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O Estágio Curricular Supervisionado e a formação

do futuro professor de Educação Física

 

*Licenciada em Educação Física – UFSM

Especialista em Educação Física Escolar- UFSM

Mestranda em Educação - UFPel

**Doutor em Educação e em Ciência do Movimento – UFSM/UNICAMP

Professor Adjunto - UFSM

Andressa Aita Ivo*

dessaaita@yahoo.com.br

Hugo Norberto Krug**

hnkrug@bol.com.br

(Brasil)

 

 

 

Resumo

          A disciplina de Estágio Curricular Supervisionado nos cursos de Licenciatura proporciona aos acadêmicos o acesso à escola atuando como professores, além destes poderem vivenciar o cotidiano escolar. Nesse sentido, este estudo teve como objetivo analisar as contribuições do Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Médio para a realização do Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Fundamental. A abordagem de pesquisa utilizada foi a qualitativa, com as informações coletadas através de questionário e entrevista semi-estruturada, seguida de análise de conteúdo. Os participantes do estudo foram vinte (20) acadêmicos do 6° semestre do primeiro semestre letivo de 2008 da Nova Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal de Santa Maria, integrantes da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado II – Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental. Assim, constatou-se que as mudanças ocorridas no Estágio Curricular Supervisionado visam uma melhora na formação inicial dos futuros professores de Educação Física, apesar de os acadêmicos ainda não conseguirem estabelecer muitas relações entre os dois níveis de estágio, percebe-se um amadurecimento na prática pedagógica dos mesmos. Entretanto ainda muitas reflexões devem ser realizadas sobre como tal momento está acontecendo, portanto este estudo em momento algum buscou esgotar tal temática, nem mesmo fechar as questões ou propor respostas certas e definitivas, mas estimular novas perguntas, novas práticas, novas leituras, novas relações e novas possibilidades.

          Unitermos: Educação Física. Educação Física Escolar. Prática pedagógica. Formação de professores. Formação inicial. Estágio Curricular Supervisionado.

 

Abstract

          The subject Supervised Curricular Traineeship in Licensing Academic courses provides the undergraduates with access to schools acting as teachers, besides giving them the opportunity to experience the everyday school. In this way, this study had as its objective to analyse the contributions of the Supervised Curricular Traineeship in High Schools in order to apply Supervised Curricular Traineeship in Elementary and Middle Schools. The researching method used was the qualitative one, with information collected through semi-structured interview, followed by subject analysis. The participants of the study were the 12 undergraduates from 6th semester of the New Licensing in Physical Education at the Federal University of Santa Maria, belonging them to the subject of Supervised Curricular Traineeship II. Therefore, it was verified that changes happened in the Supervised Curricular Traineeship aim at improving the initial development of the future P.E. teachers. Even though the undergraduates still cannot establish many relations between the two levels of traineeship, it is possible to see an improvement in their pedagogical practice. Many reflections, however, need to be made about how such moment is happening, then this study never attempted to exhaust this thematic, nor close the questions or propose right and definitive answers, but to stimulate new questions, new practices, new readings, new relations and new possibilities.

          Keywords: Physical Education. School Physical Education. Pedagogical practice. Teachers’ development. Initial development. Supervised Curricular Traineeship.

 
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 13 - Nº 127 - Diciembre de 2008

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Contextualização da investigação

    A prática pedagógica do professor de Educação Física tem proporcionado inquietações, que resultam em inúmeras investigações e estudos que procuram esclarecer como o professor constrói a sua prática desde sua formação inicial, sua atuação docente e sua formação continuada.

    Dentre as disciplinas que constam do currículo da nova Licenciatura em Educação Física do Centro de Educação Física e Desportos (CEFD), da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), destaca-se o Estágio Curricular Supervisionado (neste estudo as palavras Estágio Curricular Supervisionado e Prática de Ensino serão utilizadas como sinônimos, visto que estas se diferem apenas como nomenclaturas curriculares) por sua relevância na formação do futuro professor, visto que esta propicia ao acadêmico a imersão e atuação com a realidade escolar.

    O currículo da nova Licenciatura em Educação Física do CEFD da UFSM (CEFD/UFSM Resoluções CNE/CP 01 e 02/2002 – Versão 2005) proporciona o Estágio Curricular Supervisionado I, II e III no 5º, 6º e 7º semestres, realizados respectivamente no Ensino Médio, Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental e Séries/Anos Iniciais do Ensino Fundamental, com uma carga horária de 120 horas destinadas a cada estágio. Dentre as mudanças curriculares, entre a Licenciatura Plena (Versão 1990) e a Licenciatura (Versão 2005), esta é apenas uma delas. Ressaltamos que não consideramos a mais ou menos importante mudança, mas a que nos motivou a realização deste estudo, pois na Versão 1990, o Estágio, ou melhor, a Prática de Ensino era ofertada, somente, no 7º semestre, com carga horária de 60 horas, caracterizando assim, como o modelo 3+1 (três anos de teoria mais um ano de prática) na formação de professores.

