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O judô escolar enquanto prática formativa

El judo escolar como práctica formativa

 

*Licenciados e Bacharelados

pela Universidade Metodista de São Paulo
**Mestre em Educação

pela Universidade Metodista de Piracicaba

(Brasil)

Caio Antonaglia Feitosa*
Thales Nakassu*
Amauri Flamino*
Eduardo Okuhara Arruda**

caio_antonaglia@hotmail.com

 

 

 

 

Resumo

          A pesquisa abordou o Judô como um conteúdo da Educação Física escolar que tem em si valores socioculturais de grande riqueza. A natureza da pesquisa é mista, tendo o método qualitativo como instrumento para a coleta dos dados, e quantitativo para análise dos resultados. O objetivo desta pesquisa foi compreender a contribuição da prática do judô na formação dos alunos. Para um melhor embasamento acerca da temática, foi feito um levantamento bibliográfico fundamentado principalmente nas idéias e obras de Darido (2005) e Sugai (2000). Quanto ao levantamento de dados de nossa abordagem de campo, nos remetemos aos pais e responsáveis por alunos de 08 a 10 anos, praticantes da modalidade judô, em uma escola particular do bairro do Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo. A pergunta geradora se fundamentou na indagação de: Como o judô pode contribuir para a educação formativa dos seus/suas filhos (as)? Diante das respostas coletadas retiramos alguns indicadores e pudemos relacionar os pontos de convergência das narrativas e, assim, analisar o material da melhor maneira possível. A partir desta pesquisa foi possível considerar que o judô contribui na formação cidadã de um aluno a partir de um desenvolvimento de ideal socioeducativo definido na formação de sujeitos respeitosos, justos, verdadeiros e livres.

          Unitermos: Judô. Educação Física escolar. Formação.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 15, Nº 153, Febrero de 2011. http://www.efdeportes.com/

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Introdução

    Visto que a Educação Física não deve se limitar em oportunizar aprendizados que permeiam apenas a dimensão biológica do ser humano, é nosso objetivo que essa pesquisa possibilite a visualização de um dos conteúdos da Educação Física que contemple o aluno a partir de sua complexidade. Pretendemos avaliar se um elemento da Cultura Corporal de Movimento pode proporcionar a este sujeito do processo educativo uma contribuição que vá além de uma formação técnica, e se insere pelo fornecimento de saberes que tenham em si engajados valores que venham a embasar uma formação cidadã deste indivíduo. Desta forma, a problemática de nossa pesquisa segue pela indagação acerca de como o judô pode contribuir na educação formativa dos praticantes e se justifica na possível aplicabilidade do judô como conteúdo recorrente da Educação Física escolar, considerando o seu aspecto socioeducativo e formativo, já que é nossa proposta em âmbito escolar contribuir com a formação cidadã dos alunos. O estudo pôde servir de base para algumas considerações que sinalizam uma favorável relação à contribuição formativa e socioeducativa dos alunos praticantes da modalidade Judô.

Aspectos sociohistóricos e culturais

    O judô kodokan, que atualmente é conhecido simplesmente por judô, tem suas bases fundamentadas no antigo Jiu-Jitsu. Este Jiu-jitsu difere do que é praticado hoje no Brasil e aparece, por meio de relatos em crônicas da literatura nipônica, como uma das primeiras manifestações marciais do país, com a denominação de Yawara. (SUGAI, 2000)
Através dos anos várias escolas, tendências e metodologias do jiu-jitsu, foram criadas disseminando o nome da arte no país. Atingindo um nível muito alto a partir do ano de 1871 quando foi baixado um decreto onde estaria proibido aos civis o uso de armas, este privilégio era concedido exclusivamente aos guardas da Corte e aos agentes penitenciários. Sendo assim, as técnicas de combate sem armas passaram a se desenvolver e ganhar corpo na sociedade visto que se vivia um momento de calmaria em movimentos de guerras civis, e estas técnicas assumiam as adaptações necessárias a época. (SUGAI, 2000)

    Como a maioria das artes marciais, o jiu-jitsu foi criado para melhor capacitar o exército nacional, servindo como treinamento para os soldados. Por isso mesmo que, as escolas eram fortemente amparadas pelos clãs militares que, por volta de 1881, tiveram seus prestígios aristocráticos diminuídos em decorrência da queda do poder militar, e seu incentivo às escolas e mestres também se desintensificaram. Os mestres da arte tiveram de buscar outras formas de subsistência, tornando-se escassos no contexto social da época, marcando o declínio do jiu-jitsu. (SUGAI, 2000).

