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Análise das ações do goleiro de uma equipe 

de futebol no campeonato brasileiro de 2008

 

*Centro Universitário de Belo Horizonte, UNI-BH

**Preparador de Goleiro

(Brasil)

*Marcos Paulo Gontijo Soares

*Luciano Chequini Espiríto Santo

**Oscar Sevory Nunes Rodriguez

mp.gontijos@yahoo.com.br

 

 

 

 

Resumo

          O goleiro é um atleta que exerce múltiplas funções em um jogo de futebol e sua atuação é de fundamental importância para o resultado do jogo. Baseados nessa premissa o presente estudo teve como objetivo a quantificação das ações ofensivas e defensivas de um goleiro integrante de uma equipe profissional da série A que disputou 38 jogos do Campeonato Brasileiro de 2008. A ferramenta utilizada para esta análise foi o scout com 10 ações defensivas e 5 ações ofensivas em um total de 15 ações, para análise estatística foi utilizado teste qui-quadrado. A partir dos resultados apresentados o goleiro atuou 75% ofensivamente e 25% defensivamente concluindo-se que os goleiros, apesar de terem a função de evitar o gol adversário, participam com uma maior porcentagem de ações ofensivas do que ações defensivas, sendo que o mesmo tem uma maior porcentagem de erros nas ações ofensivas. Com o presente estudo evidencia a necessidade de se criarem treinamentos específico para os goleiros, não priorizando somente as ações defensivas, mais também dando uma atenção para as ações ofensivas, pois estas podem contribuir para um ataque de sua equipe.

          Unitermos: Scout. Futebol. Ações do goleiro.

 

 
http://www.efdeportes.com/ EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 15, Nº 149, Octubre de 2010. http://www.efdeportes.com/

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Introdução

    O futebol, por ser um esporte coletivo, possui posições específicas onde cada jogador atua e procura se aperfeiçoar. Uma delas, é a do goleiro que, sem dúvida, é uma das mais importantes para a equipe e de grande responsabilidade ¹.

    Em 1863, a partir da redação das regras do esporte, fundou-se a Football Association, que, oito anos mais tarde, criou a posição do goleiro. Este é o único jogador entre os onze atletas componente da equipe, que pode se valer de uma das regras do rúgbi, ou seja, pegar a bola com as mãos. Desde então, o goleiro é um dos personagens do futebol que mais vem contribuindo para a evolução dessa modalidade esportiva. Haja vista que, ante a dificuldade fazer gols, a FIFA promove alterações nas regras para aumentar as chances de fazê-los, garantindo um bom espetáculo para o público ². A proibição de pegar a bola recuada com as mãos e, a limitação do tempo com a sua posse, são exemplos de como o futebol mudou por causa do goleiro.

    O goleiro é um atleta que exerce múltiplas funções, dentre elas estão: a defesa da meta, a reposição da bola em jogo e a orientação do jogo³. Algumas ações defensivas podem ser destacadas como: pegada alta no meio e na altura do peito, encaixe, defesa rasteira no meio, e nas laterais, defesa à meia altura nas laterais, defesa alta no meio, e nas laterais, defesa com os pés, saídas nos cruzamentos, enfrentamento, penalidade máxima e defesas com formação de barreiras4.

    Com as reposições o goleiro é o primeiro jogador a reiniciar o jogo, podendo iniciar um contra ataque5, e essas reposições podem ser realizadas com as mãos ou com os pés de acordo com a distância e habilidade do membro a utilizar6.

    São exigidas condições especiais do atleta para ocupar a posição de goleiro³. Sendo assim, o atleta deve ter consciência de que suas falhas serão mais visíveis por torcedores e comissão técnica do que das outras posições do jogo7. O goleiro pode ser comparado, respeitando as devidas proporções, a um piloto de fórmula1. Todos dois têm uma equipe por trás, bastando apenas uma falha do atleta para definir o resultado de uma competição8.

    Diante de tantas peculiaridades, não seria possível um tratamento e um preparo comum a quem tem a responsabilidade de fazer com que o momento máximo desse esporte, o gol, não seja atingido. Assim, destaca-se a importância de uma elaboração rigorosa do planejamento do treinamento em razão das especificidades dos fatores que envolvem a preparação dos goleiros de futebol de campo9. Para a elaboração desse planejamento é importante a pesquisa, a investigação, a discussão e a apresentação de resultados científicos na área de atuação do goleiro de futebol. Buscando elementos técnicos, físicos, táticos e psicológicos mais próximos da realidade dos jogos10. O estudo11 destaca que um goleiro bem preparado fisicamente, tecnicamente e psicologicamente é meio caminho andado para que sua equipe saia vencedora. Contudo, há ainda, poucos estudos científicos que forneçam subsídios teóricos para o treinamento deste atleta.