    Neste contexto de formação profissional, entendemos que o professor de Educação Física é também um educador, e desta forma sua prática pedagógica se constrói de forma contínua e deve estar relacionada com a realidade escolar. Assim, o Estágio Curricular Supervisionado é um dos momentos durante a graduação que oportuniza tal experiência aos futuros educadores.

    Ao escolhermos o Estágio Curricular Supervisionado II – Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental, o qual é desenvolvido no 6° semestre, pretendemos perceber a sua importância e como o mesmo ocorre na formação inicial da nova Licenciatura em Educação Física do CEFD da UFSM.

    Consideramos que estudar o que e quem envolve esta disciplina é tarefa daqueles que se preocupam com uma formação de qualidade para os futuros docentes.

    Neste sentido, é necessário estudar as facilidades e dificuldades de desenvolvimento do Estágio Curricular Supervisionado, pois para uma melhora na qualidade de ensino é preciso ocorrer um confronto entre a realidade desejada e a que temos, além de enfrentar as situações problemáticas e a resolução destas.

    Sendo assim surgiu a questão problemática norteadora deste estudo: Qual é a contribuição do Estágio Curricular Supervisionado na formação do acadêmico da Nova Licenciatura em Educação Física do CEFD da UFSM?

    A partir deste, estruturou-se o objetivo geral do estudo como sendo: analisar as contribuições do Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Médio realizado pelos acadêmicos do CEFD da UFSM para o desenvolvimento do Estágio Curricular Supervisionado nas Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental.

    Do objetivo geral elaboramos alguns objetivos específicos para que se compreendesse melhor o intuito deste estudo: a) identificar as contribuições do Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Médio para o planejamento das aulas desenvolvidas no Estágio Curricular Supervisionado nas Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental; b) identificar as contribuições do Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Médio para a solução dos problemas das aulas desenvolvidas no Estágio Curricular Supervisionado nas Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental.

    A argumentação sobre a importância do desenvolvimento deste estudo justificou-se pela necessidade de se realizar uma investigação sobre a formação dos futuros professores de Educação Física, analisando a relevância do Estágio Curricular Supervisionado desenvolvido durante a graduação.

    Assim, pretendemos com este estudo contribuir para a formação inicial de professores de Educação Física, pois a prática pedagógica destes, muitas vezes, é o reflexo de sua formação. Portanto, é necessário que cada vez mais se investigue sobre como os futuros educadores vêm se constituindo e percebendo professores para após a conclusão do curso se inserirem na realidade escolar.

Referencial teórico

O professor e sua prática pedagógica

    Os processos educativos são muito complexos, e não se definem por uma única variável, pois o âmbito educacional se faz repleto de condicionantes. Neste sentido, a prática pedagógica se configura na interação de todos os elementos que nela intervêm (ZABALA, 1998).

    No processo educacional, o professor é aquele que faz a mediação das relações educativas, e, desta forma, pode transformar a realidade escolar e/ou social. Nesta perspectiva, Freire (2007) destaca que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção, e nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo.

    A prática pedagógica do professor passa, portanto a ser construída e reconstruída concomitantemente com as necessidades que se fazem presentes nos processos de ensino-aprendizagem, pois, como relata Zabala (1998), educar quer dizer formar cidadãos e cidadãs, que não estão parcelados em compartimentos estanques, em capacidades isoladas.

    O aluno, nesta visão de Educação, é integrante do processo de ensino, o que possibilita a formação integral do mesmo, de maneira que este deixa de ser um espectador na sala de aula e passa a modificar e transformar o conhecimento que lhe é transmitido pelo professor, ocorrendo assim uma troca mútua de informações entre professor e aluno.

    Assim, a prática pedagógica do professor necessita estar sempre em contínua transformação, e este deve entender que antes de professor é um educador, e portanto, a prática pedagógica não se dá apenas no curso de graduação, mas como afirma Carreiro da Costa (1994), é um continuum que começa antes da formação inicial e se prolonga por toda a vida.

Estágio Curricular Supervisionado

    A formação profissional de professores é o objetivo dos cursos superiores de licenciatura. Para tal, estes necessitam proporcionar aos acadêmicos, experiências profissionais que os coloquem em contato com a realidade na qual futuramente estarão inseridos. Na maioria das vezes, este momento caracteriza-se como sendo a oportunidade do acadêmico colocar em prática o conhecimento teórico recebido até então pelas disciplinas ditas teóricas.

    A disciplina de Estágio Curricular Supervisionado é o momento em que o acadêmico confronta-se com a escola, e com sua futura profissão, ser professor. Agora este passa de aluno, que até então é o que fora para a posição de professor, devendo, portanto assumir uma nova postura no processo de ensino.