    Jigoro Kano representa muito bem um momento de declínio ditatorial militar, que trouxe consigo movimentos de revolução cultural incentivando a busca por novos conhecimentos, quebra de paradigmas e o trabalho para um bem coletivo. E, motivado pelo seu franzino porte físico, buscou no Jiu-jitsu, arte embasada nos princípios de suavidade e delicadeza para que se vença a brutalidade, uma forma de superar os seus próprios limites, explorando seus potenciais. Após alguns anos lecionando disciplinas como Política e Economia Política reconheceu que sua verdadeira vocação estava na Educação e, assim, tomou para si a missão de educar por meio de algo que lhe completasse e lhe tornava significativo realmente, decidindo expandir a arte que já dominava para que pudesse ser usada em benefício das pessoas e da sociedade de seu país. Nesse sentido, Jigoro Kano via na prática do judô uma possibilidade de educação para todos, pois “compreendia que tinha nas mãos um tesouro cultural que merecia ser conhecido e praticado por todo o mundo”. (Kano s/d apud Sugai 2000, p. 208).

Ressignificando as lutas

    Dentre os conteúdos que cabem à Educação Física, as lutas, a nosso ver, têm maior resistência em sua inserção nos planejamentos de aula. Talvez pela leviana associação a atos de violência retirados de um pensamento senso comum, esquecendo-se de que qualquer atividade quando pressuposta de uma ação pedagógica bem assimilada faz, até mesmo da luta, algo que tenha em si engajado, finalidades e objetivos voltados para o processo formativo.

    No entanto, vale lembrar que o nosso objetivo, como professores de Educação Física situados no âmbito escolar, não é formação de lutadores. Darido (2005, p. 249) chama a atenção para o fato de que

    em geral, as lutas tiveram ao longo da história um desenvolvimento independente do contexto da Educação Física escolar. Assim, é necessário ressignificar as lutas para que elas possam contribuir com os objetivos do componente escolar.

    Este ressignificar, de forma alguma advoga uma quebra do valor cultural que foi atrelado ao seu contexto; pelo contrário, enaltece este ideal, e vai além da mutação do pensamento sobre o que ensinar e como ensinar, e se insere no ponto de repensarmos, também, o que ou como devemos avaliar. Arruda (2006, p. 28) defende um processo de ensino-aprendizagem que vislumbre “superar os adestramentos, as maneiras padronizadas de ensinar e, principalmente, a tendência de esperar/cobrar as mesmas respostas, o que significaria a homogeneização da aprendizagem”

    Desta forma, há de se olhar para o indivíduo sujeito no processo educativo de maneira respeitosa à sua individualidade, observando o conteúdo, de forma não reducionista, mas valorizando a conexão entre os fenômenos pertinentes a ele sem que haja fragmentação.

    Os professores precisam se conscientizar do “poder” que tem em suas mãos, nitidamente aos olhos de quem queira ver, quanto a possibilidade de proporcionar aos alunos, em pouco menos de uma hora (aula), uma viagem a um universo cultural incomensurável, onde, sem que ao menos se transgrida os limites de um pátio, uma quadra, pode-se chegar à Europa, à África, ao mundo Oriental.

    A pergunta é: por que isso não seria possível? Temos de enaltecer a complexidade, a história, os conceitos, as tradições, a consciência proprioceptiva e corporal que está atrelada ao conteúdo. De acordo com Brasil (1998, p. 38) a Educação Física “permite que se vivenciem diferentes práticas corporais advindas das mais diversas manifestações culturais.”. Esta democratização quando abordada de forma integral e contextualizada, torna-se significativa ao aluno, contribuindo para a adoção de uma postura respeitosa, em que o preconceito, os atos discriminatórios às variadas formas de expressão são colocados em cheque.

