manter um padrão mínimo de 60 pontos na realização de cada teste, não menos do que 180 pontos e máximo de 300 pontos até o final do treinamento básico. As informações obtidas por meio dos testes de aptidão física, juntamente com informações de saúde do indivíduo, podem ajudar na resolução de problemas individuais mais específicos (ARMY, 1992).

    Entretanto, o TAF empregado pelo Exército Brasileiro não possui valor prognóstico para o sucesso em conflitos armados, pois as forças nacionais não são efetivamente empregadas desde a 2ª guerra mundial. Portanto o objetivo do presente estudo foi comparar o nível de aptidão física de militares brasileiros determinados pelos protocolos de avaliação e critérios de classificação americano e brasileiro.

Materiais e métodos

    O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Fundação Universidade de Caxias do Sul sob o protocolo 044/08. A amostra foi composta por soldados do Exército Brasileiro do sexo masculino incorporados no ano de 2008 em uma unidade militar do estado do Rio Grande do Sul. Para determinação do número de sujeitos a serem investigados, utilizou-se o estudo de Vieira et al, 2006. O cálculo foi realizado para amostras pareadas através do programa PEPI versão 4.0, no qual foi adotado um nível de significância de 5%, um poder de 90% e um coeficiente de correlação de 1 para a variável de flexão de braços na horizontal. Com base no desvio-padrão e nas diferenças entre as médias obtidas no estudo citado, o cálculo realizado demonstrou a necessidade de um "n" de 26 indivíduos.

Instrumentação e protocolos

    A massa corpórea e a estatura foram mensuradas utilizando-se uma balança marca Filizola®, com precisão de 100g, e um estadiômetro da marca Invicta®, com precisão de 5 mm. Para mensurar o percentual de gordura foi usado o protocolo de Jackson e Pollock (1972), de três dobras. As medidas foram feitas com um adipômetro da marca Harpenden Skinfold Caliper®, que apresenta uma pressão de medida de 0,1 mm. A temperatura e a umidade relativa do ar foram mensuradas através de dois termômetros, um de bulbo seco e outro de bulbo úmido, ambos da marca Fuess®.

    O Teste de Aptidão Física do Exército Brasileiro (TAF) foi aplicado conforme portaria nº 223 contida no Boletim do Exército Brasileiro (EXÉRCITO, 2006), que consta de: teste de corrida de doze minutos, máximo de flexões horizontal de braços sem limite de tempo e máximo de flexões abdominais em cinco minutos. O Army Physical Fitness Test (APFT) é representado conforme Manual de Treinamento Físico Militar (ARMY, 1992), composto pelo máximo de flexões de braços em dois minutos, máximo de flexão abdominal em dois minutos e corrida de duas milhas no menor tempo possível.

Procedimentos de coleta

    Após explicação preliminar aos voluntários do estudo, lhes foi entregue o termo de consentimento livre e esclarecido, que após lido e dirimidas todas as dúvidas, foi assinado pelos que concordaram em participar. Em seguida, todos responderem a uma questionário para triagem de saúde geral e prontidão para atividade física, sendo após submetidos a avaliações antropométricas (massa corporal, estatura, índice de massa corporal e percentual de gordura). Na sequência, os sujeitos foram randomicamente divididos em dois grupos: o grupo A (13), que realizou o APFT (original) no primeiro dia dos testes e uma semana depois realizou o TAF brasileiro, e o grupo B (13), que realizou o TAF do exército brasileiro e uma semana após realizou o APFT (original) do exército americano.

    Os soldados foram orientados previamente a evitar fumo, alimentos, álcool e cafeína por pelo menos três horas antes dos testes, evitar atividades físicas rigorosas por pelo menos vinte e quatro horas antes dos testes, dormir de 6 a 8 horas na noite anterior aos testes e estar vestindo roupas que permitissem liberdade de movimentos e calçados apropriados para caminhada ou corrida (MEDICINE, 2000; EXÉRCITO, 2006).

    No intuito de controlar o efeito da ordem dos testes, foram selecionados mais 26 sujeitos com características semelhantes ao envolvidos no estudo principal para realização do APFT modificado, isto é, tendo que realizar primeiramente a corrida de duas milhas, seguida de flexão de braços e flexão abdominal em dois minutos, tornando-se assim semelhante à aplicação do TAF brasileiro.

Métodos estatísticos

    Os dados foram apresentados sob forma de média e desvio padrão. Para analise da distribuição Gauseana dos dados, foi utilizado o teste de Shapiro-Willk. Foi utilizado o teste T-students para comparação de médias entre os testes. Os escores de desempenho físico foram calculados segundo as normas estabelecidas nos manuais de cada protocolo. Todos os testes foram processados no pacote estatístico SPSS 16.0 sendo utilizado um intervalo de confiança de 95% e níveis de significância de α ≤ 0,05.