    Na Nova Licenciatura em Educação Física do CEFD da UFSM, o Estágio Curricular Supervisionado ocorre no 5o, 6o e 7o semestres, respectivamente no Ensino Médio (I), Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental (II) e Séries/Anos Iniciais do Ensino Fundamental (III). Cada Estágio (I-II-III) possui carga horária de 120 horas, sendo dividido em encontros com o professor responsável pela disciplina (orientação) e as aulas ministradas na escola pelos acadêmicos (docência).

    Nos cursos de licenciatura em Educação Física, a disciplina de Estágio Curricular Supervisionado, proporciona aos acadêmicos o acesso à escola, possibilitando que estes vivenciem o papel de professores. Visto que, estes serão responsáveis por uma turma, desenvolvendo os conteúdos que serão trabalhados durante as aulas. Para isso, deverão ter autonomia para gerir as aulas, adotando concepções de ensino, metodologias e técnicas didáticas que guiem o processo de ensino e aprendizagem.

    Neste caso, segundo Teixeira (apud KRUG, 2001), o Estágio Curricular Supervisionado/Prática de Ensino é uma disciplina integradora de conhecimentos por que reúne “o que ensinar”, “como ensinar”, e, “porque ensinar”, estabelecendo uma relação quanto à finalidade, conteúdo e formas do ensino envolvendo desta forma uma vinculação às outras ciências que servirão de base, como por exemplo, a Psicologia da Educação, Filosofia da Educação, Sociologia da Educação, História da Educação e as Metodologias Específicas de cada uma das disciplinas que o futuro professor irá atuar.

    Segundo Pimenta; Lima (2004), o Estágio Curricular Supervisionado/Prática de Ensino passa a ser um retrato vivo da prática docente e o professor-aluno terá muito a dizer, a ensinar, a expressar sua realidade e a de seus colegas de profissão, de seus alunos, que nesse mesmo tempo histórico vivenciam os mesmos desafios e as mesmas crises na escola e na realidade.

    É neste momento, que surgem as mais variadas inquietudes na prática pedagógica do acadêmico, pois aqui ocorre o confronto direto entre a teoria e a prática. Segundo Krug (2001, p.41), “é importante o professor ‘refletir na’ e ‘sobre a sua ação’, porque desta forma estará supervalorizando o ‘saber’, o ‘fazer’ e o ‘porquê fazer’, que são fontes do processo de produção de conhecimento”.

O Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Médio

    Na Nova Licenciatura em Educação Física do CEFD da UFSM, o Estágio Curricular Supervisionado I – Ensino Médio é realizado durante o 5º semestre.

    Segundo Krug; Krüger (2007) a disciplina de Educação Física no Ensino Médio nas escolas com Estágio Curricular Supervisionado do CEFD/UFSM caracteriza-se pela presença de duas formas de estruturação organizacional diferentes, podendo assim, ser realizada no formato de clubes, ou no formato de disciplina curricular. Os clubes são divididos de acordo com as categorias esportivas, podendo o aluno optar pelo esporte de sua preferência, além de serem separados por gênero.

    Quando as aulas de Educação Física ocorrem no formato de disciplina curricular, a proposta de ensino é estipulada pelo professor da mesma, como: separação de gêneros ou turmas mistas, os conteúdos, a metodologia, enfim todo o desencadeamento das aulas.

    Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), os alunos das aulas de Educação Física no Ensino Médio não são apenas jovens, eles agregam sua faixa etária a um conjunto de marcas simbólicas que são extremamente importantes para a sua constituição (BRASIL, 2000).

    Assim, as aulas de Educação Física não acontecem em um local abstrato, elas acontecem e são realizadas por sujeitos concretos, reais, possuidores de histórias de vida e, sobretudo, de um corpo. É nessa vida real e concreta de alunos e alunas que estão às marcas que constituem suas identidades pessoais e coletivas.

O Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Fundamental

    Na Nova Licenciatura em Educação Física do CEFD da UFSM, o Estágio Curricular Supervisionado II – Séries/Anos do Ensino Fundamental é realizado durante o 6º semestre.

    A disciplina de Educação Física no Ensino Fundamental é ofertada de 5a a 8a séries, com turmas mistas, ou seja, meninos e meninas juntos, ou ainda turmas separadas por gênero.

    De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), ressaltam-se alguns dos objetivos do ensino fundamental, tais como: promover uma educação de modo que os alunos sejam capazes de compreender a cidadania como participação social e política, posicionando-se de maneira crítica e responsável nas diferentes situações sociais, além de conhecer as características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e culturais, e assim conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sócio-cultural. Ainda, é necessário que o aluno conheça seu próprio corpo e dele cuide, adotando hábitos saudáveis, que favoreçam sua qualidade de vida (BRASIL, 2000).