    Uma maneira de modelar as situações de treino na procura da eficácia competitiva é a análise do jogo de futebol, que tem grande importância para treinadores e investigadores12. Uma ferramenta que pode ser incorporada à analise é o scout, que aplicado por um longo período, poderá servir como parâmetro das ações realizadas pelo goleiro durante o jogo. O estudo13 destaca a importância desse instrumento no futebol, devendo ser utilizado por quem tenha um grau elevado de conhecimento dos aspectos relativos a essa análise.

    Dessa forma, o presente estudo tem o objetivo de quantificar as ações ofensivas e defensivas de um goleiro integrante de uma equipe profissional de futebol de campo durante o Campeonato Brasileiro de 2008.

Procedimentos metodológicos

Amostra

    A amostra foi composta por um goleiro de uma equipe de futebol que disputou o Campeonato Brasileiro de 2008, da serie A e que já integrou a Seleção Brasileira. Exerce, há 14 anos, a atividade como profissional, possui 29 anos de idade, 1,89 m de altura, e 93 quilos.

Instrumentos

    No presente estudo foi utilizado um scout, construído de acordo com as ações realizadas pelo goleiro durante um jogo de futebol. Scout é uma palavra da língua inglesa significando explorador. É um instrumento contendo informações sobre erros e acertos dos atletas e de acordo com o estudo14 diz respeito à obtenção de dados a partir de anotações, em uma planilha, das variáveis desejadas em tempo real, ou seja, no momento em que ocorre o jogo.

    O scout em estudo contém as seguintes ações ofensivas do goleiro: tiro de meta nos lados esquerdo e direito, reposição com as mãos, com os pés e à frente (reposição em longa distância realizada com o pé). E ações defensivas como: saída do gol, pelos lados esquerdo e direito, defesa rasteira na direita e na esquerda, defesa central alta e baixa, defesa alta na esquerda e na direita (defesa onde o goleiro realiza o salto com queda) e escanteio nos lados esquerdo e direito. Baseando-se nesses critérios, foram observados acertos e erros do atleta.

Procedimentos

    O campeonato foi composto por 38 jogos, no período entre 10/05/2008 a 07/12/2008. Durante os jogos, as ações do goleiro foram coletadas pelo treinador de goleiros do clube através do scout. Posteriormente, os dados colhidos foram registrados pelos pesquisadores no Microsoft Excel 2003, onde foram calculadas a porcentagem e a média sobre o total das ações do goleiro e ilustrados em gráficos e tabelas. Para a realização do teste Qui-Quadrado de proporções com nível de significância de p<0,05 para comprovar os dados, foi utilizado o software SPSS 12-0.

Cuidados éticos

    Por tratar-se de uma pesquisa que envolve dados esportivos, todos os cuidados éticos foram tomados no sentido de garantir o anonimato do atleta e do clube envolvido. Os dados coletados só foram utilizados para o diagnóstico das variáveis observadas no trabalho.

Resultado

    Foram observados 38 jogos que apresentaram 1068 ações do goleiro, com média de 28,10 ações por jogo. Das 1068 ações do goleiro, 915 foram de acertos, atingindo média de 24,07 por jogo. Ainda, foram levantados 153 erros com média de 4,02 por jogo. Do total de ações, 806 foram ofensivas, registrando média de 21,21 por jogo e 262 ações defensivas, com média de 6,89 por jogo.

    Depois de transformar o número total das ações do goleiro no campeonato em porcentagem e realizar o teste com nível de significância de p<0,05, foi comprovada a superioridade das ações ofensivas sobre as defensivas (Gráfico 1).

Gráfico 1. Proporção das ações Ofensivas e Defensivas

    A relação entre erros e acertos das ações ofensivas e defensivas, foi analisada de forma distinta e verificou-se que o goleiro tem maior porcentagem de acertos nas ações defensivas e maior porcentagem de erros nas ações ofensivas. O percentual de erros é maior nas ações ofensivas com 18% do que nas defensivas com 4%. Conseqüentemente o percentual de acertos defensivos com 96% é maior que a porcentagem de acertos ofensivos que corresponde a 82% (Gráfico 2 e 3).