    Assim amparados, podemos visualizar um ensino das lutas e, em conseqüência de nosso estudo, do Judô, focado em uma forma de aprendizado corporal expressiva, entendo-o e contemplando-o a partir de sua multidimensionalidade, remetido aos conceitos, procedimentos e atitudes.

    Parece-nos claro que, por meio de uma educação que vislumbre o olhar crítico, o pensamento filosófico em sua mais pura concepção, para as questões do mundo, deva insistir no objetivo de dirimir com alguns estereótipos sociais de modo que se apóie na reflexão acerca das práticas em aula, contemplando aspectos de questões disciplinares, de respeito ao adversário e a si próprio; na diferenciação entre uma luta organizada e sistematizada, e atos de violência descabida, entre outras problematizações possíveis que nos fundamentam e dão subsídio para abranger a dimensão atitudinal do conteúdo. As discussões a respeito dos conceitos de equilíbrio e desequilíbrio, imobilizações, lutas formais e suas regras, técnicas e suas possibilidades em combate de forma responsável com a integridade física e moral dos sujeitos da prática embasam a dimensão conceitual das aulas. E a vivência corporal, passando pela aprendizagem formal, e não formal dos movimentos convergem para o entendimento da dimensão procedimental a ser trabalhada. E, por fim, cabe ressaltar que a busca pela auto-superação, a motivação para participar das atividades, bem como, a formação de valores e a formação compreendem a dimensão atitudinal.

Aspectos metodológicos. Um outro olhar

    Educamos por meio de práticas sistemáticas, sobre indivíduos e grupos sociais, intencionados na possibilidade de formar as gerações mais novas através da passagem de conhecimentos, valores e crenças para que novas realizações sejam oportunizadas. (GONÇALVES, 2001)

    Quem educa? Todos. Pelo exemplo, pela palavra, pelas atitudes, a todo o momento. Portanto, nos transpomos da visão de educadores enquanto professores para que possamos ouvir o lado de outro protagonista no ato educativo: os pais. Nada melhor do que a opinião daquele que também está no foco do processo para nos amparar quanto à contribuição que esta sendo dada para a “lapidação”, em seu sentido mais benévolo, de sua jóia mais rara. Seu filho.

    Cinco responsáveis foram ouvidos em discurso aberto, expondo seu posicionamento quanto à possível relevância da prática do judô na educação formativa de seus filhos. Suas respostas serviram de instrumento para um estudo qualitativo, realizado com a intenção de se formatar um repertório de possibilidades de contemplação educativa por meio de uma atividade física bem conduzida. E este instrumento pôde ser compilado em tabela para que se facilite a visualização.

Tabela 01

    As marcações escuras indicam a repetição dos indicadores nos discursos dos responsáveis entrevistados. Suas aparições nos alentam e dão margem para uma interpretação favorável acerca da possibilidade educativa do judô. Parece-nos que o consentimento e voto de confiança daquele que atua lado a lado com o professor, imbuído no mesmo objetivo de formar um cidadão consciente, justo, respeitoso e livre, nos é atribuído. E, assim, deve ser estabelecida uma relação pai-professor, centrada no aluno, baseado na troca de conhecimento e não formalizada de uma maneira bancária.

O judô e seu caráter educativo

    Um dos principais acontecimentos educativos dentre as abordagens que permeiam a cultura corporal do movimento se faz no conhecimento e no re-conhecimento de si próprio. Na leitura de um corpo repleto de possibilidades, fruto de sua individualidade com, acima de tudo, expressividade. (ARRUDA, 2006)

    As artes marciais de um modo geral proporcionam ao aluno uma considerável ascensão neste processo de autoconhecimento, isso se deve à sutil necessidade de observar-se durante a luta. Desta forma, uma relação equilibrada entre ataque ao oponente e proteção aos contra-ataques pode ser estabelecida. Tal fato evidencia a íntima relação das lutas com a meditação, uma vez que esta consiste fundamentalmente no ato de olhar para si mesmo. Um dos nove princípios teóricos básicos do judô nos diz: conhecer-se é dominar-se, e dominar-se é triunfar, fundamentando-nos para esta máxima do olhar para si que, inicialmente parece algo muito simples, no entanto se trata de uma tarefa árdua e trabalhosa. (VIRGÍLIO, 1986)