    Desta forma os PCNs, esclarecem que o trabalho de Educação Física nas Séries Finais do Ensino Fundamental é muito importante na medida em que possibilita aos alunos uma ampliação da visão sobre a cultura corporal de movimento, e, assim, viabiliza a autonomia para o desenvolvimento de uma prática pessoal e a capacidade para interferir na comunidade, seja na manutenção ou na construção de espaços de participação em atividades culturais, como jogos, esportes, lutas ginásticas e danças, com finalidades de lazer, expressão de sentimentos, afetos e emoções. Ressignificar esses elementos da cultura e construí-los coletivamente é uma proposta de participação constante e responsável na sociedade (BRASIL, 2000).

Caminhos metodológicos

    Este estudo caracteriza-se como sendo qualitativo, o qual surge como alternativa metodológica para estudos voltados a Educação, tendo em vista que até então a concepção quantitativa nas ciências humanas predominava. Segundo Triviños (1987), a pesquisa qualitativa não estabelece separações rígidas entre a coleta de informações e as interpretações das mesmas, o estudo desenvolve-se como um todo, pois todas as partes estão relacionadas.

    Os participantes do estudo foram os acadêmicos do 6° semestre do primeiro semestre letivo de 2008 da nova Licenciatura em Educação Física do CEFD da UFSM, que realizaram o Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Médio (I) e após realizaram o Estágio Curricular Supervisionado nas Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental (II). Foram entrevistados doze (12) acadêmicos, sendo seis (6) do sexo feminino e seis (6) do sexo masculino.

    Todos acadêmicos participaram de maneira voluntária na realização do estudo, e para manter o anonimato destes, os mesmos foram identificados através de números aleatórios.

    Para a coleta de informações foram utilizados um questionário com questões fechadas sobre o Estágio Curricular Supervisionado e uma entrevista semi-estruturada. Segundo Triviños (1987) a entrevista semi-estruturada é um instrumento que parte de questões básicas que interessaram à pesquisa fornecendo amplo campo de interrogativas que vão surgindo à medida que o entrevistado as responde.

    O questionário foi respondido por 20 acadêmicos e a partir deste foram selecionados os 12 participantes para a realização das entrevistas. Para tal criaram-se alguns critérios, tais como: 

  1. número de aulas ministradas, levando em consideração a variação da quantidade de aulas ministradas pelo acadêmico, ou seja, acadêmicos com poucas horas aula durante um estágio e um maior número de horas aulas no outro estágio; 

  2. realização do Estágio Curricular Supervisionado no Ensino Médio na forma de clubes e posteriormente no Estágio Curricular Supervisionado nas Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental na forma curricular curriculares; e, 

  3. acadêmicos de ambos os sexos na mesma quantidade.

    As informações sofreram uma análise de conteúdo, através da retirada de indicadores das entrevistas, após a transcrição destas. Bardin (1977) ressalta que este tipo de análise pode ser aplicada a discursos extremamente diversificados.

    Para o autor a utilização da análise de conteúdo prevê três etapas principais: 1ª) a pré-análise – etapa que trata do esquema de trabalho, envolve os primeiros contatos com os documentos de análise, a formulação de objetivos, definição dos procedimentos a serem seguidos e a preparação formal do material; 2ª) a exploração do material – etapa que corresponde ao cumprimento das decisões anteriormente tomadas, isto é, leitura de documentos, categorização, entre outros; e, 3ª) tratamento dos resultados – etapa onde os dados são lapidados, tornando-os significativos, sendo que esta etapa de interpretação deve ir além dos conteúdos manifestos nos documentos, buscando descobrir o que está por trás do imediatamente apreendido.

Análise interpretativa

O Estágio Curricular Supervisionado e suas contribuições

    As entrevistas realizadas com os acadêmicos constituíram-se de questões abertas, como: as influências do Estágio Curricular Supervisionado realizado no Ensino Médio na prática pedagógica dos mesmos, posteriormente no Ensino Fundamental e no planejamento de suas aulas. A partir, destas questões foram desmembrando-se as demais de acordo com as inquietações dos acadêmicos.

    Desta forma, várias relações são estabelecidas entre os dois níveis do Estágio Curricular Supervisionado, promovendo uma série de indagações acerca do mesmo.

Organização das aulas de Educação Física

a.     Plano de ensino

    Todos acadêmicos elaboram um plano de ensino durante os dois estágios, entretanto este foi construído para poucas aulas, visto que a quantidade de aulas ministradas pelos mesmos no Estágio variou de acadêmico para acadêmico, apresentando um mínimo de três (3) aulas e no máximo trinta (30) aulas. Neste sentido, a Acadêmica 8 relata em sua fala: “eu sempre planejo as aulas, eu fiz um planejamento no início das aulas e depois fui adequando conforme as necessidades deles”.