Gráfico 2. A relação de erros e acertos nas ações Ofensivas

 

Gráfico 3. A relação de erros e acertos nas ações Defensivas

    A ação defensiva mais realizada pelo goleiro foi a defesa central totalizando 34,35%. E a menos realizada foi a defesa alta com 6,48%. De acordo com o teste qui-quadrado, as ações acima da expectativa foram a defesa central e a saída do gol (Tabela 1).

Tabela 1. Comparação das ações Defensivas

Ação Defensiva

N

%

Resíduo

Defesa central

90

34,35

37,6*

Saída do gol

79

30,15

23,4*

Defesa Rasteira

47

17,93

-5,4

Escanteio

29

11,06

-26,6

Defesa alta

17

6,48

-35,4

Total

262

100

p<0,001

    A ação ofensiva mais realizada foi a reposição com as mãos com 24,68% e a menos realizada foi o tiro de meta direito com 12,4%. Quando realizado o teste qui-quadrado, as ações ofensivas acima da expectativa foram: tiro de meta esquerdo, reposição com as mãos e reposição com os pés (Tabela 2).

Tabela 2. Comparação das ações Ofensivas

Ação Ofensiva

N

%

Resíduo

Tiro de meta esquerdo

190

23,57

28,8*

Reposição com mãos

199

24,68

37,8*

Reposição com pés

171

21,21

9,8*

Reposição a frente

146

18,11

-15,2

Tiro de meta direito

100

12,4

-61,2

Total

806

100

 

p<0,001

    Analisando algumas variáveis das ações defensivas, observou-se que, ao somar as ações de defesa aos gols sofridos obteve-se o número de finalizações que atingiram o gol durante o campeonato. No campeonato em estudo, 198 finalizações atingiram o gol do atleta avaliado. Porém, um gol já havia sido registrado como falha defensiva, chegando –se a um valor de 197 finalizações, com média de 5,18 por jogo. Das finalizações, 43,68% corresponde à defesa central (defesa sem queda), o maior percentual registrado. E 23,85% à defesa rasteira (defesa com queda). Em 22,33% das finalizações, o goleiro sofreu gol, com média de 1,15 por jogo (Tabela 3).

Tabela 3. Ações que indicam uma finalização em gol

Ações

Total

%

Rasteira

47

23,85

Central

90

43,68

Alta

17

8,62

Gol

44

22,33

Total

198

100

Discussão

    Como foi verificado, 75% das ações foram ofensivas, resultado superior às ações defensivas que apresentaram o percentual de 25%. Este resultado foi corroborado pelo GALLO et all6 que caracteriza predominância das ações ofensivas do goleiro sobre as defensivas, portanto foram observadas 58,70% de reposições de bola contra 20,90% de saídas do gol e 20,40% de saltos/quedas/defesas, resultando uma diferença de 17,40% a mais de ações ofensivas como reposição de bola. Em 2008, a equipe do goleiro analisado sofreu aproximadamente 10,7 finalizações em média por jogo segundo o analise estatísticas do site UOL16, sendo 48% corretas totalizando uma média de 5,2 finalizações por jogo que atingem o gol e 52% erradas com média de 5,5 finalizações por jogo que não atingem o gol. Esses dados podem justificar o número superior de ações ofensivas, podendo existir uma relação entre as finalizações que foram para fora do gol e o número de ações ofensivas do goleiro. Já que estas ações podem ser determinadas pelo número de tiros de meta. Outro aspecto notado foi a ação defensiva podendo influenciar a ação ofensiva quando o goleiro fica com a posse da bola. Neste estudo o goleiro apresentou um maior percentual de erro nas ações ofensivas. Assim, deve-se direcionar os treinos valorizando o trabalho de reposição, pois segundo Gonçalves e Nogueira15 esta é uma ação ofensiva, caracterizada como elemento técnico-tático, que pode contribuir para um ataque rápido. Corrobora com a afirmação o estudo15. Pelo resultado, verifica-se que o goleiro realiza mais a defesa central, ou seja, defesa sem queda. Abelha afirma que uma defesa é realizada sem necessidade de salto quando o goleiro está bem posicionado, possibilitando-nos afirmar que o goleiro em estudo possui um bom posicionamento. Haja vista um maior percentual de defesa sem queda com 43,68% contra 32,48% com queda.

    O estudo destaca a importância do goleiro no futebol, apesar disto existem poucos estudos científicos sobre o treinamento técnico táticos do goleiro corroborado pelo estudo15 que destaca a necessidade de ampliação das fontes sobre este treinamento minimizando as teorias do senso comum e ampliando as fontes acadêmicas, reforçando está idéia o estudo6 destaca o avanço nas pesquisas referentes às áreas da fisiológia, da medicina e da psicologia esportiva, porém ao tratar de treinamento de goleiro existem poucos trabalhos relacionados a este profissional.