    Durante uma luta é necessário observar o modo como se caminha no tatame, a maneira como se faz a transferência de peso de uma perna à outra, o posicionamento dos membros superiores e inferiores, o equilíbrio e desequilíbrio causados por cada movimento. E tudo isso se multiplica pelo fato de que não se luta sozinho, logo, os seus movimentos e os de seu adversário coexistem e demandam equilibradamente a atenção do aluno, nos remetendo novamente a relevância da interação e da relação social que se observa no momento da luta. Isso possibilita em longo prazo, que o judoca aumente a sua capacidade de observação, atenção, concentração e alteridade não só durante a luta, mas o autocontrole e a valorização do outro acabam por tornarem-se presentes, também, em seu cotidiano.

    Ju, princípio que compõe o nome da modalidade, associa-se ao fato de que não é a força física em sua forma bruta que possibilitará a vitória, visto que a maior vitória consiste em dominar-se. Já o principio da máxima eficiência se volta para a elevação ou aperfeiçoamento do espírito na ciência do ataque e da defesa, uma vez que é possível utilizar-se da própria força do adversário para derrubá-lo ao chão. E o princípio do bem estar e benefícios mútuos incutem em não desejar o bem só a si, mas na mesma intensidade à todos os seres humanos a partir da reflexão de só assim poderemos ser completos. (JUDO, 2009)

    Para o mestre Kano, considerando o Judô dualisticamente, a prosperidade e benefícios mútuos podem ser vistos como sua finalidade última e a máxima eficiência como meio para atingir esse fim. Podendo visualizar essas doutrinas como formas aplicáveis a todas as condutas do ser humano. (JUDO, 2009)

    Esses princípios levam algum tempo para serem compreendidos e absorvidos, talvez por isso exista o sistema de graduação, onde cada faixa atingida corresponde a um “degrau” alcançado, e nessa longa trajetória até o topo, podemos vivenciar, experimentar, e criar diversas ferramentas disciplinadoras que contribuirão para a formação íntegra do caráter e da disciplina do judoca.

Considerações finais

    A partir desta pesquisa, por todo o levantamento bibliográfico e abordagem de campo, pudemos considerar a relevante contribuição formativa, na educação de um aluno, atrelada ao Judô, que não se resume a uma prática tecnicista voltada para fins exclusivamente corporais e sim, uma manifestação cultural esportiva continente de princípios filosóficos que vêm a preencher lacunas formativas. Estes princípios são aplicáveis não somente com finalidades esportivas, fazendo-se úteis em diversas situações e problemáticas sociais ou profissionais que venham aparecer.

    E isto se torna possível através da visualização de uma Educação Física trabalhada, a partir de seus conteúdos, de maneira mais ampla, mais humanizadora, que contemple corpo, mente e sua co-relação com a sociedade, focada na transformação de vida social. Sobretudo, consideramos de muito apreço que mais estudos acerca desta problemática sejam necessários e venham a corroborar para uma conclusão mais abrangente.

Referências bibliográficas

  • ARRUDA, Eduardo Okuhara. Capoeira – Corpo, complexidade e humanismo: aportes para uma proposta pedagógica. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Metodista de Piracicaba, UNIMEP. São Paulo, 2006.

  • BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. 1998

  • DARIDO, Suraya Cristina e RANGEL, Irene Conceição. Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. 1.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005.

  • GONÇALVES, Maria Augusta Salin. Sentir, Pensar, Agir: Corporeidade e Educação. 5.ed. Campinas: Editora Papirus, 2001.

  • JUDÔ, Federação Paulista de. História do Judô – Princípios Filosóficos. 2009.

  • SUGAI, Vera Lúcia. O caminho do guerreiro I. 2.ed. São Paulo: Editora Gente, 2000.

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