    De acordo com Piletti (1995), vários são os motivos que embasam a importância do planejamento, tais como: a) evita a rotina e o improviso; b) contribui para o alcance dos objetivos visados; c) promove a eficiência do ensino; d) garante maior segurança na gestão da classe; e) economiza tempo e energia.

b.     Planos de aula

    Com relação ao plano de aula percebemos que todos acadêmicos o possuíam durante os dois estágios, porém para alguns o plano de aula em muitos momentos não foi seguido, estando presente apenas teoricamente. O que pode ser notado na fala da Acadêmica 12: “(...) no Ensino Fundamental trabalhei os quatro esportes, dependia da quadra livre naquele dia e nem sempre a quadra que me avisaram que seria a minha era no dia da aula, portanto muitas vezes a aula que eu havia planejado eu não poderia trabalhar, então eu adequava o planejamento de acordo com a quadra que estava livre naquele dia”.

    Para Turra et al. (1975) o plano de aula possibilita o professor a pensar reflexivamente e sistematizar o que vai ensinar e trabalhar com seus alunos, eliminando a improvisação tão prejudicial à prática pedagógica.

c.     Gênero das aulas

    Quanto ao gênero das aulas, percebemos algumas variáveis influenciam no mesmo, como: a série, a escola e o professor de Educação Física, pois é de acordo com o Projeto Político-Pedagógico (PPP) e o próprio professor da escola que ocorre a estruturação das aulas de Educação Física. Sendo assim, durante o Estágio Curricular Supervisionado (I) e (II), os alunos tiveram experiências tanto com turmas mistas, como separadas por gênero. Como se percebeu nas seguintes falas:

    “No Ensino Médio eu trabalhei com clube de futsal e eu dava aula no futsal masculino para o 1°, 2° e 3° ano e treinava as equipes de infantil e juvenil masculino, participava de campeonatos, e no Ensino Fundamental, com a 5° série meninos e meninas juntos” (Acadêmica 4).

    “No Ensino Médio eu trabalhei ginástica apenas com o sexo feminino e no Fundamental eram turmas mistas” (Acadêmica 8).

    A partir das falas dos acadêmicos, percebemos que na sua maioria as aulas de Educação Física no Ensino Médio, são separadas por gênero, enquanto que no Ensino Fundamental as aulas são mistas. Fenômeno este que pode ser explicado, devido ao fato da modalidade de clubes nas aulas de Educação Física no Ensino Médio se fazerem muito presentes nas grades curriculares escolares e tal modalidade não permite clubes mistos.

    De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), as aulas mistas de Educação Física podem dar oportunidade para que meninos e meninas convivam, observem-se, descubram-se e possam aprender a ser tolerantes, a não discriminar e compreender as diferenças. São, portanto, uma tentativa de colaborar para a construção de uma pedagogia e de uma escola que não produza e/ou reproduza às desigualdades baseados no critério sexual (BRASIL, 2000).

d.     Objetivo das aulas

    Conforme Piletti (1995), os objetivos são um dos componentes básicos do planejamento do ensino, e nesta perspectiva todos os acadêmicos estabeleceram objetivos para suas aulas, de acordo com a série. Vejamos os seguintes fragmentos das falas dos acadêmicos:

    “(...) no Ensino Médio o objetivo das aulas era trabalhar coordenação motora, ritmo e resistência, no Ensino Fundamental o objetivo era entender o jogo” (Acadêmico 1).

    “(...) no Ensino Médio só trabalhei futsal o objetivo da aula se limitava a técnica do esporte e eu tentava da uma melhorada nas questões de respeito entre os alunos, e no Ensino Fundamental eu tentava fazer interação entre os dois sexos, já que as gurias não queriam trabalhar com os guris” (Acadêmico 2).

    “(...) no Ensino Médio o objetivo das aulas era direcionado para os campeonatos, já no Fundamental eu tentava dar uma pincelada nos esportes, uma iniciação, mas que na verdade não acontecia porque eles queriam jogar bola” (Acadêmico 4).

    De acordo com as respostas dos acadêmicos notamos que estes vêem a Educação Física do Ensino Médio relacionada com o ensino dos esportes, com uma preocupação técnica, enquanto que no Ensino Fundamental os acadêmicos preocupam-se com a prática de jogos. Ou ainda, necessitam dar continuidade ao que já esta sendo trabalhado pelo próprio professor de Educação Física da turma, mantendo desta forma os objetivos já previstos por este.

    Assim, notamos que os objetivos são essenciais ao processo de ensino-aprendizagem, como relata Libâneo (1994), os objetivos são o ponto de partida, as premissas gerais do processo pedagógico.

e.     Escolha dos conteúdos

    A escolha dos conteúdos de ensinos que serão trabalhados, dentre os componentes curriculares constitui um elemento fundamental na educação. Neste sentido, Libâneo (1994) entende que os conteúdos são organizados em matérias de ensino e dinamizados pela articulação objetivos-conteúdos-métodos e formas de organização do ensino, nas condições reais em que ocorre o processo de ensino – meio social e escolar, alunos, família, etc.