Conclusão

    Conclui-se que apesar do goleiro ter uma função de evitar o gol adversário ele participa mais ofensivamente do que defensivamente durante o campeonato brasileiro de 2008

    O atleta obteve um percentual maior de erros nas ações ofensivas, e maior percentual de acertos nas defensivas. Sugere-se então, aumentar o volume de treino que envolva reposição de bola e não somente trabalhar as ações defensivas, pois isto pode contribuir para o resultado da partida. Ao analisar os dados defensivos, o goleiro atua acima da expectativa nas ações de saída do gol e defesa central. Conclui-se que, o goleiro em estudo tem um bom posicionamento em campo, pois realiza maior número de defesa central sem a realização da queda.

    Aconselha-se aos profissionais responsáveis pela preparação de goleiros que aprofundem ainda mais nas questões técnico-táticas baseando-se em estudos científicos, especialmente no que diz respeito às ações específicas à posição do atleta em questão, preparando-o para as competições com maior eficácia.

Referências

  1. JUNIOR, Alcides B.; GALDINO, Mauricio L. O lado forte do goleiro de futebol. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires - Ano 13 - N° 122 - Julio de 2008. http://www.efdeportes.com/efd122/o-lado-forte-do-goleiro-de-futebol.htm

  2. MARTINS, Érik A. Aspectos históricos sobre a origem e a evolução do treinamento de goleiro: Ruptura de paradigma no novo processo de formação. Disponível em 01/09/2008: http://www.universidadedofutebol.com.br/2008/09/1,1791,ASPECTOS+HISTORICOS+SOBRE+A+ORIGEM+E+A+EVOLUCAO+DO+TREINAMENTO+DE+GOLEIRO.aspx?p=1. Acesso em 10 de agosto de 2009

  3. CARLESSO, R. A. Manual de treinamento do goleiro. Rio de Janeiro: Palestra,1981.

  4. DOMINGUES, A. Goleiro 100 segredos. 20. ed, Curitiba: Verbo, 1997.

  5. FRISSELLI, A.; MANTOVANI, M. Futebol teoria e prática. São Paulo: Phorte, 1999.

  6. GALLO, Carlos R.; ZAMAI, Carlos A.; VENDITE, Laércio; LIBARDI, Cleyton. Análise das ações defensivas e ofensivas, e perfil metabólico da atividade do goleiro de futebol profissional. Revista da Faculdade de Educação Física da UNICAMP, Campinas, v. 8, n. 1, p. 16-37, jan./abr. 2010. ISSN: 1983-930

  7. VIANA, Adalberto R. Treinamento do Goleiro de Futebol. Minas Gerais: Gav, 1995.

  8. FLEURY, Suzy. Competência Emocional: O caminho da vitória para equipes de futebol. São Paulo: Gente, 1998.

  9. BOMPA, T. Periodização: teoria e metodologia do treinamento. 4. ed. São Paulo: Phorte, 2002.

  10. VOSER, R. C.; GUIMARÃES, M. G. V.; RIBEIRO, E. R. Futebol: história, técnica e treino de goleiro.

  11. ABELHA,JBL. Treinamento de Goleiro Técnico e Físico. São Paulo: Ícone 1999

  12. GARGANTA, J. Modelação tática do jogo de futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 1997. Tese (Doutorado). Faculdade de Ciência do Desporto e de Educação Física, Universidade do Porto

  13. VENDITE C. C. MORAES, A.C., VENDITE, C. Scout no futebol: uma análise estatística. In: Congresso Científico Latino-Americano FIEP-UNICAMP, Piracicaba, Brasil, 2000.

  14. MISUTA, M. S. Rastreamento automático de trajetórias de jogadores de futebol por videogrametria: validação do método e análise dos resultados. 2004. Tese (Mestrado). Universidade Estadual de Campinas, Campinas

  15. GONÇALVES, G. A.; NOGUEIRA, R. M. O; O treinamento específico para goleiros de futebol: uma proposta de macrociclo. Goiânia, v. 33, n.7/8, p. 531-543, jul./ago.2006.

  16. Site Uol Análise estatísticas do campeonato brasileiro 2008. Disponível em 07/12/2008: <http://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/brasileiro/2008/futebol_estatistica.jhtm. Acesso> em 25 de Abril de 2010

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