Resultados

    A tabela 1 apresenta o perfil dos sujeitos participantes, onde, a partir do teste de Shapiro-Willk, se pode observar a homogeneidade do grupo.

    Não foram observadas diferenças significativas entre os exercícios do APFT original e do APFT modificado, não indicando efeito significativo da ordem dos testes nos resultados finais utilizáveis para o ranqueamento (Tabela 2).

    Descartadas influências intra-testes e inter-testes que poderiam contaminar a presente análise, comparou-se as médias das variáveis de desempenho entre os dois protocolos (APFT e TAF). A partir daí foi possível comparar os protocolos originais em relação à pontuação mínima exigida para a aprovação nos testes (tabela 3).

Discussão

    A partir dos dados descritivos da amostra (antropométricos), pode-se observar a homogeneidade da amostra selecionada.

    Da análise dos efeitos inter-testes e intra-testes relativos a aplicação do APFT normal e APFT modificado, não ocorreram diferenças significativas, demonstrando que não há variáveis que possam contaminar o resultado na aplicação dos testes.

    Seguindo-se a análise do valor das médias de todas as variáveis envolvidas no estudo entre os dois protocolos de avaliação militares, foram constatadas diferenças significativas no padrão de classificação entre os dois métodos de avaliação. Se considerarmos como referência mundial o APFT, devido à posição de destaque do exército americano no cenário mundial e a pontuação mínima do teste estabelecida em 60 pontos, observa-se que os militares do exército brasileiro não teriam atingido o padrão mínimo na flexão de braços do APFT, e, em conseqüência, o condicionamento de resistência muscular localizada dos membros superiores dos militares do exército brasileiro estaria abaixo dos níveis desejados.

    Porém algumas considerações devem ser destacadas nesta análise: Rodrigues et al (2005) observou redução significativa do desempenho de flexão de braços na horizontal quando realizado após teste de corrida, indicando que a atividade aeróbica possa influenciar negativamente a expressão de força requisitada no teste subseqüente. Pode este ser um dos motivos pelo qual a quantidade de repetições na flexão de braço na horizontal foi menor no TAF em relação ao APFT.

    Há também de se considerar que no TAF, sendo o militar julgado pela menor menção lograda nas provas do teste, tem na corrida uma prova “subjetivamente” mais difícil que a flexão de braços. Assim a maior preocupação pode ter sido a busca por um padrão razoável de desempenho na corrida contaminando o restante do teste.

    O desempenho dos militares brasileiros na corrida de 12 minutos do TAF e na corrida de 2 milhas do APFT, foi satisfatório em ambos os protocolos, levando-se a crer que, no que tange à condição aeróbica, os militares brasileiros estão tão bem preparados quanto os americanos.

    Uma explicação para esta discrepância entre condição aeróbia e força/resistência pode decorrer do efeito fenótipo (GALLAHUE e OZMUN, 2003): a existência de um efetivo elevado e equipamentos de transporte modernos e suficientes, não impõem aos militares americanos a necessidade de grandes deslocamentos como no Brasil, onde seus militares devem estar mais preparados neste quesito. Entretanto, a predominância de esportes que trabalham com os membros superiores (basquetebol, basebol, futebol americano), além de uma diversidade maior de armamentos e equipamentos torna mais proeminente o condicionamento de força de membros superiores no exercito americano, em relação ao brasileiro.

    Com relação à diferença de desempenho no teste de flexões abdominais observada entre os protocolos, a diferença no gesto motor (COSTA et al, 2004) parece melhor explicar o fenômeno apresentado. O recrutamento diferenciado das fibras musculares nas flexões abdominais do APFT (máximo em 2 minutos) possivelmente explicou a diferença de ritmo de execução em relação ao TAF (máximo em 5 minutos), padrão este treinado e executado rotineiramente nos treinamentos físicos do exército brasileiro.

Conclusão

    Com base na análise dos resultados obtidos e no objetivo deste estudo, é possível concluir que há diferenças significativas entre os dois protocolos de avaliação militar. Tais diferenças apontam para um déficit em relação ao treinamento anaeróbio e de força de membros superiores dos militares do exército brasileiro em comparação ao exército americano, e de uma suficiência no condicionamento aeróbico dos militares brasileiros em relação ao americano, considerado modelo militar mundial. Porém outras considerações sobre gesto motor e recursos disponíveis de cada exército devem ser feitas nos estudos posteriores que tratem do assunto no intuito de aprofundar tais questões.

Referências

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