    No Estágio Curricular Supervisionado, os acadêmicos desenvolvem os conteúdos de acordo com o que já vem sendo trabalhado pelos professores de Educação Física da escola. Portanto, a escolha dos conteúdos não é realizada pelos acadêmicos, estes dão continuidade ao que está sendo trabalhado. Algumas falas dos acadêmicos caracterizam os conteúdos por estes trabalhados:

    “No Ensino Médio era ginástica localizada, no Fundamental como a professora só desenvolvia atividades recreativas, eu achei melhor, com base no que eu já havia estudado levar um pouco de cada esporte no sentido lúdico, os fundamentos mas com brincadeiras” (Acadêmico7).

    “No Ensino Médio era ginástica e no Fundamental eu trabalhei atletismo,e na sala de aula expressão corporal e jogos cooperativos, alguns fundamentos do futsal, e alguns jogos pré-desportivos dos quatro esportes” (Acadêmico 9).

    “No Ensino Médio com clube de futsal e no Ensino Fundamental eu segui o que a professor vinha trabalhando, eu trabalhei vôlei e handebol” (Acadêmico 3).

    “No Ensino Fundamental era magistério e a professora pediu prá nós ensinar atividades que elas iriam desenvolver com os alunos dos anos iniciais quando se formassem, e no Ensino Médio a professora disse que era prá mim trabalhar vôlei” (Acadêmico 5).

    “No Ensino Fundamental futebol e volêi e no Ensino Médio vôlei” (Acadêmico 11).

    De acordo com as falas dos acadêmicos, fica evidente a preferência dos professores pelos principais esportes (vôlei, futsal e handebol), e a presença da Ginástica como conteúdo para o Ensino Médio. Entretanto, existem vários outros conteúdos que contemplam as aulas de Educação Física, como propõe o Coletivo de Autores (1992) para que a Educação Física seja configurada com temas ou formas de atividades particularmente corporais, tais como: jogo, esporte, ginástica, dança ou outras. Assim, o estudo desse conhecimento objetiva apreender a expressão corporal como linguagem.

f.     Metodologia de ensino

    A escolha adequada dos métodos é uma etapa importante do planejamento de ensino, para Piletti (1995) os métodos e técnicas são veículos usados pelo professor para criar situações e abordar conteúdos que permitam ao aluno viver as experiências necessárias para alcançar os objetivos. Assim, podemos observar as falas de alguns acadêmicos:

    “(...) eu defendo a crítico-superadora, eu chegava no meio do jogo se elas erravam eu parava e perguntava o que está errado, o que têm que mudar” (Acadêmica 1).

    “Eu me acho mais próximo do ensino tradicional eu utilizo o desmembramento do jogo, fazer aulas com regras diferentes, mas não aquela aula tradicional com repetição’’ (Acadêmico 4).

    “(...) as minhas aulas não são bem tradicionais, mas em alguns momentos sim, mas eu tento utilizar as experiências que os alunos já têm, propor desafios (...)” (Acadêmico 5).

    “Eu uso de todas as metodologias, eu questiono os meus alunos para eles construírem um próximo passo, às vezes eu me imponho. É uma mistura” (Acadêmico 6).

    O ensino tradicional ainda é muito forte no âmbito educacional, e se faz presente na maioria das falas dos acadêmicos, assim percebeu-se que estes não conseguem definir um único método de ensino para suas aulas, porém tomam como base o método tradicional de ensino e a partir deste buscam construir sua prática pedagógica.

A prática pedagógica e os dois níveis do Estágio Curricular Supervisionado

    Como já foi relatado anteriormente o Estágio Curricular Supervisionado ocorre em três níveis diferentes, iniciando pelo Ensino Médio (I), Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental (II) e Séries/Anos Iniciais do Ensino Fundamental (III).

    De acordo com Pimenta; Lima (2004), o Estágio Curricular Supervisionado deve possibilitar aos acadêmicos um espaço de convergência das experiências pedagógicas vivenciadas no decorrer do curso com a prática docente.

    Nesta perspectiva, a realização dos Estágios em toda a Educação Básica irá promover diferentes experiências aos futuros educadores. Entretanto, estabelecer relações entre os estágios e a prática pedagógica dos acadêmicos é um desafio, além de demonstrar a forma como estes percebem sua prática nos diferentes níveis de ensino.

    Assim, algumas falas dos acadêmicos demonstram o significado desta distribuição dos estágios na sua prática pedagógica, tais como:

    “Não teve contribuição do Ensino Médio para o Fundamental, porque tudo depende da escola, tu tem que te adaptar a realidade da escola” (Acadêmico 1).

    “Os estágios são separados, é um outro mundo, cada um é um” (Acadêmico 2).

    As falas destes acadêmicos remetem para o fato dos mesmos não conseguirem perceber as relações existentes entre os estágios, visto que, tentam estabelecer apenas relações entre conteúdos, métodos, entretanto é necessário que consigam promover relações entre a complexidade da prática. Nesta perspectiva, os acadêmicos devem levar em conta a construção dos saberes docentes e as realidades específicas de seu trabalho cotidiano, estabelecendo articulações entre estes.

    “O público do estágio foi bem diferente, por isso eu acho que não teve muita ligação entre um estágio e outro, então ficou distante um do outro. Mas sempre se aprende de um com o outro como o controle de turma” (Acadêmico12).

    “As contribuições do Ensino Médio para o Fundamental teve para controlar a turma” (Acadêmico 4).

    “A partir do Ensino Médio eu me senti mais segura para trabalhar com o Fundamental’’ (Acadêmico 8).

    A partir destas falas, podemos estabelecer relações com os saberes experenciais trazidos por Tardif (2002), já que os acadêmicos apontam para o fato de as experiências anteriores lhes darem maior segurança para suas ações futuras. De acordo com o autor, os saberes experenciais são saberes práticos, ou seja, são saberes atualizados, adquiridos e necessários no âmbito da prática da profissão docente, e que não provêm das instituições de formação nem dos currículos.

    “Eu acho que tem relação entre os estágios porque os erros que eu cometi no Ensino Médio eu tentei não cometer no Fundamental, e muita coisa que eu fiz no Fundamental eu vi que poderia ter feito no Médio” (Acadêmico 6).

    A fala deste acadêmico nos remete ao professor reflexivo. De acordo com Pérez Gómez (1992), o profissional competente atua refletindo na ação, criando uma nova realidade, experimentando, corrigindo e inventando através do diálogo que estabelece com essa realidade.

    Contudo, podemos perceber a partir das falas dos acadêmicos, que para a maioria a principal proximidade entre os estágios, esta relacionada ao controle de turma, pois, estes relatam que a partir das experiências anteriores sentiram-se mais seguros e com maior domínio das turmas.

    Segundo Siedentop (1983), a competência pedagógica é o domínio da atividade do professor no processo pedagógico, entendido como uma relação de reciprocidade entre alunos e professor, sob a direção deste.

    Entretanto, para um acadêmico a principal relação entre os estágios não ocorreu na sua pratica pedagógica, mas sim no fato de poder ter tido mais uma oportunidade para ministrar aulas, como podemos perceber na fala do acadêmico 3: “No Ensino Médio com clube de futsal, o estágio um foi traumatizante, porque eu não consegui dá aula em todo o estágio, nunca, eu só observei as aulas, imagina se fosse só um semestre e tivesse sido no Ensino Médio, não teria acontecido. Mas aí eu tive a oportunidade de fazer outro no Ensino Fundamental”.

    Desta forma, realizar o Estágio Curricular Supervisionado em todos os níveis da Educação Básica, certamente é importante para os futuros educadores, porém deve se ter claro o que almejamos com esta experiência acadêmica.

A seqüência proposta para o Estágio Curricular Supervisionado

    O Estágio Curricular Supervisionado tem como seqüência o Ensino Médio (I), Séries/Anos Finais do Ensino Fundamental (II) e Séries/Anos Iniciais do Ensino Fundamental (III), respectivamente, estando de acordo com a grade curricular da nova Licenciatura em Educação Física do CEFD da UFSM.

    Para a maioria dos acadêmicos, de acordo com suas falas esta seqüência não é a mais ideal, como podemos observar:

    ‘’(...) pela nossa grade como ela ta montada é complicado começar pelo Ensino Médio, porque eu só tive futsal agora e quando eu dei aula ainda não tinha tido essa matéria. Prá tá de acordo com a grade curricular tinha que começar pelas séries iniciais” (Acadêmico 3).

    Neste sentido, Zabalza (2004) alerta que é importante desfrutar cada disciplina aproveitando suas potencialidades para decodificar e entender melhor o que nos rodeia.

    “(...) o estágio deveria iniciar pelas Séries Iniciais, Séries Finais e Ensino Médio, porque desde cedo no curso à gente tem experiência com Séries Iniciais” (Acadêmico 5).

    “(...) eu acho que deveria ser ao contrário porque no início do curso a gente tá mais preparado para trabalhar com Séries Iniciais, e no Médio a gente tava tendo as disciplinas de esporte junto com o estágio, tinha conteúdo que a gente ainda não sabia” (Acadêmico 7).

    A partir das falas dos acadêmicos pode-se perceber, que iniciar o Estágio Curricular Supervisionado pelo Ensino Médio para muitos foi complicado, tendo em vista que muitos conteúdos trabalhados nos Ensino Médio, ainda não haviam sido trabalhados na graduação. Enquanto que, as disciplinas lúdicas já foram trabalhadas, além de outras disciplinas que dão suporte teórico para os acadêmicos ministrarem aulas para as Séries/Anos Iniciais do Ensino Fundamental.

    Contudo, alguns acadêmicos acreditam que esta seqüência é a mais correta, como percebemos na fala do Acadêmico 6: “(...) eu concordo com esta seqüência, apesar de ainda

não ter tido alguns conteúdos na graduação, porque assim obriga o aluno a ir atrás, e faz a gente aprender mais sobre a matéria”.

    De acordo com a ATA nº 22 a comissão em reunião no dia 09/01/2004 justificou a seqüência do Estágio Curricular Supervisionado da seguinte forma: “o Infantil foi colocado como última fase do estágio porque é a fase do ser humano que mais exige conhecimento do profissional”. Através da ATA nº 25 da reunião ocorrida em 19/01/2004 novamente a seqüência do Estágio Curricular Supervisionado foi questionada, e neste momento um dos professores integrante da Comissão respondeu ao questionamento da seguinte forma: “não é a ordem que vai mudar a Educação Física no ensino médio, mas que deva haver uma preocupação pedagógica em formar professores mais qualificados para atuar em escola”.

    A partir destas justificativas, evidencia-se mais uma vez a desintegração do Estágio Curricular Supervisionado com o restante da grade curricular deste curso de graduação. Dando continuidade ao que já acontecia na versão do currículo de 1990, como relatam Ivo; Krug (2007) em um estudo, no qual apontam o distanciamento e a falta de diálogo profissional entre os docentes das demais disciplinas do currículo com a disciplina de Estágio Curricular Supervisionado.

    Nesta mesma perspectiva, de acordo com Piconez (apud CONCEIÇÃO; BERNARDI; KRUG, 2007) não pode o Estágio Curricular Supervisionado e a disciplina de Didática serem as únicas responsáveis pela formação de professores, devendo existir a articulação destas com os demais componentes do curso.

Reflexões e considerações a cerca do Estágio Curricular Supervisionado

    Como pode ser observado anteriormente, as respostas dos acadêmicos promovem uma série de reflexões a cerca do Estágio Curricular Supervisionado, destacando as diferentes facetas deste, além de promoverem novas indagações e perspectivas para a formação inicial de professores de Educação Física.

    Chamamos a atenção para as contribuições do Estágio Curricular Supervisionado na formação dos acadêmicos, visto que, independente das problemáticas que cercam o mesmo, este momento é de fundamental importância durante a graduação, pois certamente as experiências aqui vivenciadas serão complementares na futura prática pedagógica dos mesmos. Apesar de os acadêmicos ainda não conseguirem estabelecer muitas relações entre os dois níveis de estágio, a partir dos seus relatos nas entrevistas percebemos um amadurecimento na prática pedagógica dos mesmos.

    Julgamos que as reflexões que apresentamos neste estudo ressaltam a importância para os acadêmicos em estarem inseridos no contexto educacional percebendo a complexidade da prática pedagógica e os elementos que a permeiam. Contudo, é necessário que se façam algumas ressalvas a cerca da disciplina do Estágio Curricular Supervisionado, pois, para que se promovam novas mudanças na formação inicial de professores de Educação Física devemos refletir constantemente sobre as disciplinas que compõem a grade curricular deste curso.

    Desta forma, resgato Piconez (apud CONCEIÇÃO; BERNARDI; KRUG, 2007) na qual estabelecem alguns elementos para promoverem esta mudança na atual conjuntura da formação inicial de professores, tais como: o compromisso das demais disciplinas com a formação de professores, não recaindo tal responsabilidade somente nas disciplinas de Estágio Curricular Supervisionado e a Didática; para que o Estágio Curricular Supervisionado tenha significado para o aluno, o projeto pedagógico do curso, em seu plano de ensino, precisa propor o envolvimento com os demais elementos envolvidos na instituição escolar; e o Estágio Curricular Supervisionado precisa envolver na sua totalidade as ações do currículo do curso.

    Acredito ainda, que deve haver um maior diálogo entre as escolas que recebem os estagiários com estes, de maneira que exista uma maior articulação dos estagiários com toda comunidade escolar e o cotidiano da mesma, não estando estes apenas presentes na escola como professores estagiários da disciplina de Educação Física, mas como membros participantes do contexto escolar e, portanto conhecedores deste.

    Já ao que se refere ao professor de Educação Física da escola, é necessário que este não veja o Estágio Curricular Supervisionado como uma possibilidade de não dar aula, ou seja, remeter esta responsabilidade ao acadêmico estagiário de dar aula pelo professor.

    Por fim, penso ser possível afirmar que as mudanças ocorridas no Estágio Curricular Supervisionado visam uma melhora na formação inicial de professores, entretanto ainda muitas reflexões devem ser realizadas sobre como tal momento esta acontecendo. Assim, este estudo em momento algum buscou esgotar tal temática, nem mesmo fechar as questões ou propor respostas certas e definitivas, mas estimular novas perguntas, novas práticas, novas leituras, novas relações e novas possibilidades.

    Ciente das dificuldades que se fazem presentes no Estágio Curricular Supervisionado e na formação inicial de professores, sugerimos que se façam novas discussões a respeito deste, levando em consideração as angústias dos acadêmicos e as reflexões que trouxemos neste estudo.

Referências

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